31 março 2011

Extra, extra, le chateu desabeau!


Há rumores fortíssimos de que o Guardião da Doutrina da Fé estaria voltando para o veículo impresso da Corte do Cosme Velho. A notícia não surpreenderia se considerássemos que, desde o início do ano, quem responde por questões políticas na emissora de TV é o diretor-superintendente. Há também o fato de que o Diretor de Redação do tablóide está muito doente, com um quadro degenerativo irreversível. Além disso, os herdeiros estariam muito desgostosos com a condução dos negócios. Teriam até questionado se não "estariam pegando muito pesado com um homem que tem a aprovação de 9 entre 10 brasileiros." É, le chateau desabeau. Em bom português: Tudo o que sobe, desce. Descanse em paz, amigo. Ninguém sentirá sua falta. A foto é para lembrar que não somos racistas, não é mesmo Bolsonaro?

Bial não Gostou do Cordel


Autor: Antonio Barreto, cordelista baiano.


Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão 'fuleiro'
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, 'zé-ninguém'
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme 'armadilha'.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério - não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os "heróis" protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
"professor", Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos "belos" na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos "emburrecer"
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…

Du-vi-do!

Outro dia entrei numa loja para trocar uma bermuda. Olhei os modelos, separei uma, provei e falei que ia levar. A balconista fez as contas e me disse que tinha saldo e, caso quisesse, podia levar uma camiseta. Ela tirou umas oito da prateleira e separei uma. Isso tudo demorou, no máximo, dez minutos. Diante do espanto da gerente, perguntei se elas já tinham atendido alguém tão rapidamente na vida. Disseram que é difícil. Pedi que comparassem com uma mulher e elas responderam que era impossível. Uma mulher ficaria uns quinze minutos escolhendo a bermuda e outros quinze decidindo a cor da camiseta, depois de perguntar quantos modelos de gola e manga existiam e ver todas, uma por uma. Achei engraçado e acho mesmo que esse é um exemplo claro da diferença de gêneros. Via de regra, os homens são mais e mulheres menos decididas. Não que seja qualidade ou defeito. O que um tem de ousado, outra pode ter de prudente, por exemplo. Não tenho cartão de crédito, mas caso tivesse um gostaria de fazer um teste. Entregá-lo na mão de uma mulher e dizer: você tem meia hora para comprar o que quiser, mas a condição é: tem gostar e servir. Du-vi-do que alguma consiga. Não vale premeditar a compra. Tem que ser de surpresa, tipo, solta num outlet da vida e diz: Vai! E vocês, o que acham?

30 março 2011

Jair, o intolerante

Ontem um colega falava sobre religião quando fez a seguinte ressalva: "não sei o que você acha, se você é contra ser evangélico..." "Claro que não", respondi. E emendei: "Não sei se você sabe, mas na raiz de todas as grandes guerras sempre existiu o preconceito religioso." Parece que nós nos esquecemos das coisas simples e importantes que aprendemos na escola, não é mesmo? Não devemos discriminar, julgar e condenar aqueles que são diferente de nós. A consequência natural desse tipo de atitude é a intolerância. A intolerância é inimiga do diálogo. E a falta do diálogo é inimigo da paz. Desconfie quando um sujeito prega a paz, por exemplo, mas seu discurso é sectário, preconceituoso, racista, homofóbico e pior, autoritário. Vejam por exemplo os colunistas dos jornalões brasileiros. Eles desenvolvem um raciocínio com todas as características acima. Têm a soberba e a arrogância de quem se acha iluminado, que tem resposta pronta para todos os dilemas da humanidade, desde que seus privilégios e sua condição de destaque sejam preservados. Mas não me preocupo muito com eles, aliás, perco muito pouco tempo da vida falando a respeito desse tipo de ser humano. Quanto mais forem ignorados, menos relevância terão. Mas alguns gestos exigem reações firmes, sem necessariamete sermos belicosos. Não concordo, por exemplo, com as pessoas que xingaram, insultaram e ofenderam publicamente o deputado Jair Bolsonaro. Claro que fiquei chocado com o que ele disse. Óbvio que fiquei indignado e ofendido. Mas respirei fundo. Quando reagimos com o fígado fazemos aquilo que condenamos nos outros e criamos as condições para a guerra. Acho que a justiça e uma frente parlamentar, por exemplo, são respostas à altura dessas pessoas. Todo o resto é usar as mesmas armas dos nossos advesários. Para isso, não contem comigo.

29 março 2011

E agora, José?

Pô Zé, justo agora que o Banco Central vai começar a baixar os juros como você tanto queria... Você foi o avalista do projeto político que está mudando o Brasil. Foi graças a você que o ambiente desanuviou naquele processo eleitoral de 2002. O país te deve muito. Descanse em paz!

"Não tenho medo da morte, tenho medo da desonra. O homem honrado não morre nunca. O homem desonrado morre em vida."

“Se Deus quiser me levar, ele não precisa do câncer para isso. E se ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve”.

(José Alencar)

Honoris Causa

Se minha conta estiver correta, nosso presidente deve ter algo em torno de 50 títulos de doutor "honoris causa". Mas, afinal, o que é isso?, muitos jovens perguntam. “Honoris causa” vem do latin e significa “por distinção honorífica, por motivo de honra”. É um grau de “doutor” atribuído “por relevância” e não por exame de prova acadêmica. Quanto à Universidade de Coimbra, ela foi criada em 1290, no século XIII. Isso mesmo, na idade média! Pode-se dizer que é mais tradicional do Mundo na língua portuguesa. Foi lá, na manhã de hoje, às 10h30 horário local, que Lula, um migrante de grau primário, ex-metalúrgico e o maior presidente que nossa jovem República já teve, recebeu - ao lado de Dilma - o título de doutor. Deve ter gente morrendo de inveja do Lulinha, né dona Marisa Letícia?
P.S. Antecipei o evento em 24h. É quarta-feira, não terça.

28 março 2011

Sai Maior Quem não tem Medo de Censura


(carta encaminhada ao DoLaDoDeLá por Stanley Burburinho)

"Comunico que hoje, 28 de março, pedi demissão de A Tarde, jornal onde trabalhei nos últimos quatro anos como estagiária do Alô Redação, repórter de Local e, nos últimos 12 meses, repórter da Muito. Faço isso após o editor-chefe, Ricardo Mendes, determinar a supressão de trecho de entrevista que fiz com a cantora Ivete Sangalo, a ser publicada no próximo domingo, 3 de abril, na edição 157 da Muito.
O referido trecho diz respeito a duas perguntas referentes, respectivamente, à crise na sua empresa, a Caco de Telha, e ao processo envolvendo seu ex-baterista, Tonho Batera. As duas perguntas foram pronta e educadamente respondidas pela cantora, sem qualquer indicação de que eu não pudesse publicá-las. Foram feitas após sua assessoria explicar que Ivete só não falaria: 1 - sobre sua vida pessoal e 2- sobre polêmicas envolvendo outros cantores. Portanto, sem que nem mesmo a assessoria da cantora me censurasse antecipadamente.
Quando saí da redação para fazer a entrevista na última sexta-feira, 25 de março, estava ciente de que o foco principal era o Troféu Dodô & Osmar, promovido e realizado pelo Grupo A Tarde, no qual Ivete Sangalo será mestre de cerimônias, e que se tratava de uma edição especial em homenagem ao prêmio. Sei que todas as empresas de jornalismo desse país possuem interesses econômicos. Não estou saindo da empresa com uma ideia romântica do que é a minha profissão ou do que não vá enfrentar novamente. Mas para mim, neste momento, publicar uma entrevista de capa, com oito páginas internas de perguntas e respostas, em que, aos olhos do leitor, não se toca em dois dos assuntos mais relevantes envolvendo a cantora (isso pelo menos nos últimos três meses) é praticar um anti-jornalismo ao qual, em quatro anos de profissão, não estou acostumada.
Mais ainda quando se trata da primeira oportunidade em que Ivete falou sobre o caso em uma entrevista, de forma paciente e educada, longe dos bastidores do show business, sem nenhum tipo de pressão, e explicou qual sua versão dos fatos, afirmando que o irmão continua à frente dos negócios mesmo à distância – uma informação nova, de extrema relevância para o caso, ainda mais se dita por ela. Deixo claro que tomo esta decisão após solicitar ao mesmo editor-chefe que eu não assinasse a matéria por respeito à minha consciência e ao leitor, que certamente achará estranho uma entrevista tão longa ignorar o caso Caco de Telha. O pedido foi prontamente negado por ele.
Quero agradecer a todos os colegas com quem trabalhei, em especial Marlene Lopes, quem primeiro me incentivou a fazer um bom trabalho nesta empresa, Kátia Borges, editora das mais competentes e sábias que conheci, e Nadja Vladi, que vem fazendo, semana a semana, um ótimo trabalho na Muito. Se um jornal tem em mãos um material de relevância jornalística e decide não publicá-lo para não correr o risco de ferir suscetibilidades ou atender a qualquer outro interesse que não o de informar, nada mais faz do que pôr em risco a própria credibilidade. Da minha, eu não abro mão".
Emanuella Sombra

27 março 2011

Ai que Saudades eu Tenho da Bahia

Imagina um lugar em que ao passar pela rua você seja atraído pela música e, muitas vezes, não consiga sair. Música instrumental de altíssima qualidade, música clássica, rock, pop, mpb e à noite acid jazz, rock progressivo e dance. Pessoas de ótimo astral e muito educadas. Acomodações simples, mas muito limpas e bem organizadas. E um café da manhã equivalente a um almoço. E para jogar conversa fora um redário bem no meio da sala da estar. Esse lugar já existiu. Chamava-se Pousada Vila do Beco. Ficava em Arraial D'Ajuda, Porto Seguro, e funcionou por quase dois anos, a partir de novembro de 1993. O dono do imóvel teve tanta inveja de nós que preferiu destruir o próprio negócio para nos expulsar de lá. Éramos quatro jovens aventureiros, com seus sonhos e suas coleções de discos. O lugar virou ponto de encontro de várias tribos e marcou época. Por isso, é impossível, ao ouvir Breezin' de George Benson, Black Magic Woman, de Carlos Santana ou Travels, de Pat Metheny não se lembrar daquela Xangrilá. Imagina então as 4 estações de Vivaldi contrastando com a sinfonia do passaredo da Mata Atlântica, ou Keith Jarrett in the Köln Concert, só para praticar o slow food. Foi uma experiência muito rica e importante para nossas vidas. Conforme for me lembrando, pretendo contar algumas passagens daquela epoca aqui no blog. Abaixo segue um aperitivo para os nossos frequentadores. E boa semana a todos!

