31 maio 2011

Errar é do ofício


Revisores são seres invisíveis que se valem de jornais e editoras para corrigir os deslizes dos escritores. Porque os escritores, frequentemente, desrespeitam as leis fundamentais da gramática. Eu mesmo, por muito tempo, tive como revisor voluntário dos meus textos um erudito da língua que me enviava periodicamente, por puro amor à língua, relatórios detalhados dos meus erros.

Desse revisor voluntário tenho apenas uma queixa: ele nunca disse uma só palavra sobre a substância mesma dos meus artigos. Não lhe importavam as coisas que eu escrevia. Importava-lhe se eu as escrevia com as palavras certas.

Para me consolar, eu repetia as palavras de Patativa do Assaré: "Mais vale escrever a coisa certa com as palavras erradas que escrever a coisa errada com as palavras certas..." Até lhe dediquei uma pequena parábola. Eu, convidando meus amigos para tomar uma sopa que eu mesmo faço. Eles vêm, tomam a sopa e gostam. Mas um intruso, não convidado, toma a minha sopa, nada diz sobre a sopa, mas reclama que a tigela estava lascada...

Tenho tido experiências com revisores atentos, sensíveis, competentes, que não só corrigem meus erros como também me fazem sugestões de como melhorar o meu estilo. Mas tenho tido também experiências desastrosas. E isso porque os revisores têm um poder terrível. Basta que mudem uma simples palavra...

Saramago escreveu um livro sobre um revisor que, cansado de sua função de apenas revisor, resolveu interferir no texto. No lugar onde o autor havia escrito um "sim", ele resolveu deletar o "sim" e substitui-lo por um "não". O resultado foi que a história do cerco de Lisboa teve de ser completamente reescrita.

Houve um livro que escrevi, todo ele baseado na distinção entre "história" e "estória", distinção que os gramáticos, donos da língua, desconhecem, por saber muito sobre letras e sílabas e pouco sobre sentidos. Resolveram, por conta própria, eliminar do dicionário a grafia "estória". Tudo agora é "história". Mas Guimarães Rosa sabe que isso está errado e até escreveu: "A estória não quer se tornar história".

São duas coisas diferentes. História é o tempo onde as coisas acontecidas não acontecem mais. Estória é o tempo onde coisas não acontecidas acontecem sempre.

Pois o revisor do meu livro, mais atento às ordens do dicionário, livro onde se encontram as palavras e sentidos certos, eliminou as "estórias" que eu havia escrito, substituindo-as por "histórias". Ficou totalmente sem sentido. O revisor disse que abacaxis e pitangas eram a mesma coisa.

Esse mesmo revisor achou por bem corrigir minha tradução de um verso de Eliot. "The inner freedom from the practical desire...". Minha tradução: "A liberdade interior do desejo prático..." Coisa de velhice: estamos livres da compulsão de fazer coisas práticas. Podemos nos entregar à vagabundagem. Pois o dito revisor, certamente movido por sua ideologia de esquerda, não podia imaginar que essa liberdade da compulsão do fazer fosse coisa decente. Alterou, então, a minha tradução para "a liberdade interior para o desejo prático..."

Na versão do revisor, todo mundo ficou condenado à compulsão do fazer. Culpa minha. Acreditei no revisor. Não conferi. Resultado: o livro ficou um "non-sense". Seu destino, o lixo. Mas as palavras estavam de acordo com o dicionário.

Outro revisor ficou horrorizado com a fala de um ignorante chamado Riobaldo. Era português errado, horrível. Tratou de corrigi-la, e o Riobaldo ficou falando como se fosse uma professora de português. Ainda bem que, nesse caso, não confiei no revisor e não perdi o livro.

30 maio 2011

Grotas do Embaúba


Talvez não seja politicamente correto lembrar o que ocorreu em Grotas do Embaúba. O lugar nada tinha de especial que o diferenciasse. Situado em terras intermediárias entre uma língua de mata atlântica, que avançava rumo ao oeste, como se a floresta buscasse terras mais férteis, e o sertãozão carrapichoso e marcado de dunas avermelhadas, ao norte, e o cerrado ralo ao sul, o antigo arraial ocupava vale estreito, cercado de grotas que, nas duas margens do ribeirão Embaúba, aliviavam as colinas ásperas com a vegetação fechada, de forte verde, que ninguém se arriscava a violar.
As famílias antigas, nem ricas, nem miseráveis, se davam bem. Plantavam e criavam, dois ou três comércios as serviam, não havia padres que as perturbassem, nem médicos que as ajudassem a morrer. Por isso, presume-se, viviam bastante. A paz foi perturbada com a chegada dos forasteiros. Um geólogo descobrira, nos morros, depósitos de zinco, com forte proporção de cádmio, de alto preço no mercado. A notícia atraiu pequenas e médias mineradoras. O lugar decuplicou de habitantes em menos de um ano. O comércio floresceu, as terras multiplicaram de preço, uma estrada foi aberta até a mais próxima estação de estrada de ferro, e muitos moradores antigos descobriram o valor do dinheiro e a alegria do conforto. Antes, nas eleições, o lugarejo votava unido, respeitando a vontade dos mais velhos, que se reuniam antes do pleito e decidiam que candidatos apoiar. Não havia infidelidade.

Os forasteiros haviam trazido, com suas ferramentas, a ambição do dinheiro e do poder. As velhas famílias rapidamente perderam prestígio. Aos engenheiros, capatazes e mineradores, somaram-se o médico, o padre e o pastor, que abriram os seus negócios, comprando as melhores casas do distrito. Sendo a nova maioria, encabeçaram o movimento pela emancipação de Grotas – e a obtiveram, com a brava e inútil oposição dos moradores antigos. Esses esperavam que as jazidas se esgotassem logo, para que pudessem reencontrar a paz.

Realizadas as primeiras eleições do novo município, os forasteiros fizeram a maioria absoluta da Câmara Municipal, enquanto os antigos só conseguiram eleger dois vereadores. Prefeito e vice eram nascidos na capital, cheios de arrogância e nove-horas na conversa. Os impostos pagos pelas mineradoras à antiga sede municipal eram altos, mas os forasteiros conseguiram aprovar lei que os reduziram a quase nada. Um dos filhos de Grotas, que estudara na capital, ao visitar os pais, descobriu a maracutaia: as empresas mineradoras pagavam uma parcela do que economizavam de impostos ao prefeito, ao vice e aos vereadores da maioria. Os velhos se reuniram, convocaram filhos e genros, compraram armas e munições, fizeram seus planos estratégicos. Eram minoria, mas decididos, e contavam com a surpresa. Na madrugada certa, cortaram a linha de eletricidade, fecharam o correio, prenderam preventivamente o padre, o pastor e o médico e obtiveram a adesão do cabo e dos dois praças do Destacamento da Força Pública. Exageraram em seu civismo, ao permitir que fossem enforcados, na praça, o prefeito e o vice, depois de confiscados os seus bens. Expulsaram, sob tiros de sal e chumbinho miúdo, os administradores das empresas de mineração e os vereadores da maioria.

Nomearam um governo interino, enviaram delegação ao governo do Estado e conseguiram que esse reconhecesse a situação de fato, até novas eleições. Um inquérito foi instaurado para apurar as responsabilidades na execução dos larápios, mas não levou a nada. O silêncio dos insurretos foi absoluto. O novo município encampou as minas de zinco, e criou empresa própria para explorá-las. Os engenheiros e técnicos que quiseram, continuaram trabalhando, com o compromisso de não se meterem na política.

Grotas do Embaúba não retornou à paz antiga, mas recuperou muito de sua dignidade.

27 maio 2011

Política: profissão ou vocação?


por Maria Inês Nassif  para o Blog do Nassif 

Dilma Rousseff não foi a única presidente, desde a redemocratização, que resolveu terceirizar a atividade política, na suposição de que tem gente que sabe fazer isso melhor do que ela. Assumiu que o perfil técnico era a sua vocação, definiu que tem a última palavra sobre as decisões administrativas e foi cativada pelo "elogio" dos antigos adversários à sua discrição no cargo. O excessivo recato na tarefa de fazer política pode sido a origem da crise provocada pelo escândalo que envolveu o seu chefe da Casa Civil, Antonio Palocci; e pode estar contribuindo para que, mesmo com toda a inicial cautela da oposição em relação ao episódio, a crise apresente uma certa tendência de adquirir pernas próprias.

Para ser presidente, não basta ganhar eleição. É preciso assumir o controle da política. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu primeiro mandato, acuado por uma crise econômica que sacudiu o país durante todo o período eleitoral, também terceirizou a que deveria ser a principal atividade de um mandatário popular. No comando das articulações que passavam pelo Palácio do Planalto estava o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, em permanente disputa com o mandarim da economia, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci. Uma campanha eleitoral excessivamente agressiva acuou o presidente eleito em 2002. A estratégia de "blindagem" de Lula, com o objetivo principal de não assustar o mercado, foi a de montar uma equipe econômica da confiança dos agentes de finanças – e Palocci fazia não apenas política econômica, mas a articulação política com esses setores – e deixar a função de articulação parlamentar com Dirceu, um adepto da realpolitik. Lula também foi "blindado" em seus contatos com a imprensa. Enquanto essa montagem de governo prevaleceu, o primeiro presidente petista exerceu o direito ao silêncio: foi a estratégia definida contra uma imprensa que foi hostil na campanha e, previa-se, não daria moleza a um presidente-operário de um partido de esquerda.

Foi preciso que o PT, artífice dessa "blindagem", vivesse a enorme crise do "mensalão", para que Lula alçasse voo próprio. Quando deixou de terceirizar a política, tinha como patrimônio, que ficou colado ao seu governo, um eleitorado recém-saído da miséria devido à única vertente das políticas de governo que realmente destoou, até aquele momento, da do seu antecessor: uma melhor distribuição via transferências de renda. Lula voltou ao palanque um ano antes do processo eleitoral de 2006 para salvar o seu primeiro mandato, colocado em perigo pela repercussão do episódio, sem suas duas "blindagens" ministeriais: caíram, um a um, José Dirceu e Antonio Palocci. O presidente petista retornou o seu contato direto com as bases, abandonado depois da posse, e manteve o seu mandato no grito. Conseguiu sua reeleição da mesma forma. Depois de 2005, Lula não deixou o país esquecer, em nenhum momento, que ele era o presidente. Falou muito e sempre, correndo o risco de ser mal interpretado e de ser ridicularizado; assumiu seu próprio discurso, que tinha grande identidade com a maioria pobre do país. E fez política. O governo não deixou de ter articuladores, negociadores institucionais e ministros com maior facilidade de acesso à área política, mas quem comandou o processo foi o presidente. O espaço de disputa pelo poder interno no governo foi reduzido e o PT, embora partido de Lula, foi mantido sob relativo controle. Sem mandarins no Planalto e enfraquecido, o PT cumpriu o seu papel institucional de disputar poder com aliados no Congresso, mas como partido. Essa disputa não foi mais "fulanizada".

