31 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (10)


O plano era ousado. A princesa embarcaria no iate à noite, sem que ele notasse. Ela iria se aproximar da embarcação de bote. Ingredientes que só aumentavam a tensão e, consequentemente, o prazer e excitação do encontro. Primeiro, ela precisava se certificar de que, de fato, ele estava a bordo sozinho. Sim, estava. E, depois, se não seria expulsa por ele. Neste caso, ela contaria apenas com sua beleza incomum e seus artifícios de sedução, o que convenhamos não era pouca coisa.

Disposta a correr riscos, pôs logo plano em prática. Era uma noite enluarada e mansa. O barco estava ancorado a meia milha de uma pequena ilha grega. Dependendo de como soprava o vento era possível ouvir a música vinda de um luau na praia. Era uma música eletrônica, mas com arranjos instrumentais  típicos do oriente, o que tornava a atmosfera ainda mais sedutora.

Por uma escada de corda ela embarcou. No convés reinava o silêncio. Ela usava um vestido de seda esvoaçante e, por baixo, uma bela roupa de banho da coleção desenhada por ela própria. Abriu cuidadosamente a porta que dava acesso à cabine e desceu lentamente. No caminho deixou que a seda percorresse seu corpo e se esparramasse pelo chão.

Encontrou nosso piloto dormindo um sono sereno. Tinha a barba por fazer, revistas espalhadas pelo chão e uma garrafa de água pela metade. Também observou sobre a escrivaninha algumas anotações. Foi tomada de curiosidade para ler o que ele trazia de seu mundo interior para as folhas de papel. Julgou no entanto ser invasivo demais mexer naqueles apontamentos.

Ele ressonou, virou de lado e continuou dormindo. Ela preferiu deixá-lo em paz. Foi ao balcão da cozinha, serviu-se de champagne e subiu de volta ao convés para apreciar o luar. A noite já era alta quando, de repente: - Você por aqui????

Para frustração de todos, inclusive do autor, a série terminou. Ninguém sabe o que aconteceu depois disso. E é melhor que fiquemos assim. Afinal, qualquer semelhança com fatos reais terá sido mera coincidência.
(não continua)

30 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (9)


Vingar nas pistas a escolha da princesa não foi sua única desforra. A crise do "nosso grande campeão" vinha acompanhada de desavenças matrimoniais. Sua esposa andava insatisfeita com as atitudes do agora ex-campeão e estava disposta a tudo para chamar sua atenção de volta.

Como o destino conspira tanto com anjos, quanto com demônios, numa de suas viagens ao Brasil na primeira classe em um avião de carreira eis que surge à sua frente nosso destemido vingador que, disposto a vencer para sempre a timidez, passou a noite tomando champagne na agradável companhia da mulher do ex-rival.

A certa altura do voo todos comissários e passageiros dormiam. Menos os dois. Sob os cobertores, a 900 quilômetros por hora com um céu estrelado e brilhante os dois se possuíram ardentemente. Não se sabe se houve ou não testemunhas. O que se sabe é que nenhum dos dois estava muito preocupado com isso.

Ninguém sabe como a notícia da traição chegou aos ouvidos do "nosso grande campeão", que teria tido um acesso de riso (ou teria sido de cólera?). Descrente do feito e certo de que seu rival não era lá tão afeito a conjunções carnais com pessoas do sexo oposto, na primeira oportunidade que teve foi aos jornais tecer comentários sobre as inclinações do novo campeão.

Mas o novo campeão não estava disposto a parar. Diante da fama e da fortuna, nosso ás do volante decidiu ser mais ostensivo em combate. Claro que não faltavam oportunidades, nem pretendentes. Foi quando o repórter-empresário veio ao seu encontro com a informação de que uma famosa apresentadora da TV estava disposta a conhecê-lo.

O desafio, portanto, foi apenas o de criar a circunstância. Não deu outra. Em pouco tempo a notícia do romance corria o mundo, nas páginas dos jornais e das revistas de celebridades. O que, segundo contam, teria deixado a princesa absolutamente inconformada com o desfecho daquele encontro infrutífero.

Mas com a ajuda de seus informantes, um dia ela descobriu que sua presa estava sozinha a bordo de um iate no Mediterrâneo. Não teve dúvidas. Alugou um helicóptero e foi ao encontro de seu desejado piloto.
(continua)

29 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (8)


O jornalista tomado de curiosidade decidiu ir ao hotel. Lá descobriu que o piloto saiu num carro de luxo com motorista, alugado lá mesmo. O concierge, brasileiro, confirmou o destino: foi para o palácio. O repórter tomou um táxi e seguiu em direção ao local. Lá se juntou aos paparazzi para colher impressões e fofocas.

Uma hora depois, a princesa deixou o prédio às pressas. Em seguida, nosso piloto deixou os salões da realeza, seguido pelo piloto francês. Os fotógrafos se dispersaram, conforme o interesse e a pauta de cada um. O jornalista decidiu voltar para o hotel certo de que algo estaria por acontecer. Foi difícil dormir sem saber exatamente o quê.

Ao que parece, o salão ficou pequeno para eles. Entediada com a timidez do nosso corredor, para provocá-lo, a princesa teria flertado com o rival francês, o que teria deixado nosso piloto enfurecido. Enquanto ele se despedia da família real e do pessoal da equipe, a princesa teria decido sair.

Foi quando nosso piloto apertou o passo decidido a seguí-la. Coincidência ou não, o francês veio logo atrás. Deu-se que os dois primeiros pararam num local distante e começaram a conversar amistosamente. Só que, antes que a conversa chegasse a um denominador comum, o francês apareceu. 

Diante da saia justa e já sob efeito da química adotada naquela noite, a princesa meio contrariada decidiu partir na companhia do francês. Há quem diga, não sem algum exagero, que a noite dos dois só terminou ao nascer do dia. E ainda havia um detalhe intrigante: como correr uma corrida inteira pela frente?

Ao chefe da equipe o francês teria contado o segredo e perguntado se não seria melhor administrar um "aditivo", para conseguir correr aquela prova. Informação que antidoping nenhum jamais confirmou. Se foi uma droga psicoativa, como seria recomendável, certamente fez seu cérebro trabalhar mais rápido e aumentou a disposição sem, no entanto, permitir a mesma performance tão necessária em provas que sabe-se são bem desgastantes.

Na pista, nosso piloto parecia ter sangue nos olhos. Era previsto que ambos se encontrassem logo na primeira curva. Mas não houve primeira curva. Assim que a largada foi dada nosso piloto sumiu e desfilou seu carro praticamente sozinho durante as setenta e duas voltas. Bateu duas vezes o recorde da pista. Uma volta mais rápida do que a outra. Abriu quase um minuto de frente sobre o segundo colocado e, na platéia, de camarote e óculos escuros, sua admiradora bastante arrependida, suponho. 
(continua)

28 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (7)


- Você vai achar que eu estou de brincadeira. Sabe com quem estive reservadamente esta tarde?
- Não (com ar pouco interessado).
- Com a princesa. 
- E? 
- E ela quer que você vá ao jantar esta noite no palácio. 
- Por quê? 
- Porque suponho que ela esteja interessada em você? 
- Ela te disse isso? 
- Não. 
- Suposição falsa, meu caro. 
- Por quê? 
- Porque nunca estive com ela. Só nos conhecemos da TV, das revistas e dos jornais. É muito pouco... 
- Experimente ir, quem sabe vai me dar razão. E além do mais, o que tem a perder?

Foi difícil se concentrar no treino. Estaria mesmo a princesa interessada nele? O jantar poderia ser uma arapuca? Será que a comida viria com laxante? E se fosse verdade, como correr o grande prêmio no dia seguinte? Afinal, ninguém ousaria a dizer não para ela, uma das celebridades mais desejadas do jet set.

O segundo lugar no grid pareceu ser o bastante. No hotel um banho demorado. Pensativo, inseguro e solitário decidiu: iria ao jantar. Na pior das hipóteses conversaria um pouco com o chefe da equipe e voltaria para a cama. 
(continua)

27 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (6)


A princesa tinha dúvidas se o convidado "de honra" apareceria. Para se certificar de que ele iria pediu a uma amiga, modelo, que procurasse o jornalista-empresário em seu nome. Queria falar-lhe a sós. Não é tarefa fácil encontrar-se reservadamente com uma princesa, ainda mais com o grau de exposição que ela tinha na mídia.

Ele concordou de ir ao palácio para uma xícara de chá. Para todos os efeitos, seria uma entrevista numa publicação brasileira. Ela foi direto ao assunto, sem rodeios. 

- Que garantia me dá de que pode atrair o esquisitão para o jantar esta noite? 
- Nenhuma, alteza. Como bem disse, ele é esquisitão mesmo he he he. Mas posso tentar... 
- O que quer que eu lhe dê em troca? 
- Nada, alteza, apenas sua consideração.
- E que garantia tenho de que guardaria segredo? Oras, guardar segredos é o maior patrimônio da minha profissão. Por que renunciaria à sua confiança? 
- Porque todos o fazem o tempo todo... 
- Vamos ver o que posso fazer. Não garanto nada...
(continua)

26 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (5)


Quem empresariou o primeiro contrato do piloto com uma equipe de ponta foi, pasmem, o colega jornalista. O corredor achava aquilo meio estranho, mas era o combinado. O contrato entre os dois foi celebrado com cláusula de sigilo. Só seria conhecido portanto se uma das partes revelasse seu teor. Nos anos em que correu, o piloto cumpriu rigorosamente o combinado.