Porque hoje é Domingo

Convido-os a fazer esta viagem. Carregue o vídeo sem pressa. Use um fone de ouvido preferencialmente. Quando a estrada enjoar, experimente fechar os olhos e "ver" como o teclado se insinua à guitarra e vice-versa. E como o sopro se junta ao conjunto, sempre sob a percussão do gênio Naná Vasconcelos. Tente acrescentar alguns ingredientes, como imaginar duas pessoas que se conhecem, conversam e se entendem. Are you going with me?



(abaixo, em LP)



Se possível, deixe um comentário dizendo o que achou. Du-vi-do que não vai gostar. Esta versão ao vivo do Album duplo Travels é muito, muito melhor!

Abaixo vai uma versão acústica (genial) por sugestão do Fernando R.G. Brame.



Que tal a versão sinfônica. Esta é de cair o queixo.



Que tal se entrasse uma mulher ma-ra-vi-lho-sa em quadro?

25 março 2011

Sobre Castelos de Areia (segunda parte)

Alguém pode dizer: que implicância a sua com apresentadores. Não é pela pessoa deles, é pelo que eles viraram. Explico. A televisão projeta você para o mundo. Uma televisão com muito alcance transforma uma pessoa em celebridade da noite para o dia. Só que ela não é o que é de fato. Ela é uma projeção daquilo que lê para a câmera, emoldurada pelos traços físicos que tem. A partir dessa combinação cria-se um outro "eu", uma terceira pessoa, um híbrido. O problema é que muitos começam a confundir esse novo "eu" com o que são de fato. É como se emprestassem o corpo para essa outra alma que não conhecem por inteiro. Por isso, quando um profissional que aparece na telinha tenta ser ele mesmo numa rede de relacionamentos como o twitter, por exemplo, vai ter que, obrigatoriamente, encarar seu "eu" original. E é aí que a coisa pega. Pega porque seus seguidores não querem o "eu" original, mas sim a projeção consagrada pela telinha. Então, por mais que queiram ser quem são isso se torna impossível. É quando surge uma enorme crise de identidade. Um feitiço, que só pode ser desfeito se a projeção da sua imagem for rigorosamente a imagem que ele tem de si próprio e isso é raro. Com os artistas é diferente porque o público sabe que na ficção eles estão descolados de seu "eu" original. No jornalismo não funciona assim. Para o público, jornalismo não é ficção, é realidade. Por esse raciocínio talvez fique mais fácil entender porque há tantos repórteres e apresentadores que vem e vão e ninguém nota. Eles são robotizados nos gestos, no figurino, na voz e na entonação. Eles são apenas a imagem projetada pela TV que, com o tempo, darão lugar a outra parecida. Só os que conseguem ser o que são de fato sobrevivem, independentemente do meio em que estão. Para todos os outros vale a metáfora do castelo de areia do post anterior. 

Comentário que vem para a capa: O termo "persona", da psicologia junguiana, é apropriado para estes casos: "Há pessoas que sofrem da ilusão de serem idênticas ao papel social que representam. Jung dá a esse papel social o nome de persona. O professor, o médico, o militar, [a celebridade] por exemplo, de ordinário mantêm uma fachada de acordo com as convenções coletivas, quer no vestir, no falar ou nos gestos. Os moldes da persona são recortes tirados da psique coletiva. Mas poderá suceder que seja tão excessivamente valorizada a ponto do ego consciente identificar-se com ela. O indivíduo funde-se então aos seus cargos e títulos, ficando reduzido a uma impermeável casca de revestimento. Muitos, no entanto, tem percepção e senso de humor suficientes para evitar essa armadilha e têm capacidade para a pronta discriminação entre o papel público que exercem e o seu ego pessoal. Quanto mais a persona aderir à pele do ator, tanto mais dolorosa será a operação psicológica para despi-la." (por Antonio Morais)

Sobre Castelos de Areia

Até ontem não havia meios de se cobrar um apresentador de TV. Ele era inalcançável. Um deus no panteão da emissora. Mas eu digo, as coisas estão mudando muito rapidamente. Começou com o "poderoso" apresentador do telejornal da noite daquela que já foi a maior e mais influente emissora de televisão do país, mas que hoje não consegue eleger um síndico de prédio. Em maio de 2010 ele surpeendeu mais de 500 mil seguidores no twitter ao anunciar que estava deixando o microblog. A decisão causou surpresa ainda mais porque ele tinha acabado de receber a maior comenda do gênero dois meses antes: o Shorty Awards, uma espécie de "Oscar". A culpa teria sido da hérnea de disco. Curiosamente outro astro acaba de deixar o universo mágico virtual, o apresentador do programa de esportes do horário do almoço. No caso dele foi até mais explícito: estava com medo de “perder a linha” com seus seguidores. O fato é que as pressões estavam enormes e o rapaz ainda é moço para aguentar o "peso das escolhas nas costas". Portanto, acaba de deixar orfãos 840 mil seguidores. O fato é que ninguém aguenta mais uma emissora de televisão torcendo o noticiário para beneficar seus negócios escusos. As pessoas começaram a entender que televisão é uma concessão de serviço público e que essa turma aí tem sim que prestar contas ao telespectador. Brasileirão, obras da Copa de 2014, nova CPI da Bola, o público quer notícia isenta e com qualidade. Se não encontrar lá vai procurar em outro lugar. Simples assim. Por isso, é bom que quem não esteja acostumado a prestar contas de suas escolhas fique mesmo encastelado. Só que uma hora a torre pode sucumbir. E quase sempre toda solidez se desmancha como areia diante da força do mar.

24 março 2011

Quando a Informação não Serve para Nada


Percorrer todos os dias 75 km para ir e voltar do trabalho parece insano. Não quando exercemos nossa atividade em uma das maiores cidades do mundo, São Paulo. Desde dezembro de 2000 moro em Vinhedo. São dez anos nesse vai e vem. Raríssimas foram as vezes em que fiquei na estrada por congestionamento. Por incrível que pareça, quando aconteceu, foi por reflexo das obras de duplicação da Marginal, quando a cidade virou um caos, um ano e meio atrás. Mesmo antes da privatização, tanto a Bandeirantes, quanto a Anhanguera eram ótimas estradas. Depois que o governo do Estado entregou-as à iniciativa privada elas foram revitalizadas. Ganharam guard rails, faixas luminosas e placas, tudo novo; ah, e pedágios, muitos pedágios. Os preços passaram a ser corrigidos todo ano e o aumento acumulado já é maior que a inflação no período. Ainda assim considero que esteja no lucro. Meus colegas do ABCD (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema), por exemplo, levam mais tempo para chegar ao trabalho do que eu. Além disso, têm mais stress no trânsito e mais desgaste do veículo. De uns tempos para cá as rodovias ganharam painéis de controle, cuja finalidade é informar ao motorista as condições das estradas. Disse finalidade porque eles não sabem lidar com informação e vivem "pisando feio na bola". Hoje não acreditei. Quando sai de Vinhedo o painel dizia: Bandeirantes: trânsito congestionado km 19 ao 13. Anhanguera normal. Em Jundiaí a informação era igual mas o congestionamento tinha diminuído, do km 18 ao 13. Decidi seguir pela Anhanguera. Cheguei no km 22 da Anhanguera, onde era para estar normal, e encontrei tudo parado. Foi assim até o km 19. Enfurecido liguei para o serviço 0800 e uma gravação repetia as mesmas informações do painel. Chamei novamente e escolhi a opção falar com um dos atendentes. Quando a pobre funcionária atendeu disse que era um absurdo aquilo. Ela me respondeu candidamente que a tela do computador mostrava congestionamento nas duas rodovias. Pedi então para ela encaminhar minha reclamação à ouvidoria e desliguei. Depois fiquei pensando: para quê um painel eletrônico em que a informação não é confiável. Será que o plano era desviar parte do movimento para a Anhanguera, sempre mais vazia? Vale lembrar que a Anhanguera tem duas pistas e alguns afunilamentos. A Bandeirantes tem quatro pistas e, ao contrário, alarga quando chega em São Paulo. Neste caso, um quilômetro de lentidão na Anhanguera pode equivaler a mais de dois na Bandeirantes. Fiquei com a sensação de que fui enganado. E não é a primeira vez. Para efeito de contexto, a concessionária e sócia do governo do Estado é a CCR Autoban. Para quem não sabe, CCR pode se traduzir por Camargo Corrêa Rodovias (que encabeça o consórcio). Para quem não sabe também a Camargo Corrêa foi alvo da Operação Castelo de Areia da Polícia Federal. A investigação recolheu provas suficientes para demonstrar fraudes em obras públicas (metrôs em várias capitais) e vários crimes financeiros, entre eles, lavagem de dinheiro. Aí fico pensando: dá para confiar nesses caras? Com a palavra os internautas.

