30 abril 2011

Comentário que vem para a Capa

por Fernando Trindade

"Sociologicamente" falando são 3 os 'partidos' que realmente têm força política no Brasil, desde pelo menos 1945.

No campo popular, situado mais à esquerda o partido que agrega os interesses dos trabalhadores assalariados, excluídos, marginalizados, despossuídos,autônomos, empreendedores e empresários com vinculação nacional e popular (seja por origem social, seja principalmente por 'carteira' de clientes e ramo de negócio - produtos de consumo de massas) Neste grupo está a maioria absoluta da nova classe C e parte (minoritária) da antiga classe média. O principal partido (sem aspas) que represena esse grupo é o PT.(Entre 1945 e 1965 foi o PTB).

No campo elitista, mais à direita o 'partido' que agrega os interesses das elites tradicionais, p. ex os 'quatrocentões de SP' (empresariais do campo - agroexportadores tradicionais - e das cidades, das classes médias, profissionais liberais) e parcela das novas elites (maioria do agronegócio, maioria das classes médias e profissionais liberais que ascenderam dos anos 70 para cá e que têm a meritocracia como ideologia dominante). O principal partido (sem aspas) que agrega tais interesses hoje é a coligação PSDB/DEM. (Entre 1945 e 1965 foi a UDN, na ditadura seu 'partido' principal, com aspas foram as FFAA e não a ARENA, como muitos acreditam).

Finalmente o terceiro importante 'partido' representa o centro político, agregando os interesses patrimoniais e clientelistas históricos. Não são preponderantemente interesses ideológicos diversamente dos outros dois, mas fisiológicos,seja para fins de sobrevivência (comer é ato fisiológico básico e primário, ou não?) seja para fins de reprodução do status quo, por meio de subvenções estatais e/ou ocupação de espaços no aparelho do Estado. Basicamente procura representar os interesses de todas as classes, diluindo os interesses de classes. O seu principal partido hoje (sem aspas) é o PMDB. Entre 1945 e 1965 foi o PSD.

O 'partido' com aspas do campo popular/populista foi destituído do poder em 1964 e só voltou em 2002, com Lula, embora tenha parcialmente apoiado os governos de centro de José Sarney e o de Itamar. O partido da direita esteve no poder desde a ditadura até 2002, sendo que entre 1985 e 1990 (Governo Sarney) e entre 1992 e 1995 (Gov. Itamar) o 'partido' com aspas predominante foi o do centro. O 'partido' da esquerda é nacional e popular (ou populista, para os que preferirem)e anti-elitista. Embora haja nele elementos minoritários de elitismo.

O 'partido' da direita é cosmopolita (ou entreguista para os que preferirem) e elitista. O 'partido' do centro está no centro, mas historicamente tem se afastado do elitismo (e isso é fundamental para entender a aliança da esquerda e do centro a partir do Governo Lula) e aqui chegamos ao mais importante.

Entendo que o PSD de Kassab será um tentativa de setores que hoje estão no 'partido' da direita de passarem para o 'partido' do centro a partir da crítica do elitismo. O novo PSD vai - ao mesmo tempo - aceitar que o Brasil mudou, que os anos Lula significaram sim uma conquista social, mas vai atuar para disputar com os partidos (sem aspas) da base a nova classe C e com a coligação direitista as classes A e B, a partir de um discurso de valorização do empreendedorismo e dos serviços públicos, de liberdade de ação empresarial, de redução de tributos e de pragmatismo em temas como política externa e costumes sociais, procurando, nesses temas se diferenciar do 'partido' da direita'.

29 abril 2011

Ali Kamel, um leitor muito especial


A descoberta que acabo de fazer é surpreendente. Meu modesto blog, que recebe pouco mais de mil visitantes ao dia tem um leitor muito especial: o diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel. Para quem DoLaDoDeLá se dedica modestamente à filosofia, política, economia, família, curiosidades e sobretudo à ficção, a notícia me enche de orgulho. Significa que Ali encontra tempo todos os dias para conhecer melhor o meu trabalho. Está certo que ele não faz parte da Central Globo de Produção, que é o departamento que cuida da linha de shows, novelas e miniséries, sonho de todo ficcionista, mas já é um bom começo. Nos vimos algumas vezes, na época que eu era funcionário da emissora, mas acho que, por nunca ter me dirigido a palavra, talvez por timidez de parte a parte, ele não teve oportunidade de me conhecer melhor. Também porque Ali está baseado no Rio de Janeiro e eu em São Paulo. Uma pena... Graças à internet, hoje meu trabalho autoral pode alcançá-lo aí no Rio, sem intermediários. Soube por fonte segura que ele se interessou muito por textos que escrevi aqui em agosto do ano passado. Dois em especial: aqui e aqui. Achou até que pudessem guardar semelhança com a realidade. Lamento dizer Ali, estas são obras de ficção, qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais terá sido mera coincidência. Não costumo nominar personagens, não tenho interesse em atingir a honra e reputação alheias. Meu único intuito é tentar compreender a fraqueza moral de todo ser humano, sobretudo quando no exercício do poder, mesmo que para isso seja necessário criar um enredo cheio de fantasias e personagens hiperbolizados. Fico feliz com a sua companhia e espero compartilhar meu trabalho com você aqui por muitos e muitos anos. Obrigado pela frequência!

28 abril 2011

Sobre Felinos e Aves


Já contei aqui que o tucano é uma ave predadora de outras aves, por isso é tão temida. Mas dentre todos os tucanos, José Serra e sua tropa de choque são inigualáveis. Tempos atrás reproduzi uma foto que A Folha de S. Paulo exibiu do então ex-governador e candidato à prefeitura, Geraldo Alckmin, almoçando sozinho num restaurante na Liberdade. Era um quadro acabado de como o partido o adandonara, capitaneado pelo governador à época, José Serra, que escolhera seu vice, Gilberto Kassab, para concorrer à prefeitura da maior cidade do país, em detrimento de decisão de seu próprio partido. Claro que, como previa, hoje a situação se inverteu. É Alckmin quem detém a máquina partidária à frente do Governo. Por isso o desespero de Serra e Kassab em se distanciarem do PSDB. Sobre isso, a brilhante Maria Inês Nassif desmonstra em seu artigo de hoje: como as alianças que mantiveram o poder político no Estado mais rico e influente do país se esfacelam. Recomendo a leitura. Minha aposta é que um novo partidão surgirá, tal qual uma ARENA, sem identidade própria definida de início, mas agregando as forças conservadoras, defensoras da livre iniciativa, do Estado Mínimo, das privatizações e do neoliberalismo imperialista, cartilha que ainda encanta parte das elites paulistas. O que sobrar do PSDB finalmente se aproximará do PT, que se transformou num enorme saco de gatos, a exemplo do MDB da redemocratização. Esta nova configuração disputará o poder na esfera federal em 2014, com o Movimento Democrático Brasileiro em ligeira vantagem, pelo menos por enquanto. Afinal de contas, até onde eu sei, felinos são os maiores predadores da aves.

