30 junho 2011

Censurar, quem se atreve?



Em sentença da 5ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, foi julgada improcedente uma ação de indenização movida pela TV Globo contra a Rede Record. A Rede Globo contesta as imitações que são feitas e discute a “legitimidade” de paródias apresentadas pelos humoristas Tom Cavalcante e Pedro Manso no programa Show do Tom.

Os apresentadores Ana Maria Braga e Fausto Silva, são objetos das paródias que a Rede Globo, busca na justiça impedir (CENSURAR) que sejam realizadas.

Nas paródias o Programa Mais Você, apresentado por Ana Maria Braga, virá o “Demais Pra Você”. E ainda de “lambuja, Tiririca parodiava o Louro José, que era chamado de “galo José”. Já o humorista Pedro Manso realizava paródias representando o personagem “Fala Silva”.

A TV Globo alegou na Justiça que se trata de concorrência desleal e violação de direito autoral, e entrou com pedido de tutela antecipada (para que as paródias não mais fossem apresentadas), mas, o pedido foi indeferido.

A TV Record alegou em sua defesa que "a paródia é lícita e que vem sendo executada dentro dos limites da lei autoral"

A sentença proferida pelo juiz Alberto Fraga diz que "a prova carreada e os argumentos trazidos demonstram inexistir qualquer tipo de concorrência desleal por parte da ré".

O juiz expôs que no seu entendimento "impedir que a ré continue a fazer paródias em seus programas humorísticos significaria não apenas violar norma expressa (artigo 47 da Lei nº 9.610/98), como também incorrer em ato de censura e violação do direito de se expressar de forma livre".

A TV Globo pode recorrer e apresentar apelação ao TJ-RJ. O Processo é o de número 0152937-46.2007.8.19.0001.

29 junho 2011

Decifrando os Sinais (segunda parte)


para ler a primeira parte clique aqui.

A ofensiva da TV Globo para atrair a classe C para o telenoticiário continua quente neste inverno frio. Os novos profissionais escalados para as bancadas vão poder fazer comentários sobre as notícias, a exemplo do que já fazem Ana Paula Padrão e Celso Freitas no Jornal da Record, a turma do Fala Brasil e outros jornalísticos da Rede Record.

Chico Pinheiro terá liberdade para dar sua opinião sempre que achar necessário no Bom Dia Brasil. Fico só pensando que pode não dar química, nem com a Renata Vasconcelos, muito menos com a Míriam Leitão. O noticiário deverá mudar. E perderão espaço aqueles enormes vts de política de Brasília, com Zileide Silva e comentários de Alexandre Garcia, a partir do estúdio da Capital Federal.

As entradas de São Paulo também deverão mudar. Aquelas reportagens de economia chatérrimas perderão espaço para o noticiário nacional, policial, trânsito e prestação de serviços, a exemplo do extinto e consagrado SPTV, do início dos anos 2000.

Para saber um pouco mais sobre o SPTV, aqui.

Falar o que o telespectador gostaria de dizer ao ver uma reportagem com abordagem mais popular passa portanto a ser a tônica dos comentários e isso Chico já provou que sabe fazer como poucos. O desafio será ser parcimonioso, para não ficar "palavroso" e chato, como Fausto Silva, Jô Soares, Galvão Bueno e tantos outros que tiveram liberdade demais e depois não conseguiram se controlar mais.

Para saber mais sobre o caráter de Chico Pinheiro clique aqui.

A acidez dos comentários de Mariana Godoy foi para a Globonews. Se por um lado, ela deixou a bancada de um telejornal local de São Paulo para ganhar a rede, por outro, vai poder falar tudo o que quiser, mas apenas para o público restrito da TV a cabo, o que convenhamos é menos influência.

Evaristo Costa e Sandra Annenberg seguem fazendo companhia para a dona de casa na hora do almoço. Ele como o genro que toda sogra gostaria de ter e ela, que teve o mérito de levar a experiência cênica para a bancada. Ambos são emotivos e carismáticos e por isso agradam, apesar de nos bastidores não serem tão afeitos um ao outro.

Quanto ao Jornal da Globo tende a ser o último refúgio dos empresários, dos ricos e dos influentes que convenhamos não dão a mínima para telejornal.

Na bancada do Jornal Nacional segue incólume o casal 20. Vão continuar dizendo o que o patrão quer, como quer, porque afinal é o único telejornal que de fato conta, "sanduichado" entre duas novelas, estas sim as eternas campeãs de audiência. Por enquanto...

Vão dizer que é artigo do PIG, aposto.


A verdade quase sempre dói. Mas numa democracia ela é mais do que necessária para entender o que existe por trás do que aparentemente é legal. Vamos analisar por exemplo a fusão do Pão de Açucar com o Carrefour no Brasil, negócio que tem resistência do próprio controlador francês, Casino.

Na engenharia financeira está o BTG Pactual. O banco de investimentos está entre os 25 mais importantes doadores da campanha de Dilma Rousseff à presidência da República. Sozinho deu um milhão e trezentos mil reais para elegê-la. Isso mesmo: um milhão de doação!

Na compra do Carrefour, o BTG entraria com seiscentos milhões e o BNDES com quatro bilhões. Para quem não compreendeu a abrangência do negócio, quatro bi são quatro arenas do timão, em Itaquera, zona leste de São Paulo. É a terça parte do Bolsa Família, maior vitrine do governo para distribuição de renda.

O negócio faria o grupo Pão de Açucar controlar sozinho um terço de todo o comércio varejista do país. Isso equivale à terça parte de tudo o que as famílias brasileiras consumirem. Parece pouco? Um trilhão e seiscentos bilhões de reais! Ou seja, o grupo passaria a movimentar, sozinho, mais de quinhentos bilhões ao ano, uma potência mundial equivalente às maiores redes do mundo.

O que há de ilegalidade nisso? Aparentemente nada. Mas duvido que este tipo de negócio não deixe uma pulguinha atrás da orelha. Principalmente se considerarmos que o empresário Abílio Diniz foi o primeiro a anunciar apoio à candidatura Dilma, em março de 2010, ajudando a desmontar a barreira que estava sendo criada pela oposição contra a candidata de Lula.
No dia do anúncio Diniz, hoje com 74 anos, disse: "Dilma tem todas as condições de dar continuidade ao legado" deixado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.  Legado do crescimento, da geração do emprego e da distribuição de renda, logo, do consumo.

Vale lembrar ainda, que o empresário foi pivô de um caso emblemático na campanha de 1989. Às vésperas da eleição presidencial em que o ex-presidente Collor disputava com Lula, o empresário estava sequestrado. A polícia prendeu os sequestradores - ligados a movimentos de esquerda da América Latina - e tentou associar o sequestro ao PT. Chegou até a apresentar um dos criminosos vestindo camiseta da campanha de Lula, o que contribuiu para a derrota.
O dinheiro não tem ideologia. O dinheiro enxerga a oportunidade. E não podemos deixar de reconhecer que o governo Dilma é sim uma oportunidade enorme de expansão dos negócios. Se está certo ou errado, cada um que julgue como quiser.

28 junho 2011

Fala Safatle!



Há alguns dias, uma pesquisa veio mostrar o que todos aqueles que realmente se preocupam com reforma tributária no Brasil sabem: os ricos pagam pouco imposto.

Quem recebe R$ 3.300 por mês, leva para casa, descontados Imposto de Renda e Previdência, 84% do seu salário. Já alguém que ganha R$ 26.600 por mês, leva 74%.

Um profissional holandês, por exemplo, pode contar apenas com 55% de seu salário, e mesmo um norte-americano traz para casa menos que um brasileiro: 70%.

Ao mesmo tempo em que descobríamos a vida tranquila dos ricos brasileiros, chega a notícia de que a quantidade de milionários no Brasil aumentou 5,9% em 2010, atingindo a marca de 115,4 mil pessoas com fortuna de, ao menos, US$ 1 milhão.

O que não deveria nos surpreender. Afinal, vivemos em um país onde o processo de concentração de renda está tão institucionalizado que as classes mais abastadas têm um sistema de defesa de seus rendimentos sem par em outros países industrializados.

Dentro de alguns anos, a chamada nova classe média descobrirá que não conseguirá mais continuar sua ascensão social. Entre outras coisas, ela tomará consciência de como seu orçamento é brutalmente corroído por despesas com educação e saúde.

Um Estado preocupado com seu povo taxaria os ricos e as grandes fortunas a fim de ter dinheiro suficiente para criar um verdadeiro sistema público de educação e saúde.

Por que não criar, por exemplo, um imposto sobre grandes fortunas vinculado exclusivamente à educação? Isto permitiria que essa nova classe média continuasse sua ascensão social.

Tal ascensão seria ainda mais facilitada se a carga tributária brasileira parasse de privilegiar o consumo, e focasse a renda. Uma carga focada no consumo, ou seja, embutida em produtos, é mais sentida por quem ganha menos.

Há pouco, um estudo mostrou como o 0,1% mais bem pago no Reino Unido recebia, em 1979, 1,3% dos salários.

Hoje, recebe 5% e, em 2030, deve receber 14%.

Costuma-se dizer que uma das maiores astúcias do Diabo é nos convencer de que ele não existe. Uma das maiores astúcias do discurso conservador é nos convencer, diante de dados dessa natureza, de que conflito de classe é um delírio de esquerdista centenário.

Mesmo que vejamos um processo brutal de concentração de renda institucionalizado e intocado por qualquer partido que esteja no poder, mesmo que vejamos a tendência de espoliação dos recursos de países industrializados por camadas mais ricas da população, tudo deve ser um complô dos incompetentes contra aqueles que bravamente venceram na vida graças apenas a seu entusiasmo e capacidade visionária, não é mesmo?

27 junho 2011

Fala Palmério!



Assim como existe carro-forte, existe armário-forte. O do Caso FHC-Miriam Dutra não abria nem com pé-de-cabra até abril de 2000, quando Caros Amigos veio com a primeira reportagem sobre o assunto. A revista entrega o jogo logo de cara. “Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo” é o título que ocupa toda a capa. Não entra em tricas nem futricas, denuncia o silêncio dos grandes grupos de comunicação diante de “Um fato jornalístico”, como diz o título da reportagem.

Por isso, os jornalistas que assinamos a matéria de 6 páginas – eu, Sérgio de Souza, Mylton Severiano, Marina Amaral, José Arbex e João Rocha – deixamos de lado quase todos os detalhes que cercam o romance para ir fundo no essencial: por que, quando lhe interessa, a mídia publica que Fulano ou Cicrano teve caso fora do casamento; e naquele caso, passou uma década escondendo o caso FHC-Miriam Dutra. Então, em 2000, não era o caso de contar que...