Não foi personalismo. Lula tem vocação para lidar com grandes massas – foi um líder sindical que fez história e um presidente com uma popularidade que também será registrada nos livros escolares. Mesmo que não tivesse essas qualidades pessoais, todavia, era a pessoa mais credenciada a ser o protagonista político de seu governo pelo simples fato de que foi ele o eleito para presidente da República. Em 2002, terceirizou a tarefa; em 2005, resgatou a legitimidade do voto e passou a ser presidente da República.

Não existe governo democrático que não tenha disputa de poder interna e que não tenha que lidar com ambições pessoais e interesses políticos diversos. É do jogo. O voto popular, todavia, é a última palavra. A primeira presidenta eleita na história da república do Brasil não pode continuar a ser gerente, como era na chefia da Casa Civil, porque não é esse o seu papel. Se não se tornar a protagonista política de seu próprio governo – posição a que tem direito pelo simples fato de ter sido eleita –, vai continuar abrindo espaço de conflitos internos dentro do PT e na base aliada – e os adversários, massacrados pelas urnas e em crise profunda, vão ser empurrados de novo para a oposição, que hoje assumem envergonhados. Será um novo capítulo de uma crise do quadro partidário, dessa vez com o PT no seu epicentro.O socorro de Lula vai ser apenas band-aid.

26 maio 2011

Que papel...


Acabo de ver uma imagem curiosa. Depois de um almoço no Palácio da Alvorada com senadores do PT, Dilma Rousseff desce a rampa com todos eles para encontrar os jornalistas. Na imagem em movimento é notável o deslumbramento de alguns parlamentares, especialmente o ex-presidente da UNE nos tempos de Fernando Collor, Lindbergh Farias. Aí me pergunto: por que o convívio com o poder é tão inebriante assim? O que faz as pessoas diante dos poderosos acharem que são mais do que realmente são? Quem pode me explicar isso? E a soberba da senadora Marta Suplicy que caminha robotizada, com olhar fixo para as câmeras? O encontro com os senadores no palácio tem sim um efeito simbólico de aproximação, de intimidade. Mas é apenas no plano simbólico. Será que eles não sabem disso? Será que eles não entendem que representam um papel efêmero e transitório e se agarrar a isso torna a queda ainda mais dolorosa? Mais uma vez o centro das atenções não estava em primeiro plano. Foi o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. Dilma demonstrou firmeza ao dizer que Palocci está prestando contas aos orgãos competentes. Agora, duas semanas depois, o estrago já está feito. Se Palocci não tivesse se agarrado ao poder talvez nada disso tivesse acontecido. Seu afastamento tiraria a crise da porta do palácio e não obrigaria a presidente a prestar esse papel ridículo. Mas já dizia meu pai: se conselho fosse bom a gente cobrava. Aliás, cobrar por conselhos é a regra nos dias de hoje. A partir de agora minha agenda está aberta a palestras. Quem sabe assim não aumento meu capital contando tudo o que vivi para aqueles que adorariam desembolsar algum para saber dos bastidores do poder de informar.

24 maio 2011

As duas canoas


Desde que sugeri na semana passada que Palocci deixasse o Governo até que a poeira assentasse e que oferecesse todas as condições para que sua defesa fosse feita de forma ampla e transparente, esvaziando assim o discurso sensacionalista da oposição, tenho sido vítima de duras críticas e até de patrulha ideológica. Não podemos aceitar jogar o mesmo jogo da oposição, quando esta estava no poder. Se assim o fazemos, nos igualamos aos que dizíamos combater. É simples assim. Se precisamos avançar na democracia com justiça social e crescimento econônomico, não podemos aceitar que parasitas drenem parte de nossas energias e recursos, sob pena de não alcançarmos nossos objetivos. Há 50 anos estamos discutindo as mesmas coisas: reforma agrária, reforma política, reforma do Estado... E é como se andásemos em círculos. Mais recentemente fomos seduzidos pela agenda da sustentabilidade, com o Novo Código Florestal, e com a agenda da liberdade de expressão, com o Novo Marco Regulatório das Comunicações. Mas pergunto, como avançar signficativamente se nossos parceiros, que deveriam estar do outro lado do balcão, são nossos clientes, se aconselham conosco em consultorias milionárias? É impossível dar certo, gente! Como é que podemos mudar as leis de comunicação, por exemplo, se as empresas oligopolistas têm tentáculos dentro do Governo? Não podemos ser ingênuos. Ou escolhemos o que queremos e partimos para a discussão política franca, transparente, deixando claro de que lado estamos, ou terá sido apenas diversionismo dos nossos representantes no poder para iludir a incauta militância. Não se trata apenas de moralismo ou discurso ético pequeno burguês. É questão de lado. Não dá para ter os pés nas duas canoas.

23 maio 2011

Quem é Palocci na lógica interna do PT?


por Ruda Ricci

"Filho de funcionário público e costureira, o caçula da família formou-se médico sanitarista pela USP de Ribeirão Preto. Como liderança estudantil, fez parte dos quadros da organização Liberdade e Luta, a LIBELU, vinculada à Quarta Internacional trotskista. Em 1988 Palocci foi eleito o primeiro vereador petista de Ribeirão Preto. Não terminou o mandato. Em 1990, candidatou-se a deputado estadual e venceu. Mas também não terminou o mandato porque se candidatou, em 1992, prefeito de sua cidade. E venceu. Depois, elegeu-se deputado federal.

Conheci Palocci em 1990, quando eu coordenava a campanha de Plínio de Arruda Sampaio para o governo paulista. Lembro de uma viagem que fiz com Plínio e Eduardo Suplicy pelo interior de São Paulo. A parada principal era Ribeirão Preto. Palocci era vereador. O que lembro daquela época era de uma pessoa muito quieta, atento ouvinte. Fiquei com a pulga atrás da orelha. Porque aquele silêncio não parecia um mero estudo. Parecia dizer que apenas tolerava, mas não apoiava.

Minha desconfiança vinha de algo que ocorreu pouco antes. No final de 1980, parte das lideranças da LIBELU forjaram um acordo com uma ala da corrente majoritária do PT paulista, a famosa Articulação. Ingressaram por cima na cúpula do partido na seção paulista. Lembremos que a LIBELU tinha quadros de destaque, bons articuladores e polemistas, como Luiz Gushiken, Tita Dias, Reinaldo Azevedo, Laura Capriglione, Paulo Moreira Leite, Eugênio Bucci, Luis Favre, José Arbex Jr., Clara Ant, Demétrio Magnoli, Glauco Arbix e Lúcia Pinheiro. O mais interessante é que no mesmo momento em que se fazia este acordo de ampliação da base da Articulação (e incorporação de parte significativa da LIBELU à corrente majoritária que ascendia ao comando da seção paulista), parte da direção da Articulação desfechava uma agressiva campanha de enquadramento da corrente de Genoíno e da então Convergência Socialista (mais tarde, PSTU)."

para ler todo o texto: aqui

Sobre ética, moral e política

Miguel do Rosário em seu Óleo do Diabo propõe um debate profundo sobre as razões individuais de um político, as razões de Estado, as razões político-partidárias e até sobre a própria razão. Lúcido, articulado e brilhante faz um chamamento à blogosfera dita de esquerda contra a velha mídia. No centro do debate está, claro, a figura mais uma vez combalida de Antonio Palocci, segundo ele "a bola da vez." Concordo com o missivista quando diz que, "política não é para ingênuos." No entanto, devo dizer que diante da realidade precisamos sim discutir questões que contrariem os interesses de quem está no poder, ainda que sejam aqueles pelos quais lutamos. Ninguém tem dúvidas que de um lado está um projeto centralizador e entreguista e de outro um projeto de combate às desigualdades e de cunho nacional-desenvolvimentista. Mas sempre que há evidências de que o dinheiro público está sendo drenado, seja para financiamento de campanhas em sistema de caixa 2, ou para corrupção e enriquecimento ilícito (se é que foi este o caso, não sei) é importante, além da disputa política que as denúncias ensejam, discutir imediatamente formas de aperfeiçoar o controle sobre os gastos do Estado e sobre os desvios da função pública e isso independe da luta política. Enquanto continuarmos a empurrar com a barriga este debate, enquanto aceitarmos as frágeis regras em vigor e enquanto aceitarmos que - na política - os fins justificam os meios, as chances de mudanças estruturais profundas e duradouras da nossa sociedade só tendem a diminuir. E aí sim o Estado estará entregue mais uma vez ao conluio do poder econômico com a mídia oligopolista. Sem um governo que seja minimamente reformista o horizonte é de fracasso. Não por acaso o ex-presidente Lula tem pressa em se reunir com as centrais sindicais na semana que vem. Na agenda está a mãe de todas as reformas: a política, esta sim urgentíssima. O ex-presidente já discutiu o assunto com o PSB, o PDT e o PCdoB e sabe que não há futuro sem ela. Quanto a Palocci, teria feito bonito se tivesse descido humildemente à planície até que a tempestade passasse. O que podia ter sido uma marolinha virou um tsunami.

22 maio 2011

A Carta ao Povo Brasileiro - Viva o Brasil!


A ficha deste ansioso blogueiro caiu logo no começo do Governo Lula, quando morreu Roberto Marinho.

Tony Palocci foi ao enterro, com Lula.

E declarou à Globo que Roberto Marinho tinha sido um baluarte na defesa da Democracia.

Este ansioso blogueiro trabalhava no UOL e disse que o trotskista Palocci respeitava a democracia representativa tanto quanto o ilustre morto.

O professor Venício Artur de Lima, este, sim, um baluarte na defesa da liberdade de expressão, acaba de lançar um livro imperdível para quem luta por uma Ley de Medios neste país: ” Regulação das Comunicações – História, Poder e Direitos”, pela editora Paulus.

Na página 73, ele reproduz trecho do livro “Sobre formigas e cigarras” , de Antonio Palocci.

Ali, o autor conta como co-redigiu a “Carta aos Brasileiros”, lançada em junho de 2002, quando em uníssono o então presidente FHC, o Padim Pade Cerra, a Regina Duarte e o PiG (*) propagavam o pânico: se Lula fosse eleito, isso aqui ia virar uma Argentina.

(Em certos aspectos – como na punição aos militares torturadores e na Ley de Medios – lamenta-se que a profecia não se tenha realizado.)

Era preciso acalmar o “mercado” , aquela entidade que se materializa, frequentemente , nas colonas (**) da urubóloga.

Tony preparou algumas versões da Carta.

E resolveu consultar o que se chama no Brasil, de “sociedade civil”: formadores (sic) de opinião, empresários e os filhos do Roberto Marinho.

Palocci explicou que estava com “um problema sério” : uma percepção de crise econômica por causa da possível eleição do Lula.

E queria fazer um manifesto “com os nossos compromissos”.

O filho de Roberto Marinho, no caso, João Roberto, respondeu com aquela serenidade que se espelha nas manchetes do Globo:

“A crise é maior do que voces estão pensando”, advertiu. “Há muita insegurança sobre o futuro”.

(Observe-se que o Padim era o adversário de Lula: seria ele também fonte da insegurança do ilustre herdeiro ?)

Tony conta que leu vários pontos do rascunho do manifesto ao telefone.