27 abril 2011

5 X 0


Reproduzo brincadeira bem humorada do portal R7:

Os jornalistas da Record estão rindo à toa. É que a Globo teve um presente amargo nos gramados na semana de seu aniversário de 46 anos.
Na noite da última segunda (25), o time da Record ganhou de 5 x 0 do time da Globo, em partida pela Copa Imprensa.
A equipe global, que tem como um dos membros o jornalista esportivo Cléber Machado, tinha vencido a partida anterior, por 8 x 0.
Concentrados para conquistar a nova disputa, os jornalistas-atletas da Record deram o sangue e toda sua força para vencer o segundo jogo.
Reinaldo Gottino, apresentador do SP Record, apelidado pela torcida de Aranha Negra da Barra Funda, foi o goleiro, que conseguiu defender todos os ataques do rival.
- O clima parecia de uma final, a torcida ficou eufórica. É claro que levamos a rivalidade para os campos, e ganhar da Globo dá uma sensação enorme de prazer. Disputamos com muita garra, pois sabíamos que poderíamos ser eliminados. Foi realmente muito legal e emocionante!
Os artilheiros da noite foram Luis Guerra e Lucas Wilches, com dois gols cada.
Mesmo com a rivalidade nas telas, jogadores das duas equipes foram exemplos de profissionalismo.
Não houve briga nem discussões. Apenas um cartão amarelo.
O time da Record é comandado pelo técnico Ademir Pelissaro e por Edson Ribeiro.
A competição continua cada vez mais acirrada e há chances de Record e Globo se encontrarem novamente nas eliminatórias da copa.
Colaborou Luiza Camargo, estagiária do R7

Em Obras

Tenho estado meio ausente do trabalho que me consagrou aqui no blog: os textos de ficção. Não é por acaso. Acabo de me debruçar sobre uma história cujo potencial é explosivo. Estou investigando cada detalhe e assim que tiver a consistência necessária vou contá-la a vocês. Não posso adiantar nada sobre o conteúdo, sob pena de comprometer todo o trabalho que deve demandar ainda um bom tempo. Mas estou confiante e bastante excitado. Durante este período vou continuar com as postagens mais genéricas. Peço paciência e espero poder revelar uma grande história em breve.

25 abril 2011

De Pernas Pro Ar


Não é fácil chegar num pronto-socorro de um hospital desconhecido, numa cidade onde se está a passeio e entregar a canela da sua perna direita de artilheiro para um cirurgião de plantão costurar para você à vespera da Páscoa. A gente ouve tanta coisa errada por aí que fica com aquela pulguinha atrás da orelha. O hospital no Lago Sul era muito bonito e organizado. Todos uniformizados impecavelmente e recursos disponíveis em abundância. O médico era paulistano, como eu, o que me deu mais conforto. Nada como ouvir um acento (accent = sotaque) conhecido estando longe de casa. O procedimento não durou nem meia hora. Foram seis pontos, o suficiente para esconder a tíbia aparente. Mas hoje procurei um cirurgião plástico da minha cidade, só para dirimir qualquer dúvida. Ele aprovou a sutura e receitou alguns remédios para aliviar a dor, facilitar a cicatrização e curar o estômago tão maltratado com automedicação. Agora, estou pronto para voltar às atividades cotidianas. A única recomendação é não correr 5 km diariamente por enquanto e, se possível, deixar a perna para o alto, pelo menos um pouco durante o dia. Quem me conhece sabe que não corro de jeito nenhum. Quanto a por as pernas para o ar, isso eu gosto. Vamos ver se consigo.

23 abril 2011

No Planalto tudo Termina em Pizza


Era para ser mais um dia de festa no Planalto Central. E foi até perto do meio-dia quando, distraído, caí numa valeta de drenagem de água. O acidente me custou uma visita ao hospital, seis pontos na canela da perna direita e algumas escoriações. A exemplo do senador, aqueeeele, vão dizer que eu estava alcolizado. O mais incrível dessa história é que não tinha tomado uma gota de álcool sequer até aquele momento. Ao contrário, estava na piscina com as crianças e tinha acabado de encarar uma cascata daquelas, melhores do que qualquer massagem. Paciência, uma hora a gente está lá em cima, na outra, lá embaixo. Mas isso não atrapalhou em absoluto os planos do grupo. Depois de uma tarde na cozinha, nosso anfitrião, Orlando, prepara, ao lado do chef de cozinha, Neto, a massa da pizza. O molho caseiro tem um aroma especial de manjericão. Parece com pomarola, brinquei... Mas acho que a piada não agradou, hehehe. A piada que vou soltar mais tarde é que aqui em Brasília tudo termina em pizza. Será que esta eu emplaco?

22 abril 2011

Brasília - 51 anos

No ano passado, no auge do mensalão do DEM, que envolveu o governador do Distrito Federal, Arruda, e mais uma série de servidores, a cidade não teve astral para comemorar os 50 anos. Agora, aos 51, a cidade é uma festa só. Ontem fomos à Esplanada dos Ministérios para ver parte da extensa progamação. Só incomodou o puxa-saquismo do narrador, que queria porque queria que o atual governador, Agnelo Queiroz, fizesse um gol na partida dos veteranos da seleção brasileira de futebol, o que não aconteceu, pelo menos enquanto acompanhamos. Quando é que as pessoas vão entender que bajulação não tem nada a ver? Abaixo seguem algumas fotos da casa da Alê, nossa anfitriã e querida amiga. Daqui do Jardim Botânico, onde estamos, a vista da cidade é maravilhosa. Para as fotos seguem eu, a Maraísa, a Alexandra e a Alê, o Pedrão e o Gabriel, nessa ordem.




A propósito, assim que chegamos ao Alvorada, ontem à noite, o helicóptero que trazia nossa presidenta de Ouro Preto tinha acabado de pousar no gramado. Afinal de contas, tínhamos avisado que viríamos e ela não quis se atrasar para o encontro, hehehe. 

20 abril 2011

A Magia do Nonsense na Criança


- Gabriel, você quer pão na frigideira?
- Quero, mas com essa manteiga aqui.
- Essa não tem sal, tudo bem?
- Tudo. Vai ficar igual ao da padaria, né?
- Será?
(...)
- Cuidado que está quente. Assopra!
- Fuuuuuuu.
- Olha que céu azul!
- É mesmo.
- Será que foi algum menino que pintou?
- Foi.
- Mas tem canetinha dessa cor?
- Teeeeeeeeem.
- E como é que ele chegou lá em cima?
- Ele subiu no telhado de uma casa, passou para o telhado da outra que 'tava' em cima, da outra que 'tava' em cima da outra, até chegar lá em 'cimão'.
- Ahhhh...
- E ele levou também canetinha branca.
- Ah é?
- Sim. Para fazer as nuvens.
(...)
- Vamos chamar os amigos para dar pão para os peixes na praça do aquário?
- Vamos.
- Será que eles vão querer ir?
- Acho que vão. A gente leva bastante, né, para as pombinhas, as galinhas, os pavões...
- Isso!
- Será que os bichos não preferem também na frigideira?
- Acho que não.