Estar numa equipe de ponta não significava necessariamente ter o melhor carro. Equipes grandes têm dois pilotos. E um carro sempre é melhor que o outro. Ou porque é mais equilibrado, ou porque tem a melhor equipe de engenheiros e mecânicos, ou porque o dono da equipe prefere um piloto ao outro, simples assim.

Mas para o nosso corredor, nada disso parecia ser obstáculo. A afinação do motor e a rigidez da suspensão ele regulava sozinho e mais, ninguém sabia escolher pneus melhor do que ele, duros, médios ou macios. Ele não só os escolhia, como era ousado o bastante para combinar diferentes borrachas dos dois lados do carro, conforme o tipo de asfalto e a quantidade de curvas.

Outro segredo guardado a sete chaves eram os freios. Ele gostava de atrasar a frenagem ao máximo e, portanto, seus freios tinham que ser duros e firmes o bastante para encarar brecadas secas e precisas. Mas o que ninguém conseguia entender é como ele conseguia colar o carro ao chão em pista molhada. Talvez seu maior trunfo.

Já no primeiro campeonato nosso piloto disputou com o "nosso grande campeão" o título da temporada. Mas seu motor sucumbiu. Ainda assim dividiram o pódio, mas a vitória só viria mesmo no ano seguinte. Rei morto, rei posto. Como se não bastassem todas as vitórias e todas as glórias, "nosso grande campeão" de outrora seria covardemente esquecido, como mais uma vingança da mídia, que tinha agora seu novo queridinho. 
(continua)

25 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (4)


A princesa estava tomada de curiosidade. Quem seria aquele enigmático piloto avesso a festas e mulheres bonitas? Discreto, tímido até. Para uma mulher acostumada à vida "selvagem" parecia uma presa feita sob encomenda. Mas como se aproximar daquele homem? Quem seria capaz de atraí-lo? Será que ele iria mesmo para a elite no ano que vem?

Da França, onde passou a viver da moda, ela acompanhava à distância a carreira do piloto, a quem passou a admirar reservadamente. Havia outro piloto, um rival francês, que também chamava sua atenção. Achava-o atraente e muito gentil. Mas não era lá muito afeita a bom-mocismo. Preferia os outsiders. Mas, claro, não o desprezaria, caso tivesse oportunidade.

No ano seguinte a oportunidade surgiu. Nos salões do palácio, um jantar para os pilotos da prova que aconteceria dois dias depois. Conversar com o francês foi agradável. No entanto, os amigos a esperavam para uma festa, digamos assim, nada convencional e não seria conveniente chamá-lo para tal evento.

Pediu licença e foi se juntar à turma. Mais tarde, bêbada e drogada, se arrependeu de não ter arrastado o francês com ela. Terminou a noite ao lado de um sujeito musculoso e exibicionista com quem ficava de vez em quando, meio à contragosto. Era insuportável acordar ao lado dele. O sujeito não tomava banho nem depois de fazer sexo!

No domigo lá estava ela diante de dezenas de fotógrafos para assistir à corrida no circuito de rua e torcer para o piloto esquisitão. Foi quando viu nos boxes um jornalista que lhe pareceu familiar. Sim, ele frequentava o palácio. E parecia ter alguma intimidade com o piloto revelação. 
(continua)

24 julho 2011

O jornalista e a Princesa (3)


Usar a imprensa para promover um atleta ou, neste caso, um piloto, não é difícil. Basta mostrar suas qualidades e evitar realçar seus defeitos. Em se tratando do nosso personagem não parecia tarefa difícil. Afinal, estava escrito, ele nasceu para vencer. Tinha todas as credenciais de um campeão. Mas alguns aspectos poderiam atrapalhar os planos, entre eles, a rivalidade com que nosso "herói" encarava seus adversários. Em muitos casos era questão de vida ou morte.

A reportagem no programa de Domingo foi um sucesso. Um perfil do novo talento que tinha tudo para alcançar "nosso grande campeão" das pistas. Aliás, veio a contento. O campeão era avesso à mídia, não gostava de entrevistas e, principalmente, de jornalistas que faziam da profissão escada para grandes negócios.

Portanto, para a mídia, livrar-se dele era um desejo enorme. Além do que, promover a rivalidade entre os dois inflamava a torcida e, consequentemente, a audiência. E num país continental, onde a indústria automobilística nada de braçadas, não poderia haver oportunidade melhor. Afinal, que outro esporte é capaz de juntar alta tecnologia de motores, combustíveis, lubrificantes e outros derivados de petróleo de maneira tão atraente e rentável?

Assim como a elite aprecia golfe, esportes náuticos e equestres, a velocidade sobre rodas ainda exerce em todos, ricos e pobres, um fascínio difícil de explicar. E onde tem gente bem sucedida e endinheirada, tem platéia, oportunistas e belas garotas. É como num circo, com todos os personagens inerentes à essa realidade.

Como se uma profecia se realizasse, no ano seguinte, nosso piloto estava na Fórmula 1. Fruto do empenho pessoal do jornalista que foi apresentar seu compatriota e seu retrospecto a todos os chefes de equipe de segundo e terceiro escalões. Claro que sua primeira equipe não era das mais conceituadas, mas o carro tinha boa engenharia e bom motor. O resto teria que ser no braço.

Largar em décimo-quinto e chegar em segundo pode não parecer muita coisa. Mas digamos que nosso piloto só tinha um jogo de pneus e no fim da prova, com a pista estreita, ainda por cima começou a chover. No dia seguinte ninguém se lembrava mais do nome do vencedor. O jovem piloto era a revelação do campeonato, com uma performance espetacular. Claro que os sócios jornalistas adicionaram os adjetivos certos durante a transmissão do evento. 
(continua)

23 julho 2011

O Jornalista e a Princesa (2)


A princesa era sem dúvida o maior partido da Europa. Rica, belíssima e "da pá virada" adorava os embalos da noite, fossem em Paris, Londres ou Amsterdã. Não tinha medo de se divertir com quem quer que fosse. Vire-e-mexe estampava as capas dos tablóides sensacionalistas, para desespero da realeza e frisson dos editores.

Adorava voar, mas quando não estava no céu era nas estradas que se divertia com os amigos, quase sempre bêbada. Tinha uma conhecida tara por pilotos de Fórmula 1 e há quem diga que os colecionava como troféus na estante de casa. Claro que tudo nunca passou de exagero, sensacionalismo para vender jornal. Mas que ela gostava, isso ela gostava.

Todo ano sua família promovia uma festa de gala para celebrar uma das etapas do campeonato mundial. Ocasião em que, não raro, a bela princesa era assediada. Houve até uma vez em que teria sido disputada à tapa num dos salões anexos. Como eram festas fechadas, poucos jornalistas tinham acesso, a não ser aqueles poucos, entre os quais um em especial, com status de sócio, ou empresário informal (depois explico o porquê).

A vantagem de passar muitos anos cobrindo um único esporte ou evento esportivo é que, com o passar do tempo, o jornalista passa a ter acesso às rodas mais fechadas e pode chegar até à condição de conselheiro, ombro amigo, motorista de bêbado... É quando começam a aparecer os convites para assessorias e outros bicos.

Frequentar os salões da realeza também permite acesso aos serviçais, aos cômodos mais reservados e, por que não, às princesas. Não nos esqueçamos que, independentemente do título que ostentam, o que há são pessoas em carne e osso. Com fantasias, desejos e curiosidades sobre todos, inclusive os súditos e a plebe. Que o digam os guarda-costas.

A seriedade leva à confiança. A confiança leva ao acesso. O acesso leva à informação privilegiada. O sigilo leva ao sucesso. Seria um jornalista capaz de guardar um grande segredo? 
(continua)

22 julho 2011

O Jornalista e a Princesa


A infância de classe média não impediu que ele seguisse carreira no automobilismo. Sua habilidade era tamanha, que nunca faltaram oportunidades e patrocínio. Depois de correr de kart e superkart foi tentar a sorte na Europa. Empregou-se como mecânico e logo se destacou como piloto de testes e de pace car.

Sua obstinação era proporcional à sua timidez. Raramente era visto fora dos autódromos. Na primeira chance que teve, num carro de testes fez a segunda volta mais rápida do circuíto. O chefe da equipe sabia que, cedo ou tarde, poderia contar com ele. E foi mais cedo do que todos imaginavam.

Na temporada seguinte lá estava ele a bordo de seu carro numa pequena equipe. A falta de estrutura e recursos não impediu que o piloto obtivesse duas pole positions e um primeiro lugar no campeonato, o que chamou a atenção das equipes grandes. No ano seguinte, com carro de ponta ganhou quase todas as corridas e se transformou num fenômeno da imprensa automobilística européia.

Foi quando um jornalista da televisão o procurou. Queria fazer uma reportagem sobre novos talentos para passar no seu país. De início recusou. Achava que não saberia se comportar bem diante das câmeras. Poucos sabiam que quando ficava nervoso gaguejava. Não demorou muito para o repórter descobrir o porquê das negativas.