... o caso de amor começa com a bênção de outro par constante, Alberico de Souza Cruz, o todo-poderoso diretor de jornalismo da Rede Globo, e Rita Camata, a bela deputada federal do PMDB, sensação do Congresso, mulher do senador capixaba Gerson Camata, que um dia seria candidata a vice de Serra nas eleições presidenciais de 2002.

... mais saborosa que a pauta da Constituinte, as andanças do quarteto na noite brasiliense eram o grande assunto nos círculos políticos e nas redações. Contudo, os diálogos e as situações vividas por eles não renderam um mísero gossip em coluna social alguma.

... o bafafá com status de rififi que se instalou no gabinete de Fernando Henrique, ouvido no corredor por jornalistas do naipe de Rubem Azevedo Lima, e presenciado por seus assessores, quando Miriam Dutra foi comunicar-lhe a gravidez, seria digno dos melhores bordéis do Mangue – “Rameira!”, xingava o senador aos berros. Tudo com direito a efeitos especiais, arrematados por um chute de bico de sapato de cromo alemão no circulador de ar.

... a operação cala-a-boca-da-Miriam foi organizada por uma força-tarefa: Alberico de Souza Cruz; o então deputado federal José Serra; e Sérgio Motta, que tinha coordenado a campanha de Fernando Henrique para o Senado, seu amigo mais íntimo.

... o trio maravilha se desdobra. Providencia a mudança da futura mamãe para apartamento mais confortável na Asa Sul – ao botar o colchão no caminhão, um dos carregadores alisou-o e disse para os colegas: “Este é do senador” (ah, esse povo brasileiro); e, depois do nascimento da criança, na medida em que se projetava a candidatura de Fernando Henrique à presidência, tratam de mudar Miriam para outro país. No caso, Portugal, onde a Globo era parceira da SIC – Sociedade Independente de Comunicação, primeira estação portuguesa de televisão privada. Aí a repórter iniciaria a longa carreira de última exilada brasileira, que chega aos nossos dias.

... Ruth Cardoso, antropóloga, pouco ficava em Brasília. Tocava vida própria em São Paulo, o que facilitava o caso extraconjugal do marido.

... Fernando Henrique não contou para Ruth Cardoso o caso extraconjugal durante certa viagem a Nova York como se propala, mas numa casa isolada nos arredores de Brasília, onde o casal descansava nos fins de semana. Foi pouco antes dele assumir a candidatura. Não se sabe, claro, o que conversaram. O certo é que, por volta das oito da manhã, jornalistas que ali davam plantão, viram um Gol sair em disparada, com Fernando Henrique ao volante e a mulher ao lado. E foram atrás deles até o hospital Sarah Kubitschek, onde o casal desapareceu.

.. a futura primeira-dama reapareceria com um braço na tipóia no saguão do hospital; ao ser abordada pelos repórteres, perdeu sua habitual presença de espírito e afastou-os, quase explodindo:

“Me deixem em paz!”

SEGREDOS DE POLICHINELO

Não havia, como não há hoje, jornalista em Brasília que não soubesse de tudo quanto se passa, às claras ou nos bastidores. Segredos de polichinelo. Veja fez uma reportagem, mandou repórter atrás de Miriam na Europa (não por coincidência, Mônica Bergamo, que viria a dar na Folha, em 2009, a notícia do reconhecimento do filho adulterino por Fernando Henrique, 18 anos depois). Mas, naquela época, a semanal nada publicou. Nós também fomos atrás dela na Espanha, onde Miriam passou a morar depois de Portugal – “Perguntem para a pessoa pública”, foi a única coisa que deixou escapar. Ao mesmo tempo, fomos atrás de uma história que envolveu toda a imprensa. E volta a envolver: a história de Tomás Dutra Schmidt. Que a maioria dos colegas, na sua anglofilia, transformou em Thomas. Está lá, no registro do cartório Marcelo Ribas, conforme cópia autenticada obtida por Marina Amaral, a quem bastou sair do hotel em Brasília, atravessar a pista e entrar no edifício Venâncio 2000, primeiro andar, onde a avó materna de Tomás foi declarante do nascimento, ocorrido a zero hora e quinze minutos de 26 de setembro de 1991.

Por que tanto segredo?, perguntamos a todos os jornalistas que ocupavam postos de comando nas publicações em que trabalhavam durante a campanha presidencial de 1994. Cada qual apresentou suas razões. Alguns simplesmente desqualificaram o fato. Outros apelaram para a uma ética jornalística válida apenas para FHC. Outros confessaram ainda que guardavam matéria “de gaveta” para a eventualidade de um concorrente sair na frente.

Tentando fazer Caros Amigos sustar a matéria, houve vários tipos de pressões, relatadas uma a uma na reportagem. Algumas sutis, outras ostensivas. Um amigo jornalista me acenou com emprego público na Petrobras, durante almoço na cantina Gigetto, quando julgavam que eu era o único autor do trabalho. Tinha sido enviado pelo lobista Fernando Lemos, cunhado de Miriam Dutra. O mesmo Lemos que mandou um dublê de jornalista e lobista à redação de Caros Amigos, dizendo estar intercedendo em nome da própria jornalista da Globo, o que ela negou de pés juntos lá em Barcelona. Um deputado federal do PT ligou-nos para dar “um toque”. Disse que o Planalto estava preocupado com “uma matéria escandalosa” que estaríamos fazendor. O afável colega Gilberto Mansur chamou Sérgio de Souza e seu sócio Wagner Nabuco de Araújo para jantar no Dinho’s Place da avenida Faria Lima. Começou suave, ponderando que a revista ia criar problemas para si própria, que aquele assunto era irrelevante, que, deixando aquilo pra lá, Caros Amigos passaria a ter o mesmo tratamento da grande imprensa em matéria de anúncios estatais. Vendo que Sérgio de Souza era irredutível, deixou claro que podíamos esquecer a publicidade oficial se publicássemos a matéria – o que já acontecia na prática.

ETERNAMENTE OTÁRIO

Na época, Gilberto Mansur, ex-diretor da revista masculina Status, um mineiro maneiro, era braço-direito do publicitário Agnelo Pacheco, que havia conquistado a confiança do secretário de Comunicação de FHC – e homem das verbas publicitárias, portanto. Falamos do embaixador Sérgio Amaral, porta-voz da Presidência, que o colunista de humor José Simão chamava de “porta-joia”, sempre com a pose de “nojo de nóis”. Juntos, Agnelo e Amaral “operavam” a Caixa Econômica Federal. Agnelo adorava dizer que era um dos depositantes do “Bolsa Pimpolho”, que financiava a vida de Miriam Dutra e seu filho no continente europeu.

O que não tem a menor relevância perto do Custo Brasil para alimentar a conspiração de silêncio em torno do romance. Existem hoje, no eixo Brasília-São Paulo, grupos de picaretas que ficaram ricos graças a esse adultério, bem como ao falso DNA agora brandido pela família Cardoso, a fim de evitar mais um herdeiro a dividir l’argent que FHC vai deixar. Absolutamente contra sua vontade, FHC cai de novo na boca do povo. Mesmo nas edições online dos grupos de comunicação que tanto faturaram para esconder o romance, seus leitores vêm com pérolas, tais como este comentário sobre a notícia da Folha do teste de DNA negativo, repercutindo nota da coluna Radar, de Veja – autora do furo:

A GLOBO DEU GOLPE DA BARRIGA EM FHC: O Brasil pagou caro essa pensão. FHC, quando era ministro da Fazenda, isentou de CPMF todos os meios de comunicação. Em 2OOO houve o Proer da mídia, que custou entre US$ 3 e US$ 6 bilhões aos cofres públicos. Ele também mudou a Constituição para permitir que a mídia brasileira, então falida, pudesse contar com 30% de capital estrangeiro. E autorizou que o BNDES fizesse um empréstimo milionário à Globo.

Ricardo J. Fontes: DNA falso você pode conseguir com qualquer R$ 10 milhões em qualquer esquina de São Paulo ou Washington, onde Tomás estuda. Mas, se FHC de fato não for o pai, o Brasil merece conhecer o pai verdadeiro, o homem que tomou dinheiro dos Marinhos e de FHC durante 20 anos e carimbou de vez o ex-presidente como, além de entreguista, zé-mané, trouxa, pangaré, terceirizado. Enfim, otário.

Cair para cima

Muita gente pergunta por que determinados profissionais de grandes corporações cometem erros escandalosos e mesmo assim continuam à frente dos cargos de decisão. E quando saem dos holofotes, geralmente passam a ocupar postos cuja nomenclatura, tamanho da sala e abrangência fazem acreditar que foram promovidos e não encostados. Funciona assim sempre que é impossível se livrar de determinado funcionário. E por que isso acontece? Geralmente porque ele sabe demais. E por saber demais pode ter alto "valor de mercado" para a concorrência.

Mas não é só isso. Normalmente, os profisionais alçados à essa condição, demonstraram ao longo do tempo, que o négocio do patrão é mais importante do que todo o resto. Inclui-se aí a vida conjugal, a família, os amigos e o lazer. O sujeito não se importa em dedicar todo o tempo necessário aos projetos empresariais do grupo. E ao frequentar os salões dos poderosos passa a ter acesso aos "segredos do negócio".

Grandes grupos têm interesses que fariam ruborizar o cidadão comum. Por exemplo, chantagear um prefeito para conseguir terreno para a construção de um novo parque gráfico. Ameaçar um político, porque conhece sua vida extra-conjugal. Aprovar um projeto de habitação popular com casas pré-fabricadas importadas com "exlclusividade" de um "parceiro" no exterior. Desqualificar um ministro para vender livros didáticos de determinada editora ao governo...

Empresas grandes tem muitos tentáculos. Quem serve a esses interesses acaba tendo acesso a informações privilegiadas demais para ser contrariado depois. É por isso que o patrão tem que tolerar os excessos e para ser ver livre de seus serviçais se vê obrigado a premiá-los adiante. Quanto mais ambicioso e predador for este vassalo, mais caro ele custará depois. Por isso, o melhor é que ele caia para cima, sempre.

O risco é a estrutura ficar lenta, onerosa e burocrática demais depois de criadas tantas "ilhas de influência". São gerências, chefias, supervisões, diretorias, diretorias de divisão, diretorias de núcleo, diretorias de centrais, diretorias de comitês, vice-presidências... Um exército de "caciques" e assessores maior às vezes que o agrupamento de "índios". E haja "ração" para alimentar tantas bocas...

25 junho 2011

A falsa paternidade de FHC

Uma mácula pessoal assombrou durante muitos anos a vida particular do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quando senador, num romance secreto com uma então repórter da TV Globo, Mirian Dutra, FHC teria engravidado a amante. Para apagar o incêndio, a emissora transformou a jornalista em correspondente na Espanha.