19 abril 2011

Pinga Ni Mim

A gente faz piada, ri das propagandas de cerveja, mas por trás de tanta gente bonita, feliz, cantando na praia, celebrando a vida, o amor e a felicidade existe o perigo da dependência ao álcool. E o grupo mais vulnerável é justamente aquele que mais precisa de bons exemplos: os jovens. O álcool é a droga que mais causa dano à nossa sociedade. Já excedi muitas vezes e me arrependo de algumas delas. Hoje não sou contra bebida alcólica, bebo com certa frequência, mas moderadamente. No entanto, moderação não é uma palavra do vocabulário dos adolescentes, sempre tão dispostos a superar barreras e limites. Na Alemanha, por exemplo, a moda entre as meninas é embeber absorventes ínternos em vodca e em seguida inserir em suas partes íntimas. O argumento é que a droga é assimilada mais rapidamente pela mucosa, sem impregnar o hálito. A mania teria começado nos EUA, entre jovens menores de idade, impossibilitados de comprar álcool, e ganhou o nome de "slimming". Mas uma nova febre já chegou ao Brasil. A maluquice de pingar vodca nos olhos, para supostamente aumentar a sensação de embriaguez. É o "vodka eyeballing", que desidrata o globo ocular, queima a córnea e pode até causar cegueira. Em Campinas um estudante universitário acaba de fazer um transplante de córnea, mas vai carregar sequelas pelo resto da vida. Ele teria sido influenciado por um cantor de rock, num vídeo do YouTube. Agora, que belo exemplo, quando um senador da República é flagrado embriagado e se recusa a fazer o teste do bafômetro, não é mesmo?

18 abril 2011

Eu bebo sim, estou vivendo...



O episódio envolvendo o senador "Aébrio Frozen" e sua negativa em fazer o teste do bafômetro me fez lembrar de uma situação que vivi quando vendia minha força de trabalho para a Corte do Cosme Velho. Um dia, um primo me telefonou para saber a quem procurar, para divulgar um congresso internacional que estava organizando. Ele é psiquiatra e disse que - na ocasião - seria apresentado o relatório da maior pesquisa já feita no país sobre consumo de álcool e drogas. Achei interessante e perguntei se era possível ele adiantar algumas conclusões para o telejornal poder antecipar. Ele disse que sim. Sugeri a ele que a assessoria do evento procurasse formalmente a produção e oferecesse a pauta, porque me parecia que era notícia quente. Aí perguntei a ele qual tinha sido a principal conclusão do estudo e ele respondeu que foi a constatação de que o álcool era a pior droga usada pela nossa sociedade e que a pesquisa indicava a necessidade de limitar a publicidade, principalmente entre jovens. Sem chance, disse a ele. Este é um tema muito sensível à emissora porque a indústria de bebidas está entre os maiores anunciantes. Não o informei, mas tínhamos recomendação de não tratar do assunto, caso a abordagem se chocasse com os interesses comerciais da empresa. Dito e feito. A sugestão foi bem recebida, bem encaminhada, mas a reportagem não foi ao ar. Outra que também ficou engavetada foi uma investigação de fraude em ICMS por uma grande cervejaria que, pouco tempo depois, coincidentemente, comprou uma cota de patrocínio para um grande evento esportivo da emissora. Quando os interesses comerciais se impõem aos interesses jornalísticos fica difícil informar com isenção, não é mesmo? E a história da reportagem-denúncia que virou um terreno para a construção do parque gráfico, no Rio? Ih, são tantas histórias que se for contar todas dá um livro...

17 abril 2011

Se eu tivesse um jornal...



...não teria crimes bárbaros, bizarros, violentos. Não teria assalto, furto, tráfico de drogas. Também não mostraria guerras. A dor do ser humano daria lugar ao prazer, à alegria e ao contentamento. Discutiríamos a beleza singular das quatro estações do ano, o explendor da natureza, a vida animal, os sons e a música, os planos e sonhos para um futuro próspero e feliz para toda a humanidade. O meu jornal não teria espaço para fofoca, intriga, picuinha, disputa, pleito e competição. Seria a celebração da paz, do amor e de fantasia. Um universo mágico, onde as pessoas abririam mão da luta pela sobrevivência individual, em troca de cooperação plena. Na primeira página, arte. No primeio caderno, humor. No segundo, confraternização. No terceiro, solidariedade. Nos classificados, compaixão. As pessoas acordariam felizes, diriam bom dia umas às outras, acenariam para os vizinhos, ajudariam velhinhos e crianças a atravessar a rua, não maltratariam os animais, trabalhariam pelo bem comum. Teríamos o suficiente e o suficiente nos bastaria. Não precisaríamos de um Governo, não delegaríamos poder aos outros, não esperaríamos que nossas demandas entrassem num rol de prioridades inalcançáveis. Na plenitude não haveria doença, não haveria o existir e o pensar, nem a vida e a morte. E na ausência do todo que nos complementa (esse formidável ballet entre o "bem" e o "mal"), seríamos um só: o tudo ou o nada. Neste caso, acho que não precisaríamos de um jornal.

Porque hoje é Domingo

16 abril 2011

O Mundo está Mundando, eu sei




Eu nasci nas aproximidades de um rio, em uma pequena cabana
Oh, e, como aquele rio, eu corro desde então
Há quanto tempo, quanto tempo esperando
Mas eu sei que uma mudança virá
Oh, sim,ela virá

Foi também difícil viver e eu estou com medo de morrer
Eu não sei o que acontece do lado de lá
Há quanto tempo, quanto tempo esperando
Mas eu sei que uma mudança virá
Oh, sim ela virá

Eu vou ao cinema e vou ao centro da cidade
Lá todos me param e dizem: "não fique à toa por aí"
Há quanto tempo, quanto tempo esperando
Mas eu sei que uma mudança virá
Oh, sim, eu ela virá

Então, eu vou ao meu irmão
E digo "por favor"
Mas ele apenas conclui, me criticando
Desista

Às vezes, eu pensei que continuaria por um bom período
Mas agora eu acho que estou pronto para enfrentar isso
Há quanto tempo, quanto tempo esperando
Mas eu sei que uma mudança virá
Oh, sim, eu ela virá

15 abril 2011

Blind-er, eu te desculpo!


Quando digo que alguma coisa está mudando, muita gente torce o nariz. Já reparou como é difícil pedir desculpas? Um gesto simples, que os professores incentivam seus alunos brigões a fazer desde cedo, independemente de quem tenha ou não razão. Pois não é que o intelectual jornalista do Manhattan Connection, Caio Blinder, resolveu se desculpar no ar, depois de chamar a rainha da Jordania de piranha? Blinder é um jornalista-celebridade. Já dividiu a bancada do programa com o polêmico Paulo Francis e, mais recentemete, com o colunista da Veja, Diogo Mainardi, que, antes das eleições do ano passado, teve de fugir do país, provavelmente para não ser preso, pelas bobagens que diz e escreve. Blinder é um típico profissional recrutado pelos patrões para, com sofisticação e eruditismo, dar forma às idéias da elite branca brasileira, aquela elite que Mino Carta diz que gosta de democracia apenas para 20 milhões de brasileiros. Blinder é mestre em Estudos Latino-Americanos pela Universidade de Ohio e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Notre Dame o que, convenhamos, não é pouca coisa. Já deu aulas de Relações Internacionais na Universidade de Indiana e foi correspondente da Folha de S. Paulo nos Estados Unidos. Demora, mas uma hora a máscara cai. E quando cai, às vezes, é necessário pedir desculpas, infelizmente. É a vida... Descer do pedestal para comungar com os outros mortais um gesto simples, humano, difícil demais para certas pessoas. Blinder, eu te desculpo, mas só se você prometer que não foi um pedido da boca para fora. E prometer também que fará uma reflexão, revisará suas certezas em relação ao mundo e, principalmente, em relação às crenças que você e sua patota fazem questão de difundir. Topa?