TV vicia?

Faço parte da geração que já nasceu com televisor preto e branco na sala de estar. A programação não era 24 horas, como hoje. Em 74 meu pai comprou a Colorado RQ, o televisor do Pelé. Foi quando, estupefatos, descobrimos as cores na telinha. Não sabíamos o que aquele admirável mundo novo nos permitiria, mas desde o início enfrentamos limites severos. Minha mãe só permitia que ligássemos o aparelho no fim da tarde. E, depois da novela, todos para cama! Havia preocupação com o tempo de exposição e com a proximidade dos olhos à telinha. Era como se intuitivamente entendêssemos que, apesar de bom, tinha que ser pouco. Assim, aprendemos a usar o restante do tempo de forma mais ativa: ler, correr, brincar e se divertir na rua. Fui tomado por essas lembranças ao ver a notícia de que assistir a televisão demais vicia tanto quanto cocaína. Trata-se de uma pesquisa do Centro de Estudos de Mídia da Universidade Rutgers, dos Estados Unidos (aqui). As conclusões: a televisão prejudica as faculdades cognitivas, as articulações e até a postura. Grupos pesquisados contam que sentiram-se sem energia e com dificuldade de concentração, após horas e horas diante da tv. Por isso, cientistas recomendam que uma pessoa não deve ficar mais do que uma hora por dia diante da TV. Meu conselho é parecido: como tudo na vida, aprecie com moderação. Enquanto escrevia este texto lembrei-me dos versos dos Titãs: "E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais..."

23 março 2011

Errei

Hoje cedo entrei no blog do Nassif e vi o manifesto de um blogueiro aparentemente conhecido da turma que frequenta blogs de futebol, o Paulinho. Ele dizia que estava sendo perseguido e contava que quase foi preso. Fazia um texto apelativo, em que dizia ser vítima de perseguição. Como já passei por isso, meu primeiro impulso foi acolhê-lo. Entrei no blog dele, prestei solidariedade e disse que acrescentaria o link aqui na minha página. Não demorou muito para meus parceiros alertarem. Segue abaixo a cópia do Mandado de Prisão pelos crimes de calúnia, injúria e difamação (clássicos crimes de imprensa)

(clique na imagem para ampliar)

Veja agora o comentário que fiz no blog dele logo cedo e depois o pedido de retratação que, desconfio, não será aprovado pelo moderador.


Desculpem a precipitação, amigos do blog.

Paz e Amor

Foram dias difíceis. O terremoto seguido de tsunami no Japão e a eminência de um desastre nuclear. Para completar, a visita de Barak Obama para decidir, em solo brasileiro, a invasão a Líbia. Como não se entristecer vendo o mundo assim, em vez de melhorar para os nossos filhos? Ok, terremotos sempre existiram e tragédias naturais também. E a guerra, oras, guerras existem desde que o mundo é mundo. Mas por alguma razão diferente das de outras vezes me entristeci. Isso afetou significativamente meu desempenho. Tive difuldade para escrever no blog, meu trabalho ficou "amarrado" e arrumei, primeiro, uma sinusite, depois, uma laringite. Simbolicamente, nada mais adequado à condição de "sufocamento". Hoje começei a melhorar de tudo. Mas as notícias só pioraram. Aí penso: será que somos nós os reponsáveis pelo noticiário ou tudo começou a dar errado porque estamos a caminho de 2012, que é quando os profetas prevêem o fim de tudo? Crimes horrorosos, violência gratuíta, abusos de toda sorte... Oras bolas, estamos apenas reproduzindo em pequena escala a fúria indomável da natureza e estupidez e bestialidade humanas. Mais uma vez nada de novo. Meu avô dizia que este mundo era um mundo de espiações e provas. Nessas horas não tenho dúvidas. E pensar que a nossa imagem lá fora é de um país "paz e amor". Melhor assim. Quem sabe repetindo esse mantra não conseguimos levar tal projeto adiante. Isto é, se o mundo não acabar primeiro...

21 março 2011

Deveria ser Obrigatório em Todos os Cursos de Jornalismo do País


E pensar que somos tantos a serviço dos poderosos, e não dos fracos...
Não posso deixar de agradecer ao Antonio Mello, meu xará, por mais esta oportunidade.

20 março 2011

Porque hoje é Domingo

Sem braços, sem pernas e sem medos. Simples assim!


(por sugestão da Elizabete Rossato)

19 março 2011

O Perigo da Nossa Ignorância

(Itália, França, Russia, EUA, Japão e Líbia)

"A imensa campanha de distorções, omissões e mentiras desencadeada pelos meios maciços de comunicação abriu espaço para uma enorme confusão no seio da opinião pública mundial. Levará tempo antes que se possa estabelecer a verdade do que ocorreu na Líbia e distinguir os fatos reais das falsidades publicadas. (...) Uma intervenção militar aberta implica que os Estados Unidos, Inglaterra, França e demais países optaram por um dos lados da guerra civil líbia, como aumentará brutalmente os riscos sobre a população civil que, cinicamente, anunciam que pretendem proteger."

(Max Altman é da secretaria de Relações Internacionais do PT) - para ler todo o artigo, vá aqui.

Esse Stanley, viu!

Veja de quem, sob a titularidade da LIA (Autoridade Investidora Líbia) - 13º Maior Fundo Soberano do Mundo - a Líbia é acionista:

a) Finmeccanica (bélica - Itália): 8ª maior fabricante de armas do mundo;

b) Libyan Italian Advanced Co. (bélica – Itália/Líbia): subsidiária da Finmeccanica que fabrica helicópteros na Líbia – LIA é a acionista majoritária;

b) Unicredit (banco - Itália);

c) Fiat (automóveis - Itália);

d) Juventus de Turim (futebol – Itália);

e) HSBC (banco – Reino Unido);

f) Grupo Pearson, dono do FT - Financial Times (mídia – Reino Unido) – a LIA é o 5º maior acionista;

g) Royal Dutch Shell (petróleo – Reino Unido / Holanda);

h) Standard Chartered (banco – Reino Unido);

i) Vodafone (telecomunicações – Reino Unido);

j) BP – British Petroleum, a do buraco vazando no Golfo do México (petróleo – Reino Unido) – dona de concessões e investimentos petrolíferos de mais de 1 Bilhão de Euros só na Líbia;

k) Exxon (petróleo – EUA);

l) Chevron (petróleo – EUA);

m) Pfizer (farmacêutica – EUA);

n) Xerox (tecnologia – EUA);

e) Halliburton (equipamentos/petróleo – EUA);

f) Honeywell (aeroespacial – EUA);

Ao que tudo indica, quando e se ouvirmos a notícia do início do assalto das tropas militares ocidentais “em defesa do povo líbio”, as únicas novidades serão as “tropas militares” e “o povo líbio”. Pois o assalto parece já ter começado há algum tempo. (por Stanley Burburinho, que cita a fonte logo abaixo)

http://sp.rian.ru/opinion_analysis/20110314/148514106.html

18 março 2011

Stanley Burburinho: Você não vai ver isso nos jornais!

A partir de informações do serviço secreto russo, o Pravda publicou matéria muito esclarecedora sobre a situação na Líbia. Por exemplo: a contratação de mercenários pelo Pentágono através da Halliburton e da Blackwater e que o serviço secreto da Rússia, que controla 100% do espaço aéreo da Líbia, garante que nenhum avião levantou vôo na Líbia desde o inicio das manifestações.Acho que essas informações nunca veremos publicadas na velha mídia do Brasil:

“O serviço secreto russo confirmou ontem através de Nicolai Patrushev, que na verdade o que está existindo é um verdadeiro bombardeio da mídia internacional contra Kadhafi, pois a Russia controla totalmente o espaço aéreo do norte da África e cem por cento da Líbia e que os aviões que supostamente levantaram vôo para executar os bombardeios contra o povo líbio não saíram do chão e portanto não executaram qualquer ação militar; que somado a isso, por não existirem imagens de qualquer vôo, configura uma armação do Pentágono. O Secretário de Defesa do EUA admitiu o erro das informações dizendo que podem ter sido outros aviões, mas setores independentes da mídia internacional já haviam colocado a entrevista dos russos no ar e assim desmoralizado a ação do Pentágono.”

“Outro escândalo que ronda Washington é a participação de mercenários contratados pelo Pentágono, através da Halliburton e da Blackwater para participarem das batalhas na região de Cerenaica, em especial Bengazhi e Trobuk ao lado dos opositores que começam a perder terreno para os simpatizantes de Khadafy. A missão dos mercenários que ficariam sob controle da CIA, Agência Central de Inteligência e até executariam ações secretas com a aliada Al-Qaeda de Bin Laden, contra Khadafi seria manter o controle dos poços de petróleo já sob controle da oposição na região de Bengazhi.”

“Ontem um dos principais líderes da oposição a Kadafi, Khaled Maassou, na região de Cerinaica, confirmou que estava desistindo da luta por não concordar com a participação de mercencários e militares norte americanos em território líbio contra Kadhafi, e que em nenhuma situação irá contribuir com a CIA, que agora começa a assumir com a Al Qaeda o comando da situação na região de Cirenaica.”

http://port.pravda.ru/mundo/15-03-2011/31379-libia_massacre-0/

Por que Obama desistiu da Cinelândia?

