25 dezembro 2010

O Encontro de Natal

- Vai graxa aí patrão?
Ele olhou para os sapatos empoeirados e respondeu: - Vai sim. Em seguida, pensou na dureza da vida de engraxate, agora que todo mundo só calça tênis. O menino, franzino, não tinha mais do que oito anos e, em vez de boné, usava um gorro de papai Noel. Foi quando o "patrão" perguntou:
- Onde você mora?
- Na rua.
- Você não tem casa?
- Tinha, mas minha vó mandou a gente embora.
- Por quê?
- Porque minha mãe falou que o vô era meu pai. Aí a vó disse que ela tava louca e pôs a gente para fora de casa... Minha mãe é aquela ali, ó. (Aponta para uma mulher maltrapilha sentada na calçada, do outro lado da rua).
- Qual é o nome dela?
- Nazaré.
- E você tem ou não tem pai?
- Tenho. Tô aqui esperando ele chegar.
- Onde ele mora?
- Em Mirassol. Esse ano ganhou indulto de Natal. Ele disse que vai trazer uma bola de presente para mim, para a gente jogar futebol.
(o Terminal Barra Funda, em São Paulo, é onde param os ônibus que vem dos presídios do interior do estado)
- Poxa, que legal! É a primeira vez que ele sai de lá?
- É.
- Há quanto tempo ele está preso?
- Desde que eu nasci.
- E o que foi que ele fez?
- Ele matou meu vô.
- Por quê?
- Porque ele disse que o vô "estrupô" minha mãe.
- Ah... E você sabe o que é isso?
- Não. Mas meu pai me disse que minha mãe não é louca e que ficou daquele jeito por causa dos remédios que deram para ela no posto. É que tentaram envenenar ela...
- É mesmo?
- É, minha tia me falou. Quando ela saiu do hospital tava assim. Ela quase não fala mais, quando fala diz que eu tenho dois pais: o papai do céu e o papai do chão. Aí ela ri, depois ela chora, aí começa a bater nela... A gente tem que segurar, para ela não se machucar.
- Quanto custou o sapato?
- Nada.
- Como assim?
- Você não viu que hoje eu sou o papai Noel?
- Ah, entendi, o gorro...
- Sabia que hoje é dia mais feliz da minha vida?
- Não, por quê?
- Porque é meu aniversário e vou encontrar meu pai.
- E como chama seu pai?
- José.
O "patrão" se despediu e, enquanto caminhava apressado, sem olhar para trás, chorou. Um choro que não era dele, mas da dor representada pela doce e alegre figura do pequeno filho de Nazaré.

Natal na TV

Contagem regressiva para o fim do plantão de Natal.

Legenda (da esquerda para a direita): Ademir Belissaro, Cris Amaral, Adriana Freitas, Patrícia Rodrigues,  Alessandra Porro, Karla Sanches, Cybele Kogan, Janine Borba, Telé Cardin, Marcos Hummel, Monica Balvé D'Omay, Guta Nascimento, Marco Aurélio, Hélio Matosinho, Ladislau Cardoso, Jésus Mosquéra, Rosana Teixeira, Maria Paula Bexiga, Cauê Teixeira e Eduardo Petrere)

23 dezembro 2010

Até 2011 chegar...

E quando
a "nova verdade"
 serve para atender
a interesses vis e ainda mais mesquinhos
 do que os que se serviam da "verdade anterior", que acaba de cair por terra?
Neste caso, a "nova verdade" pode ser uma arma tão letal quanto a "verdade anterior".
E pior até do que uma mentira, ainda que nas mãos de pessoas ingênuas e bem intencionadas.
É quando anjos e demônios parecem dançar um balé de opostos complementares.
Esta é a reflexão que proponho a todos,
nos últimos dias do fim da primeira década do terceiro milênio.
Lamentavelmente, ainda vamos precisar de muita hipocrisia
 para sustentar nossas frágeis relações humanas.
É a tal da "mentira social" consagrada pela política e,
 como nunca, tão explicitamente pela diplomacia.
É por tudo isso que, ano a ano,
me convenço de que a busca pela "verdade autêntica" 
começa dentro de cada um de nós.
Obrigado a todos por me tolerarem por mais um ano.
Até 2011!