P.S. A caricatura fora de foco é proposital. Blind, em inglês, é sinônimo de cego, mas também é apropriado para adjetivar pessoas que têm uma visão nebulosa da realidade.

14 abril 2011

Perdeu, playboy!



Depois de provocar a ira dos garis e ser condenado por isso, nosso experiente âncora, cujo hábito era mandar uma banana para seus desafetos, resolveu encarar gente grande dessa vez. A resposta da emissora foi curta e grossa: - Perdeu, playboy. Perdeu por enquanto...

Atualizada às 19h29 do dia 15 de abril - Muita gente não entendeu porque eu fiquei ao lado da emissora neste caso. Simples, porque seria muita ingenuidade nossa achar que, com o poder político e econômico que eles têm, o acesso a determinados conteúdos não fosse facilitado. Infelizmente isso é do jogo. A isso dá-se o nome de furo jornalístico. Desta vez eles levaram a melhor, por enquanto. Foi isso que insinuei quando disse: - Perdeu, playboy!

13 abril 2011

O Mundo Está ao Contrário e Ninguém Reparou


Ao voltar de suas batalhas nas Índias, Dionísio é recebido ardorosamente por Afrodite. Desse encontro nasce Príapo, que amaldiçoado pela deusa Hera, passa a ter uma deforminadade genital (foto à esquerda). Hoje, o mundo todo conheceu mais uma das excentricidades do capo Silvio Berlusconi. Convidadas para festas eróticas, promovidas pelo primeiro-ministro italiano, as modelos e garotas de programa eram instadas a contracenar com a estátua do deus grego da virilidade, na casa do premiê em Milão. Ingredientes à la Pier Paolo Pasolini, o polêmico cineasta que chocou a Europa nos anos 70, com seus 120 dias de Saló. Duas garotas, ambas de 19 anos, descreveram, com detalhes inéditos, como eram feitas as festas eróticas na mansão de Arcore, de Berlusconi. Trechos dos depoimentos estão nos jornais italianos Corriere della Sera e La Repubblica. Na casa de Berlusconi havia uma pequena discoteca onde, naquela noite, segundo elas, a conselheira da região da Lombardia, Nicole Minetti (foto à direita), teria feito a "dança do poste" e, depois, um strip-tease. Como diria o compositor Nando Reis, "o mundo está ao contrário e ninguém reparou."

12 abril 2011

Sobre Luz e Trevas


Acho salutar que setores da mídia passem a discutir a "mão pesada" na cobertura do caso do Atirador de Realengo. Começou na semana passada, com uma colega no Facebook amaldiçoando sua condição. Ter que assistir àquelas imagens brutas, horrorosas, mergulhar de cabeça no assunto macabro, conhecer  detalhes horrendos e, depois, ainda ser criticada por ter sido sensacionalista. Ao comentário, em tom de desabafo, sucedeu-se uma montanha de manifestações, boa parte delas de solidariedade corporativista à colega. De fato, é difícil estar o front, mas é mais difícil ainda não aceitar críticas e se fazer de vítima, quando muitas vezes nos tornamos algozes. Lembro-me de uma ocasião, quando ainda vendia minha força de trabalho para a Corte do Cosme Velho, que o então diretor de jornalismo, um sujeito fanfarrão, que cultivava caspas e assediava jovens repórteres (aliás, isso lhe custou o cargo), convocou uma reunião para discutir o "processo" de se fazer aquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país, mas que hoje não elege um síndico de prédio. Supus, na minha ingenuidade, que o encontro tinha a nobre finalidade de discutir o telejornal. Na minha vez de falar questionei os colegas sobre o fato de refletirmos pouco o "fazer jornalístico". Disse que ficávamos muito envolvidos com a ditadura do tempo, da forma, mas não avançávamos na qualidade da notícia, na abrangência do enfoque, no arejamento das fontes é na reflexão sobre o fato em si. Como sempre, minha preocupação com o contexto... Minha intervenção foi rechaçada, primeiro, pelo da caspa, depois, pelo chefe de redação, que em tom jocoso disse que aquilo era "papo cabeça de universidade", que o melhor era discutir aquilo no ambiente acadêmico. Na verdade, como vim a descobrir depois, a reunião tinha a finalidade, apenas, de exigir da equipe mais empenho e subserviência às "novas regras", impostas à ferro e fogo pelo Guardião da Doutrina da Fé. E eu achando que havia luz no fim do túnel... Pois não é que eles seguem nas trevas até hoje? Com muitos achando-se no papel de vítima? E pensar que cremos que de um lado há os homens de bem e, de outro, os do mal... Pobre de nós.

10 abril 2011

Quem te Conhece não Esquece Jamais

Conheço Marco Nascimento desde os tempos do Jornal da Globo. Ele foi editor-executivo da Lilian Wite Fibe e depois virou chefe de redação da Globo, em São Paulo. Fui reencontrá-lo recentemente na TV Record, depois que ele aceitou ser um dos editores-executivos do Jornal da Record, em que trabalho atualmente. Este depoimento que o Marco deu em vídeo é rigorosamente a mesma história que me contou enquanto esperávamos na fila de autógrafos, no dia do lançamento do primeiro livro de ficção do jornalista Percival de Souza, em setembro do ano passado. É sobre os métodos de um ex-governador, hoje senador e líder da oposição ao governo Dilma, no Senado Federal, que prega uma oposição sem ódio e sem sangue, ao mesmo tempo em que persegue jornalistas e impõe uma "estratégia" de comunicação onde a ordem é não contrariar os interesses do grande político, homem público e futuro estadista da nação. Ainda está longe das eleições mas, hoje, ele é o primeiro da fila na corrida à sucessão presidencial, em 2014. Espero que tenha aprendido que não triunfa quem usa de métodos escusos para calar a liberdade de imprensa e de expressão, pilares de uma democracia. Porque se não aprendeu, digo: de um político assim o país não precisa, muito obrigado. Segue o vídeo e, caso haja curiosidade, em seguida é possível assistir à segunda parte. Se alguém me perguntar onde encontrei essa jóia foi aqui.

Por que matou?


Matou porque não bebia,
Matou porque não fumava,
Matou porque não traía,
Matou porque não jogava.