O Marinho enfatizou o problema do superávit das contas públicas (o que demonstra que os dois lêem a urubóloga): “este é o ponto sobre o qual o mercado está mais preocupado”.

E atenção, amigo navegante, veja agora o que o Tony Palocci diz, ele mesmo, em suas precoces memórias:

“E qual você acha que deve ser o compromisso do novo Governo ?”

Veja bem , amigo navegante.

O futuro Ministro da Fazenda pergunta ao dono da maior rede de televisão do país qual deve ser o compromisso do futuro Governo sobre o ponto mais grave da crise (segundo o neo-liberalismo dos interlocutores).

O filho de Roberto Marinho chega a dizer que o superávit deveria superar 4%, como se ele e o Palocci soubessem do que falavam.

Depois desta edificante conversa, Palocci prometeu, obedientemente, lutar por um superávit primário “o quanto fosse necessário” e, não, “enquanto”, como estava dito antes.

Ou seja, se a urubóloga dissesse que “o quanto” eram uns 10% do PIB, assim faria o Ministro da Fazenda trotskista e petista.

Viva o Brasil !

Meu depoimento ficcional sobre a tal carta está aqui.

Exclusivo: ex-diretor da Globo...

A turma está se animando a contar as histórias!!!!

PAULO NOGUEIRA – O assunto foi levado diretamente pelo ministro Palocci à cúpula das Organizações Globo.

247 – Quando você diz cúpula, a quem se refere? Ao Ali Kamel, o diretor de jornalismo?

NOGUEIRA – Não, o Ali Kamel respondia pela televisão. Eu me refiro aos acionistas.

247 – À família Marinho, portanto.

NOGUEIRA – Isso.

247 – E qual foi a motivação?

NOGUEIRA – Estávamos todos naquela briga das semanais, competindo pelo furo da semana. Só depois ficou claro que a revista Época foi usada como instrumento do ministro Palocci.

Para ler toda a entrevista: aqui

A língua é minha pátria... E quero frátria.


“Língua é ferramenta e sua função primária é propiciar uma comunicação inteligível. Ela é normatizada ao longo do tempo na forma como é falada. Assim é criado o padrão escrito. O passo seguinte é a aceitação de um modelo estético e passa a ser elegante escrever, e também falar, na variante oficialmente reconhecida”, observa o advogado e linguista Ricardo Salles autor, entre outros, do livro Legado de Babel (Ed. Livro Técnico), prefaciado por Antonio Houaiss.

Salles põe o dedo na ferida: “Isso dá, em primeiro lugar, distinção social e, como um subproduto terrível, o preconceito contra aqueles que não falam da mesma maneira”.

O Poder Quando Corrompe

por Mino Carta

De outra natureza ainda é o caso do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, de características tipicamente nativas, de uma sociedade do privilégio vocacionado para a predação. O ex-ministro da Fazenda milita em uma categoria que no Brasil apresenta dimensões e tonelagem excepcionais. Os botões, insistentes, me levam a recordar personagens que influenciaram a política econômica brasileira nas últimas décadas, e ficaram ricos, melhor, riquíssimos, depois de deixarem seus cargos. Estabelecidas sólidas cabeças de ponte dentro dos gabinetes governistas, venderam a peso de ouro conselhos abastecidos pela chamada inside information. O próprio Palocci incumbe-se de desfiar um rosário de nomes ilustres que o precederam neste gênero de atividade. Sustenta, impávido, a seguinte tese: se eles pecaram, por que não eu?

Para ler tudo: aqui

Do Papai para meu filho Pedro

Reparem só como é genial o arranjo da Cor do Som.

21 maio 2011

O Pedro pediu e aqui está


Um trecho do show PHONO 73 realizado no Anhembi, em São Paulo. A música Cálice foi considerada subversiva pelos orgãos da ditadura militar, por isso mesmo sendo cantada com a letra modificada, o microfone do Chico Buarque foi desligado.

do blog Quintal Cultural, que havia extraído do blog Som Barato, texto publicado pela revista Bizz.

"PHONO 73 - O CANTO DE UM POVO" - VÁRIOS (Mercury/Universal)

Lançado como um festival compacto da antiga gravadora Philips (hoje Universal), o Phono 73 peitava todas as regras ao apostar na mistura ampla, total e irrestrita, incomum para a época. Durante sua realização, em maio de 1973, passou pelo palco do Anhembi (SP) todo o elenco da gravadora, repleto de estrelas - havia desde a nata da MPB (Caetano, Chico, Gil) até os "populares" e "roqueiros" do selo paralelo Polydor (Mutantes, Rita Lee, Ronnie Von, Odair José).

Phono 73 - O canto de um povo poderia ter sido apenas um lançamento institucional, mas ganhou forte sentido político e estético. O dueto de Caetano Veloso e Odair José na pérola kitsch "Eu vou tirar você deste lugar" foi marcado por vaias da platéia, provocações de Caetano (que reclamou: "não existe nada mais Z do que a classe A") e vocais gaguejados de Odair. Já a censurada apresentação de "Cálice", de Gilberto Gil e Chico Buarque, virou lenda, desvelada agora graças às imagens. Proibidos de cantar a música, Gil e Chico, num momento de exemplar molecagem, resolveram cantá-la reduzindo sua letra a balbucios e a um ríspido "Cálice!" (cale-se, sacou?) berrado por Chico. Vendo as imagens, é possível acompanhar quase tudo: o som sendo cortado pela censura, Gil rindo nervoso, Chico com cara de "sabia que isso ia dar merda..." e inserindo um "arroz à grega" na letra da música (referência ao hábito adotado pelos jornais da época, que publicavam receitas no lugar de matérias censuradas).

Mesmo com falhas que não puderam ser consertadas - o áudio e o vídeo não casam em vários momentos e várias músicas estão pela metade - o DVD serve como registro histórico. Além de "Cálice", tem a celebração de Gil, Caetano e Jorge Ben na versão lisérgica de "Filhos de Gandhi"; o encontro cordial entre Wilson Simonal e Jair Rodrigues; Caetano impondo uma versão quilométrica de "A volta da Asa Branca", de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, à platéia que acabara de vaiá-lo com Odair; os movimentos pélvicos de Sérgio Sampaio em "Eu quero é botar meu bloco na rua". Raul Seixas transforma seu hard-soul "Loteria da babilônia" num happening, no qual lança a "semente de uma nova idade" enquanto pinta o símbolo da Sociedade Alternativa no peito. E em "Baioque", um raro rock de seu repertório, Chico solta um "censura filha da puta!", não captado pelos microfones.

Já o CD tem desde o lançamento de "Oração de Mãe Menininha" (com Gal e Bethânia) até o enterro da fase lisérgica de Ronnie Von, com a suingada "Vai depressa", passando pelos novatos Jards Macalé e Fagner. Só não tem Mutantes: doidaralhaços, Arnaldo, Sérgio, Liminha e Dinho sabotaram o próprio show. E não estranhe a escuridão de vários momentos do DVD: na segunda noite do evento, a iluminação feita pelo ator-faz-tudo Ziembinsky estourou feito pipoca.

20 maio 2011

A lógica do enriquecimento de Palocci


Até o momento, mesmo com todos os revezes de sua vida pública, a imagem de Antonio Palocci, titular da Casa Civil, que emerge das denúncias de que teria aumentado o seu patrimônio pessoal em 20 vezes de 2006 a 2010, está longe de ser a de um ministro enfraquecido. É o retrato de corpo inteiro de um político muito forte. Palocci não tem poder apenas porque isso foi conferido a ele pela presidente da República, Dilma Rousseff, mas pela capacidade de se investir do papel de fiador de governos petistas, principalmente junto ao mercado. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi o fiador de um candidato eleito considerado pelo mercado como um incendiário; no governo Dilma, de uma presidente com um passado revolucionário que carregava a tiracolo um ministro da Fazenda, Guido Mantega, nada ortodoxo, e optou por tirar do Banco Central outro "fiador" do mercado, Henrique Meirelles.

No governo Lula, Palocci não caiu porque se viu envolvido em denúncias. Enquanto eram apenas elas, foi suficientemente poupado pelo mercado, pelos jornais e também pela oposição. Caiu devido a um excesso seu, depois de já ter retomado o controle sobre seu destino no Congresso. Depois de sair-se muito bem em uma ida ao Legislativo para prestar esclarecimentos, sua assessoria divulgou o sigilo bancário de um caseiro, a testemunha do caso. Se esse excesso não tivesse acontecido, é provável que tivesse continuado no governo, inclusive fortalecido, numa conjuntura em que o presidente estava frágil e o PT sob fogo cruzado. Seria, pelo menos naquele momento, um ministro forte sustentando um presidente fraco. Palocci não voltou para o governo antes de ter sido absolvido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) mas, já nessa condição e ainda na campanha eleitoral de Dilma, colocou-se – e foi colocado – novamente como o grande interlocutor do partido junto ao poder econômico. A manutenção de Guido Mantega na pasta da Fazenda foi um aceno, para o partido, de que a presidenta não abandonaria a opção desenvolvimentista representada pelo titular da pasta. A escolha de Palocci como "gerente", todavia, deu a ele o espaço de articulador e mediador junto a setores empresariais e financeiros.

Palocci ocupou todos os espaços de poder conferidos à Casa Civil: não há um assunto de governo, hoje, que não seja acompanhado pelo ministro. Não interessa para esses setores, que têm uma forte ascendência também sobre os partidos de oposição, que se mude a relação de poder dentro de um governo cujos espaços divide com a esquerda, ou que desapareça do cenário um político pragmático, que tem bom trânsito a empresários e a partidos mais conservadores da base aliada, além de uma certa simpatia da oposição. Se cair, será por seus excessos, não pelo zelo da oposição em defenestrá-lo.

O primeiro excesso já ocorreu. Em sua defesa, partiu para o ataque. Sua nota, em que nomeia ex-ministros que ficaram ricos depois que saíram do governo, é uma saída à La caseiro: uma aposta de que tem apoio de quem interessa do lado de fora do governo, e de quem consegue fazer isso prevalecer dentro do Congresso e do próprio núcleo de poder; a certeza de que a intimidação pode levar adversários ao corner. Como grande gerente da máquina de governo, conseguiu, por exemplo, traduzir isso em votos na Câmara para evitar sua convocação para prestar esclarecimentos. Confiante em sua própria capacidade de reverter uma situação contrária, apela com naturalidade ao discurso de que se todos fazem – ganham dinheiro depois que saem do governo --, ele também tem esse direito.

É uma situação que pouco contribui para a discussão de sistema político do país. Um debate de reforma política que abrir mão de entender por que é tão normal ex-dirigentes governamentais da área econômica acumularem fortunas depois que saem de cargos públicos será uma discussão sobre miçangas. O que é hoje, segundo o ministro, um padrão normal de relações, onde fatalmente um homem forte de governo se torna rico quando volta para a planície, é também um elemento importantíssimo de análise das causas da corrupção no Brasil. O discurso oficial, assumido pelos jornais e pela opinião pública, é o de que a classe política é intrinsicamente corrupta: faz parte da sua natureza ruim o político tirar proveito de seu mandato.