22 dezembro 2010

A Dama de Honra 10

Ela estava 30 anos mais velha, depois que Su fez a maquiagem de efeito especial e colocou a peruca grisalha. Também ganhou um nariz pontudo e um óculos cênico, o que alterou completamente sua fisionomia. Ficou irreconhecível.
- A vantagem dessa maquiagem, disse Su, é que depois que seca vira uma máscara de silicone. Se tiver cuidado na hora de retirar, pode usá-la de novo no dia seguinte.
- Isso é genial, Su!
- Teconologia de Hollywood, lindinha.
- Sen-sa-ci-o-nal!
O plano era encontrá-lo vestida de freira. Ela pegaria um helicóptero na Lagoa e trocaria de aeronave em Angra. Tudo para não deixar rastros.
O destino: uma ilha deserta no Oceano Atlântico. Assim que chegasse, uma lancha deixaria o pier levando todos os funcionários, inclusive garçons e seguranças. Os dois ficariam reclusos até que o helicóptero voltasse quatro horas depois. Tudo muito diferente e excitante, pensou. Assim que desembarcou na pequena ilha, o helicóptero partiu, como previsto. O coração acelerou. Medo e desejo, um ao lado do outro. Na praia havia uma tenda e para lá ela se dirigiu. Flores, um cartão e um robe branco. Fique à vontade, dizia o manuscrito. Chego em meia hora. Ela tirou cuidadosamente a máscara e a roupa. Numa pequena mesa um balde, duas flutes de cristal e seu champagne preferido.
Bebeu com gosto quase meia garrafa, enquanto esperava. Achou tudo muito elegante e sedutor. Inebriada sentiu vontade de dar um mergulho. Nua, caminhou em direção ao mar. A água estava gelada, o que aguçou ainda mais seu prazer. conforme caminhava suas pegadas iam ficando para trás, até que uma onda delicada vinha lambia e saboreava a areia. Viu que aos poucos foi se distanciando da tenda e começou a fazer o caminho de volta.

 Ao se aproximar viu que alguém estava na tenda. Ficou encabulada por estar nua. Viu o robe caído bem na entrada e tentou se aproximar o mais silenciosamente possível. A idéia era vestir-se primeiro, antes de entrar. Quando se abaixou na areia viu que alguém se aproximou. Olhou para cima e disse: - O quê? Você aqui?
(não continua)

21 dezembro 2010

A Dama de Honra 9


- Su, como posso te agradecer?
- Oras, eu não fiz nada.
- Como não, você fez muito. Uma mulher em crise, se achando velha e feia, trocada por uma menina...
- Ora, ora, deixe de bobagem. Você é linda, maravilhosa, faz sucesso, tem filhos perfeitos, tem um marido que pode ter dado uma escorregada, mas gosta muito de você...
- Não sei como vamos superar isso, Su. Nosso relacionamento anda difícil. Essa viagem que ele fez, por exemplo, me falou que precisava dar um tempo. Acho que as crianças já perceberam tudo. Não sei não se logo logo uma dessas revistas de fofocas não vai fazer alarde. Quer saber, acho que ele se apaixonou por ela.
- Duvido. Ele não é do tipo que se apaixonaria. E, se me permite, o maior amor da vida dele é você, depois dele, é claro! E o surfista?
- Ah, Su, ele é um meninão. Uma graça, meigo, carinhoso, bonito, mas foi só uma fantasia, uma coisa fugaz e passageira. Ando achando que tenho que arejar a cabeça, sabe... Mas é difícil. Ser celebridade nessas horas atrapalha muito. Queria, sei lá, conhecer pessoas fora desse circuito, nem que fosse apenas para conversar, entende?
- Sei bem o que você está dizendo. Abra este envelope e veja esta foto?
- Hummm, quem é?
- Não conheço direito. Ele me pediu para, caso tivesse uma oportunidade, entregar a você. Disse que a conhece.
- De fato, sua aparência não me é estranha. Seu olhar... Sei lá, ele tem alguma coisa familiar...
- Vou te contar como tudo aconteceu, então. Ele me procurou, disse que você era uma jovem repórter quando se conheceram. E que, desde então, tem uma idéia fixa em relação a você.
- Ele não te pareceu maluco?
- No começo sim, hehehe... Mas depois fomos conversando e vi que ele é um cara normal.
- É rico?
- Rico? É podre de rico. Pesquisei na internet. Tem helicóptero e tudo.
- É mesmo?
- É mesmo. E sabe o que ele me disse?
- Não, diga.
- Me disse que se eu conseguisse um encontro com você ele me dava de presente aquele apartamento que te falei que vi em Copacabana.
- Você está brincando?
- Não, é sério.
- Será que não é um psicopata?
- Aos 60 anos, depois de construir tudo o que construiu na vida? Acho difícil
- Agora você me deixou curiosa para encontrar esse cara.
- Posso fazer um contato com ele, caso queira...
- Então, amiga anota aí: você acaba de ganhar um apartamento em Copa.
- Jura!
- Juro.
- Mas diga a ele que só vou a esse encontro depois que a escritura estiver na sua mão.
- Deixa comigo ;)
(continua)