Matou porque viu a mãe,
Matou porque viu a luz,
Matou porque viu o cão,
Matou porque viu a cruz.

Matou porque era o próprio,
Matou porque era o cujo,
Matou porque era o máximo,
Matou porque era tudo.

Matou porque deu manchete,
Matou porque deu polícia,
Matou porque deu comício,
Matou porque deu notícia.

Matou porque não tinha um gosto,
Matou porque não tinha um vício,
Matou porque não tinha amante,
Matou porque não tinha ofício.

Matou porque tinha um ódio,
Matou porque tinha um medo,
Matou porque tinha um fato,
Matou porque tinha um dedo.

Matou porque impossível,
Matou porque impotente,
Matou porque inaudível,
Matou porque infelizmente....

Matou porque a dor é tanta,
Matou porque a dor é surda,
Matou porque a dor não para,
Matou porque a dor não muda.

Matou porque era claro,
Matou porque era nítido,
Matou porque era óbvio,
Matou porque tava escrito.

Matou porque era a hora,
Matou porque era o dia,
Matou porque era o tempo,
Matou porque mataria.

Matou porque não sorria,
Matou porque não sonhava,
Matou porque não mentia,
Matou porque não matava.

Matou porque era fraco,
Matou porque era pouco,
Matou porque tava frio,
E matou...... porque tava morto.

09 abril 2011

Realengo - A dor de Todos Nós

08 abril 2011

O Último que Sobrar na Legenda, por Favor, apague a Luz

O ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira acaba de eliminar seu último vínculo com a política institucional: declarou-se desligado do PSDB — que, segundo ele, caminhou de forma definitiva para a direita ideológica. O desligamento partidário marca também o retorno do intelectual à sua origem desenvolvimentista.

Em entrevista a Maria Inês Nassif, do Valor Econômico, Bresser-Pereira admite que não escapou à sedução do neoliberalismo, nos anos 90. Mas define uma diferença de origem entre ele e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, como intelectuais: o nacionalismo. Segundo o ex-ministro, a teoria da dependência associada, de Fernando Henrique, caiu como uma luva para a esquerda americana — não por intenção do autor mas por conveniência do “império”.

No governo, FHC não se contradisse: a teoria da dependência associada pregava o crescimento do país com capital externo. O caráter não nacionalista dos governos tucanos era absolutamente compatível com a teoria da dependência associada do intelectual Fernando Henrique.

Leia abaixo trechos da entrevista.

Valor: O senhor está onde sempre esteve?

Luiz Carlos Bresser-Pereira: No governo Fernando Henrique, ou nos anos 90, a hegemonia neoliberal foi muito violenta. Foi tão violenta que também atingiu a mim. Não escapei dela. Logo que saí do governo, publiquei um livro chamado A Crise do Estado. Aí, resolvi publicá-lo em inglês e revi o livro todo, de forma que, quatro anos depois, ele foi publicado em inglês.

Quando isso aconteceu, já estava entusiasmado com a vitória do Fernando Henrique e influenciado pelas ideias liberais. Não tinha me tornado um neoliberal de forma nenhuma, tenho certeza disso — mas estava mais perto do neoliberalismo do que estou hoje.

Valor: Caiu no conto da globalização?

Bresser-Pereira: Um pouco. Não totalmente, mas ninguém é de ferro. O grande problema da social-democracia é que ela se deixou influenciar, no mundo inteiro. A Terceira Via, por exemplo, hoje tão criticada, tinha um grande intelectual como Anthony Giddens por trás dela, um homem de centro-esquerda. Foi nesse estado de espírito que entrei no governo Fernando Henrique.

Mas também foi lá que tomei um susto. Eu estava fazendo a reforma gerencial, que era uma reforma essencialmente para fortalecer o Estado social, pois era a reforma dos serviços sociais e científicos do Estado. Mas fiquei surpreso com duas coisas dentro do governo: uma, que não havia nenhuma perspectiva nacional, não havia nenhuma distinção entre empresa nacional e estrangeira.

Muito pelo contrário: Fernando Henrique dizia forte e firmemente que não havia essa diferença, que era tudo rigorosamente igual — e isso é bobagem, é coisa que os americanos e europeus contam para nós, mas nunca praticaram. Aquilo me deixava muito incomodado. E a outra coisa que me deixou muito incomodado foi a política econômica.

Valor: Do ponto de vista acadêmico, o senhor não se considera da mesma escola que Fernando Henrique?

Bresser-Pereira: Fui dar uma aula em Paris, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, e aí o Afrânio Garcia, um antropólogo que substituiu Ignacy Sachs na direção de um centro sobre o Brasil, e mais um cientista político do Rio Grande do Sul, o Hélgio Trindade, fizeram comigo uma entrevista para uma pesquisa, em outubro de 2003. Num certo momento, disse a eles: “Não sou da escola de sociologia de São Paulo, sou da escola do Iseb”. O Afrânio disse: “O quê?”. Era uma surpresa para ele.

Eu me formei a partir do pensamento do Celso Furtado, do Inácio Rangel — o Celso Furtado não foi do Iseb, mas era da Cepal, e a Cepal cepalina era estruturalista, como o Iseb. É claro que fiquei amigo da escola de sociologia de São Paulo, a escola do Florestan Fernandes e do Fernando Henrique, que vai dar na teoria da dependência, mas não tenho nada a ver com isso. Quando eu disse isso, o Afrânio pediu para eu fazer um seminário. Fiz dois papers. Um, que se chama “O conceito de desenvolvimento do Iseb” e outro, mais interessante, que se chama “Do Iseb e da Cepal à teoria da dependência”, em que vou fazer a crítica da dependência.

Valor: Isso foi em que ano?

Bresser-Pereira: Foi em 2004. Para fazer esse paper, fui rever as ideias do Fernando Henrique. Eu sabia que ele tinha deixado de ser esquerda, mas eu também tinha deixado um pouco de ser esquerda. Eu continuava um pouco e ele tinha deixado de ser mais do que eu. Mas o que não era claro para mim era a parte nacionalista, a parte de poupança externa, essas coisas.

Aí fui ler outra vez o livro clássico dele e do Enzo Faletto (Dependência e Desenvolvimento na América Latina). E vi que Fernando Henrique estava perfeitamente coerente. O que é a teoria da dependência? É uma teoria que vai se opor à teoria cepalina, ou isebiana, do imperialismo e do desenvolvimentismo, que defende como saída para o desenvolvimento uma revolução nacional, associando empresários, trabalhadores e governo, para fazer a revolução capitalista. O socialismo ficava para depois.

A teoria da dependência foi criada pelo André Gunther Frank, um notável marxista alemão que estudou muitos e muitos anos na Bélgica e que em 1965 publicou um pequeno artigo chamado “O desenvolvimento do subdesenvolvimento”, brilhante e radical. É a crítica à teoria da revolução capitalista, à teoria da aliança da esquerda com a burguesia. É a afirmação categórica de que não existia, nunca existiu e nunca existiria burguesia nacional no Brasil ou na América Latina.

