07 maio 2012

Dilma de Novo


Sempre fui um menino curioso e no curso de jornalismo um aluno aplicado. Na adolescência descobri que os jornais eram a porta para entender o mundo (bons tempos aqueles). Hoje, com o pensamento único dos editorialistas aos colaboradores nem pensar...

Em economia, nunca passei do trivial. Administro bem o orçamento doméstico e considero ter tino para negócios. Não sou consumista, nem gosto de ostentar. Na faculdade ajudava os colegas a entender índices de correção, tabelas, investimentos, etc... Mas, repito, nada além do trivial.

Depois de formado, frequentei a Escola de Governo, o que abriu caminho para conhecer a história do pensamento econômico e acompanhar de perto o principal debate dos anos 80 e 90: o controle da inflação. Hoje, como todos nós bem sabemos, a questão central das economias emergentes são os juros e o câmbio.

E é sobre juros que quero falar mais uma vez. Não como entendido, mas como curioso. A presidente Dilma decidiu enfrentar uma batalha dura pela redução das taxas cobradas pelos bancos, sobretudo o spread (que mede o risco de calote do devedor). Discussão que deixa muita gente confusa.

Por isso, vou tentar simplificar a questão, quem sabe não consigo ajudar os leigos a entenderem um pouquinho o que está acontecendo e se falar alguma bobagem, pode ser até que alguém mais esperto me ajude, corrigindo-me.

Um país funciona basicamente com produção, emprego, renda, consumo e poupança. Se o emprego vai bem, a renda aumenta, o consumo aumenta e produção e a poupança também. Só que para adquirir determinados bens de maior valor, como carros e imóveis por exemplo, é preciso de empréstimos. Emprestamos até um limite. Quando este limite é alcançado, só contraímos nova dívida depois de pagar o que devemos.

Com o Governo é mais ou menos assim também. Arrecada impostos, paga salários, benefícios, aposentadorias e pensões e cumpre um orçamento, que no caso brasileiro é superavitário. Para obras, investimentos e pagamento de juros de empréstimos contraídos irresponsavelmente no passado são necessários novos empréstimos.

E como o governo toma emprestado? De poupadores e investidores, nacionais ou estrangeiros.

O investidor compra um título da dívida pública que, ao final do prazo, tem que pagar a ele investidor a inflação mais um prêmio. A caderneta de poupança por exemplo paga 6,17% ao ano de juros, livre de IR e taxas bancárias.

Se o governo não tiver um papel que prometa pagar mais do que a poupança, não haverá investidores, certo? Hoje, a taxa selic, que serve de base para remunerar esses papéis está em 9% ao ano, sem descontar impostos e taxa de administração.

Portanto, para atrair investidores, o governo precisaria continuar pagando juros mais altos. E ao pagar mais, atrairia principalmente os que procuram prazos mais curtos. Um dinheiro que tem pressa de entrar, realizar e sair.

Mas quando esse dinheiro entra em boa quantidade no país, ele causa uma pressão sobre o câmbio e valoriza a nossa moeda. Com a nossa moeda mais forte, os preços dos produtos brasileiros ficam mais caros em dólar e, portanto, menos competitivos lá fora. Vendendo menos, o país tem menos divisas.

Além disso, há a competição com os bens que vêm de fora mais baratos. Logo, produzindo menos, a atividade econômica se retrai, empregos são extintos, a renda diminui, as dívidas dos trabalhadores aumentam... Nossa economia se desorganiza.

O que é preciso, então? Evitar que os rentistas fujam da recessão de seus países e fiquem aqui especulando sem produzir e, ao mesmo tempo, incentivar as pessoas a comprarem, o que compensaria a diminuição do consumo lá fora. E como isso seria possível?

Reduzindo-se os juros ainda mais, abaixo do limite do que paga hoje a caderneta de poupança. Grosso modo é rigorosamente isso que o Governo quer fazer, ao propor novo cálculo para rendimento das cadernetas de poupança, ou seja, forçar uma queda ainda maior nos juros.

Com o custo do dinheiro mais baixo, mais fácil fica contrair e pagar por novos empréstimos, o risco diminui para o credor e o spread cai. Só que os bancos privados apostaram que Dilma não mexeria no rendimento da poupança, por acharem a medida impopular, e decretaram que a taxa selic havia chegado ao piso. Perderam mais uma vez.

O povo já entendeu "empiricamente", que mexer com o rendimento da poupança é importante para o país dar mais um salto. E como as pessoas confiam em Dilma (basta ver os níveis de aprovação que ela tem) este é mais um debate superado a favor do Governo. Por isso, pode estar nascendo aí um novo momento econômico para nós.

9 doladodecá:

arlete soffiatti disse...

Agorintindi. Obrigada, Marco.

Sueli-Porto Alege disse...

Eu tb,mas explica tb o spread,tim tim por tim tim...
Abraço grande

Anônimo disse...

Marco, que tal então divulgar esses 2 videos do prof. Stephen Kanitz sobre a queda dos juros:

http://www.youtube.com/watch?v=V6zg9YI6ELI

http://www.youtube.com/watch?v=Jp1N8P0Ef9w

abraço
Marcos

Anônimo disse...

Um ponto importante que deve ser lembrado é que não são somente os bancos que esfolam os brasileiros, a indústria "nacional" de bens de consumo também, eu gostaria de entender porque ninguém nunca fala da margem de lucro gigantesca das montadoras no mercado nacional.

Gostaria de sugerir este debate.

Os brasileiros pagam mais caro em tudo, não só em empréstimos, ainda tem muita coisa a se fazer e espero que a reduçaõ do spread seja só o começo.

Anônimo disse...

Oi MAM,
Você vai me desculpar mas pra solução do problema bancário ainda prefiro a do Anatole France na "Ilha dos Pinguins"...
Piadas a parte, o tal do setor primário (eufemismo que aprendi no colégio pra agricultura) foi, é e vai continuar sendo pra todo sempre o pilar de toda sociedade humana organizada. Sem comida na mesa te garanto que ninguém vai pensar em juro bancário ou qualquer coisa do tipo "civilização".

Um grande abraço anônimo.

Emília disse...

Tinha entendido que era necessário "mexer" na poupança e, achei certo, mas você deu uma explicação mais ampla, valeu.

Jbmartins-Contra o Golpe disse...

Ja me sinto um economista, acho que ja posso ser ministro da agricultura ou Dep Federal, igual ao Delfin.

Anônimo disse...

Agora sim, valeu! :D

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Helder

Anônimo disse...

Você defendeu essa atitude do governo. Vamos dar um tempo para ver se vai dar certo. Mas, se der errado quero ver você voltar a esse assunto e explicar os motivos que levaram ao fracaso dessas medidas.

 
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