20 dezembro 2010

A Dama de Honra 8

Ela seguiu de taxi para o aeroporto Santos Dumond e foi direto ao balcão de uma locadora de veículos.
- Oi, quero alugar uma minivan com vidros escurecidos. Sabe como é, as pessoas...
- Claro, temos esses dois modelos que são os mais usados pelas celebridades. Posso te indicar motorista, segurança...
- Não preciso. Quero eu mesma dirigir. Prefiro esta. É motor um ponto oito?
- Não, dois ponto zero. Automática, com ar condicionado eletrônico.
- Ótimo!
- Posso devolver na loja de Copacabana?
- Pode, mas cobramos uma taxa extra de devolução, neste caso.
- Não tem problema.
- Conheço um pessoal que faz escolta...
- Não, nada disso. Quanto menos chamar a atenção melhor. Vou te explicar. Vou participar de um evento filantrópico aqui no Aterro e quero chegar com bastante discrição, entende?
- Sim, claro. É só me dar sua habilitação e assinar aqui. É no cartão?
- Não, em dinheiro.
- Uma diária apenas?
- Isso! Está certo?
- Certinho.
- A senhora pega o carro na área vip do estacionamento, ok?
- Ok, obrigada.
Caminhou apressada. Certificou-se de que a garrafa seguia segura na mochila. Estava bem casual. Usava cabelos presos, um vestido simples e um enorme par de óculos escuros. O surfista a esperava na lagoa, conforme combinado. Com o controle remoto entraram direto no prédio, sem ter que passar pelo porteiro. Estacionaram no subsolo e subiram sem ser vistos. Fumaram, beberam muito e...
(continua)

19 dezembro 2010

A Dama de Honra 7

- Alô.
- Filha?
- Sim papai, pode falar.
- Lembra daquele apartamento no Rio que tinha te falado?
- Lembro.
- Liga para a imobiliária, peça o contrato e prepare tudo. Vou comprar.
- E o que o senhor vai fazer com ele?
- Por enquanto nada. Mas tenho planos de usá-lo mais para frente.
- Ok. E quanto a casa do Guarujá?
- Gostei da praia privê, do condomínio, da marina, mas o imóvel tá um horror. Precisa arrumar alguém para pintar e dar uma boa decorada nele.
- Pode deixar que providencio tudo, pai. E o senhor tá pensando em usar a casa lá para as suas festinhas?
- Sim meu bem. Sempre. Já trabalhei muito nessa vida. Agora eu quero é festar! Te vejo no fim de semana. Um beijo.
- Outro.
- Assim que ela desligou, pensou: Por que é que eu faço isso para ele? A jovem tinha uma enorme admiração pelo pai. Um homem simples, que venceu na vida depois de dar duro. Para ela ele era um gênio! De motorista de caminhão a cerealista, fazendeiro e empresário. Ganhou dinheiro como poucos e soube investir como ninguém. Na fusão das bolsa de valores e de futuros, comprou toda a fortuna em ações e arrebentou de ganhar dinheiro. Quando, aos 60 anos, descobriu que sua disfunção erétil tinha cura, não parou mais. Primeiro arrumou uma amante. Depois duas, três. Até que num domingo de Páscoa ligou para casa e avisou a mulher que não iria para o almoço. E nunca mais apareceu. Quem foi buscar seus pertences foi a filha com o caminhão de mudanças. Porém, administrar a vida do pai tinha um efeito prático. Ela sabia onde estava cada centavo da fortuna. Controlava tudo e vislumbrava a promessa de ter todo o dinheiro escondido num paraíso fiscal do Caribe, quando o pai morresse. Era ela também quem garantia que nada faltasse à sua mãe, agora louca, e aos cachorros da velha: vinte e dois vira-latas! Mas tinha que pagar um preço, a indiscrição do pai e a horda de cortesãs que não deixavam de assediá-lo. Reclamava, mas no fundo, no fundo, gostava da vida que tinha. E por mais irônico que parece, tinha prazer de ter um pai assim.
(continua)