Durante o periodo em que gestou e cuidou do menino, Fernando Henrique nunca faltou como pai, seja para visitá-la eventualmente, seja para dar apoio financeiro. Houve uma ocasião em que o correspondente de Londres num encontro íntimo teria perguntado à queima-roupa: "O que está faltando para o senhor assumir esse menino?"



Em dois mil e nove Fernando Henrique não só o reconheceu num cartório espanhol, como incluiu o filho em seu testamento. Só que Tomás não é filho dele, como revelaram dois exames de DNA, um deles feito no começo deste ano. A notícia foi divulgada pelo jornalista Lauro Jardim, em sua coluna desta semana na revista Veja.

Fernando Henrique se apaixonou por uma jovem que talvez não tivesse tanto compromisso assim com o senador. Para Tomás, a notícia pode ter efeito danoso para a formação da personalidade do rapaz, que deverá seguir perguntando: quem é meu pai? Para o ex-presidente nada muda. FHC mandou avisar que ele continua a considerar o menino um filho.

Só resta saber se a jornalista - até hoje na emissora - agora não será despedida por justa causa. Que drama, não? Às vezes, só fumando um baseado mesmo, para acreditar!

22 junho 2011

O fim do pensamento único


por Ricardo Kotscho

De tanto combater as várias formas de autoritarismo, parece que a imprensa passou também a praticar algumas delas _ a começar pelo pensamento único, que obriga todo mundo a rezar pela mesma cartilha conservadora, partidária e preconceituosa de muitas empresas da chamada grande mídia nacional.

A estrutura hierarquizada, a disciplina, os interesses e os dogmas das nossas grandes redações só podem ser comparados aos que vigoram nas Forças Armadas, que na época estavam do outro lado do front.

Pertenço à geração que combateu o Ato Institucional nº 5, também conhecido por AI-5, e hoje noto, com tristeza, em alguns manuais de redação e práticas profissionais, que tem muita gente ainda pensando e agindo como na época em que mandava quem podia e obedecia quem tinha juízo.

O pior é que a maioria dos profissionais aceita passivamente o prato feito do pensamento único, imposto de cima para baixo, sem discussão. Nem é preciso dizer o que pode e o que não pode ser feito em determinado veículo para conseguir e garantir o emprego. Está implícito.

É claro que me refiro ao espaço do noticiário e não à parte editorial, que é onde cada empresa pode e deve expor sua opinião.

Pois, no momento, temos dois tipos de autoritarismo: o das empresas, que querem editorializar o noticiário, de acordo com as suas preferências políticas e ideológicas, e a atitude arrogante de muitos jovens e velhos jornalistas, mais preocupados em dar e impor suas opiniões aos outros do que em contar o que está acontecendo.

O leitor fica sem saber até onde vai o noticiário e onde começa a opinião. Ainda bem que inventaram um negócio chamado internet para quebrar estes oligopólios dos donos da verdade e do saber.

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A Ética a partir da Solidariedade


por Mauro Santayana

A ética é o exercício radical de solidariedade. Essa solidariedade se exerce primeiro entre os da mesma nação, da mesma pátria. O mundo é dividido pelas fronteiras físicas, culturais e políticas. Por isso mesmo, a solidariedade começa na soberania nacional. Temos que ser solidários primeiro conosco: com nossa família, nossos amigos, nossos compatriotas, para depois ampliarmos essa solidariedade ao continente e ao mundo. Não basta aos governantes e seus agentes – como não basta aos cidadãos comuns – o exercício da solidariedade em medidas políticas coletivas. Ser solidário é também não desviar os recursos comuns da sociedade, mediante o peculato, a prodigalidade com os recursos públicos, o conluio entre a política e os negócios.

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21 junho 2011

O desencarne de Lula

Lula ganha prêmio nos EUA por combater a miséria, da agência Estado

No momento em que o Brasil faz campanha pela eleição de José Graziano para o comando da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), seu principal cabo eleitoral, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi anunciado hoje como um dos ganhadores do prêmio World Food Prize de 2011. Além de Lula, foi contemplado também o ex-presidente de Gana John Agyekum Kufuor. Os dois foram agraciados pela criação de políticas públicas que aliviaram a fome e a pobreza em suas gestões.

O anúncio aconteceu na manhã de hoje no Departamento de Estado dos Estados Unidos, em Washington. A cerimônia de entrega do prêmio acontecerá em 13 de outubro em Iowa (EUA). O World Food Prize existe desde 1986 e premia personalidades que tiveram contribuições significativas para o fim da fome.

No comunicado, a World Food Prize Foundation diz que Gana e Brasil devem ir além das metas do Milênio da ONU, que estabelece a redução da pobreza pela metade até 2015. Lula e Kufuor são elogiados pela liderança e por criarem um modelo de combate à miséria que serve de exemplo para todas as nações.

O ex-presidente brasileiro ainda é destacado por colocar 10 ministérios de sua administração trabalhando para a expansão do Fome Zero. "O Fome Zero se transformou rapidamente em um dos mais bem-sucedidos programas de segurança nutricional e alimentação no mundo através de sua ampla rede de programas", destaca o documento.

"Eu estou emocionado de saber que o Brasil foi escolhido como um País que conseguiu boas políticas na área da agricultura e combate à fome. O Brasil tem muito a mostrar na área de segurança alimentar. E nós queremos compartilhar nossa experiência com outros países, especialmente da África e os países mais pobres da América Latina - tanto nosso conhecimento técnico, quanto do ponto de vista da produtividade e distribuição de alimentos", disse Lula, segundo nota distribuída por sua assessoria.

No domingo, Lula publicou um artigo no jornal inglês The Guardian defendendo a candidatura de Graziano. Ele foi ministro da Segurança Alimentar e do Combate à Fome durante seu governo. A sucessão na entidade só será definida em congresso, que começa dia 25 de junho, em Roma.

Para poucos, muito poucos

do Diário de Notícias, de Portugal

Quem vai segue as regras: não fala sobre o convite, o local, a agenda, as expectativas, sobre nada. Quem já lá esteve desmitisfica: é uma reunião interessante, povoada de gente muito bem informada e influente, mas sem a aura de secretismo e conspirativa que muitos lhe atribuem. A conferência anual de Bilderberg, em que Pinto Balsemão (ex-primeiro ministro de Portugal e fundador do PSD - grifo meu) é o único português com estatuto de membro permanente, começou ontem e decorre até domingo em St. Moriz, na Suíça.

"Faz parte do protocolo, não faço qualquer comentário." Esta foi a única frase que Clara Ferreira Alves (cronista do Jornal Expresso, de Portugal - grifo meu) aceitou dizer ao DN sobre a sua participação no restrito clube que se reúne uma vez por ano juntando algumas das pessoas mais influentes a nível mundial entre chefes de Estado e de Governo e outros dirigentes políticos, líderes de empresas, banqueiros.

Como é da praxe, a agenda e a lista de convidados não foram divulgadas, mas quarta-feira já eram visíveis as movimentações nas imediações do centenário hotel Suvretta e o apertado sistema de segurança chamava a atenção.

Por indicação de Pinto Balsemão, a jornalista do Expresso e o economista António Nogueira Leite foram os dois portugueses convidados este ano a conviver de perto com o exclusivo grupo que muitos classificam de secreto e a quem atribuem um forte poder. Como uma espécie de "mão invisível" que controla e orienta decisões-chave em momentos chave, pelo mundo fora.

Quem já participou recusa as teorias da conspiração. "Aprendi muito, conheci pessoas muito interessantes, mas foi uma reunião igual a tantas outras." Carlos Pimenta, então porta-voz do Parlamento Europeu para os assuntos do clima, participou na conferência há exactamente 20 anos. Há pormenores que já não recorda e experiências que nunca mais esqueceu. "Encontrei lá Bill Clinton", lembrando "o magnetismo" que o então jovem governador do Arkansas exercia sobre quem se cruzava. Em 1991, o mundo acompanhava as mudanças no Bloco do Leste e foi esta a questão dominante dos debates. Mas também se falou de clima.

Das recordações que Carlos Pimenta guarda não constam secretismos ou excessos de segurança: "Não tenho a sensação de ter participado em nenhuma reunião conspirativa", refere, acrescentando que chegou ao local (um resort numa pequena cidade alemã) conduzindo o seu carro. "Se houve reuniões fora de horas em salas escondidas, não vi nem fui convidado", ironiza.

Ao volante do seu próprio carro foi também como Nicolau Santos chegou ao encontro que teve por palco a Penha Longa. E também o director adjunto do Expresso recusa as teorias da conspiração. Recorda o estilo informal ("estávamos sentados por ordem alfabética [do último nome] e por isso fiquei ao lado de Jorge Sampaio"), o profundo conhecimento dos oradores e o interesse dos debates.

Surpresas? Algumas: "Vai-se para um encontro destes a imaginar que apenas se vai ouvir falar das grandes questões geoestratégicas, mas houve um debate muito interessante sobre transgénicos."

Mas a geoestratégia dominou, de facto, o encontro em que Manuel Pinho participou, lado a lado com a Rainha de Espanha. "Foi uma experiência muito interessante" que não se importaria de repetir. Nesse ano, em 2009, ainda não se falava da crise grega e o clube reuniu-se em Atenas.

Este ano, a agenda ainda não foi divulgada, mas a crise do euro está certamente em cima da mesa. No seu site (http://www.bilderbergmeetings.org/index.html) o Clube de Bilderberg explica brevemente como surgiu, as regras dos encontros, por que motivo estes se realizam e refere locais e agenda dos encontros até à edição de... 2010.

20 junho 2011

Plim plim: decifrando os sinais

Alertado por Paulo Henrique Amorim fui checar a informação de quem é o primeiro e o segundo na hierarquia da TV Globo: No início do mês de julho de 2009, Ali Kamel foi promovido ao cargo de diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ), que era ocupado antes por Carlos Henrique Schroder.
Na ocasião, Schroeder passou para a Direção Geral de Jornalismo e Esporte (DGJE), ou seja, caiu para cima. Neste caso, sustento o primeiro e segundo lugares com o argumento de que nem sempre quem tem poder de fato o tem de direito. Mas numa coisa o PHA tem razão: no papel o Ali é segundo.

Chama atenção a dança das cadeiras na TV Globo por várias razões. Primeiro, quem fez o anúncio foi Carlos Henrique Schroder, o número dois, e não Ali Kamel, o número um. Corre pelos corredores da emissora a notícia de que Ali atualmente não apita mais tanto quanto antes. Contribuiram para sua derrocada, o tipo de jornalismo que ele empreendeu, desde que assumiu, centralizando as decisões e condicionando a cobertura à sua vontade (ou seria à vontade expressa do patrão?). Outro episódio definitivo para a queda teria sido o "bolinhagate", a tentativa de comprovar que o então candidato à presidência José Serra tinha sofrido um traumatismo craniano, depois de atingido por uma bolinha de papel.