Pacientemente, o jornalista foi preparando o entrevistado. Explicou como funcionava a lógica do negócio, mostrou como é possível cortar e montar apenas trechos importantes de uma entrevista e mais, deu dicas de como respirar antes das frases que devem ser preferencialmente curtas, para facilitar o raciocínio e a edição.

Conforme o dois íam se conhecendo, mais íntimos ficavam. Até que, pouco antes da primeira reportagem ir ao ar, o repórter afirmou: - Eu posso levar você para a fórmula 1.
(continua)

20 julho 2011

A Cegueira Humana


Poucos são capazes de aprender com a experiência alheia, quiçá de aprender com a própria experiência, sobretudo quando a arrogância, a vaidade e a soberba cegam. O caso Murdoch, que ontem ganhou até ingrediente de pastelão, com torta de espuma na cara e tudo, jamais servirá de aprendizado, nem para nossos barões da mídia, nem para nossos poderosos de turno.

Humildade para aprender é talvez a maior virtude do ser humano. No político então, afeito à boa conversa e às bajulações, ainda mais. Aprender com os outros requer um exercício de extrema generosidade. É preciso se colocar no papel do outro, tentar imaginar sua dor e seus efeitos, sua experiência e sua superação. Por isso, acredito, raros são os que conseguem.

Foi preciso, por exemplo, que Lula, então presidente, enfrentasse as denúncias do mensalão e várias CPIs simultaneamente para entender que aquela crise custava o pescoço de seus principais companheiros. Naquela ocasião, ele foi vítima de calúnias, injúrias, difamações e tantas outras injustiças até se convencer de que o projeto político que ele avalizara não permitiria excessos por parte de seus comandados. Imóvel, foi quando abusou do álcool e se transformou em vítima de um repórter inescrupuloso.

Aconselhado por Marisa Letícia e seus mais íntimos parceiros, o então presidente "baixou a bola" e humildemente costurou um a um os acordos políticos que levaram seu governo ao topo. Hoje, Lula sabe direitinho quem são seus inimigos e onde eles estão entrincheirados. Sua experiência, como se vê, não serve à Dilma. Por isso, ele precisa sim percorrer o país como porta-voz dos anseios de nossa sociedade. Porque se ele parar, os barões levarão o governo Dilma à lona, por mais que ela acredite que pode neutralizá-los.

Só uma lei rigorosa sobre os direitos e deveres da mídia corporativa pode acabar com essa chaga que destrói reputações e aprofunda as desigualdades e injustiças em todo o mundo. Mas conselhos não adiantam, Dilma vai depender de sua própria experiência para entender esse "mistério".

19 julho 2011

Já vão tarde!




A exemplo do ciclo financeiro do final do século 19, uma aliança entre setor financeiro e mídia visando implantar a ideologia financista, caracterizada por livre fluxo de capitais, privatização (ou concessões públicas) e fortes ajustes fiscais — incidindo sobre a população — visando preservar a capacidade de endividamento do Estado. Aliás, em momentos de transição o mercado de capitais tem papel fundamental. Mas quando leva a rédea aos dentes, coloca o país inteiro a seu serviço.

Essa aliança ganha enorme expressão política com a entrada de forças políticas associadas. Conforme expliquei em meu livro Os Cabeças de Planilha, os políticos recebem ideias "salvadoras", financiamento para suas campanhas, poder financeiro e entregam, na contrapartida, as condições econômicas mais favoráveis ao capital financeiro. Ainda que à custa do sacrifício geral do país.

Com isso, financistas e mídia conseguem se tornar a força mais poderosa do país, sobrepondo-se muitas vezes ao próprio poder do Estado.

A pedra de toque do discurso de legitimação política é a famosa "lição de casa", brandida aqui por Pedro Malan e Antonio Palocci: sacrifiquem-se hoje e terão o céu amanhã. À medida que sua influência se consolida, o jogo especulativo ganha dinâmica própria, afastando-se rapidamente das normas prudenciais. Resultam daí as crises, globais pela própria natureza internacionalista e de vasos comunicantes do capital financeiro.

O próprio movimento de internacionalização do capital acaba produzindo novos atores globais que passam a ameaçar os grupos midiáticos tradicionais. É nesse contexto que surge a fórmula Murdoch — seguida em muitos países e, no caso do Brasil, particularmente pela revista Veja. Consiste em utilizar a informação como arma política, sem respeitar limites éticos nem jornalísticos. Passa-se a recorrer sistematicamente ao escândalo, à manipulação das informações, ao assassinato de reputações e, no auge do processo, à mentira reiterada.


A opinião como arma comercial

A atividade econômica jornalística não tem como concorrer com outros setores da economia. Uma empresa jornalística tradicional tem que investir como indústria, tem intensidade de pessoal como o setor de serviços e uma estrutura de distribuição típica de varejo.

Numa ponta, a velha mídia tem que enfrentar os grandes grupos de entretenimento ou de telecomunicações. Na outra, vê seu poder de formação de opinião sendo erodido pelo avanço das outras formas de mídia, do exército das teles à guerrilha dos blogs.

Seu trunfo único é o poder político remanescente, angariado na etapa que está se encerrando. É nesse contexto que, à medida que vê seu último trunfo erodindo, entra em uma espiral de virulência que, no caso do modelo Murdoch, a leva a ultrapassar os limites da legalidade. Conta com seu poder para intimidar o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. E manipula como álibi jurídico o direito à informação — da mesma maneira que alguns advogados que usam as prerrogativas da profissão para atuarem como extensões de seus clientes. Como se mentir e assassinar reputações fossem norma constitucional.

O caso Veja é sintomático. Houvesse um Judiciário mais ágil e menos temeroso, há muito os abusos da revista teriam sido obstados pela ação dos juízes.

Agora, nesse fim de ciclo há o questionamento do poder de influência do mercado (o impasse da União Europeia é típico) e, por tabela, do poder excessivo da mídia associada, que fugiu dos princípios tradicionais e enveredou pelo mundo do espetáculo do denuncismo ou mesmo pelas veredas do crime.

É o velho ciclo nos seus estertores mas, como um polvo agonizante, ainda com poder de fazer estragos com suas braçadas.

18 julho 2011

Como Desconstruir um Craque



Dona dos direitos de transmissão de campeonatos organizados pela Fifa, Conmebol e Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a TV Globo tem o hábito (histórico, ressalte-se) de proteger seus parceiros, mesmo que estes estejam, como se diz popularmente, “enfiando os pés pelas mãos”, ou, em linguagem mais adocicada, “infringindo normais legais e morais”.

Quando se trata de divulgar as irregularidades cometidas pela CBF e pelo seu presidente Ricardo Teixeira, a mídia brasileira adota cautela extrema. Há exceções, como Juca Kfouri, alguns profissionais do canal fechado ESPN e dos jornais Folha de S.Paulo e Lance!.

Na segunda-feira (11/7), o programa Bem, Amigos!, de Galvão Bueno, no SporTV, fez campanha aberta e declarada contra o garoto Neymar, de 19 anos. A ele, atribuiu-se o fracasso da Seleção Brasileira nos dois primeiros jogos da Copa América, contra Venezuela e Paraguai.

Galvão Bueno, Paulo César Vasconcelos, Arnaldo César Coelho e Renato Maurício Prado não economizaram nos adjetivos contra o menino, que havia feito apenas dois jogos oficiais com a camisa da Seleção Brasileira.

Ao mesmo tempo em que se colocam como algozes de Neymar, Galvão, PCV, Arnaldo e Renato Maurício são os anjos da guarda de Ricardo Teixeira. Não é a primeira vez que esses mesmos profissionais tentam colocar rótulo no jovem atacante do Santos.

Ex-árbitro, Arnaldo César fez de tudo para construir a imagem de “cai-cai” em Neymar, deixando o menino marcado pelos árbitros brasileiros e sul-americanos. A orquestração sempre ocorreu no mesmo programa, às segundas-feiras.

O único integrante do Bem, Amigos! que sai em defesa do garoto é Alberto Helena Jr, amante declarado do bom futebol e avesso a rótulos contra jogadores habilidosos.


O menino está só

Voz dissonante no Bem, Amigos!, Helena nunca aceitou a pecha que o programa tentou – e ainda tenta – colocar em Neymar, jovem talentoso, que sofre justamente por ter qualidade acima da média.

Mas Helena não está na equipe do SporTV ou da Globo na Argentina. Neymar está sozinho, preso pelos dentes de seus críticos cruéis, os mesmos que fazem vistas grossas às irregularidades na “parceira” CBF.

O atacante santista e da Seleção Brasileira disputou três campeonatos em 2011: Sul-Americano Sub-20, Paulista e Libertadores. O menino simplesmente sagrou-se campeão em todos. E o mais impressionante: foi o melhor jogador em todas essas competições.

Implacável quando quer

Os críticos ferozes de Neymar, repita-se, são os mesmos que amarelam quando têm que falar sobre as falcatruas da CBF. E que já sinalizaram no programa da segunda-feira (11/7) que, caso Mano Menezes continue recebendo-os para um bom vinho, a pressão sobre o treinador da Seleção será menor.
Vai sobrar para Neymar, Ganso, Pato e Robinho.

Mano já percebeu a estratégia de Galvão e amigos. Tanto que, a partir do primeiro encontro com o quarteto, o técnico começou a dar declarações que colocam os meninos na mira de alça da mídia esportiva, para salvar-lhe a pele.