O jornalista mineiro Mauro Santayana dispensa apresentações. Já incursionou pela diplomacia, foi conselheiro de Tancredo Neves, correspondente, chefe de sucursal e, hoje, prestes a completar 80 anos, é o maior e mais erudito comentarista político que o Brasil tem. Foi ele quem, no Jornal do Brasil, argumentou: "...será difícil impedir que agentes provocadores, destacados pela extrema-direita dos Estados Unidos, atuem, a fim de criar perigosos incidentes durante o ato." O artigo completo do mestre segue abaixo:

É preciso romper o silêncio da amabilidade para estranhar o pronunciamento público que o presidente Obama fará, da sacada do Teatro Municipal, diante da histórica Cinelândia. Afinal, é de se indagar por que a um chefe de Estado estrangeiro se permite realizar um comício – porque de comício se trata – em nosso país. Apesar das especulações, não se sabe o que ele pretende dizer exatamente aos brasileiros que, a convite da Embaixada dos Estados Unidos – é bom que se frise – irão se reunir em um local tão estreitamente vinculado ao sentimento nacionalista do nosso povo.

É da boa praxe das relações internacionais que os chefes de estado estrangeiros sejam recebidos no Parlamento e, por intermédio dos representantes da nação, se dirijam ao povo que eles visitam. Seria aceitável que Mr. Obama, a exemplo do que fez no Cairo, pronunciasse conferência em alguma universidade brasileira, como a USP ou a UNB, por exemplo. Ele poderia dizer o que pensa das relações entre os Estados Unidos e a América Latina, e seria de sua conveniência atualizar a Doutrina Monroe, dando-lhe significado diferente daquele que lhe deu o presidente Ted Roosevelt, em 1904. Na mensagem que então enviou ao Congresso dos Estados Unidos, o presidente declarou o direito de os Estados Unidos policiarem o mundo, ao mesmo tempo em que instruiu seus emissários à América Latina a se valerem do provérbio africano que recomenda falar macio, mas carregar um porrete grande.

Se a idéia desse ato público foi de Washington, deveríamos ter ponderado, com toda a elegância diplomática, a sua inconveniência. Se a sugestão partiu do Itamaraty ou do Planalto, devemos lamentar a imprudência. Com todos os seus méritos, a presidência Obama ainda não conseguiu amenizar o sentimento de animosidade de grande parte do povo brasileiro com relação aos Estados Unidos. Afinal, nossa memória guarda fatos como os golpes de 64, no Brasil, de 1973, no Chile, e ação ianque em El Salvador, em 1981, e as cenas de Guantánamo e Abu Ghraid.

O Rio de Janeiro é uma cidade singular, que, desde a noite das garrafadas, em 13 de março de 1831, costuma desatar seu inconformismo em protestos fortes. A Cinelândia, como outros já apontaram, é o local em que as tropas revolucionárias de 1930, chefiadas por Getúlio Vargas, amarraram seus cavalos no obelisco então ali existente. Depois do fim do Estado Novo, foi o lugar preferido das forças políticas nacionalistas e de esquerda, para os grandes comícios. A Cinelândia assistiu, da mesma forma, aos protestos históricos do povo carioca, quando do assassinato do estudante Edson Luis, ocorrido também em março (1968). Da Cinelândia partiu a passeata dos cem mil, no grande ato contra a ditadura militar, em 26 de junho do mesmo ano.

Não é, convenhamos, lugar politicamente adequado para o pronunciamento público do presidente dos Estados Unidos. É ingenuidade não esperar manifestações de descontentamento contra a visita de Obama. Além disso – e é o mais grave – será difícil impedir que agentes provocadores, destacados pela extrema-direita dos Estados Unidos, atuem, a fim de criar perigosos incidentes durante o ato. Outra questão importante: a segurança mais próxima do presidente Obama será exercida por agentes norte-americanos, como é natural nessas visitas. Se houver qualquer incidente entre um guarda-costas de Obama e um cidadão brasileiro, as conseqüências serão inimagináveis.

Argumenta-se que não só Obama, como Kennedy, discursaram em público em Berlim. A situação é diferente. A Alemanha tem a sua soberania limitada pela derrota de 1945, e ainda hoje se encontra sob ocupação militar americana. Finalmente, podemos perguntar se a presidente Dilma, ao visitar os Estados Unidos, poderá falar diretamente aos novaiorquinos, em palanque armado no Times Square.

17 março 2011

O Monopólio do Brasileirão


Ao assinarem com a Globo, os clubes descartam a possibilidade de negociar os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro por mídias separadas. Nos contratos firmados com os 11 times, a Globo comprou os direitos de transmissão de todas as mídias — TV aberta, TV fechada, pay-per-view, internet e telefonia.
A emissora também será responsável por realizar a venda das placas de publicidade. Dessa maneira, a Globo manterá seu monopólio sobre a transmissão do Campeonato Brasileiro, pelo menos, até 2015.
A ofensiva da emissora vai frontalmente contra a orientação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), que informou não ter recebido denúncia até agora. A dúvida se deve à condição do Clube dos 13 como representante de seus 20 associados.
Já a RedeTV! — que venceu a licitação aberta pelo Clube dos 13 — não sabe se levará os direitos do Brasileirão para o triênio 2012-2014. Para validar a proposta, a emissora exige que todos os clubes filiados assinem o contrato. Essa assinatura ainda não ocorreu porque parte dos clubes está negociando separadamente com as televisões.
“O Clube dos 13 tem que entregar o que nos vendeu”, diz João Carlos Romboli, diretor de relações institucionais da emissora. “Foi nos vendido poder exibir jogos de 20 clubes. É isso que esperamos ter em maio de 2012."
Segundo Romboli, a RedeTV! começou a vender os pacotes a patrocinadores e já tem verba para pagar pelos direitos e até lucrar. “Os clubes precisam entender a importância do futebol para nós. Com o público do futebol, dobraremos nossa audiência.”
Oficialmente, São Paulo, Inter, Atlético-MG, Atlético-PR e Bahia seguem alinhados com o Clube dos 13 e a RedeTV!, enquanto Vitória, Goiás, Guarani, Portuguesa e Vitória seguem indecisos. Corinthians, Flamengo, Fluminense, Botafogo, Vasco, Cruzeiro, Coritiba, Grêmio, Santos e Palmeiras negociam seus direitos separadamente.

O processo

Para que a negociação da Globo com os clubes seja alvo de investigação, é necessária uma denúncia, que poderia partir de qualquer pessoa ou entidade. Mas nem isso pode ser suficiente. A Secretaria de Direito Econômico (SDE) tem recebido tantas denúncias que só abre processo quando há evidência muito fortes de que a denúncia é procedente.
Após investigada a denúncia, as informações apuradas são encaminhadas ao Cade, que, então, julga o caso. O processo, no entanto, pode ser demorado. A ação que apurou se o contrato entre o Clube dos 13 e a Globo feria as regras da concorrência levou 13 anos — dez para ser instruído na SDE e mais três para ser julgado pelo Cade.
Segundo a SDE, não há como prever o tempo necessário para a investigação e o julgamento de uma denúncia sobre a negociação entre Globo e clubes. O órgão reconhece que pode haver mais agilidade em virtude da experiência adquirida no processo anterior, mas não há garantia de mais rapidez. (Da Redação, com agências)

15 março 2011

Fausto e Ulysses

Fausto era um comunicador em sintonia com seu tempo no memorável Perdidos na Noite. Quando tinha uma paixão e vontade firme, todo o universo conspirava a seu favor. Mas, desiludido com as madrugadas frias de domingo, aceitou as seduções de Mefistófeles, que apareceu sob o ardil de uma vênus platinada a entoar cânticos de amor no mar da baía de Guanabara. O pacto demoníaco lhe trouxe a glória, o apogeu e a fama mas, hoje, lhe cobra o alto preço da desilusão. Nos últimos cinco anos está perdido nas tardes de domingo e, aos poucos, vai perdendo tudo o que conquistou. Nem mais o aumentativo lhe cai bem, depois da cirurgia bariátrica. Três meses atrás coube a Ulysses enfrentar a terrível Odisséia da revitalização da audiência. Mas, ao contrário do épico, onde o herói vence a fúria de Posseidon para alcançar a Ítaca, aqui Ulysses fracassou. Seu novo projeto é dar cor ao desbotado Criança Esperança, outra missão quase impossível. Que O Coronel dos Coronéis inspire nosso bravo diretor, afinal de contas, são nas alegorias cênicas que encontramos suas melhores odisséias. E quer um conselho: não perca tempo com Cerimônias do Adeus. A questão é: ser ou não ser.

O Ensimesmamento

Tinha um tio, com quem morei por um tempo no interior de São Paulo, que sempre que me via quieto perguntava: - Por que esse ensimesmamento? Em seguida declamava Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Baudelaire, até que extraía para si o desejado sorriso de recompensa. Infelizmente não está mais entre nós, mas é com quem faria o brinde ao qual a animação abaixo convida.



Cheguei ao filme por sugestão da Eliana Lopes, no último domingo.