Até o perito Ricardo Molina foi convocado às pressas para dar legitimidade ao caso, que atingiu em cheio a credibilidade da emissora. Sabe-se que naquela noite o Jornal Nacional foi vaiado pelos próprios jornalistas e que, em Brasília, a exemplo do que aconteceu em São Paulo em 2006, a diretora de jornalismo Silvia Faria teria dito o mesmo que Mariano Boni em São Paulo, anos antes: "quem não estiver satisfeito procure a Record".

Quem frequenta a emissora conta que, agora, raramente Ali desce do quarto andar onde se refugiou para escrever seus artigos, comprar suas polêmicas e processar seus "detratores". Agora há dois subalternos que fazem o serviço para ele no Jornal Nacional: Renato Ribeiro (ex-editor chefe do Jornal Nacional) e Luis Claudio Latgé (ex-diretor de jornalismo de São Paulo). Ali só é consultado quando o assunto é muito cabeludo.

O sinal já havia sido dado no começo do ano, quando o diretor superintendente Octávio Florisbal anunciou em alto e bom som que o jornalismo da emissora ía mudar. Recente pesquisa mostra preocupação com os índices de audiência do jornalismo, sobretudo no periodo matutino onde, não raro, a emissora amarga o segundo lugar durante toda a manhã.

Não por acaso a dança das cadeiras começou por Renato Machado, que será uma espécie de embaixador em Londres. Para quem gosta de vinho e música clássica, como ele, é um prêmio e tanto para quem se dedicou 15 anos ao Bom Dia Brasil, acordando às 4 horas da manhã. Renato estará a um passo de Paris, Geneve, Roma e Frankfurt. É tudo o que ele sempre pediu a Dionísio.

Para o seu lugar assume Chico Pinheiro. O veterano jornalista e apresentador vai tentar popularizar o jornal. Está sendo reabilitado depois de amargar uma geledeira no SPTV. É sinal também de que a emissora está disposta a atrair os extratos mais à esquerda do espéctro político de seu público. Chico - como antítese de Renato - é a MPB e a caipirinha no poder.

Outra veterana da apresentação, Mariana Godoy, segue agora para o Jornal das 10 da Globo News, reflexo do incômodo causado pela chegada de Heródoto Barbeiro à Record News. Para o seu lugar vai César Tralli, que realiza um sonho antigo, que é ocupar uma bancada de telejornal. Na reportagem ele se consagrou, mas pagou um preço muito alto: os colegas detestam seu estilo e seus modos, considerados por muitos bastante pragmáticos, se é que podemos dizer assim.

Se a volta de Schroder pode aplacar os ânimos? Só o tempo dirá. Minha aposta é que sim. Ele tem o apoio da família Marinho e uma capacidade de sobrevivência invejável. Ele pode ser reabilitado e quem sabe a emissora faça as pazes com a notícia. Talento dos colegas e recursos técnicos não faltam. Mas como na Globo tudo demora um pouco, as mudanças só virão quando entrar setembro. Portanto, o inverno tem tudo para ser quente.

19 junho 2011

Marchar pela Liberdade, ainda que tardia

por Jorge Bichuetti

A velha política não consegue na sua miopia enxergar a potência insurgente dos novos movimentos sociais...
No Brasil, quarenta cidades realizam com sucesso a Marcha da Liberdade...
A luta continua...
Penso que é necessário organizar e intensificar o debate democrático sobre a descriminalização da maconha e do direito de cultivo.
Porém, cabe incluir e expandir a luta...
Temos Belo Monte, o Código Florestal, a Comissão da Verdade, o PLC 122/06 ( que criminaliza a homofobia), temos as lutas sociais por direitos e pela vida que são a mesma da Marcha da Liberdade...
A hora é de lutar... A hora é de participar... Expressar, questionar, intervir...
A vida voa nas asas da liberdade...
E a liberdade é a matriz do mundo solidário.
Sem liberdade, sem solidariedade, a vida fenece na escuridão vazia da desumanidade..

para ler todo o conteúdo aqui.

18 junho 2011

Al Jazeera por quem viu de perto


Já contei aqui no blog como a Al Jazeera foi importante nos tempos em que a TV Globo ainda gostava de fazer jornalismo de qualidade. Tenho o prazer de trazer aos frequentadores a visão da colega jornalista Bia Barbosa, que esteve lá dentro vendo de perto como é feito telejornalismo com qualidade e credibilidade. A entrevista foi feita por Eduardo Sá, Gabriel Bernardo e Jean Oliveira, ontem, para o site Fazendo Mídia. Aproveite!
 
De onde surgiu essa ideia de ter uma experiência na Al Jazeera e como você chegou até lá?

Eu sempre acompanhei a Al Jazeera, todos nós jornalistas da imprensa progressista e alternativa temos nela uma fonte de informação importante, e tive a felicidade da minha família morar em Doha por um ano. O meu pai está trabalhando num projeto para o governo do Qatar. Quando eu decidi que ia para lá no final do ano passar férias, achei que era uma possibilidade interessante de tentar uma experiência na Al Jazeera. Decidi ficar lá um mês e meio e entrei em contato com eles solicitando a possibilidade de fazer um estágio.

Meu objetivo não era fazer um trabalho remunerado e eles acharam interessante o meu currículo, e precisam sempre de gente lá. No dia 3 janeiro eu comecei, acabou sendo mais que um estágio, e fiquei um mês dentro da sede da Al Jazeera. Eles têm vários canais e eu fiquei no canal de notícias em inglês. São 65 escritórios em países diferentes, mas a sede é em Doha, onde fica a maior parte da estrutura dos canais. O canal inglês é como se fosse uma CNN, uma BBC, um canal de notícias 24 horas. A Al Jazeera já existia no país mas virou uma televisão internacional durante a guerra do Iraque, e o canal inglês foi lançado em 2006. Ele é voltado para o exterior, mas também passa na televisão aberta do Qatar em inglês. Até porque o Qatar é um país que tem 2/3 da sua população de estrangeiros.

Eles estão presentes em mais de 60 países com correspondentes?

O English Chanel, como eles chamam, tem escritórios em 65 países e os dados deles apontam para jornalistas em 60 países em todos os continentes, inclusive na América do Sul e África. Eles têm um correspondente no Brasil, o Gabriel Elizondo, que fica aqui em São Paulo mas viaja o Brasil, cobre muito o Congresso também. Eles têm alguns colaboradores freelancers também, dependendo da demanda ou da própria disponibilidade do Gabriel. Já o canal árabe, por exemplo, não tem correspondente no Brasil. Nos mesmos moldes desse canal de notícias em inglês, eles têm um canal árabe 24 horas. Não me peçam para fazer uma avaliação desse canal porque eu não falo árabe (risos).

O que você fez nesses 30 dias por lá em janeiro? Trabalhou como qualquer outra jornalista?

Trabalhei como uma jornalista, porque o English Chanel da Al Jazeera tem dois grandes departamentos: o que a gente pode chamar de hard news e o de programas. Naquele são notícias que vão entrando 24 horas com um apresentador de estúdio, com notícias que se repetem ao longo da programação. Essa parte é gerada por 4 países ao longo das 24h, de acordo com o fuso horário: 12 horas são geradas da sede de Doha, no Qatar, e 4 horas de Kuala Lumpur (Malásia), 4 de Londres e 4 de Washington. Se eles quisessem eles poderiam manter um equipe 24h gerando isso de Doha, mas tem ai também uma questão de ter sedes em outros países e uma geração local desses centros de geração de informação.
O outro departamento é de programas de meia hora ao longo do dia. Então é meia hora de um programa e meia hora de jornalismo ao vivo, bem semelhante à Globo News. Inclusive o padrão de estúdio é muito parecido com esses grandes canais internacionais de jornalismo. Eu fiquei no departamento de programas, e senti que é onde a Al Jazeera dá o seu diferencial na cobertura jornalística: à exceção da cobertura dos países árabes, porque aí eles têm uma especialidade e muito mais equipe. Onde a Al Jazeera aprofunda os temas, é plural de forma mais explícita, faz um enfrentamento editorial nas pautas que ela acha que precisa ser feito, é nos programas jornalísticos.

Eu fiquei trabalhando para eles basicamente como auxiliar na montagem de um programa de economia sobre mercados emergentes. Eles queriam falar do Brasil, da China e da Índia, não sei por que a Rússia não estava, não era uma coisa dos Bric’s, e estavam começando a produzir um piloto desse programa que ainda não foi para o ar. Eu fiquei passando informações e contribuindo um pouco para eles montarem esse programa de economia.

Você tem algum exemplo latente para demonstrar?

Na última semana que eu estava lá começou a ocupação da praça Tahrir e do Mubarak. Eles faziam esses programas de meia hora indo fundo na questão do Egito, muito além do que você conseguia dar no noticiário 24 horas. Nesses programas que eles aprofundavam a história e as origens e consequências, e entrevistavam pessoas. Programas de debate, que é uma coisa que a gente só tem no Brasil pela Globo News, na TV por assinatura para quem pode pagar, são muito comuns lá. Na grade de programação deles tem debate sobre literatura, sobre a conjuntura, uma série de documentários que eles fragmentam em meia hora, tem programas sobre a Ásia, etc. Então nesses programas eles conseguem mostrar um diferencial maior, não é que não tenha diferença na cobertura no hard news, claro que tem.

Saindo um pouco dessa questão jornalística, indo um pouco para a política, a Al Jazeera é uma TV estatal do governo do Qatar?

Ela é estatal porque é totalmente financiada pelo governo do Qatar, mas o ethos dela, se a gente pode falar assim, é público. Ela não tem mecanismos de participação popular, mas a programação não é de uma emissora estatal, é de uma emissora pública. Eu não consegui avaliar a cobertura do canal árabe, que é onde talvez a influência do governo se manifeste de forma mais explícita porque é o canal que é diretamente voltado para a população de lá, mas no canal inglês eu não senti da cobertura que era feita e nem dos programas onde eu estava contribuindo qualquer ingerência do Qatar. Não ouvi falar nem de bairros vizinhos ou jornalistas coisas do tipo. Não tem propaganda, nesse mês que eu fiquei lá só vi uma matéria sobre o Qatar que falava de uma parceria do governo com os países árabes de um poço de petróleo descoberto no golfo pérsico.