18 dezembro 2010

A Dama de Honra 6

- Oi.
- Você por aqui? Sozinha e sem segurança, que milagre é esse?
- É, resolvi dar uma volta...
- Daqui a pouco aparece um desses fotógrafos chatos para te incomodar, quer apostar?
- Por isso vou ser breve. Você já tomou absinto?
- Não, nunca.
- Tem vontade de tomar?
- Só se for com você.
- Pois então eu estou te convidando.
- Eu não estou acreditando... Me belisca!
- Deixa de ser bobo, cara!
- Quando?
- Eu te aviso. Você fuma?
- Cigarro?
- Não, maconha.
- Não com frequência, mas posso arranjar, se você quiser.
- Então consiga.
- Posso levar câmera fotográfica?
- Como assim?
- É para mostrar para minha mãe depois. Ela é sua fã e não vai acreditar.
- Ora, deixe de bobagens...
- Brincadeirinha. Cadê o seu senso de humor, heim?
- Acho que é isso o que estou procurando.
- Pois acabou de encontrar.
- Te aviso.
- Ok.
- Tchau.
- Até.
(...)
- Cara, não estou acreditando nisso! Dizia para si mesmo, enquanto caminhava na areia. A apresentadora quer sair comigo? Não é verdade. Não é possível... Alguém deve estar brincando. Deve ser pegadinha dessas de TV (olha em volta e procura pela câmera). Na hora agá vai aparecer o maridão e vai tirar a maior onda da minha cara. Bom, mas e se o cara não tá mais dando conta do recado? Também, ele é tão famoso quanto ela, e pode pegar quem ele quiser... Vai ver já está pegando... várias. Será que o casal está em crise? E se eu falhar? Ela é um mulherão, apesar de já ser meio tiazinha... E se esse tal de absinto me apagar? Será que eu tenho roupa para ir? Ela é super chic. Será que ela vai me levar para a casa dela? Lá eu não vou de jeito nenhum, estou fora! Se ela vier com essa pra cima de mim, pulo fora... Agora eu pergunto, por que eu? Tanto homem bonito, rico e interessante nessa cidade (ele gira na areia, olhando ao redor)... Vai ver é porque sou desconhecido... Depois tem outra, com aquele gorila para cima e para baixo no pé dela, duvido que as pessoas se aproximem como eu fiz. Bom, o negócio é deixar rolar. Mas se eu contar, ninguém vai acreditar. Eu vou, eu vou, pra casa agora eu vou. Iu-huuuuuuuu!
(continua)

17 dezembro 2010

A Dama de Honra 5

- Oi, você é o Antônio?
- Isso! E você é a Su, certo?
- Certo.
- Queira se sentar. Afinal, é se sentar ou sentar-se?
- Sei lá, tanto faz, oras.
- Bom Su, o que me traz aqui...
- Pois não, posso serví-los, interrompe o garçon.
- Um chopp. E você?
- Também.
- Eis o cardápio.
- Obrigado, já já escolheremos.
- Com licença, então.
- Bom Su, a razão de eu estar te procurando é porque você tem ao seu lado uma jóia que me interessa muito e estou disposto a fazer um bom negócio com você.
- Que jóia?
- Aquela mulher que você deixa maravilhosa todos os dias no sala da maquiagem.
- Não é mérito meu. Ela, além de elegante e discreta, é muito bonita.
- Eu sei, eu sei.
- Mas qual é o negócio?
- Quero me encontrar com ela reservadamente.
- Como assim? Isso é impossível! Não sabe que ela é uma mulher séria, super bem casada...
- Sei de tudo isso, mas acho que posso ser bem sucedido.
- O que faz você ter tanta confiança assim?
- Nós nos conhecemos há 20 anos, quando ainda era uma repórter iniciante. Trocamos um olhar de cumplicidade, uma experiência que quem vive sabe muito bem do que se trata. E, desde então, botei uma coisa na minha cabeça. Um dia ela seria minha.
- Desculpe, mas acho que você pirou, cara. Vinte anos!
- Ouça! Minha proposta é a seguinte: sabe aquele apartamento que você namora em Copacabana, de frente para o mar? (um dos poucos pequenos da orla que, como muitos, precisa de uma boa reforma...)
- Claro que sei!
- Acabo de comprá-lo e ele pode ser todinho seu.
- Como assim?
- Basta atraí-la. Planeje um encontro para nós e deixe o resto por minha conta. Tome esta foto (enorme, dentro de um envelope branco que ele pôs sobre a mesa). Assim que tiver oportunidade, mostre a ela. Acho que não me reconhecerá, mas alguma coisa ficará latente nela.
- Não prometo. Também não vou forçar barra nenhuma...
- Fique à vontade. Não tenha pressa. O apartamento vai ficar fechado, esperando por você.
- Cara, você é maluco!
(continua)

16 dezembro 2010

A Dama de Honra 4

- Oi Su.
- Oi lindinha.
- Preciso te dizer uma coisa...
- Diga.
- Mas você precisa me prometer que não vai contar a ninguém.
- Claro! Não sei se você sabe mas... acho que conheço mais de você e da sua vida do que imagina.
- É possível, hehehe.
- Então, não precisa nem me pedir isso, não acha?
- É que nunca falei sobre isso com ninguém. É meu segredo íntimo mais bem guardado...
- Pode confiar em mim, boba.
- Estou passando por uma crise conjugal.
- É mesmo?
- E já faz um tempo...
- Posso te dizer uma coisa?
- Pode.
- Eu já sabia.
- Como assim, Su?
- Sei de coisas que as pessoas não precisam me falar. Está nos seus olhos, minha amiguinha...
- E pela primeira vez, depois de muitos anos, estou me sentindo atraída por outro homem.
- Mas vocês têm se visto?
- Conversamos pela primeira vez ontem.
- E....
- Ele é uma criança, Su, mas é muito charmoso e sedutor.
- E o que pensa em fazer?
- Quero me encontrar com ele num lugar sem que ninguém possa saber...
- Tem que ser um plano muito bem estudado, afinal, você é uma celebridade.
- Eu sei. Por isso, vou precisar da sua ajuda e cumplicidade.
- Pode contar comigo.
- Vou precisar do seu apartamento emprestado.
- Basta apenas dizer quando.
(continua)