O problema é bem mais amplo. Na verdade, num sistema onde transitam grandes vantagens privadas, a corrupção é um negócio que interessa tanto ao corruptor, como ao corrupto. Para os setores que têm interesses econômicos no governo, é uma situação muito mais cômoda arcar com os ônus de financiar campanhas políticas e contratar consultorias de quem tem informações de governo do que defender, por exemplo, o financiamento público de campanha. Num sistema político que é movido a dinheiro privado, esses recursos não apenas financiam partidos, mas escolhem nas agremiações quem vai representá-lo. O financiamento privado é uma terceirização da atividade partidária. O dinheiro mantém nos partidos homens fortes, cujos erros são relativizados, e todo o sistema político na defensiva, ao jogar para os representantes eleitos a responsabilidade exclusiva das mazelas morais da democracia.

18 maio 2011

Palocci, pede para sair

Novembro do ano passado. A presidenta recém eleita Dilma Rousseff diz que acha justo que todos os partidos da coalizão tenham cargos no governo, mas alerta: “não terei complacência nem tolerância com malfeitos”.
Independentemente de ser fogo amigo do PT de São Paulo, independentemente de Palocci ter trânsito com setores da sociedade que não se vêem representados por outros políticos do Partido dos Trabalhadores, em especial os bancos, as multinacionais e alguns empresários de comunicação, o fato é que se há evolução patrimonial incompatível com a renda, e se não há meios de comprovar ganhos em progressão geométrica, o que o Governo deve fazer: o mesmo que fez com Erenice. Na dúvida afasta, apura e, se for o caso, reintegra depois.
Não podemos ter dois pesos e duas medidas. Não podemos apontar o dedo para um corrupto da base aliada ou da oposição se tolerarmos pesar sobre as cabeças do partido governista a mesma suspeita. Ou Palocci abre suas contas, ou não tem o direito de ocupar cargo público de primeiro escalão. Simples assim! Seja do PT, PMDB, PSDB... Não importa. Lisura é lisura. Honestidade é honestidade.

17 maio 2011

O pior cego...


A notícia era inimaginável cinco anos atrás. Pela primeira vez, desde que começou ser medida pelo Ibope a audiência na TV, a Record derrotou a Globo em todos os programas matinais hoje. O resultado das 6h ao meio-dia, deixou a emissora da Barra Funda em primeiro lugar. A Record ficou com 6,9 pontos de média contra 6,3 da Globo e 5,9 do SBT. Os dados da medição prévia minuto-a-minuto foram calculados pelo portal R7. O chamado resultado consolidado só será divulgado oficialmente amanhã, mas a comemoração é grande. No acompanhamento em tempo real o "SP no Ar" venceu do início ao fim, das 7h15 às 8h40, por 7,8 a 7,5. Disputou com o "Bom Dia São Paulo" e parte do "Bom Dia Brasil". Ao começar o "Fala Brasil" a diferença chegou a ser de cinco pontos em favor da Record, 11 x 6. Em seguida o "Fala Brasil" enfrentou o programa de Ana Maria Braga e manteve quatro pontos de vantagem, 10 x 6. O SBT, em segundo, marcou 7 pontos no horário. O "Hoje em Dia" também derrotou a Globo, por 8 x 7, período em que a Globo ficou emparedada pelo SBT. Quando digo que alguma coisa está mudando na TV brasileira, amigos, não é ficção. Por isso, digo, o pior cego é aquele que não quer ver.

15 maio 2011

Sobre búfalos e leões

Só para lembrar que há momentos na vida em que o predador não pode com a presa.

14 maio 2011

Churrascão: Sucesso de Público e de Crítica

por Maíra Kubík Mano - Especial para Carta Maior

– Eu não imaginava que as redes sociais pudessem mobilizar tanta gente.

– Eu fiquei um tempão na Praça Vilaboim e não tinha ninguém. Pensei que era lá. Ainda bem que quando cheguei aqui encontrei a multidão.

– Eu acho que tem pouca gente. Mais de 50 mil confirmaram pelo Facebook e não vieram. Tem pessoas que se escondem atrás do computador, fazem ativismo só online.

Divergências à parte, o churrasco da “gente diferenciada” estava cheio. Bem cheio. Era pouco mais de 14h quando cerca de mil pessoas começaram a se concentrar em frente ao shopping Pátio Higienópolis. O motivo? Protestar contra a mudança da futura estação de Metrô da av. Angélica para a av. Pacaembu. A alteração dos planos na Linha 6 – laranja teria ocorrido após a Associação Defenda Higienópolis alegar que a obra não deveria ser feita ali porque aumentaria o "número de ocorrências indesejáveis" e a área se tornaria "um camelódromo".

A avenida Higienópolis foi fechada rapidamente pela multidão. Um policial tentava negociar com um homem que segurava uma tigela com farofa: “Precisamos saber o percurso de vocês, para interromper o trânsito”. “Eu não sou líder do movimento, não tem ninguém aqui para responder por isso”, diz ele, virando as costas para a autoridade.

“Sou representante da associação de moradores do bairro”, grita um jovem. Silêncio. Todos querem ouvir o que ele tem a dizer. “Me enviaram aqui para dialogar com vocês. Nós queremos o Metrô sim. Mas ele tem que ser condizente com o nível do bairro. Portanto, exigimos uma ligação direta com Alphaville, Morumbi e Veneza, na Itália”. Gargalhadas correm soltas.

Eliná Mendonça, vizinha do shopping, gosta da piada. “Só que essa questão é muito séria”, alerta. “Não é verdade que a gente aqui não quer isso. Não queremos ser vistos como elitista”. Ao seu lado está Myrna Kovyomdjian, também moradora do bairro. “Meu apartamento é na rua Ceará e eu quero o Metrô aqui”, diz. “Somos 55 mil pessoas em Higienópolis. Não podemos deixar que um abaixo-assinado com 3 mil nomes impeça o transporte público.” As duas senhoras lembram que, quando o shopping foi construído, também houve muita oposição. “Ninguém queria e agora todo mundo frequenta. Com o Metrô vai ser a mesma coisa”, completa Myrna.

A Associação Defenda Higienópolis? Nenhuma pessoa ali havia ouvido falar antes das denúncias. “Eu tenho um escritório ao lado do Pão de Açúcar [onde seria construída a futura estação, na Avenida Angélica], e não passou abaixo-assinado algum por lá”, afirma a consultora de recursos humanos Márcia Hasche, tomando um café dentro do shopping.

André Vasquez de Abreu não é habituê do bairro. Pelo contrário: mora em Itaquera. Mas decidiu ir ao protesto, mesmo tão longe de casa. “Eu trabalho como atendente de telemarketing na Praça da República e sempre pego o Metrô”, justifica. “E falaram que os diferenciados viriam de Metrô. Isso é para eles verem que nós viemos de qualquer jeito”, declara Vitório Felipe, também da Zona Leste, com um espetinho de queijo na mão e um sorriso no rosto.

Cartazes dão tom de brincadeira ao protesto. “Só ando de metrô em Paris, Nova York e Londres” foi um dos que fez mais sucesso. Alguns integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) queimam uma catraca e depois assam uns espetinhos nas chamas. A cena rende fotos e vídeos para todos os jornalistas presentes.

Finalmente em marcha, os manifestantes decidem subir a avenida Angélica até o local onde estava prevista a construção da estação. A bateria anima os gritos contra o governador Geraldo Alckmin e os moradores ditos “elitistas” da região. Uma churrasqueira é carregada para cima e para baixo, acesa. Em breve, todos se dispersariam no que terminou como um grande bloco de carnaval.

“Acho que o ato cumpriu seu papel”, avalia o promotor Mauricio Antonio Ribeiro Lopes, responsável por pedir esclarecimentos sobre o caso à Secretaria de Transportes Metropolitanos. Morador de Higienópolis, ele foi acompanhar de perto o protesto. Em entrevista mais cedo, Lopes havia dito à Carta Maior que iria averiguar a fundo a questão. “Quero saber porque o governo mudou de ideia em relação a onde colocar a estação. É preciso descobrir se, de fato, um grupo de 3.500 pessoas que fez o abaixo-assinado pode decidir pelas 25 mil que usariam diariamente essa estação de Metrô”. O governo tem 30 dias para responder seu pedido. Caso o promotor não fique satisfeito com a argumentação, solicitará a realização de estudos técnicos.

Em nota divulgada no final da semana, o Metrô reafirmou que a decisão de mudar a estação foi técnica e que está estudando a melhor localização para atender à FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), à Avenida Angélica, à Praça Vilaboim e ao estádio do Pacaembu. Entre os argumentos do governo está a proximidade com a futura estação Mackenzie – 610 metros – o que impediria os trens de adquirirem alta velocidade na linha . “Vou avaliar as distâncias entre todas as estações de São Paulo. Aquela entre a Sé e a Liberdade, na linha Vermelha, é menor ainda do que essa. Por que foi construída então?”, indaga o promotor Lopes.

Pelas andanças no bairro, apenas uma moradora se disse contrária à estação. “Já tem metro aqui perto. Santa Cecília, Barra Funda. Agora vai ter no Mackenzie. O pessoal pode caminhar, não é tão longe”, afirma Bia, que não quis revelar o sobrenome. Um de seus temores é que o bairro se desvalorize.

“Essa é a maior bobagem”, sentencia a arquiteta e urbanista Ermínia Maricato. “O Metrô valoriza os imóveis. É um serviço que todo mundo deveria querer. Isso é típico do Brasil, de uma sociedade muito desigual e preconceituosa, que não consegue conviver com a pluralidade”.

O pessoal do churrasco diferenciado bem que tentou se misturar: a cada esquina, convidavam os moradores a descer dos prédios para provar a carne.

Cadê a Tolerância?

Por: Marc Tawil

Meu nome é Marc Tawil, 37 anos, judeu e morador de Higienópolis desde 1988. A chave do meu carro é um Bilhete Único da SPTrans, carregado semanalmente na lotérica da esquina da Alameda Barros com Avenida Angélica. Não faço parte de associações ou sindicat...os mas, por toda a semana, fui obrigado a ler, na timeline do meu Twitter, Facebook e blogs de gente fina e sincera, que o bairro onde moro – até a semana passada “um lugar bacana, disputado por suas ruas arborizadas, onde ainda é possível fazer tudo a pé” – tornou-se, para o resto da Cidade, um covil de ratos segregacionistas e preconceituosos. Onde? Nem eu, nem minha mulher, vizinhos, parentes ou amigos (felizmente, tenho muitos) fomos consultados por associações ou pelo Metrô para saber se o mesmo poderia desembarcar aqui. Certamente, eu diria que sim. Minha mulher, que usa o carro, também. Que diferença isso fez? Leio por aí que “em Higienópolis, moradores dizem que ‘prevaleceu o bom-senso’”. Quais moradores? Vivem em Higienópolis cerca de 30 mil pessoas. Por que 3,5 mil respondem por todos? Onde está o Poder Público, que impõe tantas coisas e não impõe um serviço como o metrô, como fez em Pinheiros, Butantã, Itaquera e Vila Carrão? Nóias e nazistas Higienópolis, o bairro da #gentediferenciada do Twitter, também tem vizinhos menos conhecidos do grande público: usuários de crack, nóias, indigentes e catadores de papelão. Ninguém comenta? Claro que não... Não são humanos, são invisíveis. Como não são humanos os 6 milhões de judeus mandados para Campos de Concentração na Alemanha Nazista e na Polônia e que viraram motivo de chacota na internet. Afinal, é evidente que, nós, os racistas de plantão de Higienópolis, decidimos pelo não-metrô. O “movimento contra Higienópolis”, que começou até de forma bem-humorada, com Churrascão no Shopping e o movimento “manda o metrô pra Pompéia”, hoje recheado de preconceito e antissemitismo, tem o seu lado bom: mostra que tem ou não opinião. Desmascara aqueles pegam carona na piada fácil e no preconceito dos comedians. Atacar em grupo, especialmente atrás do micro, é sempre mais fácil. Na Alemanha Nazista, muita gente pacata e acima de qualquer suspeita fechou os olhos, enquanto os velhinhos da Higienópolis de lá eram queimados vivos e crianças tinham seus olhos e fígado arrancados a seco para “experiências médicas”. Pensar um pouco antes de falar dá trabalho, né? Isso a gente deixa para “a gente cabeça” e o “judeu chato”.