A rede promove vários eventos públicos e debates sobre temas da conjuntura, e eu participei na última semana de um fórum de liberdade de expressão e jornalismo online, porque eles estavam discutindo os blogueiros do mundo árabe a partir da questão das redes sociais no Egito e na Tunísia; nos outros países ainda não tinha estourado as revoluções. E eles levaram blogueiros de todos os países pró e contra seus respectivos governos, e fizeram a transmissão ao vivo do evento no canal árabe por dois dias inteiros. E teve críticas ao governo do Qatar em relação a determinadas restrições da liberdade de imprensa no país em outros veículos, e os dois dias do evento foram transmitidos ao vivo sem nenhum tipo de corte.

A Al Jazeera compra um tipo de enfrentamento político com vários governos da região, com uma autoridade jornalística maior porque tem gente in loco e conhecimento maior para cobrir essas questões como a CNN e BBC. Em vários países as equipes dela já foram expulsas por estarem denunciando fatos e informações que desagradam politicamente os governos dos países árabes. A Al Jazeera é adorada pelo povo e muitas vezes detestada pelos governantes.

Essa linha editorial de enfrentamento a outros governos árabes é uma coisa da redação ou uma orientação política pelas relações que o governo do Qatar tem com outros países na região?

O pouco tempo que eu fiquei lá e o contato que tive com a direção da empresa não me permite te responder isso com certeza. A minha avaliação pessoal é que não, eu acho que não é orientação do governo do Qatar, é jornalística. Inclusive porque não é um tipo de jornalismo meio factóide, é algo que faz uma cobertura da realidade que está acontecendo. Então se o país está em greve, se os sindicatos estão nas ruas, se a população está protestando contra alguma coisa, se está morrendo gente nos hospitais, tem fatos ali que precisam ser mostrados e eu sinto que a Al Jazeera não se nega a mostrar isso independente de divergências políticas que ela vai ter com o governo desses países.

Se a gente for olhar é claro que tem contradições no governo do Qatar, por isso que não posso dizer não tem ingerência editorial. A Al Jazeera é uma emissora muito crítica no seu jornalismo ao governo dos Estados Unidos, daí inclusive o espaço que ela ocupou internacionalmente além de ter informações que grandes emissoras internacionais de notícias não têm. Mas se você for olhar, o governo do Qatar abriga uma base de soldados americanos no seu território, tem uma cidade no norte do Qatar que é base deles no golfo, o que mostra que tem interesses de governo em manter algum tipo de aliança com o governo dos EUA. Mas se a gente for olhar a cobertura da Al Jazeera ela é quase como se fosse de um governo inimigo do governo dos Estados Unidos, porque ela é muito crítica.

A questão econômica e militar geralmente prevalece sobre a questão jornalística, ou seja, no caso da Venezuela eles metem o pau mas não param de vender petróleo para os EUA.

Mas isso também nos dá uma boa medida para a gente fazer uma avaliação de se tem uma ingerência. Isso atrai muito os jornalistas que vão trabalhar lá, e no English Chanel a imensa maioria deles na sede de Doha já passou por outros veículos como CNN e BBC. Eu acho que atrai pela possibilidade de fazer outro tipo de jornalismo, com mais liberdade que eles sentiam nesses outros canais. Então o fato de ser uma cadeia gigante, porque a Al Jazeera não é só o jornalismo, o fato dela ser totalmente financiada pelo governo do Qatar não impede, não sei se contraditoriamente, que esses jornalistas trabalhem com mais liberdade do que a que eles têm dado pelo mercado.

E qual a abrangência da Al Jazeera?

São 400 jornalistas, os números oficiais que eles dão são de 220 milhões de casas em mais de 100 países. A rede Al Jazeera tem 3 mil funcionários nesses 65 países, a maior parte desses escritórios estão no hemisfério sul. Eles têm uma opção de cobrir mais o sul mas cobrem muito bem o norte, tanto que tem Washington e Londres gerando conteúdo. Fazem parte de uma rede que não atende somente o English Chanel nem o canal árabe, eles têm 10 canais só de esporte em inglês e árabe. Um passa o campeonato espanhol de futebol, o outro o brasileiro, outro inglês, eu assisti jogo do Palmeiras lá. Eles fazem transmissão de jogo, é diferente de cobertura. Tinha, por exemplo, show de cantor árabe antes do jogo no palco e tudo com o banner da Al Jazeera, distribuindo brinde da emissora pro povo. Então se você pensar em termos de marketing de televisão, a Al Jazeera é muito mais poderosa do que a nossa Globo aqui, por exemplo.

Tem muita gente do ocidente na produção da Al Jazeera, então o oriente acaba sendo visto pelo ponto de vista ocidental. Não rola uma disputa de linguagem?

O English Chanel não se apresenta como um canal oriental, ele não afirma isso na sua linguagem. Eles se reivindicam como uma emissora internacional de cobertura. Eles falam que têm a maior expertise para cobrir a diversidade do mundo, é por isso que eles têm muitos correspondentes na Ásia, África, e no mundo Árabe como um todo. Mas eles põem os jornalistas locais. Quando eu falei de Washington é porque eles têm americanos que trabalham na Al Jazeera, e botam ele para falar da posição dos Estados Unidos.

Você teve contato com os jornalistas ou pessoas lá, a ponto de sentir como eles percebem a apresentação do Oriente pela mídia internacional?

Eu trabalhei diretamente com uma sulafricana e outra inglesa que tinha trabalhado na BBC, e muita gente de família árabe. Mesmo que as pessoas sejam de fora dos países, se você tem algum tipo de vínculo com o mundo árabe isso te favorece de alguma forma até no processo de seleção para trabalhar lá. O que eu senti não é nenhuma palavra de diretor da Al Jazeera nem nada disso, é que eles têm um desconhecimento muito grande das outras emissoras para falar de outra realidade. E o que eles buscam fazer é justamente ouvir a população, é uma rede internacional mas com um olhar local, feita a partir do locos original.

Então tem muitos estrangeiros na redação?

No canal árabe não, são todos árabes de vários países da região. Como eu não fiquei na redação árabe eu não sei te falar. As pessoas do país eram assim mais a secretária, os funcionários. Tinha um cara de origem árabe que veio do Canadá, tinha gente da Palestina, do Iraque. Eles tinham mais de uma equipe que cobriu a guerra do Iraque, eu conheci um dos câmeras man que virou blogueiro, esteve na batalha de Falluja, em 2003. A cidade ficou cercada e só tinha dois câmeras man lá dentro, foi um dos massacres da guerra do Iraque.

A Al Jazeera é só TV?

Não, tem o site com produção própria com várias matérias. Tem uma seção de análise também, eles têm uma equipe própria. Impresso não tem e rádio eu não vi nada, mas eles falam de broadcast, radiodifusão, então não sei te falar se eles tem rádio na TV. Na internet você pode assistir ao vivo a programação. Eu perguntei por que não passava no Brasil, e eles falaram que é uma boa pergunta. Deu a entender que existe uma dificuldade em função da concentração das empresas que controlam a TV por assinatura no Brasil, mas ninguém me falou isso oficialmente, ninguém disse “a Net não deixa a gente entrar”. Tem uma campanha no site deles para você assinar como cidadão americano e pedir a Al Jazeera nos Estados Unidos, porque ela não passa em algumas cidades. Na América Latina só tem na Argentina.

Você falou que o povo gosta muito da Al Jazeera, o povo tem voz na emissora?

Não tem mecanismos diretos de participação popular, mas conversando com os jornalistas você sente uma coisa de quando eles foram em campo sentir uma receptividade muito grande. Uma jornalista brasileira esteve na Jordânia num Fórum de comunicação e todos os jornalistas que estavam lá falavam que o povo árabe gosta muito da Al Jazeera, porque elas falam a verdade sobre o que os governos falam e as respectivas emissoras estatais não deixam vir à tona. Ela cumpre esse tipo de enfrentamento, é uma coisa dos próprios jornalistas falarem isso.

Quando eu estava lá a Al Jazeera divulgou uma série de documentos da negociação da autoridade Palestina com o governo de Israel, eles chamavam de Palestina papers, tipo um wikleaks da vida, um vazamento de documentos que mostravam que a autoridade palestina estava negociando meios de entrega do jogo para o governo de Israel. E a Al Jazeera tem um posicionamento institucional em defesa da causa palestina, eles cobrem sistematicamente, mostra todos os massacres de Israel.

Qual é desse governo do Qatar? Que país é esse politicamente falando?


O emir que dirige o Qatar é filho do emir anterior, lá é uma monarquia, é como se fosse um rei, o país é um emirado, não é por exemplo uma república. É um estado islâmico que tem na sua constituição a religião e não tem questionamento da monarquia, já é fato que vai ter um herdeiro, tudo é a família real que decide. Não tem congresso, não tem representantes eleitos pelo povo, e o filho mais velho do emir vai ser o próximo emir. Tanto que nos grandes eventos, como quando o Qatar ganhou a Copa, a cidade ficou enfeitada de fotos do emir com o filho dele carregando a taça.

O emir tem mais de 20 filhos com três esposas, cada um deles é ministro de alguma coisa. O chefe do meu pai, por exemplo, era um dos filhos do emir que era ministro da cultura. Para resolver qualquer coisa tinha que ir no palácio fazer reunião com o príncipe. Por que o pai desse emir saiu antes de morrer? Porque começou a haver um tipo de enfrentamento mais duro aos Estados Unidos pelo Qatar nos anos 90, de questionar posturas e falar publicamente contra, e o emir anterior tinha problemas de corrupção de desvio de recursos para fora. Não era uma coisa só de manutenção da família real, então juntou um pouco essas duas coisas e meio que os americanos falaram “você sai do governo ou a gente não vai mais considerar o Qatar um país parceiro”. E o atual emir se aliou com os Estados Unidos para derrubá-lo em 1995, então ele chega ao poder com um apoio considerável dos EUA que em função do recrudescimento da posição dos Estados Unidos no golfo pérsico vai diminuindo. Porque depois de 95 você teve guerra do Kwait, Iraque, a questão de Israel e Palestina se intensificou, então tem uma diminuição dessa parceria. Ainda mais agora com esses conflitos todos.

Por outro lado tem seus interesses também, que faz uma aliança com a Otan para tirar o Kadaf, por exemplo. Então se você me perguntar se é um governo progressista, não é porque direita e esquerda não existe lá, eu vou te falar que é um governo mais progressista que a sociedade. Tem várias questões de cultura islâmica muito arraigada na sociedade que o governo tenta mudar e tem uma resistência muito grande, a sociedade é mais conservadora que o governo. O maior problema do Qatar na minha avaliação é a questão dos trabalhadores migrantes, pois como eles não têm mão de obra e o país está crescendo, é o segundo maior exportador de gás do mundo, a construção civil bombando, os qatares se recusam a fazer o trabalho braçal e chama gente de fora. Não tem clandestino, não é igual ao mexicano entrando na fronteira dos Estados Unidos. Entra todo mundo com visto de trabalho, com moradia, com contrato de trabalho definido, só que rola uma exploração brutal desses trabalhadores. São pessoas de várias partes, mas a maioria de países árabes e o sudeste asiático.