No Brasil, os seguidores de Gunther Frank eram o Ruy Mauro Marini e o Teotônio dos Santos, mas no final, e curiosamente, o seguidor deles mais ilustre vai ser o Florestan Fernandes maduro. Eles concordam que não existe burguesia nacional. Quando a burguesia nacional é compradora, entreguista, associada ao imperialismo, a única solução é fazer a revolução socialista. É bem louco, mas é lógico.

Aí vieram o Fernando Henrique e o Enzo Faletto e disseram que havia alternativa, a dependência associada. Ou seja, as multinacionais é que seriam a fonte do desenvolvimento brasileiro, cresceríamos com poupança externa. Era a subordinação ao império. Claro que o império ficou maravilhado. A teoria da dependência foi um grande sucesso — os outros liam e faziam suas interpretações.

Na prática, era uma maravilha: a esquerda americana, que se reúne nas conferências da Latin America Student Association, nos Estados Unidos, encontrava um homem democrático de esquerda que via nos Estados Unidos um grande amigo na luta pela justiça social. Quando fiz essa revisão, estava começando a romper com o PSDB.

Valor: E quando o senhor chegou ao PSDB?

Bresser-Pereira: Em 1988, fui um dos fundadores do PSDB. Na época da fundação, o Montoro não queria o nome de social-democracia para o partido, porque tinha origem na democracia cristã, que a vida inteira tinha lutado contra os social-democratas na Inglaterra, na Alemanha e na Itália. Nós ganhamos, pelo fato de sermos centro-esquerda.

Mas aí ele dizia: “Muito bem, mas e se esse bendito PT, que se diz revolucionário, que tem propostas para a economia brasileira completamente irresponsáveis, chega no poder ou perto do poder e se domestica, e se torna social-democrata, como aconteceu na Europa? Eles têm toda uma integração com os trabalhadores sindicalizados, que nós não temos, então nós vamos ser empurrados para a direita”. E foi isso que aconteceu.

Valor: Quando o senhor considera que o PSDB começa essa trajetória para a direita?

Bresser-Pereira: O Fernando Henrique teve dois azares: o primeiro foi que governou o país no auge absoluto do neoliberalismo, enquanto Lula governou no momento em que o neoliberalismo começa a entrar em crise; e o segundo é que seu governo não gozou do aumento dos preços das commodities de que o Lula desfrutou.

Mas o fato concreto é que no governo Fernando Henrique o partido já caminhava para a direita muito claramente. Daí o PT ganhou a eleição e assumiu uma posição de centro-esquerda, tornou-se o partido social-democrata brasileiro — e o PSDB, naturalmente, continuou sua marcha acelerada para a direita. Nas últimas eleições, ele foi o partido dos ricos. Isso, desde 2006.

É a primeira vez na história do Brasil que nós temos eleições em que é absolutamente nítida a distinção entre a direita e a esquerda, ou seja, entre os pobres e a classe média e os ricos. E um partido desse não me serve, seja pela minha posição social-democrata, seja pela minha posição nacionalista econômica — tenho horror profundo e absoluto do nacionalismo étnico.

Acho que a globalização é uma grande competição em nível mundial, quando todos os mercados se abriram, e passou a haver uma competição global não apenas das empresas, mas dos países. E você precisa, mais do que nunca, uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Valor: Retomar a ideia de nação, que ficou meio apagada nos anos 90?

Bresser-Pereira: Isso, retomar a ideia de nação. E a própria ideia de centro-esquerda, que ficou um pouco apagada nesse período. Às vezes me perguntam: “Se você não é mais um membro do PSDB, foram eles que mudaram ou você?”. Fomos os dois. Eles mudaram mais para a direita e eu mudei um pouco mais para a esquerda. Recuperei algumas ideias nacionalistas que achava muito importantes.

Valor: A quem isso serve?

Bresser-Pereira: Isso é muito claro. Eu uso uma frase do Jacques Rancière, sociólogo político francês, de esquerda, sobre o ódio à democracia. A democracia sempre foi uma demanda dos pobres, dos trabalhadores, de classes médias republicanas, nunca foi dos ricos. Os ricos odeiam a democracia, embora digam que defendem. Eles sabem que a democracia não vai expropriá-los, que a ditadura da maioria não vai expropriá-los — mas eles continuam liberais e, se não têm ódio, pelo menos têm medo da democracia.

E qual a melhor forma de neutralizar a democracia? São duas. Uma é fazer campanhas eleitorais muito caras. Então, financiamento público de campanha, jamais. Rico não aceita isso em hipótese alguma. A outra estratégia é desmoralizar os políticos.

Uma coisa clara é que a corrupção existe porque o capitalismo é essencialmente um sistema corrupto e os capitalistas estão permanentemente corrompendo o setor público. É fácil verificar quem são os servidores públicos mais corruptos. Quem corrompe professor universitário? Ninguém. E quem corrompe delegado de polícia?

É claro que tem um monte de gente interessada em corromper delegado de polícia, fiscal da Receita. Os fiscais da Receita não são intrinsecamente mais desonestos que os professores. Fizeram concursos mais ou menos igualmente, são pessoas igualmente respeitáveis — só que uns são submetidos a processos de corrupção por parte das empresas; outros, não.

Valor: O que o senhor acha do Bolsa Família?

Bresser-Pereira: Acho uma maravilha. Sempre acreditei piamente na competição. Quando pensava naquela emenda da Revolução Francesa — Liberdade, Igualdade e Fraternidade —, eu entendia perfeitamente as ideias de liberdade e igualdade, mas a fraternidade eu achava simplesmente simpática. Nesses últimos anos, todavia, descobri que é absolutamente fundamental.

Na sociedade em que vivemos, existe uma quantidade muito grande de pessoas cuja capacidade de competir é muito limitada. Mesmo que tenha educação, por características pessoais, geralmente de equilíbrio emocional, às vezes de inteligência, essas pessoas não são capazes de se defender da competição como devem. E aí que entra a fraternidade.

O Bolsa Família é um mecanismo altamente fraterno. O Lula sabe da necessidade da fraternidade, da solidariedade — a vida dele deve ter lhe ensinado. Ele é perfeitamente capaz de competir por conta dele, isso é evidente. Mas sabe a importância da solidariedade.

Do Vermelho

Para Refletir


....O rapaz que entrou na escola atirando não se encaixa em nenhum perfil que permita esbravejar. Até onde se sabe, não era traficante, ladrão, fugitivo. Não era militante de nenhum partido, não lutava jiu-jítsu, não era um skinhead, não pertencia a nenhuma torcida organizada. Até onde se sabe, não usava drogas, não bebia, não era pedófilo, não era evangélico, não era muçulmano, não era judeu, não era cristão, não era xiita, não era sunita, não tirava racha na rua, não tinha suásticas tatuadas na pele, não pertencia a nenhuma seita, não era gótico, não era punk, não ouvia Bossa Nova, não usava piercing, não era rico, não era pobre, não era gordo, não era magro, não estava em liberdade condicional, não tinha passagem pela polícia, não vivia no Complexo do Alemão, não era do Jardim Ângela, não morava numa cobertura da Vieira Souto, não era nada. Segundo sua irmã, ele era estranho.