As pessoas que cercam Neymar – pai, empresário e, sobretudo, diretores do Santos Futebol Clube – precisam estar atentas quanto à orquestração de Galvão e amigos para que o peso de eventual fracasso da Seleção da CBF caia sobre os garotos, em especial sobre ele.

A TV Globo, quando quer, sabe ser implacável. Quem avisa amigo é.

15 julho 2011

A morte não causa mais espanto


Hoje vi três corpos caídos numa avenida de São Paulo. Virei o rosto. E nem era ao vivo, era uma mídia eletrônica, um disco, que usamos no trabalho. Mas o que me admirou mesmo foi a quantidade de gente que juntou para ver seus fragmentos e ferimentos. Enquanto a polícia não chegou para fazer um cordão de isolamento e cobrir os cadáveres com aquele alumínio, adultos e crianças observavam, fotografavam, filmavam. Não demorou muito vieram os repórteres, o resgate, a perícia e... mais curiosos. Fico a pensar: que prazer mórbido faz alguém ficar diante de mortos em circunstâncias trágicas ou violentas? Qual é a atração que uma cena dessas tem? Mas devo mesmo ser exceção. Pelo menos ao meu redor grande parte das pessoas não vê problema algum diante de imagens assim. Não por acaso programas de televisão, jornalísticos ou não, cuja violência é a tônica estão sempre em evidência. Tive uma colega jornalista tão esquisita que certa vez me mostrou um site só de corpos mutilados e destruídos... Lembro-me que na ocasião fiquei chocado e alguns até zombaram de mim. A morte não causa mais espanto? Para mim, sim. Saio de férias por quinze dias. Vou levar os pequenos para ver os avós nas proximidades da Serra da Canastra. Volto aqui em caráter extraordinário, ou caso consiga escrever a série de ficção que estou gestando. Obrigado pela frequência. O blog "bombou" no primeiro semestre!

14 julho 2011

Mr. Teixeiraaaa!



No livro Os Descaminhos do Futebol, publicado há dez anos, eu já contava a história dessa dinastia. Mostrava, inclusive, como o então falido empresário Ricardo Teixeira entrou no mundo do futebol, pelas mãos de seu então sogro, mas eterno aliado, João Havelange, com ajuda de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé.

Vale aqui, desde logo, um parêntese, para refrescar a memória. Havelange foi atleta de polo aquático, e até representou o Brasil em competições internacionais, como as Olimpíadas de Melbourne, em 1956.

Mas, desde 1937, mesclava sua atividade esportiva com as de dirigente de entidades esportivas e de empresário. Era dono de loja de armas no Rio de Janeiro, e, também, da empresa de ônibus interestadual Cometa.

Ele se elegeu presidente da antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) em 1956. A parte de futebol, porém, ficava com o empresário paulista Paulo Machado de Carvalho, que levou o Brasil à vitória na Copa de 1958, foi chamado pela mídia de "Marechal da Vitória" e homenageado pelo presidente Juscelino Kubitschek em monstruosa festa no Pacaembu, em São Paulo. E repetiu o feito no Chile, na Copa de 1962.

Havelange sequer foi às duas copas. Mas, vendo que o futebol era o filé dos cifrões nos desportos, expulsou Paulo Machado e assumiu o setor. No processo da Copa de 66, aprontou mil e umas. Montou um time com 45 jogadores para rodar o mundo e, na competição mesmo, obteve o retumbante fracasso que todos conhecemos e amargamos.

Pelé foi peça-chave para eleger Havelange presidente da FIFA, em 1974. Ele ajudou a realizar, aqui, o "mundialito" de 72, uma minicopa, sem a participação dos europeus.
E rodou o mundo criando entidades esportivas nacionais (as CBFs de países africanos e asiáticos). Assim, granjeou votos para Havelange se eleger, no plano global.

No "mundialito", a CBD gastou perto de US$ 25 milhões, vindos dos cofres públicos, o que chegou a irritar até o então presidente, general Ernesto Geisel. Mas ali começou o processo de separação do futebol dos esportes olímpicos, com a criação da CBF e do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), dividindo a CBD.

Mas Havelange não desistiu. Refez relações com Pelé, que estavam abaladas, para colocar seu genro na CBF. A história já estava no livro:

"Ainda em 93, nas eliminatórias da Copa dos EUA, quando o Brasil ia aos trancos e barrancos, a imprensa assediou Teixeira, antes do jogo contra o Uruguai, no Maracanã. Um repórter perguntou:

- E se o Brasil for desclassificado?

Teixeira foi curto e grosso:

- Pra mim, nada. Vocês é que vão ter problemas, porque não vão ter o que fazer. Eu sou um homem rico.

Diante do dito, o jornalista Armando Nogueira recheou seu texto, sempre brilhante, com uma frase que resumia tudo, e entrou pra história: 'Sou um homem rico, não. Fiquei rico'.

Ficou rico, rapidinho, na CBF. Foi vapt-vupt.

Pelé contou inúmeras vezes que, quando Havelange lhe procurou para propor o nome de Teixeira para a CBF, seu argumento tinha dois pilares básicos. Um: embora sendo de outro ramo, seu genro tinha boas ideias para o futebol brasileiro. Dois: além disso, enfrentava dificuldades como empresário.

Digamos que Teixeira precisava ganhar a vida num novo território, já que como empresário não estava dando certo. E justo na CBF, onde, por lei, dirigentes não poderiam ser remunerados.

Quatro anos depois, ele mesmo já se dizia um homem rico, que não estava nem aí para os resultados da Seleção.

É bom se antenar para o conceito de "rico" que essa gente tem, que não é pouca brincadeira. Fortuna igual à que Ricardo Teixeira granjeou em menos de uma década, muita gente da elite brasileira só conseguiu depois de quatro ou cinco gerações. É dinheiro fácil, rápido, sem assepsia.

Mas aí entra a sorte – ou um traço da cultura brasileira. Como na política há a máxima "rouba, mas faz", notabilizada por Adhemar de Barros, quando governador de São Paulo, no futebol os resultados também sublimam os atos de dirigentes corruptos.

Pois foi assim que se safou, à época, Ricardo Teixeira. Pouco tempo depois das denúncias de Pelé, o Brasil ganhou a Copa de 94, e virou tetracampeão. Ninguém mais queria saber de propinas que rolavam soltas na CBF.

Pra quem já nadava de braçadas, a correnteza ficou ainda mais favorável – e a CBF se emporcalhou de vez. Tudo o que se pode imaginar de ruim virou o cotidiano da entidade máxima do futebol brasileiro. Um mal que contaminou federações estaduais e metropolitanas, e clubes.

Um indicativo de que o resultado da Copa de 94 havia aberto de vez as porteiras da prepotência ocorreu logo em seguida. O avião que trouxe a Seleção de volta para o Brasil virou uma nau contrabandista, algo de fazer inveja aos piratas de séculos atrás.

O vôo da direção da CBF e seus convidados, que incluía os jogadores da Seleção, trazia 17 toneladas de carga. No entender dos dirigentes, diante de tanta alegria da conquista, não haveria razão para os fiscais da alfândega empombarem com tão sutil contrabandozinho.

Mas não deu certo. O caso virou escândalo internacional, já que era um prato feito para a imprensa de países que amargavam a derrota na Copa. As conversas ríspidas de Teixeira com funcionários da Receita foram registradas pela TV e indignaram o Brasil inteiro.

Primeiro, ele ameaçou voltar para os EUA com toda a comitiva. Depois, conseguiu que a carga fosse levada a um hotel do Rio de Janeiro. Ali, integrantes da comitiva declararam algumas compras que traziam. Teixeira declarou uma sela de montaria e eletrodomésticos.

Pelo acordo feito com a Receita, a própria CBF fez um inventário dos bens que vinham na carga – e pagou o imposto de tudo, independente de quem fosse. Só que o peso total dos produtos declarados era de pouco mais de mil quilos. As outras 16 toneladas, ninguém sabe, ninguém viu.

Em verdade, porém, pelo menos parte da enorme carga apareceria poucos meses depois, quando foi inaugurada a luxuosa e bem equipada boate-restaurante El Turf, no Rio. Seu proprietário: Ricardo Teixeira."


O patrimônio de Teixeira, hoje mostrado em algumas redes de TV, é de fazer inveja a qualquer milionário do mundo. Ele faz da CBF uma entidade mais que privada. É particular. Se, há dez anos, estava do jeito aí relatado, hoje é muito pior, mas não há punição, não há nada.

Se a Seleção for bem ou mal na Copa América ou em 2014, na Copa do Mundo, no Brasil, tanto faz.

Mas é possível moralizar os esportes no Brasil. E isso começa por ações enérgicas contra os mais descarados bandidos do setor, e o primeiro deles é Ricardo Teixeira. Havelange, pelo avançado da idade, pode até morrer em paz.