13 março 2011

A Lei de Murphy

Não sei vocês, mas sempre que vou tomar água o dispenser da geladeira está vazio, ou quando quero usar a impressora os níveis de toner estão críticos, ou pior, não tem papel sulfite. É a famosa Lei de Murphy. Para quem nunca ouviu falar, é o postulado que diz que: "se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará". Ouvi isso pela primeira vez da minha irmã Siomara e desde então, sempre que o pão cai no chão com a manteiga virada para baixo lembro-me do tal Murphy que, dizem, foi um engenheiro aeroespacial estadonidense de nome Edward A. Murphy. Segundo a Wikipédia, Murphy deveria apresentar resultados de um teste, mas os sensores que iriam registá-lo falharam na hora "h", porque o técnico incumbido de fazer a instalação pisou na bola. Frustrado, Murphy teria dito que "se este cara tem algum modo de cometer um erro, ele o fará".  Mas, voltando ao papel sulfite. Ontem à noite preparava documentos para levar à contadora, que fará apontamentos no livro caixa da firma (sou pessoa jurídica). Na hora de imprimir, precisaria de 12 folhas, mas só tinha seis. Liguei para a sogra a procura de socorro, mas sem sucesso. Nove da noite, pensei, o supermercado está aberto e lá com certeza tem. Em Vinhedo temos supermercado 24h, não é o máximo? Cheguei lá a procura do papel e nada. Aliás, parecia Natal. Nunca vi tanta gente comprando. Logo pensei: "realmente o que se vê é um espetáculo do crescimento". Saí do supermercado disposto a não entregar os pontos tão facilmente. Quem me conhece sabe que uma das minhas características, para o bem ou para o mal, é a persistência. Decidi seguir até uma loja de conveniência na entrada da cidade. Como lá tem agência de correios e internet, imaginei que a balconista poderia ter umas folhinhas dando sopa. Nove e meia da noite e a loja fechada! Apelei para a locadora 100% Vídeo. Acho que é franquia, porque já vi em muitos lugares. Nada. Na volta para casa passei em frente a uma lan house. Não tive dúvidas, parei. O sujeito pareceu surpreso com a minha pergunta. Disse que nunca tinha vendido papel sulfite em branco, o que faz são impressões de internet, por 25 centavos de Real cada. Disse para ele: Vale a Lei da Oferta e da Procura. Só você tem de sobra a essa hora a mercadoria que estou precisando agora. Faça seu preço. Ele pensou e disse: R$ 0,20 a folha. Me dê 20, respondi. Foram as folhas mais caras que já comprei na vida: R$ 4,00. Com alguns centavos a mais daria para comprar o cento. Mas aqui vale outra lei: O que é combinado não é caro. Acho que Murphy lá atrás se esqueceu de combinar com o técnico a instalação correta dos sensores. Ou devia estar explorando a mão de obra do sujeito, que não estava nem aí para o resultado? Esse Murphy, viu!

12 março 2011

A Rede Social

Ontem o Pedro (na foto de hoje posando como um rico e bem sucedido homem de negócios) esperou eu chegar às 10h40 da noite para assistir comigo ao filme, que conta a história do gênio por trás do Facebook. Quando terminamos ele estava encantado com o sucesso e a fortuna daquele jovem rapaz. Aí perguntei para ele: reparou como para chegar lá ele perdeu a garota, o melhor amigo e ainda teve problemas na justiça? Será que o preço pago vale o peso da solidão? Pedrão foi dormir provavelmente pensando no sucesso, mas certamente também nos seus custos. O filme é a síntese do que pensam os jovens americanos e talvez a maioria dos jovens em todo mundo nos dias de hoje. A vida se resume a uma boa idéia e uma fortuna seguindo logo atrás. Mas aí quem ficou pensando também fui eu: em uma sociedade sem escrúpulos, onde o mais esperto vence; sem valores éticos, onde a lei do mais forte está acima de tudo; e onde o poder econômico quase tudo pode, que mundo estamos mesmo construindo? Que futuro queremos para nossos Pedros e Gabriéis? Afinal, o que é mesmo o Facebook? Uma rede social onde o que vale é ter contatos, de preferência muitos, ser popular, ter relevância e influência. Estou no FB há bastante tempo mas, ao contrário de muitos que conheço, vivo muito bem sem ele. Uso a ferramenta basicamente para compartilhar links do blog e fazer alguns comentários que considero pertinentes. Também é uma boa forma de fazer contato rápido com pessoas distantes. Mas se pudesse fazer uma estatística "empírica" diria que mais de 90% do que as pessoas publicam é lixo. Não tem finalidade alguma. A mim parece que o Face, para estes, é o espelho que reflete a falta de sentido da vida e por que não, a solidão. Rigorosamente a mesma do gênio bilionário que tem 500 milhões de amigos. Nada contra, apenas uma reflexão.

Comentário que vem para a capa:

Exatamente o que penso. Quando se pára pra pensar sobre o nível de alfabetização - que nada tem a ver com o espírito crítico que o conhecimento deveria inculcar no ser humano - que submete o indivíduo ao simples conhecimento técnico, superficial ,nota-se a verdadeira utilidade das conquistas na ciência pelo homem.
Hoje, no Brasil, este processo também parece viabilizado pelo Estado, que antes de tudo é a síntese das aspirações burguesas.
Acho muito bom este desenvolvimento, mesmo que tardio, do ensino superior no nosso País.
Mas a questão é outra. O indivíduo é condicionado o tempo todo a simples agente de consumo, de reprodução do sistema.
E nesse rítmo o lixo se acumula, as águas são mais e mais poluídas, o ar envenenado, o câncer proliferado pela industriaização e envenenamento dos alimentos, a violência - fruto dos instintos humanos mais animalescos - torna-se a valvúla de escape em um mundo onde alguns poucos consomem ao extremo, em detrimento da inanição alheia.
Tudo muito bonitinho as faculdades com indivíduos representantes das classes exploradas, mas estes também são cooptados pelo sistema, que subverte a alma humana, entrega à nossa espécie o que ela tem de pior: ódio, intolerância, violência, matricídios, parricídios e fratricídios.
Carlos Rico

10 março 2011

Talking About Revolution

Impressiona ver numa cidade de 250 mil habitantes 70 mil nas ruas, como no último sábado. Madison, capital de Wisconsin, fica no coração do meio-oeste americano. Oito, em cada dez habitantes, são brancos. Negros e Latinos não somam 10%. Mas, ao contrário do que poderíamos supor, eles não são consevadores. Mais de 70% são liberais, majoritariamente a favor da união gay e pela liberação da maconha, por exemplo. A economia da cidade gira em torno da importante Universidade local (com cerca de 100 mil estudantes, funcionários e professores) e do serviço público, nas repartições do executivo, legislativo e judiciário estaduais. Os manifestantes tomaram as ruas para protestar contra a lei que proíbe categorias profissionais de negociar salários coletivamente, por meio de seus sindicatos. Crianças acompanhavam seus pais e mães numa tarde gelada, demonstrando o caráter cívico do ato. Uma curiosidade, o tom pacífico da manifestação. Centenas de voluntários se candidataram para ajudar a "manter a ordem". É um movimento de desobediencia civil organizado, que começa a contagiar o país. Na raiz de tudo está o avanço ultraconservador contra o estado de bem estar social. O consagrado cineasta e jornalista independente Michael Moore fez um histórico discurso, dizendo que a democracia faliu para os americanos e que o futuro daquela nação só depende deles, que são a maioria. Foi quando me lembrei de que nos anos 90, quando vivi em Wisconsin, participei de um protesto em La Crosse, contra o fechamento dos bares. Fomos todos para o meio da rua, onde muitos se sentaram. A polícia prendeu dezenas e em linha começou a marchar contra os manisfestantes. Num determinado momento começaram a lançar bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão. Num gesto de bravura inconsequente um rapaz de vinte e poucos anos se misturou à fumaça, recolheu uma das bombas e atirou-a contra os policiais assustados. Ao voltar-se para trás, seu sorriso de júbilo foi flagrado pelas câmeras dos repórteres e a foto estampou a capa do principal jornal local no dia seguinte. Vinte anos depois este rapaz, a exemplo das famílias de Madison, ainda sonha com uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, segue cantando: "Get up, stand up: don't give up the figth". (Levante, resista: não desista da luta).

09 março 2011

A Ditadura Cultural do Sul

Domingo à noite, chego em casa e a Alexandra está no computador. A TV está ligada na transmissão do Carnaval. A Escola acaba de cruzar a avenida. O desfile foi ok, no tempo. Aí começa o giro de repórteres mostrando o destaque, o carro que quase não saiu, aquela coisa toda que se repete todo ano. A animadora, no pequeno auditório, improvisa como pode. Apresenta dados, estatísticas, palavra do telespectador, tudo num telão interativo. Em certo momento decide chamar o repórter Francisco José de Brito, um dos mais consagrados da televisão brasileira. Chico faz parte da história da TV e povoa o imaginário coletivo da nação. É uma espécie de patrimônio da família brasileira. É como se um primo que mora distante trouxesse a notícia. Ele está em pé num praticável no centro do Recife. No palco, o maestro Francisco Amâncio da Silva, o Maestro Forró, organizador e líder da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH). Seu mérito é não trabalhar exclusivamente com o Forró. Seu repertório eclético e performático eleva a folia ao status de arte. Só como curiosidade, a Bomba do Hemetério fica no bairro Água Fria, zona norte do Recife. É um sistema manual de retirada de água que seu Hemetério distribuía para a vizinhança. Bom, voltando à transmissão, lá está o repórter. Ele faz uma abertura de vinte segundos e em seguida dá "a deixa" para a banda tocar. Mal a banda começa, alguém avisa no ponto eletrônico que é para o repórter "devolver". Chico José, obediente, diz: - Voltamos com fulana de tal. No dia seguinte encontro Marianne Brito, filha de Chico, e digo: - Que feio, chamaram o Chico e quando a banda iria começar a tocar voltaram para o estúdio. Depois fiquei pensando no episódio, que é um retrato da ditadura cultural que o Sul Maravilha impõe aos outros estados. Quem disse que Carnaval é só na Marquês de Sapucai? Com a palavra os brasileiros que já estão de saco cheio dessa exclusão.