Estranho.

Seu nome era Wellington de Oliveira, um nome bem brasileiro, há milhares de Wellingtons, Washingtons, Andersons. O Brasil tem um estranho fascínio por W e por nomes que terminam em "on". Wanderson, Jackson, Jobson, Richarlyson. Ele era um Wellington de Oliveira.

Quando não se pode culpar traficantes, fugitivos, ladrões, militantes, lutadores, skinheads, nazistas, torcedores organizados, drogados, cristãos, bêbados, pedófilos, muçulmanos, góticos, magros, evangélicos, rachadores, punks, gordos, xiitas, ricos, pobres, nem o prefeito, nem o governador, nem a presidenta, nem o ministro, nem o secretário, nem a polícia, nem o senador, nem o deputado, nem a diretora da escola, nem o médico, nem o professor, culpamos quem?

Culpamos quem?

Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos. Uma espécie fracassada, violenta, agressiva, condenada à extinção. Uma espécie habituada à barbárie, e que não se imagine que "nos transformamos em". Sempre fomos assim, indecentes, obscenos, há séculos nos matando em guerras, inquisições, pogroms, chacinas, massacres, genocídios, atropelamentos, assassinatos, latrocínios, torturas, execuções. E pragas, pestes, terremotos, incêndios, tsunamis, deslizamentos, enchentes. Um moto-contínuo de mortes, mortes, mortes, e vinganças, vinganças, vinganças, ódio.

A criança é o pai do homem. Guardo um pequeno cartão com essa frase no meu carro, há anos está lá, era o convite da formatura do meu mais velho no pré-primário. Não o guardo como mantra ou guia espiritual. Está lá porque está lá, porque o carro que nos levou à formatura do pré ainda está comigo, e lá ficaram o cartão e a frase. De vez em quando uso o cartão, de papel de alta gramatura, cartolina, talvez, porque quando o vidro sobe levanta uma rebarba da forração da porta, e o cartão serve para colocar a forração no lugar. É um uso banal, irrelevante, coloco o cartão entre o vidro e a forração da porta, e tudo fica no lugar, tudo volta ao seu lugar. Um uso banal e irrelevante, mas que me faz ler essa frase todos os dias, ou, pelo menos, quando preciso colocar a forração da porta no lugar.

A criança é o pai do homem.

Wellington ajudou a nos matar mais um pouco hoje. É um erro, Wellington, matar-nos aos poucos. Da próxima vez, Wellington, mate-nos a nós, direto, sem intermediários.

Mate o homem, Wellington, não seus pais.
 
por Flávio Gomes

Comida de Rechaud

Sexta-feira, manhã com tempo livre, resolvi ler de cabo a rabo o jornal que minha mulher, Alexandra, insiste em continuar assinando. Se dependesse de mim, a assinatura já teria sido cancelada faz muito, muito tempo. Mas, como evito ser autoritário, intolerante e preconceituoso dei mais uma colher de chá a eles, digo, ao jornal.
Encontrei duas notícias relevantes sobre as quais não tive tempo de me informar direito no dia anterior: a decisão do Governo de dobrar o IOF nas operações de crédito para pessoa física e a polêmica envolvendo os direitos do filme Amor, Estranho Amor. No mais, todo resto tinha aquele sabor de comida de 'rechaud', requentada e velha.
Esta é a diferença marcante entre o jornalismo impresso e a internet, por exemplo. Por ser uma ferramenta colaborativa, a rede permite que, logo cedo, você já tenha não só os fatos dissecados, mas a visão interpretada deles, sob as mais variadas óticas.
O que antes era feito no dia seguinte pelos analistas e colunistas (as estrelas intocáveis do firmamento jornalístico), hoje é possível fazê-lo em tempo real. E como muitas ferramentas são colaborativas, o processo é mais amplo, menos verticalizado. Por que iria esperar para conhecer certas opiniões, se tenho um grupo ativo, que pensa mais ou menos como eu, debatendo em tempo real os temas do meu interesse?
O que esses colegas consagrados não perceberam ainda é que eles precisam ser mais rápidos e mais abertos. Não adianta ficar encastelado no escritório "amadurecendo" o tema da coluna que só vai sair no dia seguinte. Os que ainda estão nessa, estão perdendo relevância rapidamente.
E, depois, tem outra: no jornal o colunista ainda é obrigado a dosar os interesses comerciais da empresa e os interesses políticos do patrão, o que compromete a independência, mesmo daqueles que apregoam que não sofrem pressões, nem cobranças. Aqui a regra é sutil, vale o superego daquele que "tem juízo". A propósito, a Xuxa está ótima na foto de época.

07 abril 2011

O Atirador de Realengo

Ele entrou na escola disposto a matar e morrer. No entanto, três horas depois da tragédia que, pela primeira vez no Brasil, encontra correspondente com as que acontecem nos Estados Unidos, nenhum meio de comunicação foi capaz de informar se são 11, 12 ou 13 mortos, ou 20, 22 ou mais feridos. Ninguém sabe dizer quantos disparos foram efetuados, se 50 ou 100, nem de que tipo de arma. Sabe-se que a maioria das vítimas foi atingida na cabeça, mas à queima roupa ou o à média distância? Repórteres também não conseguiram apurar se ele estava ferido e se suicidou ou foi atingido por um policial e morreu. Ninguém soube informar até agora também a motivação do crime. Certamente o sujeito estava "fora da casinha". Parece que deixou uma carta, mas ao que parece ninguém ainda a leu. E se leu, não entendeu o que estava escrito. Portanto, uma cobertura com mais perguntas do que respostas, efeito de pressa em "por a notícia no ar", mesmo que incompleta e cheia de dúvidas. Assim fica tudo muito caótico, não acham? Quem ganha e quem perde com esta espetacularização da notícia? Acho que perde a sociedade inteira. Acho que perdemos todos nós...

"Sou mãe, educadora, não posso sequer imaginar a dor incomensurável desses pais que deixaram seus filhos na escola, porque é um espaço de saber, um espaço de formação, um espaço de cidadania, um direito das crianças e adolescentes frequentarem de modo seguro, um dever de governos proverem e uma obrigação constitucional dos pais enviarem seus filhos." ( Maria Frô )

06 abril 2011

Fala Edilenice!

 

No dia 1 de abril de 2011, o Jornal Nacional, da Rede Globo, veiculou matéria sobre o início do ponto biométrico no Senado Federal, local onde trabalho. Mostrou que o ponto não se aplica a todos os servidores e funcionários, e que tem acontecido fraude. A partir desse momento mostra imagens minhas saindo do prédio dez minutos depois de ter entrado. Diz ainda que isso aconteceu por dois dias seguidos.

Eu pergunto por que essa jornalista não se deu ao trabalho de verificar os fatos e contar a verdade? Eu, por fim, pergunto por que ela ignorou o princípio básico do bom jornalismo, de dar a chance à pessoa envolvida de esclarecer a situação antes de expor sua imagem publicamente, em rede nacional?