12 julho 2011

Relembre o caso Tim Lopes


A repórter - com apenas dois meses de casa - chega ofegante. É recebida numa sala da redação do Rio pelo diretor de jornalismo. Eles se fecham. Apenas outros dois chefes entram e saem durante o encontro. Enquanto conta tudo o que sabe ao diretor, chamam a atenção dela a apatia e a insensibilidade do interlocutor. Normais, não fosse o trágico relato. Primeiro, os bandidos cortaram as pernas, com uma espada de samurai. Depois, os braços. Aí colocaram a vítima mutilada - já inconsciente - de cabeça para baixo num latão. Os pneus de caminhão, embebidos em gasolina, foram empilhados. Bastava apenas o fogo e tudo lá dentro viraria cinzas, em questão de minutos. Não haveriam restos mortais. Era o que os traficantes chamavam de microondas. Este foi o teor explosivo do depoimento do primeiro homem preso, acusado de pertencer ao bando de Elias Maluco, que capturou, torturou e executou Arcanjo Lopes, o Tim, de 51 anos, em 2002. Um dos melhores produtores e repórteres que a emissora já teve. O delegado tinha feito um acordo de exclusividade com a repórter da emissora, que se faria passar por advogada de defesa. Ela não só interrogou o preso, como teve acesso à cópia do interrogatório, à foto do criminoso e ao endereço e telefone da mãe dele. O diretor apenas perguntou: - Ele disse que foi por causa da 'Feira das Drogas'? - Sim, respondeu a repórter. - Mas ele citou a reportagem? Insistiu. E ela mais uma vez respondeu: - Citou. Ele puxou o zíper da jaqueta estilo safari, respirou fundo e agradeceu. A 'Feira das Drogas' foi uma reportagem que Tim fizera um ano antes e que o tirou do anonimato. Foi vencedora do prêmio Esso especial de jornalismo, em 2001. Tim subiu ao palco para receber o prêmio e sua imagem foi exibida para todo o Brasil, no horário nobre. Naquela noite, Elias Maluco teria sentenciado: - Aquele mané vai morrer. Quando Tim saiu da redação de bermuda, sandálias e uma velha camisa amarela no dia dois de junho de 2002, seu destino já estava traçado. Levava a micro câmera escondida na pochete. Queria mostrar como os traficantes aliciavam, seduziam e, muitas vezes, estupravam menores de idade em bailes funk, na favela da Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão. Claro que a repórter teve que ceder todo material inédito a um repórter especial do Jornal Nacional. O texto foi editado com todo o cuidado. A emissora não podia se comprometer. A repórter amedrontada, silenciou. Passou a ser assediada nos corredores da emissora e escoltada, nas ruas da cidade. Tempos depois, sem que soubesse, recebeu a intimação. Ficaria frente a frente com o algoz de Tim. Seria uma das testemunhas da acusação, no juri popular de Elias Maluco. Seria um prêmio ou um castigo?

Quem foi mesmo que matou Tim Lopes?

por Maria Luisa de Melo, no Terra

A jornalista Cristina Guimarães, vencedora do Prêmio Esso em 2001 junto com Tim Lopes pela série 'Feira das drogas', afirmou que a Rede Globo, empregadora de ambos na época das reportagens, não ofereceu proteção a ela e ao colega, e que o repórter poderia estar vivo se a emissora tivesse dado atenção às ameaças recebidas. "Se dependesse da TV Globo, eu estaria morta", disse. Tim Lopes foi morto por traficantes em junho de 2002 durante uma reportagem sobre bailes funk no Rio de Janeiro.

De volta ao Brasil após passar oito anos se escondendo de traficantes da Rocinha, que ameaçavam matá-la depois de reportagem veiculada no Jornal Nacional, ela conta em livro como a TV Globo lhe virou as costas na hora de oferecer segurança. "Os traficantes da Rocinha ofereciam R$ 20 mil pela minha cabeça. Pedi ajuda à TV Globo e fui ignorada."

De acordo com Cristina, sete meses antes de Tim ser morto por traficantes do Complexo do Alemão, ela entrou com uma ação judicial de rescisão indireta, na qual reclamava da falta de segurança para jornalistas da emissora. As denúncias integram um livro escrito por ela e que deve ser lançado nos Estados Unidos no início do próximo ano. A obra, segundo a jornalista e publicitária, também deve virar filme.

"Não dava para escrever meu livro no Brasil. Aqui a Globo ainda tem uma influência muito forte e a obra poderia ser abafada de alguma maneira. Com o apoio do governo americano, fica mais fácil lançar nos EUA", disse.

As ameaças

Cristina conta que após o colega Tim Lopes levar à emissora o material da feira de drogas ao ar livre na favela da Grota, no Complexo do Alemão, a chefia pediu a ela para fazer mais imagens de outros lugares. Ela foi à Rocinha e à Mangueira repetidas vezes, mas os problemas, disse, começaram um mês depois da exibição da série. "Começaram a me telefonar de um orelhão que fica dentro da favela da Rocinha me chamando de 'Dona Ferrada' e dizendo que me pegariam. Diziam também que eu não escaparia, era questão de tempo. Diante das constantes ligações, conversei com a chefia do JN e pedi proteção. Fui ignorada."

Segundo ela, os bandidos teriam sequestrado e espancado um produtor do programa Esporte Espetacular, na tentativa de chegar aos autores da série de reportagens. "O que me assustou foi que a TV Globo não me falou nada." Cristina soube pelo caso por um jornal, e concluiu que a emissora não faria nada para protegê-la. "A Globo não quis saber se eu corria risco de vida. Os meus chefes diziam que as ameaças que eu recebia por telefone eram coisas da minha cabeça", disse.

Ao cobrir o caso de um garoto preso na Rocinha suspeito de pagar propina a um coronel, ela ouviu do suspeito "É, tia! Eu tô ferrado, mas tu também tá. Tá todo mundo atrás de você lá na Rocinha. Tua cabeça tá valendo R$ 20 mil". "Naquele momento, tomei a dimensão da situação em que eu me encontrava."

Cristina entrou com uma ação judicial no Ministério do Trabalho e seu vínculo com a emissora acabou, mas ela não se importa. "Não me arrependo de ter largado a Globo para trás. A minha vida vale muito mais do que R$ 3.100, que era o meu salário em 2001." Ela acredita que se tivesse continuado a produzir matérias, estaria morta "há muito tempo".

A jornalista afirmou ainda que, "sem dúvida nenhuma", a morte de Tim Lopes poderia ter sido evitada pela emissora. "Eu falei sobre os riscos que estávamos correndo sete meses antes de os traficantes do Alemão matarem o Tim Lopes. Eu implorei por atenção a estas ameaças e o que fez a TV Globo? Ignorou tudo."

Procurada pela reportagem do Jornal do Brasil, a assessoria da Rede Globo não retornou às solicitações para esclarecimento das acusações desta matéria.

O novo Passos de Dilma


A escolha do novo ministro dos transportes é um retrato acabado de como a imprensa é preguiçosa no exercício do bom jornalismo. O governo já tem seis meses e os colegas preferem ficar de plantão em frente aos prédios públicos, nas salas de imprensa, ou nos salões do parlamento esperando declarações quando, na verdade, a notícia está em outros lugares.

Nenhum dos repórteres ou analistas de política foi capaz de identificar ou sequer considerar a possibilidade de Passos assumir a pasta. É triste, sinal de que não sabemos fazer uma boa cobertura de política. O mundo mudou, mas não em Brasília. Os vícios de origem permanecem os mesmos.

O que um repórter realmente comprometido deveria fazer? Descobrir, durante a transição do governo, quem eram os novos interlocutores, quem de fato passou a ter influência, quem centralizou as informações relevantes. Só assim seria possível ter matéria-prima para escrever. Mas há outro problema: parte dos colegas prefere fazer jornalismo-denúncia e se afasta de quem de fato tem poder.

A maioria, no entanto, prefere mesmo o "gabinetão", como chamamos nas redações. Um amontoado de declarações que, ou estão na superfície, ou estão deslocadas do sentido real. Quer dizer, os atores ali estão apenas encenando para os jornalistas. Todos sabem que aquela não é a realidade. Mas são grandes as pressões dos editores para que todos tenham nos telejornais noturnos e jornais impressos do dia seguinte as mesmas declarações.

O resultado é: mais uma vez a presidente da República surpreende a todos.

08 julho 2011

Corte?


Amigos e colegas:

Acabo de ser demitido da Empresa Jornalística Folha Metropolitana um ano, um mês e quatro dias depois de ser contratado para ser repórter de política. Este não é meu primeiro trabalho e nunca tornei público o motivo da saída por julgar que admissão e demissão fazem parte da liturgia das empresas. Logo, jamais exporia as razões da saída, se o motivo fosse contenção de despesas, qualidade do trabalho prestado, incompatibilidade entre mim e a chefia…

Desta vez, porém, é diferente: a minha demissão ocorreu porque noticiei em primeira mão e venho acompanhando o caso de nepotismo na Secretaria de Estado da Energia, sob o deputado licenciado José Aníbal (PSDB). A notícia está na página 10 da edição desta quinta-feira do jornal Metrô News.

Na segunda-feira, fui para uma entrevista com o deputado Carlos Roberto de Campos (PSDB-SP), munido de várias perguntas, uma das quais sobre nepotismo. O Metrô News vem acompanhando o episódio da contratação de Mateus Achilles Gomes pelo secretário-adjunto da Pasta, Ricardo Achilles, desde o início de junho.