15 dezembro 2010

A Dama de Honra 3

- Alô.
- Leo?
- Eu.
- O que você está fazendo?
- Tô de bobeira. Estou lendo o livro de crônicas "Ponte Aérea" do jornalista Luis Cosme Pinto. É ótimo! E mais tarde estou pensando em dar uma "sapeada" no calçadão.
- Como está o tempo aí na zona Sul?
- Fechado.
- Aqui na Barra também. Olha, a patroa foi levar os meninos para ver a avó em Niterói e só voltam à noite. Que tal se a gente assasse uma carne? Tenho umas cervejas belgas também...
- Para mim beleza.
- Então venha.
- Daqui a uma hora mais ou menos eu chego aí.
- Deixa eu te falar, você tem unzinho?
- Tenho.
- Então traga.
- Ok.
(...)
- Fsssssssssss. Suave (com voz cavernosa, de quem está prendendo a respiração).
- É uma variedade transgênica. Veio do Paraguai.
- Muito legal. E não é fedido... Fssssssss.
- Antigamente a gente achava no morro fumo do Maranhão, de Pernambuco. Hoje, só tem esse prensado, que vem do Paraguai. Dizem que foi um acordo do PCC, em São Paulo, com o Comando Vermelho, aqui no Rio. Eles se encarregam de tudo e entregam aqui, na mãozinha.
- Ah, é?
- É, antes a Polícia Rodoviária Federal tomava muito dinheiro do pessoal que trazia do Nordeste e foi ficando inviável. Depois tem outra, o consumo cresceu demais por causa do turismo internacional e é menos arriscado espalhar pelo Nordeste mesmo. Mas quando é abril, maio, costuma aparecer alguma coisa na baixada flumente. Conheço um cara que sempre que tem avisa.
- Será que a turma lá da TV gosta?
- Se gosta? Claro!
- Achei que fosse uma coisa meio "outsider" nossa...
- Imagina... lá na redação todo mundo fuma. É normal. Dizem até que o nosso diretor planta em casa.
- Não brinca, qual diretor?
- Ah, não se faça de desentendido.
- Hahahahaha.
- Kkkkkkkkkkkkkk.
- Posso te contar um segredo?
- Pode.
- Você promete que não conta para ninguém?
- Prometo.
- Acho que o meu casamento está acabando.
- Como assim?
- Ela descobriu tudo.
- Juuuuuuuuuuuuura?
- Juro.
- E quem contou?
- A própria Dani.
- Não diga?
- É.
- Mas como assim? Ela enlouqueceu?
- Acho que sim. Começou a fantasiar que eu largaria tudo para viver com ela.
- Cara, precisa internar essa mulher.
- Botamos na Ponte Aérea. Foi transferida para São Paulo.
- É mesmo? Quando?
- Semana passada.
- E agora?
(continua)

14 dezembro 2010

A Dama de Honra 2

- Alô.
- Você é a Su?
- Sim, e você?
- Meu nome é Antônio, sou empresário em São Paulo.
- E o que deseja?
- Gostaria de conversar pessoalmente com você.
- Sobre qual assunto?
- É confidencial.
- Ô Antonio, desculpe, mas deve haver algum engando, eu não faço programa.
- Não é nada disso, Su. Eu sei bem quem você é. Sei que é maquiadora na TV e é por isso que estou te procurando.
- Estranho...
- Você vai entender quando eu te contar.
- E onde quer que eu te encontre?
- Onde você quiser. Posso mandar o helicóptero te buscar ou posso ir ao local que escolher. O que preferir.
- Então prefiro encontrá-lo aqui.
- É só me dizer onde e quando.
- Amanhã no almoço, pode ser?
- Pode.
- Tem um restaurante de frutos do mar chamado A Marisqueira, em Copacabana.
- Eu acho que sei qual é.
- Meio-dia e meia, ok?
- Ok, estarei lá.
Su desligou o telefone e ficou intrigada. Helicóptero, empresário, São Paulo... Será que conseguiria resistir até o dia seguinte para matar a curiosidade? Antonio... E se fosse um milionário solteirão, gay como ela, que estivesse interessado num relacionamento sério? Hehehe, riu para si mesma. "- Sei bem quem você é..." O que será que ele quis dizer com isso? Pensou. Tomou banho, se arrumou e seguiu para o trabalho. Não teria sido melhor escolher um restaurante em Ipanema ou no Leblon? Uma viagem de helicóptero também não seria nada mal...
(continua)