08 março 2011

Os Animais da Televisão

O atual apresentador do Jornal tarde da noite (daqueeeela emissora) é uma pessoa difícil. Costuma tratar os colegas com grosserias. Nunca tive problemas com ele, aliás, quando ainda era repórter só aceitava editar suas matérias se fosse comigo. Acho que por uma questão de gênero. Era o único homem numa equipe de quatro mulheres e há quem diga que ele não trabalha bem com pessoas do sexo oposto. Deve ser verdade. Uma vez, há muitos anos atrás, ele teve a coragem de chamar uma repórter ainda iniciante, e hoje consagrada, de "negrinha". Mais recentemente trocou o sobrenome de outra repórter por um sinônimo de coliforme fecal (acho até que este episódio foi parar no Youtube). E não foi só isso. É do tipo que gosta de arrumar apelidos para os outros. Um correspondente internacional, por exemplo, ganhou a singela alcunha de "paquinha", certamente pelo biotipo troncudo e com nariz apontando para baixo (veja a foto). Um dia, outro colega desavisado (que depois virou diretor) conversava com o dito repórter no exterior. Era paquinha pra cá, paquinha pra lá, até que o sujeito do outro lado da linha perdeu a pose. Mandou nosso colega para aquele lugar. Disse que não admitia o tratamento em tom pejorativo e que exigia retratação e respeito. Foi um Deus nos acuda. A crise acabou superada mas, hoje, é melhor o diretor tomar cuidado com as brincadeirinhas, porque pode ser acusado de assédio moral pelos colegas. Aliás, se o apresentador não se cuidar também vai pagar caro pelas grosserias que tem cometido com os colegas. E nada de mandar candidata à presidência calar a boca porque, vai que ela se elege, hehehe. Como diz o ditado: aqui se faz, aqui se paga. Paquinha, hihihi.

07 março 2011

Jogo Sujo no Esporte

É grande o desconforto entre os atletas brasileiros que vão participar dos Jogos Panamericanos de Guadalajara, no México, em outubro. Mais de sessenta já foram pré-convocados. Pelo menos cinquenta são da "tropa de elite" do atletismo brasileiro. Atletas que estão "voando", como a velocista Ana Cláudia Lemos, grande promessa dos 100m, 200m e revesamento 4x100m e o fundista Marilson Gomes dos Santos, vencedor da meia maratona de São Paulo, no mês passado, e duas vezes campeão da Maratona de Nova Iorque. Eles estão inconformados com a atitude dos canais de televisão que decidiram ignorar o Pan e, consequentemente, abandonar nossas maiores esperanças de medalha Olímpica em Londres e no Brasil. A Band, a Globo e os canais Globosat simplesmente vão fingir que nossos atletas não existem. Isso mesmo! Vão fazer vistas grossas às nossas estrelas por causa de interesses comerciais. São ou não são mesquinhos? Quando trabalhei na emissora dos Marinho sempre ouvia dos chefes que lá esporte não é jornalismo, esporte é business. Sendo assim, tratam nossos atletas, suas aspirações e glórias como mercadoria, meros objetos de consumo. Isso é muito triste. Não é porque a Record tem exclusividade na transmissão dos jogos que as outras emissoras devem ignorar nossos feitos. A ordem na concorrência é dar apenas o quadro de medalhas, fazer menção aos nomes dos atletas, mas evitar imagens e entrevistas. Isso é boicote! Deveria ser proibido! Como pode o interesse comercial se sobrepujar ao interesse do brasileiro pelos esportes olímpicos e suas conquistas? A hipocrisia é tamanha que são eles os primeiros a bradar que falta política de incentivo ao esporte olímpico no país. É por escolhas assim, pautadas exclusivamente por interesses comerciais, que as emissoras vão perdendo credibilidade e audiência. E os atletas? Eles não vão se esquecer tão cedo dos prejuízos que sofrem nesse jogo sujo. Na hora de dar entrevistas eles vão se lembrar direitinho de quem está ao lado deles, além de seus patrocinadores. É esse o recado que fazem questão de dar aos gestores do negócio televisão.

06 março 2011

Depressão em Série

Dia desses conversava com um colega de trabalho sobre as repórteres da TV. De uma tacada só listamos dez ótimas profissionais que, sem razão aparente, decidiram abandonar a carreira nos últimos dez anos. Na média, é uma por ano! Ao investigar melhor as causas descobrimos um padrão de comportamento que, fossemos um país sério, já teria sido objeto de estudo não só do sindicato da categoria, mas da justiça do trabalho, de universidades e, principalmente, da própria empresa. A primeira que desistiu foi uma brilhante repórter de esportes. Bom texto, boa presença e enorme facilidade de falar ao vivo, na rua e em estúdio. A segunda que recordamos tinha vindo de Belo Horizonte e virou a titular absoluta do jornal da hora do almoço. De repente, sumiu. Foi reaparecer anos depois, na sucursal mineira. Depois de faltar num plantão, o chefe informou que ela já não servia mais para a firma e foi demitida. Outra que brilhou em São Paulo nos principais telejornais da emissora saiu de Niterói, mas terminou os estudos em Brasília. Num dia de fúria, presa num congestionamento, saiu do carro e decidiu terminar o trajeto a pé. Não foi a única que não aguentou a cidade. Outra colega tinha vindo de Londres, direto para São Paulo. Parecia modelo, linda, magra, alta, cabelos curtos e olhos claros. Ao voltar de uma reportagem policial confidenciou à equipe: - Isso aqui não é vida para mim. Encontrei-a rapidamente alguns anos depois em Brasília, durante a tentativa de golpe, apelidado de Crise do Mensalão. Teve outra ex-repórter que, ao lado do marido, montou uma produtora de vídeo e, hoje, não tem do que se queixar. Duas outras excelentes repórteres (uma ex-garota do tempo e outra especializada em economia) jogaram tudo para o alto, assim que ganharam seus bebês. Tem mais uma que preferiu não renovar contrato, quando estava a caminho da terceira gravidez. Há também uma veterana das telas, que teve sérios problemas, depois que as gêmeas vieram. E há ainda uma colega, que já não está mais na empresa, capaz de fazer bem qualquer tipo de reportagem, mas não segurou a barra. Elas têm em comum o diagnóstico de depressão. Jamais vão admitir publicamente, porque temem ser estigmatizadas. São vítimas de uma corporação doente que maltrata seus profissionais.

04 março 2011

A Concertación com Dilminha

Quem quiser entender a eleição presidencial e o novo governo Dilma, basta olhar para o lado, aqui na América Latina mesmo. Guardadas as devidas proporções, a aliança em torno da candidata de Lula no segundo turno foi uma espécie de Concertación Democrática, como no Chile dos anos 90. Foi uma coalizão democrática, tendo o PT e PMDB na base da aliança para enfrentar a ameaça de retrocesso, representada pelo radicalismo de Serra e seus apoiadores (vale lembrar que muitos patrocinadores da falida candidatura do PSDB defendem a volta da ditadura até hoje). Portanto, esperar um governo que aprofunde reformas seguindo uma agenda exclusivamente social-democrática é ilusão. Vamos seguir fazendo uma política clientelista de um lado e populista de outro. De qualquer forma, com esse modelo é possível sim combater a miséria e as enormes desigualdades sociais, ao contrário do Chile, que depende quase que totalmente dos recursos do cobre, dos preços do petróleo e da estabilidade do câmbio. No Brasil, a armadilha da dívida pública versus reservas internacionais (que patrocinam os juros e o rentismo da ciranda financeira) pode ser desfeita a longo prazo com a enorme riqueza do Pré-sal. Esta é a aposta. E comparando-se os currículos de Dilma Rousseff e Michelle Bachelet, curiosamente, vamos encontrar mais semelhanças do que diferenças. Portanto, se continuar assim, na base a Concertación, está bom demais. Não dá para ter tantas pretensões diante das alianças feitas e da conjuntura, não só interna, mas principalmente a internacional. E lembre-se: Em política, como em tantas outras situações da vida, o ótimo é inimigo do bom. Se avançarmos na erradicação da miséria já está bom demais.

03 março 2011

O que pensa o Cientista?

por Wanderley Guilherme dos Santos (em Janeiro, na Carta Capital)

Uma variação anual positiva de 6% do PIB, por exemplo, não quer dizer que o número total de pares de sapatos produzidos no ano foi de 6% superior ao total produzido nos 12 meses anteriores, ou do total de geladeiras, aspirinas, preservativos e tudo mais. Alguns números reais corresponderiam a bem mais do que à porcentagem registrada, outros a bem menos, e ainda outros a exatos 6%, sem mencionar os números novidadeiros. Uns pelos outros é que desembocam nessa média. Trivial, mas fácil de esquecer e dócil a interpretações marotas.

O economista Fernando Augusto Mansor, do Ipea, calculou a taxa de variação do PIB brasileiro dividido pela população (PIB per capita) nos últimos 60 anos, subdividindo o período por 14 mandatos presidenciais, acabados ou interrompidos, ditatoriais ou eleitos – de Getúlio Vargas?Café Filho a Lula I e II. Vista de longe, parece que a história econômica do país reprisa sequências de picos e vales de crescimento, variando não mais do que o maior ou menor intervalo de tempo entre uma escalada e uma queda. Uma rotina, quase. E nada melhor que uma rotina para sugerir aos candidatos a cientistas da economia a existência de uma “lei da natureza”. Daí a se imaginar que abundância e escassez caem do céu e que todas as abundâncias se parecem não toma além de dois passos.

Mais um passo e alcançamos a tese rústica de que o governo Lula representou um prolongamento de governos anteriores, no que estes apresentaram de positivo, acrescido de bonançosos ventos internacionais. Virtude e acaso encarnados em sujeitos distintos, operando em tempos sucessivos, a tese excitaria o falecido Maquiavel. Pace Niccolo, a história não é bem essa.