Mas por outro lado o país não tem miséria?

Não tem miséria, não tem ninguém morando na rua, sem trabalho ou passando fome. Inclusive eles têm moradia, alimentação e transporte pagos pelas empresas, eles têm essas garantias. Só que tem uma coisa de trabalho quase escravo, porque se eles querem ir embora, por exemplo, tem empresa que retém o passaporte dos trabalhadores. O governo começou a consultar a população, abrir diálogos públicos, sobre a flexibilização da lei de patrocínio da ida daquelas pessoas para a empresa no país e 80% da população qatari é contra mudar a lei. Porque, afinal, eles vão perder os seus escravos particulares.

O que você, como militante pela democratização da comunição, acha disso e o que podemos fazer aqui no Brasil?

O modelo é muito diferente, ela nasce como uma empresa estatal e o fato de você ter o governo do Qatar botando dinheiro nisso para levar para o mundo inteiro, inclusive com essa campanha de pedir para a Al Jazeera passar nos Estados Unidos, é diferente do nosso modelo. Por mais que a Telesur, por exemplo, tenha buscado a parceria dos outros governos para fazer esse tipo de enfrentamento ela não encontrou respostas. A gente aqui no Brasil está engatinhando em relação a isso, estamos lutando para conseguir ter uma televisão pública nacional de fato. Uma com participação popular e que reflita os anseios da população brasileira em termos do seu exercício do direito da comunicação. A Al Jazeera vai ser sempre uma inspiração para a gente, não para copiar um modelo porque isso nunca vai acontecer aqui, de o estado brasileiro colocar recursos nisso e nem acho que esse deveria ser o caminho, mas pelo seu jornalismo.

Eu acho que assistir o jornalismo que a Al Jazeera faz nessas 24 horas por dia é um tapa na cara, de quão distante de um jornalismo independente e crítico a gente está. E acho que é para a gente assistir e ver como é possível fazer um jornalismo diferente. Um jornalismo crítico e que provoque o telespectador a pensar, e isso inspira a gente a seguir lutando por transformações no Brasil.

17 junho 2011

Assista ao II Encontro Nacional dos Blogueiros

A partir desta sexta-feira até domingo.

Com transmissão ao vivo da TVT, a TV dos Trabalhadores, e com a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o professor Fábio Konder Comparato, a deputada Luiza Erundina, deputado Paulo Teixeira, parlamentares, ministros, imprensa, blogueiros e as estrelas da internet: Conceição Oliveira (Maria Frô), Altamiro Borges (o Miro), sr. Cloaca, Eduardo Guimarães, Luis Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e muitos outros.


Prestigie. Vamos mudar a maneira de fazer comunicação no Brasil!

Eles não aprendem, não adianta.


É uma geração que não aprendeu a lidar com a crítica e aí apela para a Justiça como forma de censurar seus críticos. Ainda bem que os tribunais têm entendido que tudo não passa de "excesso de sensibilidade" ou "exacerbada sensibilidade a críticas" como cunhou o juíz no último despacho (abaixo).

Noticio, portanto, mais uma vitória de Paulo Henrique Amorim, desta vez contra o dono dos Colégios e Faculdades Objetivo, amigão dos poderos desde os tempos  imemoriais, tempos em que vivi em Arraial D'Ajuda, na Bahia, vizinho à mansão que mantinha para ele, bem ao lado de outra, de um importante diretor de jornalismo da TV Globo.

Fala PH!

“O querelado, contudo, não excedeu o seu direito de informar e de criticar, ao dizer que o queixoso era pessoa que exercia influência no Ministério da Educação. Empregou expressão impregnada de ironia e sarcasmo e de conotação negativa, mas não depreciativa ou ofensiva… Não denegriu a imagem de quem quer que seja, A MENOS QUE O QUERELANTE SEJA DETENTOR DE EXACERBADA SENSIBILIDADE A CRÍTICAS, MUITO SUPERIOR À DO HOMEM MÉDIO” (ênfase minha – PHA).

para ler tudo, aqui.

Mais um sopro de bom senso


vindo de Maria Inês Nassif

A leitura primeira, a de que a nova ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, e a de que a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, endurecerão as relações entre a ministra e sua base aliada, também é apressada. A presidenta tomou para si a articulação política do governo – e, com o aval dos votos que a levaram ao cargo, essa é a normalidade. Gleisi terá funções gerenciais na Casa Civil, e é reconhecida como uma boa gerente. Ideli foi líder no Senado e conhece bem as injunções regimentais e políticas para levar a termo a aprovação de um projeto. Ambas são mulheres, sim, mas nunca ninguém havia reclamado que o núcleo de poder dos governos anteriores tenha sido composto majoritariamente por homens. Essa não é uma questão de gênero, mas de confiança.

Também é apressada a interpretação de que a presidenta se tornou refém do seu vice, Michel Temer. Sua ligação com Temer já foi definida em outubro passado, quando ela foi eleita presidenta e ele, seu vice. Um governo de coalizão foi sufragado pelas urnas. Além disso, desde Ulysses Guimarães, o vice-presidente é o pemedebista que mais conseguiu controle sobre o seu partido. A boa relação de Lula com o PMDB de Sarney estendeu o apoio ao Senado. Temer já é governo, tanto que mora no Palácio do Jaburu. Não usá-lo na articulação com o PMDB é jogar o partido às feras e abrir crises políticas.

Nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, o vice foi o pefelista Marco Maciel (PE). Ele era o mediador das relações do PFL com o governo. No Congresso, o presidente do partido, Jorge Bornhausen, e o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, e por um período o presidente da Câmara, Luiz Eduardo Magalhães, mediavam as relações com as outras forças da base parlamentar do governo, em especial com o PSDB. Temer, é lógico, não é Maciel, o vice que todo presidente gostaria de ter: discreto e leal. Mas é o vice e tem o comando do PMDB. E uma banda de música: quando falha na articulação com o governo, o deputado Henrique Eduardo Alves (RN) toca o trombone na Câmara e rebeliões acontecem. É melhor que Dilma tenha o vice ao seu lado.

todo o artigo você encontra aqui

16 junho 2011

8X0


Fumar maconha é bom. Que o digam todos os que já experimentaram os efeitos da "droga". Mas como qualquer outro entorpecente oferece riscos. O maior deles, na minha opinião, é a dependência. Depender é sempre ruim. Nada como a liberdade de escolha e a dependência nos tira o direito de escolher. Vejo por exemplo os fumantes, agora que foram segregados e só podem fumar ao ar livre. É uma angústia tremenda, porque eles passam boa parte do seu tempo útil calculando o intervalo entre um cigarro e outro e se vão ou não estar disponíveis para alcançar um local onde seja permitido fumar. Vivi essa escravidão na pele antes de abandonar o vício. É um sofrimento.

No entanto, nada se compara ao álcool. Simplesmente porque é uma droga aceita livremente em qualquer ambiente, inclusive em família, e disponível em qualquer esquina. Em excesso o álcool tem um poder destruidor enorme. Está associado à violência doméstica, acidentes de trabalho, de trânsito e a todos os tipos de crimes. É uma droga legalizada. Os jovens se identificam com ela e cultuam eventos onde exceder o consumo é a regra. São poucos os que conseguem moderar, principalmente porque na adolescência moderação é sinônimo de caretice.

A decisão do Supremo Tribunal Federal de permitir marchar pela maconha é muito bem-vinda. Abre caminho para se discutir a legalização sem hipocrisia e sem preconceito. Antes fumar maconha num café e ficar relaxado, tranquilo, em comunhão (que é como o consumo em grupo tem demonstrado ser) a "encher a cara" com os amigos e flertar com os perigos que o álcool impõe à toda sociedade.  Além do mais, legalizar significa tirar poder do crime organizado, transformar a questão em caso de saúde pública, não de polícia. E encarar o problema de frente, sem varrer para debaixo do tapete, que é como nossa sociedade tem se comportado.

15 junho 2011

É pouco?


Desde que eclodiu a primeira crise política do governo Dilma tenho trazido para o blog textos recolhidos na web que fazem reflexões importantes sobre a ética na política e sobre a luta ideológica na disputa pelo poder. Não precisamos concordar com todos eles necessariamente. Não é porque publiquei determinado artigo que estou chancelando a tese do missivista, mas é porque o debate ganhou corpo e, num debate, há que se considerar o máximo de pontos de vista possíveis, antes de termos um juízo conclusivo sobre o caso.

No entanto, o que me trouxe profundo espanto foi como muitos leitores tiveram dificuldades em lidar com determinadas críticas. Talvez porque elas tenham atingido aquela região de sombra da nossa consciência, aquele "ponto G", sobre o qual nossa censura interior bloqueia o acesso, o nosso lado "obscuro". Por isso muitos reagiram de forma agressiva, violenta. Para se defender, leitores partiram para o ataque, quase sempre desqualificando o autor. Notei isso principalmente nos textos do Kotscho e do Frei Betto.

Não é porque ambos tenham deixado o governo Lula lá atrás que tenham perdido o direito de opinar. Eles têm a memória dos tempos de luta, têm contatos no partido, têm compromisso com seus ideais e por isso têm legitimidade, mesmo que suas opiniões não encontrem acolhida em nossas consciências. O debate precisa ser aberto, franco, sem preconceitos, sem sectarismos, sob pena de ficarmos impermeáveis à mudança e ao aprofundamento das reformas tão necessárias para atingir aos ideais que, por incrível que pareça, são comuns.

Todo projeto político tem falhas. E o exercício do poder abre feridas. Afinal, por trás do ideal há relações humanas, disputas por espaço, competição. Sabemos que no núcleo do poder - seja ele de direita, de esquerda ou de centro, como o atual, a militância se mata para ter relevência e bons salários. Isso é do joogo. Além do mais, são diferentes tendências tentando emplacar suas idéias e seus "quadros". Sem contar que, além disso tudo, quem tem cargo eletivo precisa pensar na eleição seguinte, nas bases e no caixa de campanha. É pouco?

13 junho 2011

Projeto de Brasil ou Projeto de Poder?

entrevista a Fernando Gallo, no Estadão

Sete anos após deixar o governo Lula, no qual foi assessor especial da Presidência, o escritor e assessor de movimentos sociais Frei Betto é um entusiasta da experiência do PT no poder e crítico ferrenho dos dirigentes da sigla. Em meio à crise política e ao impacto do lançamento do programa Brasil sem Miséria, Frei Betto falou ao Estado. Ele elogiou o plano social e não poupou ataques à direção petista no caso Antonio Palocci: "Já não encontro os dirigentes dando consultoria a movimentos sociais".