Uma das estratégias era ver a opinião de Carlos Roberto sobre o caso ocorrido na pasta comandada por José Aníbal, uma vez que o PSDB é muito veemente nas críticas contra irregularidades. Carlos Roberto não foi induzido ou coagido a falar, mas falou e criticou severamente Ricardo Achilles e o colega de ninho, José Aníbal. A matéria foi publicada hoje, claro, com o consentimento do editor-responsável.

Nesta tarde, Carlos Roberto foi à redação, conversou com a direção do jornal e exigiu que o veículo desse uma resposta. A resposta foi a minha demissão.

Acho que devo dar essa explicação a todos os que me acompanham diariamente, seja por meio das das reportagens da Folha Metropolitana e do Metrô News ou na coluna ‘Em Off’, que mantinha às quartas e sextas-feiras.

Aproveito para agradecer o carinho dos colegas e me desculpar por possíveis desencontro de ideias. Creiam, sempre coloquei a lealdade e o respeito acima dos interesses diversos que permeiam o posto que ocupava. Nunca pactuei com interesses outros que não fosse o de dar a notícia da forma mais correta. Nunca usei do cargo para fins de ética duvidosa. Nunca aceitei barganhar a notícia. Nunca ‘carlosrobertei’, nem ‘anibalizei’ meu trabalho.

Peço que me ajudem a multiplicar essa mensagem indignada. Reitero: entrar e sair de empresas é fato comum e essa não é a primeira vez que acontece. Nunca, porém, tornei público o motivo da saída, por entender que essa é uma particularidade que cabe a patrão e a empregado. Dessa vez, porém, minha saída teve motivação política. Por trabalhar de forma correta, acabei punido.

O ciclo na empresa está terminado.

Um forte abraço a todos.
Ricardo Gomez, jornalista

Venha almoçar conosco!


Tem dias em que dá um desânimo na gente... Começou ao ler o artigo do Marcos Dantas, do Instituto Telecom (link aqui), trazido pelo Miro em seu blog (link aqui). É um retrato sobrio de como nosso governo "progressista" vai entregar as comunicações aos grandes grupos internacionais. Para piorar, Rodrigo Vianna nos conta que, a ao deixar o PV, Marina Silva pode sim virar a terceira via pela direita (link aqui).

Mas é no Facebook, mais novo império em ascensão, que encontro algo que me enche de orgulho e renova as esperanças num novo modo de se fazer política (modo aliás muito bem retratado pelo Rodrigo): pela via direta. É um convite para manifestação pacífica em frente à casa do prefeito de São Paulo. Os paulistanos que vêem sua cidade afundar num rio fétido de corrupção e desgoverno querem celebrar o pequeno aumento de salário de nosso alcaide.

Só para se ter idéia da força dessa "gente diferenciada", já são mais de seis mil e quinhentas participações confirmadas e quase oitocentas que não deram certeza. Outras quarenta mil, isso mesmo, quarenta mil ainda não confirmaram. A imprensa deverá pautar o evento, afinal, não é todo sábado de frio que tem tanta gente na rua manifestando sua indignação com bom humor e ironia. A concentração será em frenta à Meca da "massa cheirosa", o Shopping Iguatemi.

Será que nossos filhos e netos vão ver um mundo melhor? Se a gente acreditar e seguir em frente pode até não ficar melhor, mas pelo menos terá sido mais divertido, isso com certeza. Segue o convite:

A CONCENTRAÇÃO SERÁ NA FRENTE DO SHOPPING IGUATEMI
(Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2232 - São Paulo / PRÓX. A ESTAÇÃO FARIA LIMA DO METRÔ)
DO SHOPPING SEGUIREMOS PARA A FRENTE DA CASA DELE QUE FICA DO LADO DO SHOPPING
POR FAVOR DIVULGUEM O EVENTO E LEVEM ALGUMAS BUGIGANGAS COMO:
- QUALQUER COISA QUE FAÇA MUITO BARULHO (APITO, MEGAFONE, ETC)
- CARTAZES, ETC...
1- Não depredar o patrimônio público e privado
2- Não é um ato de violência e sim um ato político

Opa, opa, camaradas!

Que tal comemorarmos o aumento de salário do nosso digníssimo prefeito Gilberto Kassab?
Vamos bater um rango, lá na casa dele, no próximo sabadão, por que afinal com o reajuste, o salário dos secretários terá um aumento de 250% no ano que vem, passando de R$ 5.344 para R$ 19.294. Já o do prefeito terá aumento de 20% e subirá para R$ 24.117 --hoje, ele ganha R$ 20.042. Tem dinheiro o bastante pra pagá um rango pra nóis né não?

07 julho 2011

A força da Grana


Foi preciso que uma gigante do setor eletroeletrônico e de uma operadora de telefonia móvel se juntassem para financiar a medição de audiência na TV - por enquanto em celulares com sinal digital.

Um projeto piloto vai monitorar duas mil pessoas na Grande São Paulo interessadas em servir de cobaias até 2012.

O que deve acontecer, na minha modesta opinião, é que este estudo vai revelar um fato inédito: a "audiência consolidada", um fenômeno propalado no Brasil até o início dos anos 2000 está desmoronando.

Acabou a passividade e a "espera". O telespectador quer interagir, nem que seja apenas apertando um botão e sintonizando programação opcional, alternativa, diversificada.

O que será constatado é que o oligopólio na TV aberta está acabando e o mundo está mudando para melhor, desde que a conexão funcione, não é mesmo?

Grandes anunciantes já começam a se movimentar. A pergunta que fazem é: por que pagar rios de dinheiro para associar minha imagem a conteúdo ultrapassado na TV se eu mesmo, inteligentemente e a um custo muito, muito menor, posso gerar meu próprio conteúdo em meio eletrônico?

Bem amigos, é a força da grana que ergue e destrói "coisas belas".

Oh, mundo tão desigual...


por Filipe Diniz, nO Diário

As firmas Merryl Linch e Capgemini publicam anualmente o World Wealth Report (Relatório sobre a riqueza mundial). De facto, este relatório não é bem sobre a riqueza mundial. É sobre uns quantos que concentram essa riqueza nos seus bolsos.
Dividem-se em duas categorias: os HNWI (high net worth individuals, indivíduos com elevado rendimento líquido individual: igual ou superior a 1 milhão de dólares) e os UHNWI (ultra high net worth individuals, indivíduos com ultra elevado rendimento líquido individual: igual ou superior a 30 milhões de dólares).
A curiosidade destes relatórios reside em perceber para que servem. Uma das conclusões que se tira é de que as firmas relatoras estudam o comportamento dos HNWI e dos UHNWI porque acreditam que daí depende parte do futuro da economia mundial. Mas o que se verifica é que daí dependem, no fundamental, não a economia mas as dinâmicas da especulação (bolsista, imobiliária, financeira, commodities) e os processos de centralização e concentração do capital. Não só não é na economia real que os HNWI procuram assegurar e multiplicar os seus ganhos como parece ser mais fácil descobrir uma correlação entre o que a economia perdeu e o que estes HNWI ganharam.
O relatório confirma que o capital não tem pátria. Os HNWI tendem a investir noutro lado: os asiáticos na Europa, os latino-americanos na Ásia, os norte-americanos na Ásia e na Europa, os europeus na Ásia e na América Latina.
Os HNWI investem em clubes de futebol; em joalharia, pedras preciosas e relógios; em arte e coleccionáveis de luxo. A venda de iates de luxo, de jactos privados, de automóveis de luxo teve uma lamentável quebra em 2009 mas, diz o relatório, apresenta sinais muito animadores em 2010.
Enquanto o produto interno bruto global reduziu 2% e o desemprego global aumentou 14,4% em 2009 (atingindo 211,5 milhões), as fortunas conjuntas dos HNWI e dos UHNWI aumentaram 9,4%. 53,5% do total de HNWI situa-se nos EUA, Japão e Alemanha. 4,5 milhões de HNWI estão nos EUA e no Japão, duas economias em profunda crise.
Parece que em Portugal houve uma quebra no número de HNWI. As duas troikas não deixarão de vir em seu socorro.

06 julho 2011

Mais Um


A queda do ministro dos transportes revela que não há mais disposição entre os formadores de opinião (tradicionais ou alternativos) de tolerar esta cultura, tão enraizada em nossa sociedade, que faz o ocupante de cargo público achar que tem direito de trabalhar em proveito próprio. O espírito republicano exige que tenhamos com o bem público um compromisso que vai além dos nossos interesses particulares e quase sempre tão vis e mesquinhos.

Quando digo que é algo enraizado, tenho exemplos. No condomínio em que moro, o síndico decidiu deixar o cargo, depois de cinco anos no poder. Ninguém queria assumir a bucha. Um aposentado recém chegado aceitou e foi eleito por aclamação. Aos poucos os problemas começaram. Numa das reuniões ele chegou a ser confrontado, mas os estatutos... Ah os estatutos...

Quando surge uma denúncia contra um servidor público é comum que ele tente desqualificar o acusador. Claro que quem o acusa tem interesses na denúncia. Age quase sempre movido ou por vingança, ou por um sentimento de justiça que de nobre tem apenas a luta partidária pelo poder. A ética, a moral e o interesse público servem apenas para edulcorar o discurso.