13 maio 2011

Devolva-me


Ontem, 12 de maio, coincidentemente dia do aniversário da minha irmã mais velha e "patrocinadora" do blog, publiquei duas vezes. No primeiro texto fazia distinção entre a carreira de especialista e a de gestor em jornalismo. Era uma reflexão depois de quase 20 anos de telejornalismo. Na segunda postagem reproduzia um texto da revista Forum que entitulei de: A Novíssima Censura é Pelo Bolso. No texto, Adriana Delorenzo faz um apanhado geral sobre a perseguição sofrida por blogueiros de norte a sul do país. Pessoas que não aceitam o contraditório e querem calar os ativistas em rede com ações indenizatórias, intimidação, ameaças e atentados. Bem-vindos à nova selva! Só que, juntas, as presas são fortes e podem sim enfrentar os predadores. Diz a lenda que todo mineiro é desconfiado. Sou filho deles e talvez por isso, costumava escrever meus post num editor de texto e depois tranferí-los para o blog. Depois, conforme fui ganhado confiaça, passei a editar direto na plataforma blogger, do google. Só que, depois que o provedor passou por este percalço nos últimos dias, acho que é mais prudente voltar ao modelo anterior para não correr o risco de perder todo o trabalho. Chateado, faço um apelo ao blogger: Devolva meus posts!

12 maio 2011

Recuperei: A Novíssima Censura é Pelo Bolso

por Adriana Delorenzo, na Forum

No I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, realizado em agosto de 2010, o blogueiro Lúcio Flávio Pinto, do Jornal Pessoal, de Belém (PA), enviou uma carta a São Paulo, onde ocorreu o Encontro. Lida por seu filho, a carta denunciava que o jornalista enfrentava pelo menos 19 processos por parte da família Maiorana, dona do grupo do jornal O Liberal, chegando a ser espancado por um deles, Ronaldo Maiorana. “Já tentaram me desqualificar, já me ameaçaram de morte, já saíram para o debate público e não me abateram nem interromperam a trajetória do meu jornal. Porque em todos os momentos provei a verdade do que escrevi. Todos sabem que só publico o que posso provar. Com documentos, de preferência oficiais ou corporativos”, dizia.

Lúcio Flávio não é o único a sofrer processos e ameaças por conta de suas postagens. A lista, infelizmente, é imensa: o blog A perereca da vizinha; o blog Falha de S. Paulo; e recentemente o Blog do Esmael, fora do ar há quase um mês e alvo de ação por danos morais por conta de postagens que fez denunciando o uso de caixa 2 pelo tucano Beto Richa nas eleições de 2008, em Curitiba; entre outros.

“É a judicialização da censura”, definiu o jornalista e blogueiro Paulo Henrique Amorim, do Conversa Afiada, no Encontro dos Blogueiros Progressistas do Rio de Janeiro, no último fim de semana. Ele responde a 28 ações judiciais, sendo que 12 são do Daniel Dantas. Na lista dos que o processam estão Naji Nahas, Ali Kamel, Gilmar Mendes, Heráclito Fortes, Carlos Jereissati e Diogo Mainardi.

“Nossos adversários tentam criar uma jurisprudência para nos punir e nos calar pelo bolso”, afirmou Paulo Henrique, que questiona quantos blogueiros têm condição financeira para contratar um advogado para se defender.

Todos esses processos estão relacionados, segundo Paulo Henrique Amorim, ao debate da nova realidade das comunicações, com a internet e o crescimento do número de blogs e outros formas de ativismo. Para o blogueiro Rodrigo Vianna, do Escrevinhador, muitos leitores do jornais impressos migraram para blogs. Apesar de reconhecer vitórias com o aumento da pluralidade informativa, Vianna, acredita que é preciso superar o desafio de os blogueiros irem além dos comentários dos conteúdos dos outros. "Nós continuamos fazendo 'metajornalismo'", comparou.

De qualquer forma, Paulo Henrique alerta: “Temos que tomar cuidado com o que dizemos, pois eles estão à espreita”.

Recuperei: O Gestor e o Especialista


Existem duas carreiras distintas em telejornalismo, cuja premissa é que o profissional tenha formação em comunicação social mas não necessariamente, depois do fim do diploma. É a de gestor e a de especialista. No primeiro caso, o colega começa como estagiário, vira repórter ou produtor, pauteiro ou editor de texto. Conforme vai adquirindo tempo de casa, experiência e confiança dos pares é promovido, até atingir o topo nas funções, seja as de repórter especial, chefe de reportagem, chefe de produção ou editor especial. Todas são de padrão compatível, ainda que os salários se diferenciem, dependendo do caso. A carreira de especialista é árdua, lenta e nem sempre premiada a contento, tanto do ponto de vista de mérito, quanto em relação ao merecido aumento salarial. Talvez por essa razão muitos colegas são seduzidos pela carreira de gestor. Na carreira de gestor ele é alçado à condição de chefe cedo. Tem bom relacionamento com superiores, algum talento profissional e capacidade de liderança (mesmo que seja apenas no grito). Normalmente está disponível e pode se dedicar exclusivamente ao negócio. Não se importa se é noite ou dia, poucas ou muitas horas. O desejo de alcançar "um lugar ao sol" fala mais alto. Para as empresas, esse é o perfil ideal para assumir cada vez mais responsabilidades. Com o passar do tempo ele acumula poder, bom salário e começa a achar que está cada vez mais próximo do "céu". Esse deslumbramento faz com que, aos poucos, comece a confundir seus valores aos valores daqueles que representa. Seu discurso começa a ter contornos patronais e suas decisões mimetizam com rigor a ótica do dono do negócio. Pronto, ele está preparado para defender os dogmas com unhas e dentes, o que significa passar por cima de quem for para garantir o sucesso, não só da empresa, mas dele próprio. Esta é a regra, mas como toda regra há sempre exceções. No modelo em questão, infelizmente, são poucas. A boa notícia é que, gestor ou especialista são duas carreiras cuja escolha só depende da vontade de cada um de nós.

11 maio 2011

Com as barbas de molho


Como explicar para o público que o que foi publicado não era exatamente o que foi dito? Que o repórter havia se aproveitado apenas da parte da entrevista que mais lhe interessava, sem se preocupar com o contexto? Isso é muito comum. Diria até procedimento consagrado. Acontece porque as aspas do entrevistado têm o sentido apenas de pontuar a tese formulada na reunião de pauta. E aí os entrevistados só vão servir de escada para o texto. Num telejornal, então, que mobiliza recursos diversos, como: equipamento, deslocamento, prazo e muita gente envolvida, a tese sai ainda mais 'redonda' da redação. E, por uma questão econômica, o repórter vai apenas captar a resposta que os editores precisam. Vaidosos, muito entrevistados se calam, para não perder a vitrine, ainda que sua mensagem saia sempre distorcida. Para romper esse cerco, em 2009 a Petrobras adotou uma estratégia que funcionou muito bem. Passou a reproduzir no site o conteúdo integral das entrevistas de seus executivos. Apesar dos prostestos que desencadeou quando, por exemplo, antecipou pela internet as respostas dadas à Folha de S. Paulo, antes do jornal ir às bancas, a decisão da empresa obrigou os jornais a serem, no mínimo, mais criteriosos no uso das declarações. Agora, parece que o padrão Petrobras de comunicação está se replicando em outras estatais. O site Comunique-se, especializado em comunicação e mídia, noticia hoje que a Infraero, empresa que administra os aeroportos brasileiros, vai fazer rigorosamente a mesma coisa que a Petrobras, com o cuidado, claro, de não se antecipar aos jornais. Entramos na era da transparência, que vai exigir dos jornalistas, com ou sem diploma, muito mais atenção. E aumentar muito a oferta de empregos também. Fica a lição para aqueles colegas que não se importam com mudanças que os chefes fazem nos textos: a partir de agora é bom deixar as barbas de molho.

10 maio 2011

O provocador


Em entrevista a Mauricio Stycer, crítico de TV do UOL, o diretor-geral da Globo, Octavio Florisbal, assume, com aquele jeitão autossuficiente, que a emissora vai ter que correr atrás do prejuízo. E da Record, quem diria!

Até que enfim o governo Lula começou para a Rede Globo. Como sempre, com décadas de atraso, a Velha Senhora percebe que o Brasil mudou. Mais um pouco e vai ter que aceitar que vivemos em uma democracia.

Observem o que diz o texto, logo no início:

“No embalo do crescimento econômico recente do país e das projeções otimistas para os próximos anos, a Rede Globo aprofundou um processo de modificações em sua programação para atender a uma nova clientela: a emergente classe C. As mudanças afetam as áreas de novelas, os programas de humor e o jornalismo (grifo meu). E objetivam deixar a programação mais popular. A nova classe C, na visão da emissora, quer se ver retratada nas telas.”

Eureka!

Então, quer dizer, finalmente, que a “popularização” que a Record pratica há anos, sempre sob o olhar arrogante e presunçoso dos oráculos globais, estava certa? Mais um pouco e a Globo renegará as elites deste país, a quem tão bem serviu.

Jornalismo popular a Record sempre fez, com a clara intenção de se comunicar com as classes C, D e E, que, para o executivo (vejam só), “têm uma vida própria, com características próprias. Nós precisamos atendê-los”. Incrível. Visionário, não é mesmo?

Telejornais conversados, reportagens com plano sequência, inteligíveis para todos, e com temas pertinentes à vida de qualquer cidadão comum fazem parte do noticiário da Record há anos. Por algum milagre, deixarão de ser apelidados de “sensacionalistas” e “apelativos”.

Percebam o quanto um homem pode se regenerar, nas sábias palavras de Florisbal: “Eles têm que ver a sua realidade retratada nos telejornais. Eles querem ter uma linguagem mais simples, para entender melhor.” Eles quem? A classe média “emergente”.

Mais um pouco e a Globo admitirá que existem pobres neste país! E é capaz até de colocá-los em sua programação, sempre tão elitista, repleta de milionários em seus jatinhos, nas novelas em que os ricos e canalhas sempre se dão bem.