O crescimento de 4,9%, em média, dos prometidos 50 anos em 5 do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek (1956-1960), único presidente progressista eleito a concluir mandato antes do golpe militar de 1964, e o melhor a partir de então entre os de inspiração liberal, em nada se parece aos 4,1% do Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento, de Ernesto Geisel, cerca de 20 anos depois (1974-1978). Mais 30 anos passados, os modestos 3,5 de Lula II, em novo governo progressista legitimamente eleito, embora apontando ligeiro declive diante do pico JK, representaram a mais espetacular ruptura das últimas oito décadas da República. Mas a interpretação reduzida a números não ultrapassa o registro de que houve 0,8 ponto percentual de diferença entre o PIB per capita de JK e o de Geisel, e que o de Lula ficou atrás de ambos ( o modus faciendi democrático desaparece nos números). Em outras palavras, quem só vê porcentagens significantes não enxerga o conteúdo sendo significado, ignorando que, na economia, importante é o que está dentro dela, estúpido! - diriam os suecos.

Por exemplo: dentro da taxa média de crescimento do PIB per capita de Lula II faltam números satisfatórios de aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, justamente o que existe em abundância embutido nas taxas dos anos JK. Os “50 anos” recuperados “em 5” de Juscelino chegaram por via aérea ou recebidos em terminais rodoviários construídos às dezenas, acompanhando o ritmo de conclusão das estradas interestaduais planejadas pelos técnicos do então BNDE. Nada a lembrar o irritante congestionamento atual de aeroportos e estradas, invadidos por passageiros de primeira ou segunda viagem e por motoristas calouros em fins de semana fora da cidade onde moram. Sem esquecer o crescente tempo de espera para desembarque das mercadorias importadas nos portos nacionais. Muitas das quais enviadas da China, com a qual – ninguém podia imaginar – praticamente não falávamos nos anos 50 do século XX. Enfim, os itens em atraso na composição do PIB de Lula I e II fizeram a glória do desfile do PIB estilo JK nos sorridentes anos dourados de meados do século passado. É bem verdade que nem todos sorriam, faltavam os dentes, mas isso fica para depois.

Segundo os conservadores, ou bem o Brasil crescia ou evitava a inflação. Escolha difícil, à falta de terceira opção, e JK, apoiado pelo País inteiro, escolheu crescer, enquanto outros, antes e depois dele, preferiram a estagnação. Perfilhou, inclusive, o desafio de transferir a capital da cidade do Rio de Janeiro para o Planalto Central. (Corre a lenda de que o escritor carioca, católico e engenheiro por formação Gustavo Corção – 1896-1978 -, autor do célebre romance Lições de Abismo, apostou contra a viabilidade civilizatória de Brasília, assegurando que ela não teria condições de se comunicar nem telefonicamente com o resto do Brasil. Perdeu a aposta, é claro, e provavelmente teria apostado também contra a invenção do celular, jamais imaginando que tal artefato, se existisse, viesse a estar ao alcance de mais da metade da população brasileira em 2010 – cerca de 100 milhões de assinantes – quatro vezes superior ao número de celulares em circulação em 2003. Esta referência parentética destinou-se a ilustrar, com um item que de conspícuo transformou-se em básico, a rápida evolução recente do consumo em todas as rubricas típicas, como fogão, geladeira, televisão etc., consignadas pelos balanços usuais.)

Pois a tese da improbabilidade de crescimento econômico sem inflação era outro dos dogmas do período JK, adotado por todos os governos posteriores, o mesmo que se brandia à véspera do primeiro mandato de Lula. A ver as experiências históricas.

As entranhas do PIB juscelinista deram ganho de causa aos conservadores. As taxas de crescimento anual da economia foram exuberantes: 1956 = 3,2; 1957 = 8,1; 1958 = 7,7; 1959 = 5,6; 1960 = 9,7. E não seria impróprio atribuir ao carry-over do período juscelinista parte da saborosa taxa de 10,3, em 1961, já no mandato de Jânio Quadros (Conjuntura Econômica, 1972, Separata: 25 anos de Economia Brasileira, Estatísticas Básicas – FGV). Em contraposição, o índice de preços saiu de um patamar de aumento já elevado de 12,4%, em 1955, avançando a 24,4%, em 1956, e terminando o ano de 1959 com 39,5%, recorde desde o restabelecimento da democracia em 1945. Como de costume, o decreto 39.604-A, de 14 de julho de 1956, concedeu adicional de salário somente aos trabalhadores da indústria. Mais usual ainda, não houve reajuste salarial em 1957 ou em 1958 (Ibre/FGV, Índice de Preços Selecionados – Variações Anuais, 1946/1980).

A decomposição pelo avesso compromete um pouco o brilho do desempenho agregado dos indicadores econômicos de JK. O oposto se dá com as taxas agregadas de aumento do PIB per capita de Lula I e II. Se mais modestas, elas revelam, contudo, a falsificação da tese hegemônica de que vigoroso crescimento econômico seria incompatível com taxas inflacionárias cadentes. Manutenção do poder de compra dos salários, então, segundo a ortodoxia republicana, nem pensar, sendo ademais delirante a hipótese de que, no Brasil, a economia suportaria aumentos reais na renda dos assalariados. Tentativas anteriores teriam conduzido o País ao limite da anarquia política e à desorganização das contas públicas (fortíssimos indícios, de acordo com as mesmas fontes midiáticas conservadoras e seus conselheiros, de planos sindicalistas revolucionários). Como se vê, não é tanto a história que se repete quanto à natureza e origem dos obstáculos que dificultam a sua progressão.

A avalanche de indicadores positivos durante o governo Lula soterrou o pessimismo. A retomada do crescimento econômico veio acompanhada de inflação cadente e sob controle, acrescida de inédito aumento na massa de rendimento do trabalho. Em particular, o salário mínimo real dos empregados formais aumentou em 54%, entre 2002 e 2010, estendendo-se o número de trabalhadores com carteira assinada a mais da metade da população economicamente ocupada (Dieese: Política de Valorização do Salário Mínimo, in: Nota Técnica n˚ 86, São Paulo, 2010). Foram mais 15 milhões de brasileiros a obter empregos com direitos trabalhistas reconhecidos (Caged, novembro 2010). Naturalmente, também cresceu o número de assistidos pelo sistema da Previdência Social. A curva do desemprego, outro fantasma da excessiva prudência conservadora, apresentou uma evolução favorável, com taxas cadentes desde 2005 até o recorde favorável de 2010, quando a taxa de desocupação foi reduzida a 5,9% da população economicamente ativa.

Vale registrar que o desmonte das hipóteses econômicas sombrias se processou com crescente e pacífica participação nos assuntos públicos por parte de todos que o desejaram. Não houve qualquer repressão oficial a movimentos populares, opiniões ou manifestações políticas. Nenhum grupo social popular ou conservador teve cerceados ou amputados direitos de expressão pública. Ao contrário, entre 2003 e 2009, foram promovidas 59 conferências nacionais sobre os mais variados temas, com o envolvimento de mais de 4 milhões de pessoas, ademais da criação ou reorganização de 18 conselhos para tratamento de problemas históricos da população (Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Caderno Destaques, novembro/dezembro 2009, Brasília).

Ao contrário da anarquia prevista, a substituição de um sistema de valores e de práticas de perfil tradicionalmente elitista por uma orientação de governo comprometido com a promoção econômica, social e cultural da vasta maioria de trabalhadores brasileiros, em particular de suas camadas mais pobres, inaugurou um clima de temperatura política tolerante e cooperativa. São os extremos de dogmático espectro ideológico que, hoje, lastimam a redução na intensidade dos conflitos que, preveniam, seriam atiçados pelo governo Lula da Silva. O absoluto respeito por parte do Executivo às regras do jogo e às demais instituições do País – judiciárias, legislativas, estaduais – é um dos aspectos incluídos no reconhecimento que a população dispensou ao governo, em porcentagens acima até mesmo do apoio eleitoral que deu.

A comoção que acompanhou a transmissão da faixa presidencial à presidenta eleita, Dilma Rousseff, bem como a despedida do presidente Lula da Silva, testemunha a extensão de seu sucesso, excepcional contradita às suspeitas que cercaram sua posse em janeiro de 2003.

Crescer economicamente, administrando a inflação com racionalidade, promovendo a criação de empregos e a valorização real da renda dos trabalhadores não é equação a ser resolvida em demonstrações doutorandas, mas pelo compromisso axiomático do governo com a justiça social e com o progresso material e soberano do País.

Para ser desigual alguém precisa existir. Parece óbvio, mas, em 2006, de acordo com projeções do IBGE, 12,6% da população não existia oficialmente. Em 2002, teriam sido 20,9%. Em Rondônia, o número de nascidos e não registrados no primeiro ano de vida alcança 40%, recorde nacional, e, no Amapá, 33% (Secretaria de Comunicação Social, Caderno Destaques, nov/dez 2009). No total, são pessoas que não dispõem ou dispunham de documento comprobatório de existência, nascimento, nome ou residência. Consequentemente, desassistidas de qualquer tipo de política pública ou direito civil. Para a maioria da população, o acesso a registros tais como certidão de nascimento, carteira de identidade, CPF e carteira de trabalho aparece como fatos tão naturais quanto o nascer, crescer e trabalhar. Não obstante, foi necessário um governo popular se interessar por essa multidão oficialmente invisível e passar a despender recursos para trazê-la à luz do dia. Mutirões foram realizados e outros 1.225 previstos para 2010, particularmente na Amazônia Legal e no Nordeste, para execução do Programa de Ampliação do Acesso à Documentação Civil Básica. O alvo é o contingente de brasileiros construído de povos indígenas, quilombolas, ciganos, ribeirinhos, trabalhadores rurais, moradores de rua, catadores de recicláveis, crianças e idosos em abrigos, distribuídos em municípios de elevados índices de sub-registro.