Os jornalistas sabem disso tudo, mas raramente relativizam os interesses em jogo. É que aqui o que importa são as ambições profissionais: o furo, a relevância, a projeção pessoal. É claro que as denúncias envolvendo a pasta dos transportes partiram dos que tiveram seus interesses contariados anteriormente. Ora, se antes foi um partidário do PT que caiu, agora, faz todo o sentido que ele seja da base aliada, preferencialmente de uma legenda de aluguel.

Com isso, as crises se sucedem e, ao se sucederem, vão abrindo espaço para que os verdadeiros servidores públicos imponham seus metodos de gestão e controle, o que para nós, apesar da aura de aparente descontrole é muito bom. Cá entre nós, a Dilma tá adorando esse negócio.

05 julho 2011

E você, qual é o seu lado?

pela professora Amanda, em seu blog

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB sejam destinados exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Devo ou não usar meu casaco de R$ 29,00?


por Luiz Carlos Azenha, em seu blog

Vivemos tempos interessantes. A acreditar no noticiário, falta dinheiro aos governos.
No entanto, o Rio de Janeiro é um canteiro de obras.
E os estádios sobem.
E o BNDES — sim, eu sei, a BNDESPar — ajuda o Abílio, o Eike e outros pobres milionários.
Não, não há dinheiro para investir nos grandes equalizadores: educação pública e gratuita para todos (com bons salários para os professores) e banda larga realmente larga e universal para todos.
Lá na Coreia do Sul eles deram um jeito. Tudo bem, já entendi, sei que o país, comparado ao Brasil, é pequeno e a densidade demográfica é grande. Custaria mais caro, aqui, fazer o backbone feito lá, através do qual o estado cripto-comunista espalhou as redes de fibra ótica.
Lá foi dinheiro público financiando a iniciativa privada: quem cuidou e cuida da “última milha” são as empresas de telefonia e internet. Mas, ao controlar a infraestrutura, além de garantir a própria soberania na idade da informação, fazendo as ferrovias do século 22, o estado sul coreano ganhou poder de barganha diante das empresas privadas. Ditou as regras com um porrete na mão: lá, segundo a OECD (Organização para a o Desenvolvimento e Cooperação Econômica) 100 mbps pelo equivalente a 60 reais mensais; aqui, 1mbps por 35 reais. Nossa vantagem é que temos a Anatel para garantir que o serviço será de fato prestado nas condições propagandeadas…
[Ao contrário do que vocês imaginam, não apoio a banda larga como ferramenta para combater o PIG. É para impulsionar os pequenos empreendedores e negócios. Para facilitar a produção e disseminação de conteúdo cultural regional. Como forma de aumentar a mobilidade urbana. Para impulsionar a indústria nacional ligada às tecnologias de informação.Como descobriram os japoneses e os sul coreanos, ter uma banda larga realmente veloz e universal cria uma série de novos "problemas" e a solução para eles exige inventividade e criatividade. Starcraft vicia, mas também cria emprego!]
Aqui, só falta escalar o ministro para vender o combo da Telefonica. Não duvido que em breve surja alguma lei exigindo número de telefone fixo para tirar documento. Aí vai ser possível empurrar dois serviços ruins combinados nas classes C e D. Aliás, o que é do projeto que extinguiria a cobrança da “mensalidade” dos telefones?
Ao contrário do que imaginávamos, vivemos o aprofundamento do sistema pelo qual os lucros são privatizados e os prejuízos, socializados. Taí o resgate de Wall Street para não me deixar mentir. Depois, a Grécia. Agora, privatizaram o Paulo Bernardo.
Como repetiu um milhar de vezes um antigo leitor deste site, hoje sumido, as empresas-casca da telefonia terceirizaram tudo. Ficaram apenas com o financeiro. E remetem os lucros obtidos no Brasil para tapar buraco na matriz. Agora, diz um executivo do banco Santander, eles vão correr atrás da classe C e D no Brasil. Como alertou a Conceição Oliveira, corram!
Ou, como disseram os bancários no Pacaembu, na final da Libertadores:
O fato é que nós, assalariados, já não temos mais representação política.
Quantos governadores ou deputados você viu, recentemente, defendendo os professores grevistas em Minas Gerais? Ou em Santa Catarina?
E os bombeiros que se amotinaram no Rio de Janeiro? Quem é que se arrisca a dar a cara a tapa e dizer que apoia a PEC 300, que aumenta os salários dos policiais?
Vejam bem, caros amigos: os salários são inflacionários! Quem sugere é ministro de um governo do Partido dos Trabalhadores!
Notaram como a falta de dinheiro público é relativa?
Depois de toda a gastança e a gatunagem que precederá a Copa do Mundo no Brasil, lá pelos fins de 2013 ainda vão tentar nos convencer de que precisamos fazer “trabalho voluntário” no evento.
E, às vezes, o que parece uma vantagem imediata pode ter consequências terríveis a longo prazo.
Como não entendo de economia, deixo para vocês os comentários. Apenas conto o causo.
1985. Acabo de desembarcar em Nova York, para trabalhar como correspondente da Rede Manchete. Um dia sim, outro também, um dos jornais importantes publica reportagem sobre um “terrível” problema do Japão: o país é fechado às grandes redes varejistas dos Estados Unidos. Por conta disso, os jornalistas estadunidenses associam os japoneses ao atraso. Os mercadinhos são um horror, os preços são altos, a qualidade é péssima, etc.
Aquele soldado japonês que não sabe que a Segunda Guerra acabou fica no mato por culpa da péssima qualidade das lojinhas “pop e mom” do Japão…
Foi a primeira campanha do PIG internacional que vi de perto, ainda que sem entender direito, na época, o que estava acontecendo.
Mais para a frente, lá pela metade dos anos 90, percebi em retrospectiva o que tinha acontecido: foi quando, nas minhas andanças pelos Estados Unidos (modéstia à parte, em meus vinte anos por lá só não fui à Dakota do Norte) descobri a grande campanha que se organizava contra o Walmart, que existe até hoje e que rendeu até mesmo um documentário, Walmart: O alto custo dos preços baixos.
Só que, se a campanha para “abrir” o Japão tinha ocupado as manchetes da grande mídia americana, a campanha local contra o Walmart mereceu um silêncio ensurdecedor…
O argumento contra o Walmart é de que o conglomerado detona o comércio local e, portanto, compromete a sobrevivência das pequenas cidades. Há um toque saudosista e conservador na campanha, quando se diz que a rede detona “the real America”. Solapa a base fiscal. Substitui centenas de salários médios por dezenas de salários miseráveis. Faz isso contando com o gigantesco poder de barganha diante dos fornecedores e, acima de tudo, com a capacidade de importar imensas quantidades de produtos baratos da China. O Walmart compra cerca de 10% de tudo o que a China exporta para os Estados Unidos!
Ontem, depois de publicar um texto de um leitor manifestando preocupação com a concentração dos supermercados no Brasil, tive a sensação de déjà vu, quando um colega jornalista contou que tinha ido ao Walmart e comprado um casaco made in China por apenas 29 reais.
A pergunta que me assalta é: corremos o risco de ver, no Brasil, o mesmo fenômeno que testemunhei nos Estados Unidos?
É possível que o Brasil enfrente ao mesmo tempo dois fenômenos contemporâneos turbinados pelo crescimento da China, a saber: a desindustrialização e o “desvarejo”?
Qual é o risco de a gente, gastando os tubos na Disney – agora que o Disney On Ice no Brasil é bancado com dinheiro público – descobrir, de repente, que só nos resta produzir alimentos para os porcos asiáticos?
Se eu comprar o casaco de 29 reais, é bom porque combato a inflação ou é ruim porque exporto um emprego para a China?

Estamos nessa!


A reportagem acima (clique na imagem para ir à pagina do R7 e assistir) é mais uma parceria com Rodrigo Vianna. Claro que em televisão não somos responsáveis sozinhos. Há pelo menos dez profissionais envolvidos diretamente na produção da reportagem e todos eles estão creditados ao final, na ficha técnica. Fiquei muito orgulhoso do resultado e gostaria de dividí-lo com os frequentadores do blog. São dez minutos para contar a história de Jorge, um homem que quase virou assaltante e, por pouco, não foi enterrado como indigente. Até agora, só foram encontradas a chave da moto e a carteira de habilitação. Todos os outros pertences desapareceram misteriosamente.

04 julho 2011

Jornalismo de Esgoto

por Altamiro Borges, em seu blog

Em abril último, a revista Veja – talvez seguindo as orientações do Departamento de Estado dos EUA – fez estardalhaço com uma reportagem sobre “A rede do terror no Brasil”. Deu capa e várias páginas sobre a presença de “grupos terroristas islâmicos no território nacional”, mas não apresentou provas concretas para justificar as suas graves acusações. A “reporcagem” informava apenas que teve acesso a documentos sigilosos da CIA, a central terrorista dos EUA, e de outros órgãos policiais.

Agora, na quinta-feira (30), a juíza Cláudia Maria Pereira Ravacci, da 35ª Vara Cível de São Paulo, condenou o panfleto colonizado da famiglia Civita por estimular o ódio e o preconceito religioso, tentando associar o islamismo ao terrorismo. Segundo informa a repórter Mariana Ghirello, do sítio Última Instância, a revista será obrigada a dar o mesmo espaço e destaque para uma reportagem sobre a cultura islâmica. Cabe recurso, mas a revista Veja saiu novamente com a sua imagem danificada.