Na Record, favela é cenário desde Vidas Opostas, novela de 2006. Repito: 2006. Pela entrevista, somos advertidos que a próxima novela de Aguinaldo Silva vai se passar na “periferia”. Uau. Que revolução.

Capaz de vermos gente humilde vestida com roupas humildes na tela da Globo. Como farão com os merchandisings? Fiquei curiosíssimo.

Florisbal, mediúnico como ele só, percebeu que houve em nosso país uma forte “mobilidade social ocorrida em função do crescimento da renda e do emprego”.

Talvez isso explique a crise por que passam o PSDB e o DEM (não, não mudei de assunto). Mais um pouco, uma década talvez, e a Globo vai perceber que o governo Lula acabou. Entrou uma mulher no lugar. É o que dizem por aí.

Fala Chomsky!

Como reagiríamos se um comando iraquiano pousasse de surpresa na mansão de George W. Bush, o assassinasse e, em seguida, atirasse seu corpo no Oceano Atlântico?

por Noam Chomsky*, no Guernica Magazine

Fica cada vez fica mais evidente que a operação foi um assassinato planejado, violando de múltiplas maneiras normas elementares de direito internacional. Aparentemente não fizeram nenhuma tentativa de aprisionar a vítima desarmada, o que presumivelmente 80 soldados poderiam ter feito sem trabalho, já que virtualmente não enfrentaram nenhuma oposição, exceto, como afirmara, a da esposa de Osama bin Laden, que se atirou contra eles.

Em sociedades que professam um certo respeito pela lei, os suspeitos são detidos e passam por um processo justo. Sublinho a palavra "suspeitos". Em abril de 2002, o chefe do FBI, Robert Mueller, informou à mídia que, depois da investigação mais intensiva da história, o FBI só podia dizer que "acreditava" que a conspiração foi tramada no Afeganistão, embora tenha sido implementada nos Emirados Árabes Unidos e na Alemanha.

O que apenas acreditavam em abril de 2002, obviamente sabiam 8 meses antes, quando Washington desdenhou ofertas tentadoras dos talibãs (não sabemos a que ponto eram sérias, pois foram descartadas instantâneamente) de extraditar a Bin Laden se lhes mostrassem alguma prova, que, como logo soubemos, Washington não tinha. Por tanto, Obama simplesmente mentiu quando disse sua declaração da Casa Branca, que "rapidamente soubemos que os ataques de 11 de setembro de 2001 foram realizados pela al-Qaida".

Desde então não revelaram mais nada sério. Falaram muito da "confissão" de Bin Laden, mas isso soa mais como se eu confessasse que venci a Maratona de Boston. Bin Laden alardeou um feito que considerava uma grande vitória.

Também há muita discussão sobre a cólera de Washington contra o Paquistão, por este não ter entregado Bin Laden, embora seguramente elementos das forças militares e de segurança estavam informados de sua presença em Abbottabad. Fala-se menos da cólera do Paquistão por ter tido seu território invadido pelos Estados Unidos para realizarem um assassinato político.

O fervor antiestadunidense já é muito forte no Paquistão, e esse evento certamente o exarcebaria. A decisão de lançar o corpo ao mar já provoca, previsivelmente, cólera e ceticismo em grande parte do mundo muçulmano.

Poderiamos perguntar como reagiriamos se uns comandos iraquianos aterrizassem na mansão de George W. Bush, o assassinassem e lançassem seu corpo no Atlântico. Sem deixar dúvidas, seus crimes excederam em muito os que Bin Laden cometeu, e não é um "suspeito", mas sim, indiscutivelmente, o sujeito que "tomou as decisões", quem deu as ordens de cometer o "supremo crime internacional, que difere só de outros crimes de guerra porque contém em si o mal acumulado do conjunto" (citando o Tribunal de Nuremberg), pelo qual foram enforcados os criminosos nazistas: os centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, destruição de grande parte do país, o encarniçado conflito sectário que agora se propagou pelo resto da região.

Há também mais coisas a dizer sobre Bosch (Orlando Bosch, o terrorista que explodiu um avião cubano), que acaba de morrer pacificamente na Flórica, e sobre a "doutrina Bush", de que as sociedades que recebem e protegem terroristas são tão culpadas como os próprios terroristas, e que é preciso tratá-las da mesma maneira. Parece que ninguém se deu conta de que Bush estava, ao pronunciar aquilo, conclamando a invadirem, destruirem os Estados Unidos e assassinarem seu presidente criminoso.

O mesmo passa com o nome: Operação Gerônimo. A mentalidade imperial está tão arraigada, em toda a sociedade ocidental, que parece que ninguém percebe que estão glorificando Bin Laden, ao identificá-lo com a valorosa resistência frente aos invasores genocidas.

É como batizar nossas armas assassinas com os nomes das vítimas de nossos crimes: Apache, Tomahawk (nomes de tribos indígenas dos Estados Unidos). Seria algo parecido à Luftwaffe dar nomes a seus caças como "Judeu", ou "Cigano".

Há muito mais a dizer, mas os fatos mais óbvios e elementares, inclusive, deveriam nos dar mais o que pensar.

*Noam Chomsky é professor emérito do Departamento de Linguística e Filosofía del MIT. É autor de numerosas obras políticas. Seus últimos livros são uma nova edição de "Power and Terror", "The Essential Chomsky" (editado por Anthony Arnove), uma coletânea de seus trabalhos sobre política e linguagem, desde os anos 1950 até hoje, "Gaza in Crisis", com Ilan Pappé, e "Hopes and Prospects", também disponível em áudio.

08 maio 2011

Ricardo Gama: Me dar 6 tiros?


"E isso é um caminho sem volta, não tem mais como a verdade ficar escondida, a internet criou uma fronteira que não vai se fechar mais. É liberdade de informação, o povo precisa saber da verdade. Você não chega a nenhum lugar nem resolve nada na vida se você não souber a verdade."
para ver toda a entrevista (aqui)

Rioblogprog

07 maio 2011

PHA: Eles não vão me calar

06 maio 2011

Garimpagem na Net: Le Monde

por Dario Pignotti, no Le Monde *

No início da década de 1980, centenas de milhares de brasileiros cantaram em coro “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo!”, quando a corporação na qual se apoiou a ditadura militar censurou as mobilizações populares contra o regime militar, utilizando fotonovelas e futebol para tentar anestesiar a opinião pública. Hoje, um segmento crescente do público brasileiro expressa seu descontentamento frente o grupo midiático hegemônico.

Medições de audiência e investigações acadêmicas detectaram um dado, em certa medida inédito, sobre as relações de produção e consumo de informação: a credibilidade da rede Globo, inquestionável durante décadas, começa a dar sinais de erosão. Contudo, é possível perceber uma diferença substantiva entre a indignação atual e o descontentamento daqueles que repudiavam a Globo durante as mobilizações de três décadas atrás em defesa das eleições diretas.

Em 1985, José Sarney, primeiro presidente civil desde o golpe de Estado de 1964, obstruiu qualquer pretensão de iniciativa reformista relativa à estrutura de propriedade midiática e ao direito à informação, em cumplicidade com a família Marinho – proprietária da Globo, da qual, aliás, era sócio. O atual chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, parece disposto a iniciar a ainda pendente transição em direção à democracia na área da comunicação.

No início de 2009, no Fórum Social Mundial realizado na cidade de Belém, Lula convocou uma Conferência Nacional de Comunicação. A partir daí, mais de 10 mil pessoas discutiram em assembleias realizadas em todo o país os rumos da comunicação e definiram propostas para levar para a Conferência, realizada de 14 a 17 de dezembro, em Brasília.

“É a primeira vez que o governo, a sociedade civil e os empresários discutem a comunicação; isso, por si só, já é uma derrota para a Globo e sua política de manter esse tema na penumbra (...). O presidente Lula demonstrou estar determinado a instalar na sociedade um debate sobre a democratização das comunicações; creio que isso terá um efeito pedagógico e poderá converter-se em um dos temas da campanha (de 2010)”, assinala Joaquim Palhares, diretor da Carta Maior e delegado na Conferência.

O embate entre Lula e a Globo poderia ser resumido como uma disputa pela verossimilhança, um bem escasso no mercado noticioso brasileiro. Ao participar quase que diariamente de atos ou eventos públicos, o presidente dialoga de forma direta com a população, estabelecendo um contrato de confiança que contrasta com a obstinação dos meios dominantes em montar um discurso noticioso divorciado dos fatos que, às vezes, beira a ficção.

Lula configura um “fenômeno comunicacional singular; o povo acredita nele, não só porque fala a linguagem da gente simples, mas porque as pessoas mais carentes foram beneficiadas com seus programas sociais; isso é concreto, o Bolsa Família atende a 45 milhões de brasileiros que não prestam muita atenção ao que diz a Globo”, observa a professora Zélia Leal Adghirni, doutora em Comunicação e coordenadora do programa de investigação sobre Jornalismo e Sociedade da Universidade de Brasília.

“Por que Lula ganhou duas vezes as eleições (2002 e 2006), uma delas contra a manifesta vontade da Globo? Por que Lula tem uma popularidade de 80%?”, pergunta Adghirni, para quem “as teorias de comunicação clássica que estudamos na universidade não são aplicadas ao fenômeno Lula. Desde a teoria da ‘agulha hipodérmica’ até a da ‘agenda setting’, dizia-se que os meios formam a opinião ou pautam o temário do público, mas com Lula isso não ocorre: os meios de comunicação estão perdendo o monopólio da palavra”.

Por outro lado, como se sabe, a construção de consensos sociais não se galvaniza só com mensagens racionais ou versões críveis da realidade, também é necessário trabalhar no imaginário das massas, um território no qual a Globo segue sendo praticamente imbatível. A empresa do clã Marinho controla o patrimônio simbólico brasileiro: é a principal produtora de novelas e detém os direitos de transmissão das principais partidas de futebol e do carnaval carioca.

Frente à gigantesca indústria de entretenimento da Globo, o governo é praticamente impotente. Não obstante, a imagem do presidente-operário provavelmente ganhará contornos míticos em 2010, com o lançamento do longa-metragem Lula, o Filho do Brasil, que será exibido no circuito comercial e em um outro alternativo (sindicatos e igrejas). O produtor Luis Carlos Barreto prevê que cerca de 20 milhões de pessoas assistirão à história do ex-torneiro mecânico que se tornou presidente, o que seria a maior bilheteria da história no país.

O balanço provisório da política de comunicação de Lula indica que esta tem sido errática. Em seu primeiro mandato (2203-2007), impulsionou a criação de um Conselho de Ética informativa, iniciativa que arquivou diante da reação empresarial. Após essa tentativa fracassada, o governo não voltou a incomodar as “cinco famílias” proprietárias da grande imprensa local, até o final de sua primeira gestão.

Em seu segundo governo – iniciado em 1° de janeiro de 2007, Lula nomeou Hélio Costa como ministro das Comunicações, um ex-jornalista da Globo que atua como representante oficioso da empresa no ministério. Mas enquanto a designação de Costa enviava um sinal conciliador aos grupos privados, Lula seguia uma linha de ação paralela.