13 dezembro 2010

A Dama de Honra

Como de hábito, ela ficou vendo as ondas quebrarem no horizonte durante muito tempo. As crianças brincavam com a babá na areia. No mar, o mesmo surfista de todos os dias. Um rapaz de vinte e poucos anos, atlético, de cabelos dourados e cacheados. Na sua fantasia, tinha o apelido de Netuno, e mergulhava corriqueiramente em seus sonhos caudalosos. Súbito, o mar serenou, o rapaz pôs a prancha sob o braço e caminhou em sua direção. Assim que ele se aproximou ela fez um aceno tranquilizador para o homem que a observava no calçadão.
- Você é aquela do jornal da TV que eu estou pensando?
- Sim.
- E aqueles... são seus filhos!
- São.
- Já te vi aqui outras vezes, mas não tinha certeza se era você, por causa dos óculos grandes que usa.
- Sempre que não está chovendo eu venho de manhã com as crianças, depois da academia. Moro aqui perto.
- Eu também.
- Aquele cara lá no calçadão é seu segurança?
- É.
- Não é chato ter um desses o tempo todo no seu pé?
- É chato, mas necessário. Tem muita gente doida por aí. O que você faz além de surfar?
- Faço arte dramática. E atuo num grupo amador. Bom, preciso ir e não quero incomodá-la. (o segurança demonstrava certa impaciência). Legal te conhecer. Até mais.
- Até.
Enquanto ele se distanciava, ela sentiu a palpitação típica de adolescente. Achou esquisito. Afinal, não era uma reação pertinente a uma mulher com mais de quarenta anos. E por que não? Retrucou a si mesma. Foi quando uma constatação a atormentou: são quase vinte anos casada! Esse tempo todo ao lado de um parceiro só, pensou. Seria a rotina uma vilã implacável? Indagou... Gostou de sentir-se atraída por aquele rapaz que, aos poucos, ía sumindo do seu campo de visão. Se um dia criar coragem, pensou, é com esse que eu vou...
(continua)

12 dezembro 2010

Vigiar os autores dos crimes

"Que tipo de informação é importante para o mundo? Que tipo de informação pode desencadear uma reforma? (...) Informações que governos e corporaçãos estão fazendo um esforço econômico para esconder, isso é um bom sinal. (Sinal) de que quando esta informação estiver disponível  possa servir para algo de bom, porque as organizações que sabem das coisas, que conhecem tudo de dentro para fora, estão tendo trabalho para escondê-las. E é isso o que descobrimos com a prática (Wikileaks), e essa é a história do jornalismo. (...) Há segredos legítimos, você sabe - seus registros com o seu médico, esse é um registro legítimo. (...) Os valores principais são: homens capazes e generosos não criam vítimas, eles cuidam das vítimas. (...) Há outra maneira de cuidar das vítimas, que é vigiar os autores do crime. Então, isso é algo que está no meu caráter há bastante tempo."
(Julian Assange, cuja a prisão temporária expira na próxima terça-feira). 

10 dezembro 2010

Porque logo mais é Sábado e, depois, Domingo

Agora, só segunda-feira!

WIKILEAKS SAMBA
What’s next, Wikileaks?
What’s next, Wikileaks?
What’s next?
Don’t stop now, we’re on the edge of our seats!
What’s next, Wikileaks?
What’s next, Wikileaks?
What’s next?

Don’t stop now, we’re on the edge of our seats!
You have to watch what you say or your words will haunt you.
Take extra care when you speak.
One of these days you just might find your foot stuck in your cheek.
With a flabby old chap and Hitler hobnobbin’
And a head of a snake and Batman and Robin
There’s just no place to hide your disgrace
You got egg all over your face.

The walls have ears
Is your conscience clear?
If you've got nothing to hide, you've got nothing to fear
The walls have ears
and the coast isn't clear
If you've got nothing to hide, you've got nothing to fear
Our friends are thin skinned, feckless and vain,
with a crazy old man and another just strange,
don't corner merkle, she'll become tenacious,
she's risk averse and rarely creative
Some are abysmal or taking their meds
while others won't keep their promises
get frequent flyer miles of Ban Ki Moon
his biometric data, we’ll need it soon

What’s next, Wikileaks?
What’s next, Wikileaks?
What’s next?
Our freedom of press, our freedom of speech?
What’s next, Wikileaks?
What’s next, Wikileaks?
What’s next?
Our freedom of press? our freedom of speech?

