08 abril 2011

Para Refletir


....O rapaz que entrou na escola atirando não se encaixa em nenhum perfil que permita esbravejar. Até onde se sabe, não era traficante, ladrão, fugitivo. Não era militante de nenhum partido, não lutava jiu-jítsu, não era um skinhead, não pertencia a nenhuma torcida organizada. Até onde se sabe, não usava drogas, não bebia, não era pedófilo, não era evangélico, não era muçulmano, não era judeu, não era cristão, não era xiita, não era sunita, não tirava racha na rua, não tinha suásticas tatuadas na pele, não pertencia a nenhuma seita, não era gótico, não era punk, não ouvia Bossa Nova, não usava piercing, não era rico, não era pobre, não era gordo, não era magro, não estava em liberdade condicional, não tinha passagem pela polícia, não vivia no Complexo do Alemão, não era do Jardim Ângela, não morava numa cobertura da Vieira Souto, não era nada. Segundo sua irmã, ele era estranho.

Estranho.

Seu nome era Wellington de Oliveira, um nome bem brasileiro, há milhares de Wellingtons, Washingtons, Andersons. O Brasil tem um estranho fascínio por W e por nomes que terminam em "on". Wanderson, Jackson, Jobson, Richarlyson. Ele era um Wellington de Oliveira.

Quando não se pode culpar traficantes, fugitivos, ladrões, militantes, lutadores, skinheads, nazistas, torcedores organizados, drogados, cristãos, bêbados, pedófilos, muçulmanos, góticos, magros, evangélicos, rachadores, punks, gordos, xiitas, ricos, pobres, nem o prefeito, nem o governador, nem a presidenta, nem o ministro, nem o secretário, nem a polícia, nem o senador, nem o deputado, nem a diretora da escola, nem o médico, nem o professor, culpamos quem?

Culpamos quem?

Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos. Uma espécie fracassada, violenta, agressiva, condenada à extinção. Uma espécie habituada à barbárie, e que não se imagine que "nos transformamos em". Sempre fomos assim, indecentes, obscenos, há séculos nos matando em guerras, inquisições, pogroms, chacinas, massacres, genocídios, atropelamentos, assassinatos, latrocínios, torturas, execuções. E pragas, pestes, terremotos, incêndios, tsunamis, deslizamentos, enchentes. Um moto-contínuo de mortes, mortes, mortes, e vinganças, vinganças, vinganças, ódio.

A criança é o pai do homem. Guardo um pequeno cartão com essa frase no meu carro, há anos está lá, era o convite da formatura do meu mais velho no pré-primário. Não o guardo como mantra ou guia espiritual. Está lá porque está lá, porque o carro que nos levou à formatura do pré ainda está comigo, e lá ficaram o cartão e a frase. De vez em quando uso o cartão, de papel de alta gramatura, cartolina, talvez, porque quando o vidro sobe levanta uma rebarba da forração da porta, e o cartão serve para colocar a forração no lugar. É um uso banal, irrelevante, coloco o cartão entre o vidro e a forração da porta, e tudo fica no lugar, tudo volta ao seu lugar. Um uso banal e irrelevante, mas que me faz ler essa frase todos os dias, ou, pelo menos, quando preciso colocar a forração da porta no lugar.

A criança é o pai do homem.

Wellington ajudou a nos matar mais um pouco hoje. É um erro, Wellington, matar-nos aos poucos. Da próxima vez, Wellington, mate-nos a nós, direto, sem intermediários.

Mate o homem, Wellington, não seus pais.
 
por Flávio Gomes

8 doladodecá:

Mana Coelho disse...

Puxa, que porrada!

Tem coisa boa na humanidade também. Calma!

M. Turchetti disse...

Seu texto é fantástico, Marco. Há tempos que digo que o ser humano é o animal mais podre que habita a face e as entranhas da Terra. Seu texto a este rapaz só confirmam isso. Sem mais.

Stelio disse...

A vida é precária mas, talvez, possamos contar uns com os outros, quando assumirmos isso e desistirmos de buscar sentido para tudo. Desistirmos de buscar culpados e causas para tudo. Desistirmos do controle total das causas e dos efeitos. Da cultura do medo. Da previdência absoluta. O texto parece que chega bem perto de concluir isso, antes de assumir o tom radicalmente pessimista do final. A vida dói, muitas vezes. Calma ...

Anônimo disse...

show de bole...

bento.

Anônimo disse...

O problema é que se buscam culpados e se esquecem de criar soluções.
Titina

Anônimo disse...

"Quando não podemos culpar ninguém, chegou a hora de assumir o que somos."
Ah, mas nós nunca assumimos o que somos, sempre diremos: "monstro" pra jogar o culpado numa espécie diferente, não-humana. E sempre inventaremos um bode expiatório. Quase sempre é culpa do video-game.

rogerio machado disse...

Até o momento a melhor análise de toda esta tragédia. Não existe uma explicação, uma causa ou outros culpados. Existe um vilão ,com uma provável doença psiquiátrica grave não perceptível por aqueles que estavam ao seu redor, e consequentemente não tratado,agravada ou desencadeada por contextos familiares e sociais complexos, demonstrando toda fragilidade e vulnerabilidade da natureza humana. Não precisamos ir longe para percebemos os principais erros e defeitos do ser humano,basta cada um olhar para dentro de si com visão crítica e verá : raiva, inveja,medo,arrogância,soberba,ganancia,maldade, e toda uma série de adjetivos que criticamos muito outros e erradamente achamos que não existem em nós.
O seu texto foi brilhante,uma pena que nos humanos temos como o maior defeito achar que não erramos,e assim, passam se os anos, continuamos a apontar o dedo, e as tragédias se sucedendo.

Anônimo disse...

Calma,gente...A espécie humana é a menos culpada.O conhecimento criado,reproduzido,formulado e reformulado,deveria servir à ascenção humana,como tal,como estabelecido pelo próprio homem e suas ideias.Mas o sistema oprime,escraviza,submete,mata,degrada.A humanidade tem opções da não-exploração,da não-subjugação,do não-fratricídio.Mas a ganância,o ódio,o sentimento de competição irracional,ilustrativo das savanas,ornamento das selvas,impera e pune o indivíduo ao massacre,à barbárie.

carlos Rico

 
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