Em março de 2008, o Senado, com a oposição cerrada do PSDB, do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, aprovou o projeto do Executivo para a criação da Empresa Brasileira de Comunicações, um conglomerado público de meios que inclui a interessante TV Brasil, para a qual, em 2010, o Estado destinará cerca de US$ 250 milhões. O generoso orçamento e a defesa da nova televisão pública feita pelos parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PT) indicavam que Lula havia decidido enfrentar a direita política e midiática. Ao mesmo tempo em que media forças com a Globo – ainda que não de forma aberta -, Lula aproximou posições com as empresas de telefonia (interessadas em participar do mercado de conteúdos e disputar terreno com a Globo) e algumas televisões privadas, como a TV Record – de propriedade de uma igreja evangélica.

A estratégia foi tomando contornos mais firmes no final do mês de outubro quando Lula defendeu, durante uma cerimônia de inauguração dos novos estúdios da Record no Rio de Janeiro, o fim do "pensamento único" capitaneado por alguns formadores de opinião (em óbvia alusão à Globo) e a construção de um modelo mais plural. Dias mais tarde, o mesmo Lula afirmava: “Quanto mais canais de TV e quanto mais debate político houver, mais democracia teremos (...) e menos monopólio na comunicação”.

Com um discurso monolítico e repleto de ressonâncias ideológicas próprias da Doutrina de Segurança Nacional (como associar qualquer objeção à liberdade de imprensa empresarial com ocultas maquinações “sovietizantes”), o grupo Globo lançou uma ofensiva, por meios de seus diversos veículos gráficos e eletrônicos, contra a incipiente tentativa do governo de estimular o debate sobre a atual ordem informativa, que alguns definem como um “latifúndio” eletrônico.

O primeiro passo neste sentido, assinala Joaquim Palhares, foi “esvaziar e boicotar a Conferência Nacional de Comunicação, retirando-se dela, dando um soco na mesa e saindo impestivamente para tentar deslegitimá-la”, movimento seguido por outros grupos midiáticos. O segundo movimento consistiu em articular um discurso institucional para fazer um cerco sanitário contra o contágio de iniciativas adotadas por governos sulamericanos como os da Argentina, Equador e Venezuela, orientadas na direção de uma reformulação do cenário midiático.

A Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) “temem que o que ocorreu na Argentina se repita no Brasil; eles veem essa lei como uma ameaça e começaram a manifestar sua solidariedade com a imprensa da Argentina”, afirma Zélia Leal Adghirni. O receio expresso pelas entidades representativas dos grandes conglomerados midiáticos é o seguinte: se o descontentamento regional contra a concentração informática ganha força junto à opinião pública brasileira, poderia romper-se a cadeia de inércia e conformismo que já dura décadas e, quem sabe, iniciar-se um gradual – nunca abrupto – processo de democratização.

O inverso também se aplica: se o Brasil, liderado por Lula, finalmente assumir como suas as teses do direito à informação e à democracia comunicacional, é certo que essa corrente de opinião, atualmente dispersa na América Sul, poderá adquirir uma vertebração e uma legitimidade de proporções continentais.

(*) Dario Pignotti é jornalista e doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo. O artigo foi publicado em dezembro do ano passado.

05 maio 2011

Uma Agenda Silenciosa

do sítio Carta Maior

O governo prepara-se (...) para instituir um fundo de pensão exclusivo para funcionários públicos, a fim de utilizá-lo como arma de captação de recursos e, com isso, também “contrariar interesses”. É possível criá-lo desde 2003, quando o Congresso alterou a Constituição para servidor público pagar contribuição previdenciária a um fundo específico. Mas não nasceu até hoje porque depende de lei. É um projeto com tal proposta de lei que o governo finalizará em breve.

O Palácio do Planalto calcula que, com a contratação federal média de 20 a 25 mil servidores por ano, o fundo tem potencial para ser tão poderoso quanto a Previ, dos trabalhadores do Banco do Brasil, o maior da América Latina, com patrimônio superior a R$ 150 bilhões.

No controle do fundo, que por um tempo apenas coletará dinheiro, sem ter de pagar aposentadorias, o governo escolherá onde investir. Poderá usá-lo, por exemplo, para rolar a própria dívida pública, a juros menores, contrariariando o “mercado” de novo. Fundos de pensão detém hoje 15% da trilionária dívida federal, segundo a Secretaria do Tesouro Nacional, que tem feito reuniões com gestores de fundos para incentivá-los a comprar mais títulos públicos.

Os banqueiros, aliás, serão alvos preferenciais da disposição presidencial de “contrariar interesses”. Como ela disse em viagem recente à China, o país tem “o grande desafio” que “vai ter de enfrentar, pelo menos desta vez”, de derrubar a taxa real de juros, a maior do planeta. A equipe econômica recebeu a orientação de Dilma de estudar como fazer para diminuir os chamados spreads bancários, pedaço das taxas de juros que se reverte em lucros bancários. “O mercado será um foco de tensão permanente com o governo”, afirma um assessor do Palácio do Planalto.

Mesmo no processo de domar a inflação, agenda herdada de 2010, o governo já enfrenta o “mercado” e os bancos. A presidenta dá apoio total para que a área econômica enfatize o uso de medidas alternativas ao juro do BC contra o aumento dos preços. Ela acredita que, quanto menos a taxa do Banco Central subir agora, menor será o patamar a partir do qual o governo terá de forçar sua redução até níveis "compatíveis com as taxas internacionais", como diz Dilma.

Ao montar a cúpula do BC, a presidenta já havia sinalizado suas intenções. Dos sete diretores, cinco são funcionários de carreira do banco, sem passagens pelo “mercado” - portanto, menos suscetíveis às influências do pensamento no setor.

O texto completo (aqui)

A Arte de Fazer Amigos

por Luciana Worms (a Lu cantora)

Um amigo de São Paulo, jornalista conhecido, contou-me que em escolas tradicionais da cidade como Santa Cruz, São Bento, Palmares, São Luiz... os próprios pais instruem os filhos, desde muito cedo, a fazerem os amigos "certos", amigos que provavelmente serão influentes já que seus pais o são. Aqui em casa nossa prática é mais ou menos a mesma. Incentivamos nossos moleques a fugir dos pentelhos esnobes que viajam pra Disney de primeira classe, ou que gostam dessas aberrações como um tal de Bieber, etc... Gostamos quando ficamos sabendo que seus colegas e amigos são filhos de professores, jardineiros, bombeiros (esse o mais luxuoso de todos), motoristas de taxis, jogadores de futebol... quando dizem que o pai do amiguinho é advogado eu já tremo... empresário, então... e invertidor?!!!

Tenho muitos amigos. Eu não substituo amigos. Faço novos sempre. Amigos de quase 35 anos, como o Marinho, o Philippe, o Marco, a Carmém, a Bel, a Alexandra, o Marcellus, o Fernando, a Cristiane, a Erika, a Cláudia Simone, a Paty... . Amigos de mais de 20 como a Giselle, a Maria Célia, a Alê, o Paulinho Carvalho, o Cássio, o Claudio, o Batistela, a Lilian, o Renato, a Inês, o Maurídes, o Euler, o Demétrio, a Elaine, o Renan, Luiz Otávio, o Solla. Amigos de mais de 10 anos Aline, Angelo Neto, Rogéria, Ruiz, Fernandinho, Julião, Fábio Liberal, Claudinha do Procon, Anna Toledo, Ana Cascardo, Alice Regina, Estrela, Áurea, Vieira, Spina, João Egashira, Arthur, Leyna, Adriene, Fernanda, Glauco, Endrigo, Sabbag. Amigos de menos de 5 anos Mônica, Márcia,Thayana, Mariana, Cris Loureiro, Tziu, Rafael, Denis, Branco, Paulinho do Don, Julião Bohêmio, Reka, Luiz Feliepe, Diego, França,... e muitos outros: Bárbara e Gabriela Caramuru, Felipe, Tatiane Ellen, Thais, Thaynara... eu definitivamente não dispenso amigos. Acredito em todos e os amo muito. Daria cheques em branco e cartão com senha para todos!!!!

Mas esses dias fiquei pensando quais amizades poderiam me proteger, serem úteis e leais nas mais variadas horas e descobri algumas. Já fiquei amiga de praticamente todas as prostitutas da Vicente Machado e da Visconde do Rio Branco - são uns encantos e adoram animais-, dos guardadores de carro, dos donos de boteco, dos varredores de rua... dos malacos da região.

Quando meu pai morreu o momento mais emocionante do velório foi quando os guardadores de carro (flanelas) da rua lá de casa chegarm pra prestar a última homenagem a ele... papai sabia fazer os amigos certos. Eu também e meus filhos ídem!!!!!!!!!!!!
 
p.s. Apesar da brincadeira contra os advogados, a Lu é bacharel em direito pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco. E fez muitos amigos nas arcadas.

04 maio 2011

Como não custa nada mesmo...

por Mauro Santayana, no JB


Os Estados Unidos celebram a morte de bin Laden, e um ex-embaixador brasileiro considerou-a “espetacular”. É melhor ver a morte de qualquer homem, bom ou mau, como a morte de parte de nós mesmos. Como no belo poema em prosa de Donne, any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. A morte de qualquer homem me diminui, disse o poeta, porque sou parte da Humanidade, e, por isso, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por você. Todos nós morremos um pouco, quando as Torres Gêmeas vieram abaixo, e todos nós morremos quase diariamente com os que tombam e tombaram, na Palestina, no Iraque, no Afeganistão, na Costa do Marfim, no Realengo, em Eldorado dos Carajás, na Candelária e nas favelas brasileiras.

Os americanos comemoram nas ruas a morte de bin Laden, enquanto nos países muçulmanos outros oram pelo homem que consideram mártir. Como parte da Humanidade, talvez não nos conviesse a euforia pela execução sumária de bin Laden, nem a consternação por sua morte. Os atentados de Nova Iorque – de resto, nunca assumidos de forma cabal pelo saudita – foram crime brutal contra a Humanidade, bem como todos os atos de terrorismo, ao longo das duas últimas décadas. Mas a vingança exercida pelos comandos norte-americanos não pode ser aplaudida. Foi um ato de guerra, cometido contra a soberania do Paquistão, desde que ao governo de Islamabad não foi solicitada autorização prévia para a operação – segundo informou o diretor da CIA, Leon Panetta.

Isso nos leva a outra leitura de John Donne: não pergunte que povo foi atingido pela intervenção militar norte-americana. Todos nós fomos atingidos, não só por essa operação bélica e pela agressão à Líbia, mas também, no passado, pela intromissão, política, militar, econômica, das elites que controlam o governo de Washington, desde a guerra de anexação de territórios soberanos do México, movida pelo presidente Polk, em 1846. O México perdeu a metade de seu território, e os Estados Unidos ganharam mais de um quarto do que já ocupavam no norte do hemisfério. Essa vitória excitou a voracidade imperialista dos Estados Unidos, mais tarde explícita no fundamentalismo do “Destino Manifesto”.