Como o sr. analisa a saída de Antonio Palocci do governo?
O governo demorou a agir diante da crise que se instalou a partir da constatação desse surpreendente aumento do patrimônio. Isso gerou muitas dúvidas. Dilma, diante de casos como esse, deveria seguir o exemplo do ex-presidente Itamar Franco, que licenciou o Hargreaves (Henrique Hargreaves, ministro da Casa Civil acusado de irregularidades no cargo) até que as coisas ficassem claras. Comprovada sua total inocência, foi reintegrado. No caso do Palocci, houve uma suspeita que os próprios correligionários abraçaram. O fato de a Executiva do PT não emitir uma nota de apoio, de solidariedade, era sintoma de que no partido pairavam dúvidas. Ali foi o momento em que Dilma deveria ter tomado a providência de afastá-lo.

O episódio pode ser considerado um indicativo de que o PT mudou seus ideais ao virar governo?
Exatamente. Nunca me filiei a nenhum partido político, mas ajudei a construir o PT, assessorei muitos movimentos que formaram lideranças que hoje integram o PT e a política profissional. Lamento que os dirigentes do PT hoje deem consultoria aos donos do dinheiro. Andando pelo Brasil, já não encontro esses dirigentes prestando consultoria a movimentos sociais.

O PT revisou o seu projeto?
Ah, sim! No conjunto do partido, salvo exceções de honrosos militantes, o PT trocou um projeto de Brasil por um projeto de poder. Quando se estende demasiadamente o bloco de alianças, há que fazer concessões. Elas levaram o PT a ter grande prestígio eleitoral, mas não é mais, infelizmente, o partido representativo dos movimentos sociais. Já não identificam nele o partido que vai enfrentar as forças que impedem reformas de estrutura no Brasil.

(Escritor e religioso dominicano, Frei Betto é autor do livro Batismo de Sangue. Foi coordenador da área de Mobilização Social do Programa Fome Zero entre os anos de 2003 e 2004. No mesmo período, atuou também como assessor especial do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a área social.)

Obs: A caricatura é de Lula Palomanes

12 junho 2011

Poder de quem?


por Luiz Gonzaga Belluzzo na Carta Capital

A independência moral e política se esvai nas eleições, cada vez mais caras. Por isso, ninguém foi capaz, até agora, de propor o óbvio: aprovar uma lei de financiamento público das campanhas eleitorais, condição mínima para que seja instaurado por aqui um regime parecido com a democracia. Há quem torça o nariz para a ideia do financiamento público exclusivo. Os adversários argumentam com a escassez de recursos diante de prioridades mais prioritárias. Escuto meus botões: o que poderia ser mais importante numa sociedade que se pretende democrática e republicana do que a qualidade da representação popular e a igualdade de condições na disputa eleitoral?

Mais do que isso: as normas do mercado passaram a ditar as regras da vida política. No Brasil de hoje, essa lógica fatal vem contaminando as instâncias decisivas do poder estatal. O sistema partidário e o financiamento das campanhas eleitorais parecem ter sido engendrados com o propósito de transformar o Congresso num mercado de balcão, no qual os gritos de “compro” e “vendo” tornam ridícula a hipocrisia dos discursos moralistas dos plenários.

11 junho 2011

Ué, melhorou?


A pesquisa Datafolha, que avaliou a repercussão da recente cobertura midiática sobre inflação e sobre o ex-ministro Palocci, serve mais para avaliar o poder de convencimento da grande mídia do que para avaliar o governo Dilma Rousseff. E os dados não são nada animadores para aqueles que sempre exerceram o coronelismo midiático, isto é, a capacidade de destruir ou elevar um político.

A grande mídia brasileira criou o maior forfé com dois temas nos últimos meses: inflação e Palocci. Mas esses dois temas não são tão interessantes para o público, que conhece a oposição e também a grande mídia. No caso da inflação, foi uma crise fabricada, visto que não houve qualquer mudança dentro das expectativas governamentais. A do Palocci também não surtiu efeito. Matéria da Folha mostra a dificuldade da mídia de abalar o governo Dilma.

Veja só:pesquisa Datafolha realizada nos dias 9 e 10 de junho mostra que 49% dos entrevistados consideram Dilma como ótima ou boa. No último levantamento, de março, eram 47%. Ué, melhorou?

09 junho 2011

A Verdadeira República do PT

por Elói Pietá, secretário nacional do PT, no Rovai

Lá longe, o filósofo grego Platão, em A República, dizia que os governantes das cidades-estado não deveriam possuir bens, exceto aquilo de essencial que um cidadão precisa para viver. Que deveriam ter o ouro e a prata apenas na alma, porque se fossem proprietários de terras, casas e dinheiro, de guardas que eram da sociedade se transformariam em mercadores e donos de terras, então, de aliados passariam a inimigos dos outros cidadãos. (...)

(...) Nesse mix de filosofias sobre a riqueza e seu reflexo no pensamento social, terminamos lembrando o imperativo categórico de Kant: aja de tal modo que a máxima de sua ação possa ser universalizada, isto é, para que todos sejam iguais a você. Por isso que, para continuarmos a ser um partido dos trabalhadores, não é bom que cultivemos o ideal de empresários.

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Crise é Oportunidade


Durante a primeira crise do governo Dilma muitos criticaram os blogueiros independentes, sobretudo os jornalistas. Ao contrário da militância e de outros ativistas, comprometidos com causas político-ideológicas os profissionais da comunicação têm sim compromissos morais e éticos definidos.

São esses compromissos que, em última instância, garantem a sobrevivência de um profissional independente. É a coerência, a firmeza de princípios, o rigor técnico e a liberdade de opiniar, ainda que às vezes contra a vontade de seus leitores, que constituem o maior patrimônio de uma atividade intelectual: a credibilidade.

Reparem que logo nas primeiras horas os principais nomes do jornalismo independente - em uníssono - se pronunciaram por uma resposta firme: cortar na carne. Todos sabiam que a crise só interessava aos que, enfraquecendo o governo ganhariam muito com isso, principalmente o PMDB. Vejam que a lista não foi pequena: Mino Carta, Mauro Santayana (com toda sua sutileza), Paulo Henrique Amorim, Alberto Dines, Ricardo Kotscho, Luis Nassif, Maria Inês Nassif, Luis Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Altamiro Borges e tantos outros.

Os "penas de aluguel" do PIG ficaram em dúvida. De início partiram para cima de Palocci. Quando perceberam que perder o ministro poderia significar diminuir seu poder de influência dentro do governo recuaram. Mas aí já era tarde demais para sair em defesa do ex-aliado. Resultado: foram para a forca com ele e perderam mais do que ganharam.

Mas o que importa é que crise é oportunidade. E Dilma percebeu isso logo nas primeiras horas. Pôs em prática, ao lado de Lula, um plano de redução de danos, que consistia em, primeiro, blindar seu ministro para, depois, ao abrir mão dele, não o expor a investigações e constrangimentos. O plano foi um sucesso. A Comissão de Ética do governo, a Procuradoria Geral da República e o Senado estancaram o sangramento de Palocci.

Enquanto isso, ele foi a público - com a ajuda de seus algozes - dar explicações sobre seus negócios (plano parcialmente bem sucedido). Quando entregou o posto estava livre de qualquer ônus senão o político. E quem ficou com a brocha na mão foi, mais uma vez, foram o poder econômico e seu sócios no PIG (O Partido da Imprensa Golpista).

O governo sai maior. Dilma sai maior. Mantega e sua política-econômica saem mais fortes. O Plano Nacional de Banda Larga sai mais forte. Os jornalistas independentes saem mais fortas e o país, ah o país, esse sim não para de se "enfortecer". Tenho fé no futuro e agora, livre de Palocci, estou ainda mais confiante.

08 junho 2011

Sobre Alhos e Bugalhos


com a clareza de Luis Nassif

A demissão de Antônio Palocci, em si, não prejudica o país. De minha parte, considerei rematada imprudência sua nomeação para um cargo-chave, como Ministro-Chefe da Casa Civil.

Mesmo que formalmente não tenha cometido nenhum ilícito, como consultor, era evidente que o mero exercício da consultoria e o fato de ter enriquecido no último ano daria margem a toda sorte de exploração política.

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É grande a lista de ministros que enriqueceram depois de terem deixado o governo. É enorme o capital acumulado no exercício da função, permitindo várias formas de usufruto, dos legítimos aos ilícitos.

Por exemplo, antes da crise mundial, havia uma operação praticada no Banco Central que permitiu ganhos expressivos a muitas empresas: o swap reverso. A empresa ganhava se houvesse uma apreciação do real. Muitas relutavam em apostar por não ter segurança sobre quando poderia haver uma inversão do câmbio.

Um ex-Ministro como consultor permite uma segurança extra na aposta. A mesma segurança de clientes de Maílson da Nóbrega, quando ele os aconselhava sobre apostas cambiais.

Nem digo que Palocci tenha praticado esse tipo de consultoria. Apenas exemplifico.

Os economistas do Real ganharam muito mais dinheiro e em operações muito mais duvidosas. A questão é que nenhum deles largou consultoria para retornar ao governo, em posição estratégica.

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De qualquer modo, o episódio demonstra as vulnerabilidades do modelo político brasileiro e a maneira como se utiliza politicamente o escândalo – especialmente quando se misturam questões objetivas (como as dúvidas sobre os clientes de Palocci) com factoides (a "denúncia" da Veja sobre o proprietário do imóvel alugado por ele).

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A verdade é que desde o impeachment de Fernando Collor a denúncia tem sido utilizada como ferramenta exclusiva de disputa política – não como instrumento de aprimoramento das instituições. E é um jogo bastante empregado pela chamada grande mídia do circuito Rio-São Paulo incluindo as revistas semanais.

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Mantem-se os escândalos guardados, reais ou fictícios, como em gôndolas de supermercados. Depois, vão sendo tirados da prateleira dependendo do interesse político em jogo.

Na hora em que quiser, a mídia poderá fazer o mesmo contra Serra, Aécio, Alckmin, Eduardo Campos, Cabral, Ministros de Dilma, secretários de Alckmin. Porque são acusações que independem de comprovação. Não há a mediação do Poder Judiciário, a análise de provas e contraprovas. Basta criar o movimento, a onda, o fato político e aguardar o desfecho.

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Esse mesmo modelo foi aplicado contra FHC logo após a mudança cambial – quem não se recorda da saraivada de capas de revistas semanais com as acusações mais estapafúrdias contra ele, disparadas por Antônio Carlos Magalhães? Tentou-se contra Lula, no episódio do mensalão. E, agora, inaugurou-se contra Dilma, em cima de seu assessor mais vulnerável.

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Qual o resultado final dessa história? Tornar o Executivo mais vulnerável às demandas de partidos aliados fisiológicos.