Don’t stress, free the press X2
Let the chips fall where they may
The truth will come out, ready or not
Fess up to what you say
Blaming the mirror for what you see
diverts the responsibility
To stifle the leak is just doublespeak
If you claim the press is free.

What’s next, Wikileaks?
What’s next, Wikileaks?
What’s next?
Don’t stop now, we’re on the edge of our seats!
What’s next, Wikileaks?
We cannot wait to know.
The cat is out of the bag so on with show
The world’s outraged and it’s no surprise
You’ve been accused of telling no lies
Protecting secrets is the job of the state
They’ve failed their job yet they’re irate
Now there’s a witch hunt

We’ve seen this before
They need someone to blame to even the score
Blaming the postman for the letter he brings is like
Blaming the weatherman for the wind
When it stings.

Lyrics by Nick Santoro

Não se iludam, é guerra!

por Len:

Na definição do Wikipedia, Netwar descreve uma forma emergente de conflito de baixa intensidade, crime e ativismo travado por atores sociais interligados pela rede mundial de computadores.

Netwar comumente está relacionada à ação de hackers em espionagem industrial, militar e governamental e na criação de vírus e outras formas de ataques a computadores. Recentemente algumas ações de hackers foram atribuídas ao governo chinês, que negou a participação nos ataques a sistemas de agencias de segurança americanas. Invariavelmente, Netwar se referia a atividades marginais, onde crimes eram cometidos. Esta semana Netwar ganhou uma nova dimensão de sua definição.

O Wikileaks foi criado pelo cidadão australiano Julian Assange com a intenção de criar um mecanismo onde pudessem ser descobertos e revelados documentos de interesse da população do seu país, que eram tratados com critérios de confidencialidade pelo governo, deixando claro que os documentos revelados seriam restritos ao interesse público, se afastando da tentativa dos seus críticos de classificar o que ele propunha como espionagem. Com a aprovação e sucesso do formato, o site deixou de ser um instrumento local para contar com rede de colaboradores tão grande que se transformou no fenômeno capaz de humilhar sistemas de segurança de documentos confidenciais da maior potência mundial: os EUA.

Nos últimos meses, o Wikileaks revelou ao mundo crimes cometidos pelos EUA nas ocupações do Afeganistão e Iraque e ridicularizou a diplomacia americana, mostrando a frivolidade dos relatórios enviados à Washington, sobre políticos de diversos países. A partir daí, o governo americano perseguiu Assange e usou a sua influência para conseguir a prisão imotivada do australiano e o sufocamento financeiro de sua organização.

A reação contra essa arbitrariedade foi a maior manifestação através da internet que se tem conhecimento. Na quarta feira, milhões de usuários da internet de várias partes do mundo, protestaram contra a suspensão por parte das operadoras de cartão VISA, MASTERCARD e PAY PAL, dos pagamentos ao site Wikileaks, derrubando por horas os sites dessas empresas, em uma operação batizada como: “operation payback” (troco), regida pelo grupo hacker Anon_Operation. Os ataques foram realizados pela tentativa simultânea de acesso ou “pings” (DDOS ataque) aos referidos sites, ocasionando colapso no sistema que os mantém no ar.

A reação da grande imprensa no Brasil foi lamentável mais uma vez. Em vez de reconhecer como uma manifestação de protesto de uma forma geral classificou como ato de piratas virtuais e ocultou o nome das empresas que foram alvo do protesto e o motivo do protesto: o fato dessas empresas terem feito o jogo sujo do governo americano. Um fato histórico aconteceu com a manifestação de milhões de pessoas de várias partes do mundo e a nossa imprensa, com o rabo preso com patrocinadores, tenta impedir o acesso aos fatos reais e completos, indo mais uma vez na contramão da história, assim como foi feito nos anos 80 ao tentar ignorar as passeatas pelas diretas que aconteciam no país inteiro.

Netwar, querendo ou não a nossa imprensa, não se limita mais a atitudes criminosas, mas é uma poderosa ferramenta de manifestação popular, e aliada ao poder de divulgação instantânea das mídias sociais pode se transformar em um problemão para quem não se importa com a opinião pública.

Netwar redefine o poder das manifestações políticas populares, passando de inócuas interrupções de trânsito e queima de bandeiras em frente a embaixadas e consulados para a consolidação de enormes prejuízos a grandes corporações e governos, tornando essas manifestações mais eficientes já que o que pesa no bolso faz muito mais barulho.

http://gmpconsult.com.br/blogdolen/

Entendeu, ou quer que escreva?

09 dezembro 2010

Dá para entender agora por que ele é o cara?


O que todo estudante de jornalismo deveria saber... (Parte 2)

por Luciano Martins Costa

O novo episódio da guerra entre a mais poderosa nação do mundo e um site da internet, descrito nos jornais de quinta-feira (9/12), pode ser visto como o ensaio de futuros conflitos que nos aguardam com o avanço das tecnologias de informação e comunicação, num momento em que os poderes nacionais precisam se abrir cada vez mais para compromissos de alcance global.

