Dia desses conversava com um colega de trabalho sobre as repórteres da TV. De uma tacada só listamos dez ótimas profissionais que, sem razão aparente, decidiram abandonar a carreira nos últimos dez anos. Na média, é uma por ano! Ao investigar melhor as causas descobrimos um padrão de comportamento que, fossemos um país sério, já teria sido objeto de estudo não só do sindicato da categoria, mas da justiça do trabalho, de universidades e, principalmente, da própria empresa. A primeira que desistiu foi uma brilhante repórter de esportes. Bom texto, boa presença e enorme facilidade de falar ao vivo, na rua e em estúdio. A segunda que recordamos tinha vindo de Belo Horizonte e virou a titular absoluta do jornal da hora do almoço. De repente, sumiu. Foi reaparecer anos depois, na sucursal mineira. Depois de faltar num plantão, o chefe informou que ela já não servia mais para a firma e foi demitida. Outra que brilhou em São Paulo nos principais telejornais da emissora saiu de Niterói, mas terminou os estudos em Brasília. Num dia de fúria, presa num congestionamento, saiu do carro e decidiu terminar o trajeto a pé. Não foi a única que não aguentou a cidade. Outra colega tinha vindo de Londres, direto para São Paulo. Parecia modelo, linda, magra, alta, cabelos curtos e olhos claros. Ao voltar de uma reportagem policial confidenciou à equipe: - Isso aqui não é vida para mim. Encontrei-a rapidamente alguns anos depois em Brasília, durante a tentativa de golpe, apelidado de Crise do Mensalão. Teve outra ex-repórter que, ao lado do marido, montou uma produtora de vídeo e, hoje, não tem do que se queixar. Duas outras excelentes repórteres (uma ex-garota do tempo e outra especializada em economia) jogaram tudo para o alto, assim que ganharam seus bebês. Tem mais uma que preferiu não renovar contrato, quando estava a caminho da terceira gravidez. Há também uma veterana das telas, que teve sérios problemas, depois que as gêmeas vieram. E há ainda uma colega, que já não está mais na empresa, capaz de fazer bem qualquer tipo de reportagem, mas não segurou a barra. Elas têm em comum o diagnóstico de depressão. Jamais vão admitir publicamente, porque temem ser estigmatizadas. São vítimas de uma corporação doente que maltrata seus profissionais.
Há 2 horas


6 doladodecá:
Caro Marco,
Com as devidas proporções, a situação se assemelha à enfrentada por outra categoria profissional: o professor. Sem o devido reconhecimento e sob stress crônico, constata-se a evasão na Educação dos melhores quadros. Vc já ouviu falar da 'Síndrome de Burnout'?
Isso se chama assédio moral. Aliás, existem vários ante-projetos de lei parados no legislativo federal desde 1992 que tratam de criminalizar e tipificar o assédio moral, mas o lobby contra a criminalização deve ser tão forte que até hoje nenhum desses ante-projetos foi votado e virou lei. Um dos setores que mais vitima o trabalhador por assédio moral é o dos bancários.
Caríssimo,
Esta situação teve início nos anos 90 do séc XX, com a implantação generalizada, nas empresas privadas e estatais e no serviço público (sob a inspiração do governo norte-americano de Bill Clinton), da chamada "reestruturação" - ou seja, a dispensa de 2/3 da força de trabalho. No Brasil, isso acompanhou a privatização generalizada, a terceirização no serviço público e o "enxugamento" da mão-de-obra nas empresas privadas.
Quem ficava, portanto, fazia o trabalho de três - os dois outros ficaram desempregados, mudaram de profissão ou desapareceram...
Mas continua, hoje, o absurdo da exploração generalizada - o caso do professor é um dos que se destacam, com as exigências impositivas das avaliações....mas é bom lembrar também que as empresas (privadas ou públicas) exploram indevidamente o trabalhador, com trabalhos excessivos e horários em excesso! E, até agora, não vi ninguém se importando, publicamente, com este horror - à excessão de quem luta pela semana de trabalho de 30 horas!...
Parabéns a você, quando observa o que acontece com olhar - digamos - "científico" !
Grande abraço,
Eliane
imagino que a panela de pressão dentro das redações seja muito difícil para um ser humano dotado de sensibilidade aguentar. Tem que ter nervos de aço.
Marco, a síndrome referida por Ricardo constitui:
"(...) um tipo de estresse ocupacional que acomete profissionais envolvidos com qualquer tipo de cuidado em uma relação de atenção direta, contínua e altamente emocional (...)As profissões mais vulneráveis são geralmente as que envolvem serviços, tratamento ou educação (...).
Atualmente, a definição mais aceita do burnout é a fundamentada na perspectiva social-psicológica de Maslach e colaboradores, sendo esta constituída de três dimensões: exaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal no trabalho.
Maslach, Schaufeli e Leiter (2001) assim definem as três dimensões da síndrome: Exaustão emocional, caracterizada por uma falta ou carência de energia, entusiasmo e um sentimento de esgotamento de recursos; despersonalização, que se caracteriza por tratar os clientes, colegas e a organização como objetos; e diminuição da realização pessoal no trabalho, tendência do trabalhador a se auto-avaliar de forma negativa. As pessoas sentem-se infelizes consigo próprias e insatisfeitas com seu desenvolvimento profissional.
O processo do burnout é individual (Rudow, 1999). Sua evolução pode levar anos e até mesmo décadas (Rudow, 1999). Seu surgimento é paulatino, cumulativo, com incremento progressivo em severidade (França, 1987), não sendo percebido pelo indivíduo, que geralmente se recusa a acreditar estar acontecendo algo de errado com ele (...).
Maslach, Schaufeli e Leiter (2001) pontuam que, nas várias definições do burnout, embora com algumas questões divergentes, todas encontram no mínimo cinco elementos comuns:
1) existe a predominância de sintomas relacionados a exaustão mental e emocional, fadiga e depressão;
2) a ênfase nos sintomas comportamentais e mentais e não nos sintomas físicos;
3) os sintomas do burnout são relacionados ao trabalho;
4) os sintomas manifestam-se em pessoas normais que não sofriam de distúrbios pMary Sandra Carlottosicopatológicos antes do surgimento da síndrome;
5) a diminuição da efetividade e desempenho no trabalho ocorre por causa de atitudes e comportamentos negativos." (
Esta síndrome vem sendo observada em diferentes meios profissionais, porém, ainda não é muito conhecida no Brasil.
Marco Aurélio,
Esta situação não está acontecendo só na categoria de vocês. Há muito tempo a situação dos trabalhadores brasileiros está ficando cada vez mais caótica, e uma das categorias que mais sofre é a dos bancários. É tanta pressão para atingimento de metas e faturamento, que o adoecimento ocupacional entre os bancários lidera o ranking no INSS. A maioria sofre assédio moral, constrangimentos, humilhações e por ai vai. No Brasil a primeira pessoa a abordar este tema foi a médica Margarida Barreto que tem feito um trabalho belíssimo divulgando e trabalhando junto aos sindicatos para que haja mudança na legislação, a fim de que haja proteção, amparo para os trabalhadores afastados por doenças ocupacionais, principalmente as doenças psiquiátricas.
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