Devemos ser cautelosos quando procuramos entender o momento atual. Comentaristas internacionais, sob o calor destas horas, tentam pensar nas conseqüências imediatas, e há os que discutem se o homem morto em Abbottab (o nome da cidade é homenagem ao general James Abbott, que serviu nas forças de ocupação da Índia no século 19) é mesmo bin Laden – que começou a sua vida de combatente como aliado dos norte-americanos contra os soviéticos, no Afeganistão dos anos 80. Tenha sido ele, ou não, importa pouco. Osama era apenas um símbolo, na clandestinidade imposta pelas circunstâncias. O que importa, e muito, é o que virá a ocorrer não nos próximos dias, que serão de pausa e perplexidade, mas nos próximos meses e anos.

O perigo maior, e desdenhado, é o de que o conflito atual, iniciado com a ocupação da Palestina por Israel, se transforme realmente em guerra declarada entre os países capitalistas ocidentais, que se identificam como cristãos, e os muçulmanos. Quem definiu a agressão como cruzada foi Bush, ao afirmar que Deus o havia convocado a matar Saddam. E conforme o livro clássico de Essad Bey, todos os movimentos no Oriente Médio, entre eles a ocupação judaica da Palestina, se fazem na busca da posse de seu petróleo. No passado, o saqueio se fazia em nome da “civilização” e, hoje, se faz também em nome da “modernidade”.

No fundo do regozijo, há sementes de medo. Esse medo é muito mais poderoso do que foi o saudita, de 54 anos e, segundo informações não desmentidas, a um tempo amigo e sócio dos Bush nos negócios de petróleo.

03 maio 2011

Não custa nada ouvir o que ele tem a dizer...

por Robert Fisk, no Independent

Um zé-ninguém de meia idade, um fracasso político despido pela história — por milhões de árabes que exigem liberdade e democracia no Oriente Médio — morreu no Paquistão ontem. E então o mundo enlouqueceu.

Logo depois de ter providenciado para nós uma cópia de sua certidão de nascimento, o presidente americano apareceu no meio da noite para providenciar um certidão de morte para Osama bin Laden, morto em uma cidade batizada com o nome de um dos exércitos do velho Império Britânico. Um único tiro na cabeça, nos disseram. Mas o vôo secreto do corpo para o Afeganistão e um sepultamento secreto no mar? O estranho e arrepiante destino do corpo — sem túmulos, por favor — foi tão assustador quanto o homem e sua organização.

Os americanos ficaram bêbados de prazer. David Cameron falou num “massivo passo adiante”. A Índia descreveu como “um marco vitorioso”. “Um triunfo retumbante”, se gabou o primeiro-ministro israelense Netanyahu. Mas depois dos 3.000 americanos mortos no 11 de setembro e outros mais, sem conta, no Oriente Médio, até meio milhão de muçulmanos mortos no Iraque e no Afeganistão e dez anos de tentativas de achar bin Laden, rezemos para que não haja mais “triunfos retumbantes”. Ataques de vingança? Talvez eles venham de pequenos grupúsculos do Ocidente sem contato com a al-Qaeda. Com certeza tem alguém pensando numa Brigada do Mártir Osama bin Laden. Talvez no Afeganistão, entre os talibã.

Mas as revoluções de massa no mundo árabe nos últimos quatro meses significam que a al-Qaeda estava politicamente morta. Bin Laden disse ao mundo — na verdade, me disse pessoalmente — que queria destruir os regimes pró-ocidentais do mundo árabe, as ditaduras dos Mubaraks e dos Ben Alis. Ele queria criar um novo Califado Islâmico. Mas nos últimos meses, milhões de muçulmanos árabes se levantaram e estavam preparados para seu próprio martírio — não pelo islã, mas por liberdade e democracia. Bin Laden não se livrou dos tiranos. O povo, sim. E o povo não queria um califa.

Encontrei o homem três vezes e fiquei com apenas uma pergunta sem resposta: o que ele pensava enquanto assistia às revoluções que surgiram este ano — sob as bandeiras de nações em vez da do Islã, feitas por cristãos e muçulmanos juntos, o tipo de gente que os homens da al-Qaeda estavam prontos para assassinar?

Segundo seus próprios olhos, a conquista de bin Laden tinha sido a criação da al-Qaeda, a instituição que não tinha membros de carteirinha. Você simplesmente acordava de manhã, queria ser da al-Qaeda — e era. Mas ele nunca foi um guerreiro. Não havia computador em sua caverna, nem ligações telefônicas para detonar bombas. Enquanto os ditadores árabes governavam sem contestação com nosso apoio, se negavam a condenar a política americana; somente bin Laden fazia isso. Os árabes nunca quiseram jogar aviões contra prédios altos, mas admiravam um homem que dizia o que eles gostariam de dizer. Mas agora, cada vez mais, eles podem dizer essas coisas. Não precisam de bin Laden. Ele tinha se tornado um zé ninguém.

Mas, falando em cavernas, o sumiço de bin Laden traz o Paquistão para um foco desconfortável. Por meses, o presidente Ali Zadari nos dizia que bin Laden vivia em uma caverna no Afeganistão. Agora sabemos que ele estava morando numa mansão no Paquistão. Traído? Naturalmente que foi. Pelos militares do Paquistão e pelo Inter-Services Intelligence [serviço de inteligência] do Paquistão? Possivelmente pelos dois. O Paquistão sabia onde ele estava.

Abbottabad era não apenas sede do colégio militar do país — a cidade foi fundada pelo major James Abbott, do Exército Britânico, em 1853 — mas é também sede do quartel-general da Segunda Divisão do Exército Norte do Paquistão. Cerca de um ano atrás, tentei entrevistar outro “mais procurado” — o líder do grupo que teria sido responsável pelos massacres de Mumbai. Eu o encontrei na cidade paquistanesa de Lahore — guardado por policiais paquistaneses, sem uniforme, com metralhadoras nas mãos.

Naturalmente, há uma questão mais óbvia sem resposta: os americanos poderiam ter capturado bin Laden? A CIA, os Seals da Marinha, as forças especiais dos Estados Unidos ou qualquer que tenha sido o grupo que matou bin Laden, eles não tinham meios de jogar uma rede sobre o tigre? “Justiça”, Barack Obama chamou o acontecimento. Nos velhos tempos, naturalmente, “justiça” significava um processo, um tribunal, uma audiência, uma defesa, um julgamento. Como os filhos de Saddam, bin Laden foi assassinado. Certo, ele nunca queria ter sido preso — e havia baldes de sangue no quarto onde morreu.

Mas um julgamento preocuparia mais gente que bin Laden. Afinal, ele poderia ter falado sobre seus contatos com a CIA durante a ocupação soviética do Afeganistão, ou sobre seus encontros amigáveis em Islamabad com o príncipe Turki, o chefe da inteligência da Arábia Saudita. Como Saddam — que foi julgado pela morte de meros 153, em vez dos milhares de curdos que matou com gás — foi enforcado antes de ter uma chance de falar sobre os componentes do gás que vieram dos Estados Unidos, sobre sua amizade com Donald Rumsfeld, sobre a assistência militar que recebeu dos Estados Unidos quando invadiu o Irã, em 1980.

Estranhamente, bin Laden não era o “mais procurado” pelos crimes internacionais contra a humanidade do 11 de setembro de 2001. Ele ganhou o status do Velho Oeste por conta dos ataques anteriores contra as embaixadas dos Estados Unidos na África e contra o quartel dos Estados Unidos em Dhahran [Arábia Saudita]. Bin Laden estava sempre esperando pelos mísseis de cruzeiro — eu também, quando o encontrei. Ele tinha esperado pela morte antes, nas cavernas de Tora Bora, em 2001, quando os guarda-costas não permitiram que ele se levantasse e lutasse e o forçaram a atravessar as montanhas do Paquistão. Parte do tempo bin Laden passava em Karachi — ele era obcecado por Karachi; estranhamente, ele me deu duas fotografias de pichações pró-bin Laden nas paredes da ex-capital paquistanesa e elogiou os imans da cidade.

As relações de bin Laden com outros muçulmanos eram misteriosas; quando o encontrei no Afeganistão, ele inicialmente temia os talibã, se negando a permitir que eu viajasse para Jalalabad de seu campo de treinamento, à noite — me entregou para que subordinados da al-Qaeda me protegessem na jornada do dia seguinte. Seus seguidores odiavam os muçulmanos xiitas como heréticos e todos os ditadores como infiéis –embora ele estivesse preparado para cooperar com os ex-Baathistas do Iraque contra os invasores americanos e disse isso num audiotape que a CIA tipicamente ignorou. Bin Laden nunca elogiou o Hamas e nunca mereceu a definição dada por eles, ontem, de “guerreiro santo”, que como sempre caiu como uma luva para os interesses de Israel.

Nos anos pós-2001, mantive distante comunicação indireta com bin Laden, uma vez encontrando um de seus associados na al-Qaeda num lugar secreto do Paquistão. Escrevi uma lista de 12 perguntas, a primeria sendo óbvia: que tipo de vitória ele poderia declarar se suas ações tinham resultado na ocupação de dois países muçulmanos? Não houve resposta por semanas. Então, num fim de semana, esperando para dar uma palestra em Saint Louis, nos Estados Unidos, fui informado de que a Al Jazeera tinha divulgado um novo audiotape de bin Laden. E uma por uma — sem me mencionar — ele respondeu minhas 12 perguntas. E, sim, ele queria que os americanos viessem ao mundo muçulmano — assim poderia destruí-los.

Quando o jornalista Daniel Pearl, do Wall Street Journal, foi sequestrado, escrevi um longo artigo no Independent, pedindo a bin Laden que tentasse salvar a vida dele. Pearl e a mulher tinham me protegido quando fui espancado na fronteira afegã em 2001; Pearl até me deu os contatos da agenda dele. Muito mais tarde, fui informado de que bin Laden tinha lido meu texto com tristeza. Mas Pearl já tinha sido assassinado. Pelo menos foi o que ele disse.

Ainda assim, as próprias obsessões de bin Laden pesavam sobre a família. Um mulher o deixou, outras duas parece que foram mortas no ataque americano de domingo. Encontrei um dos filhos dele, Omar, no Afeganistão, com o pai, em 1994. Era um menino bonito e eu perguntei se ele era feliz. Ele disse “sim” em inglês. Mas, no ano passado, ele publicou um livro chamado “Vivendo com bin Laden”, relembrando como o pai matou um de seus cães favoritos em um experimento com agentes químicos de guerra. Descreveu-o como “homem diabólico”. No livro, o filho também relembrou nosso encontro; e concluiu que deveria ter dito que não, que ele não era uma criança feliz.

Até o meio dia de ontem, eu recebi três ligações de árabe, todos certos de que um dublê de bin Laden tinha sido morto pelos americanos — assim como sei que muitos iraquianos ainda acreditam que os filhos de Saddam não foram mortos em 2003, nem Saddam foi realmente enforcado. Com certeza a al-Qaeda vai nos informar. Naturalmente, se estivermos todos errados e tiver sido um dublê, seremos tratados com mais um vídeo de bin Laden — e o presidente Barack Obama perderá a próxima eleição.

 
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