É duvidoso que um item dessa natureza seja facilmente encontrável na decomposição de qualquer indicador agregado dos governos anteriores, próximos ou remotos. Mas eles fazem parte do povo de Lula, tanto quanto a vanguarda operária dos centros industriais das grandes cidades e a classe média recém-engordada por passageiros vindos das classes D e E.

Na vasta maioria dos casos, o acesso à documentação representa o ingresso em alguma ou várias formas reconhecidas de desigualdade. Nada mais fácil para um brasileiro do que se incorporar a um desequilíbrio social, de um lado ou de outro: gênero, cor, instrução, renda, idade, geografia de nascimento e até estética são portais escancarados à estratificação e discriminação. Entre outros, e crucial, é o portal da Justiça.

A Justiça é dispendiosa para todas as pessoas e para os pobres em particular, além de cara, amedronta mais do que apazigua. Ainda agora o IBGE publicou preciosa pesquisa sobre Características da Vitimização e do Acesso à Justiça no Brasil (IBGE, 2009), com números sobre violência contra pessoas e contra a propriedade, repetindo em certa medida investigação semelhante que realizara em 1988, há 22 anos, portanto. Entre as infaustas novidades encontram-se as que dizem respeito às vítimas preferenciais da violência por classe de renda e idade, por exemplo, e seus algozes. Com base em amostra nacional de 399.387 pessoas e 153.837 unidades domiciliares distribuídas por todas as unidades da Federação, os resultados revelam um quadro comparativo ainda desalentador. Mesmo em casa, não mais do que 78,6% das pessoas se sentem seguras, porcentagem que cai para alarmantes 52,8% da população quando estão na cidade, longe de casa e do bairro.

Há substancial variação regional nesses números, aparecendo a Região Norte como aquela em que a população se sente menos segura, seja em casa (71,6%), no bairro (59,8%) ou na cidade (48,2%). Segundo a pesquisa, os homens sentem-se mais seguros que as mulheres, sem diferença marcante entre brancos e pardos, nesse item sobre subjetividade, em qualquer dos locais investigados. Cerca de 8,7 milhões de pessoas, 5,4% da população residente de 10 anos de idade ou mais, foram vítimas de roubo e/ou furto no período de 27 de setembro de 2008 e 26 de setembro de 2009, com a maior incidência ocorrendo com pessoas de 16 a 34 anos de idade. A violência física caminha na direção inversa à da renda, com a maioria agredida situando-se na faixa de um quarto do salário mínimo. Os autores da violência física foram desconhecidos, em 39% dos casos, pessoas conhecidas em 36,2%, cônjuge ou ex-cônjuge, 12,2%, parentes em 8,1% das agressões e 4,1% de autoria de policiais ou seguranças privadas. Entre as mulheres, 25,9% delas foram agredidas por cônjuge ou ex-cônjuge. Sujeitas a várias discriminações, as mulheres e a população não branca atestam vários dos desequilíbrios sociais praticados pela sociedade, não obstante a legislação penal existente.

Entre 1988 e 2009, a violência contra a população branca foi reduzida de 64,6% para 52%, enquanto a população preta ou parda, vitimada, aumentou de 34,9% para 47,1%. O mesmo fenômeno se deu na comparação por gênero: a porcentagem de homens roubados ou furtados decresceu de 58,3% para 53,1%, enquanto a das mulheres aumentou de 41,7% para 46,9%. As porcentagens relativas à violência física seguem o mesmo padrão: enquanto a população branca, em particular a masculina, obteve acréscimos de segurança, nos últimos 20 anos, a probabilidade de sofrer agressões corporais aumentou para a população feminina, preta e parda.

Embutido nesses números está o testemunho da extensão em que níveis de pobreza, por certo, mas igualmente da aspereza da cultura cívica somam-se para fabricar uma sociedade ainda predatória e discriminatória. Sua superação exige largo intervalo de tempo.

Do outro lado da ponta da prevenção, que claudica, encontra-se a oferta de proteção jurídica. A nova Lei Orgânica da Defensoria Pública, de outubro de 2009, ampliou e tornou efetiva a possibilidade de que cidadãos sem capacidade financeira para a contratação de advogados obtenham condições de trazer pleitos junto aos tribunais. Entre 2003 e 2008, o número de defensores públicos passou de 3.250 para 4.525, e o número de atendimentos jurídicos de 4,5 milhões para 9,6 milhões, um acréscimo de 113% (Fonte: Ministério da Justiça).

O Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, criado em 2003, embora não implantado ainda em todos os Estados, já atendeu 1.375 crianças e adolescentes e 2.255 familiares. Diante da incessante fábrica de desigualdades, discriminações e violência que é a sociedade brasileira, programas como o (PPCAAM), entre outros, e inovações institucionais como as Secretarias Especiais da Mulher e da Promoção da Igualdade Racial, que atuam, sobretudo na reparação de transgressões, não deixarão de apresentar resultados mais substantivos no longo prazo.

Se a violência estrutural é difusa e resistente, a redução das carências iminentes da população pobre – atendimento à saúde e educação – depende fortemente da disposição e ação governamentais. O número de Farmácias Populares ara atendimento ao povo de Lula cresceu 1.826%, entre 2004 e 2008, vendendo mensalmente medicamentos a preço de custo a 1 milhão de pessoas. Outro milhão de pessoas adquire medicamentos, por mês, com descontos de até 90%. O Programa Saúde da Família é conhecido, mas nem tanto o programa Brasil Sorridente, para o povo malcuidado, tópico embaraçoso para governos de elite. Em 2004, foram instalados 100 Centros de Especialidades Odontológicas, aumentados para 771, em 2009. Com 18.650 equipes, atenderam 87 milhões de brasileiros em 2009 (Ministério da Saúde, Boletim, novembro de 2009).

Programas para portadores de deficiência física, que alcançam 14% da população do País, incluíram a adequação de 10.489 escolas, entre 2007 e 2009, para atendimento especializado (Seesp/MEC). O ProUni, educacional, o Programa de Agricultura Familiar, produção de alimentos, e o Minha Casa, Minha Vida, habitacional, somam-se aos referidos para orquestrar o que constitui o compasso essencial do balanço de Lula. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem papel destacado na composição do PIB dos últimos anos, com certeza, assim como as iniciativas nas áreas da grande agricultura e da exportação. A visibilidade do programa Bolsa Família e suas dezenas de milhões de famílias recuperadas à miséria a instala por gravidade no centro da atenção midiática.

Mas o pernóstico debate sobre atribuído assistencialismo do programa ofusca o princípio ordenador das prioridades do governo e o sentido histórico dos dois mandatos do presidente Lula da Silva. Crescimento econômico, inflação sobre controle, expansão do emprego e redução das desigualdades sociais são metas compatíveis, sim, entre si e com a democracia, desde que o governante adote políticas em harmonia com a agenda preferencial do povo – isto é, do povo de Lula.

A Inglaterra inaugurou a modernidade liderando a primeira Revolução Industrial entre 1780 e 1820. Quarenta anos. Mas o pioneiro ciclo de modernização só se encerrou no início do século XX, com o amadurecimento de um sistema público de seguridade social e a universalização do direito de voto masculino e feminino em 1924. Nessa cronologia, o Brasil ainda teria um crédito de 20 ou 30 anos à disposição.

Os primeiros países modernos contaram com duas vantagens históricas. A primeira, conferida pela originalidade, foi a de estabelecer velocidade e conteúdo da própria “modernidade” sem competidor à frente. Qualquer avanço material, tecnológico, cultural, era, por definição, “progresso”. Aos emergentes, contudo, foi imposta a necessidade de descontar o atraso, além de crescer, visto que a tese da convergência civilizatória mundial se revelou ideológica. Em acréscimo, esta a segunda vantagem, os países modernos da primeira onda foram dispensados de sobrepujar a oposição interna de grupos que preferiam a estagnação ou a subordinação a estratégias de outras nações.

No Brasil, ademais dos percalços de governos conservadores, o caminho da modernização enfrentou interesses que, congregados, levaram um presidente legitimamente eleito ao suicídio, em 1954, tentaram impedir a posse de outro, em 1955, e interromperam, pela força das armas, o mandato de um terceiro em 1964.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi o primeiro efetivamente popular na história da República a terminar pacificamente não um, mas dois mandatos, eleger uma sucessora e transmitir o cargo. Retrospectivamente, registre-se que os dois principais momentos de avanço dos direitos da população pobre do País ocorreram sob regimes autoritários: a Consolidação das Leis do Trabalho, sob o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), e a criação do Fundo de Amparo ao Trabalhador Rural, durante a ditadura militar do general Emílio Garrastazu Médici (1970-1974).

O governo Lula avançou na reformulação da estrutura econômica do País, na indústria, na agricultura e nos serviços, revelou inédita independência na administração dos constrangimentos de crises externas (2008-2009) e alterou a agenda de prioridades nacionais. O resgate de mais de 20 milhões de pobres e o anúncio do programa para a erradicação da miséria extrema, com o governo de Dilma Rousseff, além da desejável e indispensável capacidade de produção autônoma de conhecimento e tecnologia, indicam o término do ciclo de ajustamento do País à modernidade.

É bem possível que a travessia iniciada por um estancieiro gaúcho, que pouco se ausentava do palácio de governo instalado em uma cidade marítima do Sudeste, esteja sendo encerrada por um ex-metalúrgico paulista, migrante nordestino, associado a uma mulher, ex-presa política de origem mineira. Tão Brasil.

 
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