"Os bancos não têm do que reclamar. Nunca ganharam tanto dinheiro como na era Lula." A frase foi proferida mais de uma vez na redação por um baluarte do jornalismo, Tonico Ferreira. Tonico, ao lado da iniciante Elaine Bast, era repórter de economia do Jornal Nacional. E, ambos, meus parceiros preferenciais, já que eu ocupava, ainda que não formalmente, passado algum tempo, a vaga de editor de economia em São Paulo.
Estávamos em 2006, véspera das eleições. Admirava-me ver como Tonico tinha migrado de polo ideológico sem, contudo, abrir mão do bom caráter. Era muito atencioso comigo, generoso e solidário. Foi quem me socorreu quando tive a primeira das muitas crises que se sucederiam derivadas de uma doença enigmática chamada Síndrome de Menière.
Veterano, Tonico sentia-se entediado com a rotina e a cobertura monocórdica do mais importante telejornal do país. Vejam só, ele começou a trabalhar no ano em que eu nasci, 1966! Formado em Arquitetura e Urbanismo pela USP, este santista desde cedo preferiu "sujar as mãos" na diagramação. Com passagens pela Folha, Veja e Realidade foi um dos fundadores do Jornal Opinião, em 1972.
Foi de lá que, depois de três anos, voltou a São Paulo e "organizou o Movimento". O Movimento foi talvez o mais importante instrumento impresso de resistência ao regime militar. Mas nos anos 80 Tonico foi atraído pela TV, de onde não saiu mais. De Elis Regina, passando pelo martírio de Tancredo à queda de Hugo Chavez, Tonico fez de tudo um pouco.
Enquanto isso, o tempo foi passando e, certamente, seu segundo casamento, com uma herdeira do Banco Itaú (uma das 30 maiores fortunas do país) foi distanciando-o de seus ideais da juventude. Hoje, não vive sem um bom roteiro turístico, um cardápio gourmet, um vinho de casta nobre e um charuto cubano, este sim o maior símbolo de revolucionário que ainda traz consigo, ao lado de uma barba bem aparada e quase branca.
Não tive como evitar a lembrança de Tonico ao ler as reivindicações do banqueiros para reduzir os juros dos empréstimos, como quer o Governo Dilma: medidas de incentivo à competitividade, aumento de garantias para reduzir riscos, redução do compulsório, aumento da transparência na gestão do BC, queda nos impostos, redução de custos administrativos e a reforma fiscal.
Realmente, Tonico, assim os bancos não têm mesmo do que reclamar...




2 doladodecá:
Marco Aurélio, é com admiração que vejo a maneira elegante com que trata questões relacionadas a seus colegas de profissão. No entanto, o fundamental e indispensável em seu texto é exatamente o Tonico. Existem muitos Tonicos que provaram as delicias do paraíso e não voltaram mais. Transcenderam para outro mundo. O abandono dos ideais por uma vida fácil é uma trajetória de muitos dos que viveram aquela época. Ele, pelo menos não abriu mão do "bom caráter", coisa que outros jogaram na lata do lixo.
Muitos que sentem o gostinho da champanhe e do caviar dizem: Ás favas com o caráter! Essas figuras eram membros do que cunharam na época de "direita festiva". Como diriam alguns, anos depois: Eu era comunista porque não era capitalista. Ideal? Que ideal? Povo? Que povo? E tem até as jornalistas que se sentem mal junta à massa fedida! E proclamam: Viva a massa cheirosa!
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