07 junho 2011

Meus 15 anos de Palocci

Trabalhei na afiliada da TV Globo de Ribeirão Preto em 1995 e 1996, durante a primeira gestão de Antonio Palocci Filho, como prefeito da cidade. Seu governo era quase unanimidade entre o empresariado e a elite sucroalcooleira. A cidade se transformou numa espécie de "laboratório" de gestão do PT. A "metrópole caipira" também ambientou a principal trama da emissora na epóca: a novela O Rei do Gado. Vivíamos na chamada Califórnia brasileira, um dos poucos municípios do país cujo PIB crescia muito acima da média nacional. Naquele período, a Globo tinha grandes interesses comerciais por lá: cobria com exclusividade a Festa do Peão de Barretos e incentivava o resgate da memória de Portinari, em Brodowski. Palocci fez um acordo com a Fundação Roberto Marinho para restaurar o Teatro Pedro II, considerado uma das melhores acústicas do país. Naquela ocasião, a orquestra municipal era regida por um jovem talento, que se consagraria anos mais tarde e cairia em desgraça mais recentemente: o todo-poderoso maestro Roberto Minczuk. Como prefeito, Palocci foi o primeiro a implantar o Renda Mínima. Também reformou escolas, construiu postos de saúde e ganhou importante prêmio do UNICEP por atenção especial à infância. Mas o prefeito terceirizou serviços públicos e iniciou o processo de privatização da CETERP uma empresa municipal de telefonia - superavitária. Estas duas decisões foram muito criticadas pelos militantes. Não chegou a completar a segunda gestão, porque foi convidado a coordenar a campanha à presidência de Lula, em 2002, depois da morte de Celso Daniel. Na segunda gestão como prefeito, Palocci sofreu grande desgaste político por causa do aumento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano), com a implantação do modelo progressivo. Os aumentos chegavam a até 900% e desencadearam uma onda de ações na justiça. Também foi acusado de desvios na compra da merenda escolar e recebimento de propinas na coleta de lixo e execução de obras públicas. Foi inocentado de todos os processos, anos depois. Palocci nunca perdeu uma eleição. Tem 51 anos e pode voltar ao poder no futuro, se assim o quiser. Estou certo de que apoio financeiro e político não faltarão.

Depois do Vendaval


Já experimentou varrer o jardim num dia de ventania? Pois hoje eu tentei. Foi irritante, mas ao final aprendi algumas coisas. Aprendi por exemplo que mesmo contra o vento é possível juntar folhas secas. O plano é varrer na diagonal, devagar e fazendo montes pequenos. Em algumas partes do gramado o vento até ajuda a juntar tudo, quando varremos no sentido em que ele sopra. Mas há situações extremas em que só é possível recolher as folhas de joelhos e com as mãos. Aqui é preciso se curvar. Oras, varrer a favor do vento, confrontá-lo pela diagonal e curvar-se quando é impossível vencê-lo... Não seria a natureza ensinando-nos o sentido da vida? Não é assim que navegamos à vela, planamos no ar, ou atravessamos a arrebentação do mar? O que é a vida senão um balançar para lá e para cá ao sabor do vento, do acaso e do destino? Diante das circunstâncias fazemos escolhas. Umas certas e outras erradas. Algumas folhas voam para longe, muitas vão para o cesto e outras teimam em ficar. Se é assim, assim será. Depois do vento o sol chegou. Os pássaros voltaram a cantar. E o jardim está limpo, até a próxima ventania chegar.

05 junho 2011

As causas da queda de Palocci

1. Os cargos do segundo escalão;
2. O Aldo Rebelo;
3. O Código Florestal;
4. As ligações perigosíssimas com o poder econômico e a mídia;
5. O PT do B;
6. A nova mídia;
7. A falta de maturidade para exercer tanto poder;
8. A consultoria.

o furo é de Ricardo Kotscho

Confirmei na manhã deste domingo, com fonte da minha total confiança, uma informação que vinha apurando desde ontem: chegou o fim da linha para o ministro Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, que a partir de agora pode ser demitido a qualquer momento.

Não houve uma gota d´água. Foi o conjunto da obra que deixou Palocci nesta situação, sem contar com o apoio de mais ninguém, e à presidente Dilma Rousseff só resta agora encontrar um nome para substituí-lo.

Pegou muito mal o ministro não ter mostrado nenhuma indignação diante das graves denúncias feitas contra ele nas últimas semanas durante as entrevistas que concedeu à Rede Globo e à Folha, os dois orgãos por ele escolhidos para falar ao país. Na verdade, as entrevistas e as novas denúncias publicadas no final de semana apenas pioraram um quadro que já era irreversível.

O mais provável é que Dilma aproveite o desfecho da maior crise do seu jovem governo para fazer uma reformulação geral na articulação política, que já não vinha dando bons resultados antes mesmo das denúncias contra o ministro Antonio Palocci.

Para isso, ela vai ter que conversar com os líderes do PT e do PMDB, os dois principais partidos aliados, que estão descontentes com o governo e brigando entre si pelos cargos que ainda faltam ser distribuídos no segundo escalão.

Junto com Palocci deverá sair também o ministro Luiz Sergio, das Relações Institucionais, abrindo vaga para que efetivamente Dilma coloque no lugar alguém que faça a relação do governo com o Congresso e os partidos, papel que era centralizado por Palocci.

Diante da falta de bons quadros sobrando na praça, o problema é achar este nome sem desagradar mais ainda aos aliados, que certamente vão disputar o posto.

Para o lugar de Palocci, a presidente Dilma procura alguém com o perfil da própria Dilma, capaz de cuidar da gestão do dia a dia na Casa Civil, como ela fez no governo Lula, para que possa dedicar mais tempo à área política, o grande nó destes primeiros cinco meses de governo.

Agora é tudo só uma questão de tempo. A decisão está tomada. Ao completar três semanas, a denúncia da Folha sobre a multiplicação do patrimônio de Palocci, que emparedou e paralisou o governo, a crise política pode estar chegando ao fim e nos permitir ter boas notícias na próxima semana.

Bom domingo a todos.

04 junho 2011

Por que Palocci já caiu?


O que sustenta um ministro-chefe da casa civil? Primeiro, a confiança do mandatário do poder. Segundo, a legitimidade da interlocução política. Terceiro, a confiança da opinião pública. Quarto, o apoio que os formadores de opinião - entre eles a mídia - têm no coordenador das ações de governo. Quinto, a capacidade de aglutinação de todas demandas institucionais e políticas.

O que se viu nesses últimos 20 dias foi em ordem cronológica: Primeiro, o escândalo. Segundo, a soberba. Terceiro, as evasivas. Quarto, a perda de apoio político. Quinto, o constrangimento. Sexto, o isolamento. O sétimo e último ato é a queda, inevitável.

Se lá atrás Palocci tivesse tido a coragem de descer à planície para enfrentar seus inimigos de peito aberto e punhos cerrados, talvez o desfecho pudesse ter sido outro.

Agora restará o silêncio. E o futuro para trazer a verdade à tona um dia.

Descanse em paz companheiro. Você foi muito importante para o projeto político que está no poder, mas o povo quer novas práticas. Quer que uma nova mentalidade política se imponha, sem apadrinhamentos, sem clientelismo, sem compadrio, com escrúpulos.

Sua saída está longe de ser a nossa redenção, mas é mais um passo no caminho que nossa sociedade escolheu.

A história saberá fazer justiça



"A pena é o processo." (Joaquim Falcão, prof. Direito Constitucional FGV)

03 junho 2011

A guilhotina

do balaio do Kotscho

A presidente Dilma Rousseff perdeu a paciência com o ministro Antonio Palocci na quinta-feira e deu um prazo para ele falar e se explicar sobre a espantosa evolução do seu patrimônio. Esse prazo termina hoje, sexta-feira, dia 3 de junho, à meia-noite.

O governo não poderia continuar sangrando por mais um fim de semana, depois de ficar 18 dias paralisado pela crise na Casa Civil.

A partir daí, começaram intermináveis reuniões de Palocci com a sua asssessoria direta, outra assessoria contratada da agência FSB, especializada em gerenciamento de crises, advogados criminalistas e com outros ministros do Palácio do Planalto.

O grande problema não era só decidir o que falar sobre os R$ 20 milhões que a consultoria do ministro faturou no ano eleitoral de 2010, mas como, onde e quando dar à sociedade brasileira as satisfações que a presidente cobrou dele.

Desde o começo, um ponto era inegociável para ele: Antonio Palocci não se exporia numa entrevista coletiva.

A outra opção era fazer um pronunciamento em rádio e televisão, sem direito a perguntas de jornalistas. Mas, como se trata de assunto particular, e não de governo, pegaria muito mal convocar as emissoras para a formação da rede. Restava-lhe escolher para qual veículo ou veículos daria entrevistas separadamente.

Às oito da noite de quinta-feira, recebi o retorno de uma ligação que fizera ao Palácio do Planalto, e imediatamente publiquei aqui no blog, com a informação de que o ministro Antonio Palocci falaria nesta sexta-feira por ordem da presidente Dilma.

O Balaio foi o primeiro a dar essa notícia, a seguir também veiculada no Jornal da Record e no Jornal da Record News, onde eu trabalho.

Naquele momento, ainda não haviam decidido de que forma isso aconteceria. Às dez da noite, outro ministro com gabinete no Palácio do Planalto me confirmou que Palocci falaria hoje e estava ainda estudando a forma de atender à ordem da presidente Dilma.

Entre as alternativas apresentadas pelos estrategistas de Palocci, estava conceder entrevistas para a Folha de S.Paulo, exatamente o jornal que o denunciou há quase três semanas, e a William Bonner e Fátima Bernardes, da TV Globo, na bancada do Jornal Nacional.

Parecia-me um suicídio, mas eles seguiram em frente: às quatro da tarde de hoje, foi confirmada a entrevista exclusiva ao JN, mas não mais ao vivo para Bonner e Fátima.

A última informação do bunker palocciano dava conta de que o ministro daria uma entrevista gravada para Júlio Mosquera, repórter da Rede Globo em Brasília. Não se falou mais da entrevista à Folha.

Os leitores podem até não acreditar no que escrevi acima, como eu também duvidei que pudesse ser verdade. Depois de ser rifado pelo PT e enquadrado pela presidente Dilma, parece que o todo-poderoso Palocci perdeu o rumo e resolveu antecipar um desfecho para a novela da sua queda anunciada.

Qualquer coisa que ele diga agora à TV Globo não lhe devolverá o mais importante para exercer a função de ministro-chefe da Casa Civil: o respeito.

Na encruzilhada, podendo escolher entre vários caminhos, meu amigo e ex-colega de governo Lula escolheu o pior. Depois do longo silêncio, Palocci escolheu a guilhotina.

 
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