Edilenice Passos (para ler a carta inteira, clique aqui)

Castelos de Areia se Desmancham no Ar


Pode a Justiça aceitar um procedimento ilegal de investigação para comprovar uma ilegalidade? É claro que não! Foi esta a tese da defesa dos envolvidos na Operação Castelo de Areia, da Polícia Federal. Aí eu pergunto: como combater o crime do colarinho branco? Como combater aqueles que, graças ao poder econômico podem comprar juízes, contratar advogados de grife, subornar policias e alimentar uma enorme rede de informantes, nos tribunais e fora deles? Como investigar gente importante em sigilo, protegendo-se contra o vazamento das informações muitas vezes pelos próprios investigadores? É uma guerra desigual cujo beneficiário é quem deveria estar atrás das grades. Por que a Justiça, sabendo dessa dificuldade, não discute de verdade formas de aperfeiçoamento das legislação, preservando o caráter sigiloso de certas investigações? Por que os maiores interessados em fazer com que a sociedade seja menos desigual e solidária são os primeiros a impor obstáculos ao equilíbro de forças, razão final da existência do poder judiciário? O símbolo da justiça é uma balança numa mão, uma espada na outra e um busto cego (foto). Com que força se imporá o direito? Com que imparcialidade se decidirá pelo lado em desvantagem? Que ponderação é possível, entre os interesses das partes em litígio? Por tudo isso fica difícil acreditar que vivemos num Estado Democrático de Direito, numa instituição corrompida pelo poder e pelo dinheiro. Mais uma vez a sociedade se frustra, a credibilidade do poder moderador é atingida e a confiança no Sistema é abalada. Depois ninguém entende porque gente de bem é capaz de optar por fazer justiça com as próprias mãos. É assim que um lindo Castelo de Areia se desmancha no ar...

05 abril 2011

Cada um Entende o que Quer


Um jornalista com muitos anos de experiência deveria saber que num artigo de opinião nem sempre o leitor interpreta o que está escrito da forma como gostaríamos que interpretasse. Isso porque, muitas vezes, o leitor considera, além do que está grafado, as circunstâncias, a oportunidade e o contexto em que foi escrito, sem contar, é claro, a opinião pessoal que ele próprio venha a ter sobre o tema em pauta. Neste sentido, fiquei surpreso ao ver a queixa que o jornalista Ricardo Noblat fez hoje em seu blog. Reclamou que foi mal interpretado sobre um tema que incendiou a internet nos últimos dias: as declarações do deputado racista, homofóbico e truculento, Jair Bolsonaro.

Acho que as pessoas têm sim todo o direito de dizerem o que pensam, independentemente de concordarmos ou não com o que dizem. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Uma personalidade pública, um político por exemplo, não pode dizer o que quer, sem considerar que há limites em seu discurso. E que esses limites são a capacidade do discurso criar um ambiente hostil ou incentivar reações e gestos desagradáveis, violentos, que não são aceitáveis em nossa sociedade. Neste caso, ele estaria sujeito a, inclusive, perder sim seu mandato parlamentar, caso seus pares entendam que ele extrapolou os limites da atividade, ou seja, a capacidade de dialogar na busca de consensos.

Há maneiras e maneiras de dizer que você não concorda com a união entre pessoa de etnias diferentes, ou com a adoção de crianças por casais de mesmo sexo, ou até mesmo com a união estável entre casais homossexuais, mesmo que com responsabilidades civis já reconhecidas pelo Estado. Mas quando sua discordância se transforma em insulto, calúnia, difamação e injúria, há sim que se responsabilizar o responsável, sob pena de incentivar a reprodução desses crimes. É inaceitável que num debate o interlocutor tente atingir a dignidade alheia, desqualificando moral, étnica ou sexualmente o lado contrário. Isso é tão ou mais violento do que agredir fisicamente o sujeito.

Talvez tenha sido esse o engano do jornalista, focar seu artigo nas reações às declarações do deputado pelos leitores e não no potencial destrutivo que tais declarações trouxeram quando foram feitas. Países que viveram regimes fascistas e totalitaristas têm mais dificuldade em aceitar discursos que não sejam civilizatórios. Por que será? Acho que podemos aprender um pouco com eles, para não repitir em nossa história os mesmos erros que eles já experimentaram.

03 abril 2011

É só uma Lembrancinha...


Causou desconforto, principalmente entre os funcionários do "chão de fábrica" da Corte do Cosme Velho a notícia de que 'A Firma' se dá ao luxo de presentear jornalistas com um brinde de mil e quinhentos reias. Foi durante o lançamento da nova programação da emissora, na última quarta-feira. Cada jornalista convidado levou para casa um Tablet Galaxy da Sansung (foto), como agradecimento à presença no evento. Isso, conforme os jornalistas aprenderam na faculdade e juraram não compactuar, quando colaram grau, chama-se jabaculê. O jabá, como é conhecido, é o expediente sujo de presentear jornalistas para criar uma atmosfera favorável à divulgação de certa notícia. Trata-se portanto, de influenciar o pobre e mortal operário da notícia que, muitas vezes, não ganha sequer para as despesas mínimas. Muitos fizeram de conta que não receberam, outros admitiram ter recebido e defenderam a prática como uma coisa comum nos dias de hoje. Mas o fato é que a notícia já circulou entre as redações e a fofoca corre solta. Colegas que não foram escalados para o evento fazem questão de divulgar 'à boca pequena' quem foi o agraciado pelas 'Organizações'. O desconforto é enorme e o efeito contrário ao desejado pela emissora. Algumas empresas proíbem esta prática, pelo menos no papel. Cedo ou tarde a verdade aparecerá e o colega vai ficar desmoralizado entre os seus pares. São esses jornalistas que, depois, acabam montando uma assessoria de imprensa paralela ao ofício de reportar; são esses que defendem depois contratos de parceria com fontes; são esses que passam a defender políticos com unhas e dentes e são esses que corrompem e são corrompidos. E pior, pregam que o mundo não tem jeito...

01 abril 2011

DoLaDoDeLá virou Notícia

(clique para ampliar)

Este é o ano do meu Jubileu de Prata em jornalismo. Era 1986, apogeu do Plano Real - digo, Cruzado - quando, a convite de professores, assumi o jornal da escola. Exilado em Marília, interior de São Paulo, escolhi para a primeira edição daquele folhetim dois assuntos: A Questão Palestina e a Matança das Baleias pelos Japoneses. Curiosamente, ambos ainda sem solução. Desconfio que morrerei com a espécie extinta e sem ver as tão sonhadas paz e liberdade na Terra Santa. Apesar desse ceticismo em relação ao futuro, fiquei muito feliz, primeiro com o convite e, depois, em ver publicada hoje a entrevista que dei ao blog do Pedro Migão. Ser o escolhido, depois daquele que considero um dos mestres na arte de reportar, e que foi o entrevistado da semana passada, Ricardo Kotscho, aumenta ainda mais a minha satisfação. Caso os leitores tenham curiosidade, visitem o Ouro de Tolo, leiam, comentem, critiquem... Da minha parte só tenho a agradecer às tantas oportunidades que tenho tido na vida.

 
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