“Reporcagem” ofensiva e tendenciosa

A ação judicial exigindo direito de resposta foi movida pela União Nacional das Entidades Islâmicas, que congrega 16 entidades. Segundo o advogado da entidade, Adib Abdouni, a matéria da Veja é “ofensiva e tendenciosa” e “fere o sentimento religioso islâmico”, que tem mais de 1 bilhão de seguidores no mundo. A partir de denúncias sem consistência, ela generaliza a crítica, insinuando que todo islâmico é terrorista e que o território brasileiro serve de base de operação para grupos anti-estadunidenses.

O objetivo do direito de resposta é “desvincular a idéia de terrorismo junto à fé professada pelos mulçumanos... As ofensas contidas no texto impugnado causam lesão aos direitos da coletividade mulçumana, dando ensejo ao direito de resposta reivindicado”, comemora o advogado.

“De acordo com a petição, houve uma audiência reservada na Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, na Câmara dos Deputados, na qual o ministro da Justiça afirmou que as informações publicadas eram falsas. A União alega que no Brasil a Constituição Federal assegura a liberdade de crença e religiosa”, informa repórter.

03 julho 2011

Itamar, o PT e a Segurança Alimentar


por Ricardo Kotscho, em seu blog

Itamar Franco tinha sido eleito vice de Fernando Collor, mas quando o então presidente foi cassado por práticas pouco republicanas, em 1992, chamou Lula, que tinha sido o adversário deles nas eleições de 1989, para ajudá-lo a formar o novo ministério.

A esta altura, Itamar já estava rompido com Collor e, diante do rabo de foguete que pegou, tentou montar um governo de coalizão com o PT e o PSDB - uma proeza que nem os líderes dos dois maiores partidos brasileiros nunca haviam conseguido.

Itamar era mesmo diferente, um político fora dos padrões habituais no cenário nacional.
Acompanhei Lula na viagem a Brasília para conversar com Itamar e percebi, desde o início das conversas, que o PT, derrotado em 1989, nas primeiras eleições diretas para presidente da República, não iria participar do governo Itamar, já de olho nas eleições de 1994 (o PSDB logo aderiu e acabou elegendo o sucessor).

Lula até chegou a sugerir alguns nomes para um ministério suprapartidário - lembro-me de Adib Jatene, Walter Barelli e José Serra -, mas nenhum deles era do PT.

Quando falou no nome de Serra, teve quem se espantasse, mas Itamar, com um sorriso maroto, deu a mesma explicação de Tancredo para não aceitar a indicação dele para o Ministério da Fazenda.
"Muito bom nome... Só que esse aí quer ser presidente, vai querer o meu lugar, como já disse o Tancredo...".

Dos três, só Walter Barelli, então presidente do Dieese, ligado ao PT, mas não filiado, acabou fazendo parte do governo Itamar.

Voltei com Lula a Brasília no ano seguinte, para levar ao presidente Itamar Franco o projeto de Segurança Alimentar elaborado no Instituto Cidadania pela equipe de José Gomes da Silva, pai do ex-ministro José Graziano da Silva, que acaba de ser eleito diretor-geral da FAO.

Repetiu-se a mesma história: Itamar topou adotar o projeto, que era um embrião do Fome Zero, desde que Lula indicasse alguém do PT para comandá-lo. Lula indicou novamente um nome fora do PT, o do sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que não era filiado a partido algum, imediatamente aceito por Itamar.

Diante das circunstâncias, Itamar Franco acabaria fazendo um ótimo governo, deixando o Palácio do Planalto no final de 1994, com um índice de aprovação popular semelhante ao de Lula, no final do ano passado.

Foi ele, afinal, quem colocou Fernando Henrique Cardoso na Fazenda e bancou o Plano Real, que acabou elegendo o ministro como seu sucessor.

Reencontrei Itamar, já como governador de Minas, no Palácio da Liberdade, no início deste século, como repórter da Folha de S. Paulo, com a missão de entrevistá-lo e traçar um perfil do ex-presidente acidental. "Não dou entrevistas, mas se você quiser passar alguns dias comigo aqui em Minas será bem recebido", desencorajou-me o governador.

De fato, todos me trataram muito bem e, quando cruzava com Itamar em algum corredor ou evento, ele me perguntava se eu estava sendo bem tratado. "Muito bem, governador, obrigado, só falta a entrevista..."

Depois de quase uma semana de insistência, quando já tinha feito amizade com muitos dos seus colaboradores, ele topou responder a algumas perguntas por escrito. Soube mais tarde que Itamar não tinha gostado da matéria e queria saber quem me havia passado aquelas informações.

Assim era Itamar Franco, sempre meio imprevisível, instável, desconfiado de tudo e de todos, mas que acabou passando para a história como um presidente providencial, um homem probo, que nunca deixou de ser, antes de tudo, um político mineiro, embora tenha nascido num navio no litoral da Bahia.

Bobagem querer explicá-lo. Itamar era Itamar, primeiro e único.

Um excêntrico?

por Mauro Santayana, em seu blog

O homem que morreu neste sábado não pertencia às elites políticas ou empresariais de Minas. Engenheiro, filho de descendentes de imigrantes (o pai, de alemães, e a mãe, de italianos) Itamar teve uma infância de classe média modesta. Não chegou a conhecer o pai, que morreu pouco antes que nascesse. Formado, com as dificuldades da situação familiar, em engenharia, aos 24 anos, trabalhou no saneamento básico na periferia de Juiz de Fora, antes de integrar os quadros do DNOCS. Esse contato com o povo o levou à vida pública.

Itamar não foi um político definido pelos estereótipos. Destacaram-se em sua personalidade e ação política os dois sentimentos que orientam os grandes homens públicos de Minas: o do nacionalismo – que vem da Inconfidência - e o da justiça social. Não há como negar a Itamar o alinhamento ideológico à esquerda. Um de seus ídolos desde a adolescência foi o gaúcho Alberto Pasqualini, dos mais importantes pensadores políticos brasileiros e conselheiro de Getúlio.

Como é de conhecimento público, prestei assessoria informal ao Presidente, e, mais tarde, ao governador. Pude acompanhar, de perto, seu empenho na defesa dos interesses nacionais e da moralidade no governo. Acompanhei, de perto, as suas preocupações, quando decidiu adotar, a conselho de membros da equipe econômica, o expediente antiinflacionário da Alemanha dos anos 20 – o Plano Schacht. Era a segunda vez que se tentava, no continente, a mesma estratégia contra a hiperinflação, bem conhecida como matéria de estudos financeiros. A primeira fora a do Plano Austral, da Argentina. Também o Plano Cruzado, de Sarney, contemplava algumas de suas medidas.

Conhecedor de matemática, Itamar reviu o plano, ponto a ponto, fez correções que lhe pareceram apropriadas e, só depois disso, assinou a medida provisória que o implantou.

Poucos dias antes de sua internação, estive em seu gabinete, em companhia do Embaixador Jerônimo Moscardo, que foi seu Ministro da Cultura. Ao nos cumprimentar, visivelmente gripado, Itamar reclamou do ambiente frio do Senado. “Esse ar acondicionado é de matar”. E disse que estava com uma gripe que não cedia.

Convidou-nos para uma visita ao gabinete do presidente José Sarney, ao lado do seu. Conversamos os quatro, alguns minutos, sobre a situação do país e do mundo. Relembramos a personalidade de Tancredo Neves e episódios menos conhecidos do processo de transição democrática que, pelas circunstâncias do tempo, Sarney e este jornalista haviam vivido mais de perto.

Itamar estava preocupado com a situação do país, e a necessidade de que se formassem líderes capazes de enfrentar as dificuldades internacionais do futuro próximo. Naquele mesmo dia, ele solicitara da Mesa do Senado a transcrição de um artigo meu, publicado neste jornal, de reparos ao seu sucessor.

O grande êxito de Itamar pode ser explicado pela renúncia pessoal às glórias e pompas do poder. Não foi açodado em assumir o governo, depois do impeachment de Collor. Coube a Simon instá-lo a isso, sob o argumento da razão de Estado: o poder não admite o vazio. Logo que assumiu a Presidência, reuniu todos os dirigentes partidários e líderes no Congresso, sem excluir ninguém, nem mesmo o folclórico Enéas Cardoso. Disse-lhes que estava disposto a convocar eleições imediatas para a Presidência e Vice-Presidência, se estivessem de acordo. Silenciou-se, à espera da resposta – e ninguém concordou. Por duas ou três vezes, ele me disse que, apesar daquela recusa unânime, talvez tivesse sido melhor consultar o povo, naquela difícil circunstância.

Quando se pôs o problema de sua sucessão, tendo em vista a sua altíssima popularidade – de mais de 80% - alguns líderes políticos lhe propuseram a apresentação de emenda constitucional permitindo a sua reeleição. Itamar recusou, com veemência, a proposta. O democrata não poderia admitir o golpe que seu sucessor desfecharia.

Mais do que sanear a moeda, Itamar ficará na História por haver recuperado a credibilidade da Presidência da República junto ao povo brasileiro. Poucos, muito poucos, dos que exerceram o alto cargo ao longo da História, ficarão na memória da Nação com a mesma e sólida presença de Itamar Franco, modesto homem do povo, intransigente patriota, severo guardião do bem público.

 
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