A feroz perseguição do governo americano ao australiano Julian Assange, criador do Wikileaks, provocou uma reação em cadeia de hackers profissionais e amadores ao redor do mundo. Como resultado, os sites de empresas e outras organizações que colaboraram no cerco a Assange tiveram que sair do ar.

A tentativa de sufocar financeiramente o negócio de Assange provocou retaliações contra a Amazon, o sistema de pagamentos eletrônicos PayPal, a Mastercard e outras empresas. O cerco judicial pode causar problemas a instituições da Suécia, onde Julian Assange está sendo processado por supostos crimes sexuais.

O novo inimigo, uma horda sem líderes que se move por sua própria conta e vontade, pode crescer exponencialmente e causar prejuízos muito mais graves do que os constrangimentos provocados até agora pelo vazamento de intrigas diplomáticas através do Wikileaks.

Lições de Canetti

Por enquanto, trata-se de um movimento anárquico, porém efetivo. Amanhã, essa armada sem comando pode ganhar adesões poderosas e se transformar em oponente de respeito. A mesma cadeia de interesses que faz com que outros governos se aliem, ainda que discretamente e de forma extraoficial, à ofensiva dos Estados Unidos contra Julian Assange, tentando aniquilar seu empreendimento e tirá-lo de circulação, pode se virar contra o sistema.

Na medida em que novos vazamentos revelarem, por exemplo, os bastidores das negociações sobre as mudanças climáticas e os acertos por baixo do pano em torno das bilionárias operações de socorro a bancos e fundos de investimento a partir da crise de 2008, o exército de Brancaleone que começa a se mobilizar em defesa do Wikileaks pode agregar elementos mais poderosos e eficientes, e uma reação inicialmente difusa acabar se transformando em um conflito de grandes proporções.

Seria como alguns cenários descritos no clássico Massa e Poder, do pensador Elias Canetti.

Como ficaria a imprensa tradicional numa circunstância como essa?

Problema para a imprensa

Elias Canetti, cuja obra é considerada um dos mais reveladores ensaios sobre a humanidade do século 20, pode ser convocado também para ilustrar muitos desafios deste século que já avança para sua segunda década.

O conflito entre a nação mais poderosa do mundo e um negócio despretensioso – cujo único produto é a informação que se pretende ocultar – pode ajudar a desnudar o sistema sobre o qual muito se fala e que de fato pouco se conhece.

No momento em que o futuro do poder americano é colocado em xeque por causa de crises financeiras sucessivas e sua fragilidade exposta na ação do terrorismo, o uso excessivo de força contra o criador do Wikileaks pode ser visto como sinal de fraqueza.

À margem da profusão de vazamentos que todos os dias circulam pela internet, e que tem uma pequena parcela publicada diariamente em jornais de todo o mundo, consolidam-se velhas teorias conspiratórias, e o mundo se dá conta de que a imprensa tradicional nunca foi capaz de informar a humanidade sobre como as coisas realmente funcionam.

Dor de cabeça

Um comentário da jurista Maristela Basso, publicado na Folha de S.Paulo, revela que Julian Assange não está desamparado. Pelo contrário, ele ainda pode reverter a situação e obter uma indenização milionária do governo dos Estados Unidos. Se isso vier a acontecer, e iniciativas como o Wikileaks se tornarem dominantes na preferência dos leitores, qual será o futuro da imprensa tradicional?

Por enquanto, os jornais se deliciam com intrigas e selecionam criteriosamente o material exposto pelo Wikileaks, conforme suas próprias conveniências. Mas quanto tempo ainda vai demorar para que seus leitores percebam que, na verdade, a imprensa tradicional sempre esteve do lado do sistema, omitindo do público certas razões de Estado que na verdade escondem interesses muito particulares?

Aquilo que no princípio parecia muito divertido para algumas redações pode acabar virando uma grande dor de cabeça no futuro.

O que todo estudante de jornalismo deveria saber...

por Janio de Freitas

ESTAVA MUITO esquisito. Precisar fazer estupro, logo na Suécia de tão dourada generosidade? Ainda se fosse na Suíça, nada a estranhar. E reclamação contra assédio masculino? Na Bélgica ainda podia ser.

As coisas, porém, afinal voltam à sua natureza nos lugares apropriados. E fica-se sabendo que a acusação a Julian Assange de "estuprar uma mulher sueca e molestar sexualmente outra", como os meios de comunicação repetem mundo afora há duas semanas, foi não usar preservativo, pode-se supor que com proveito mútuo, e, no outro caso, um ensaio compartilhado.

Mas a conduta dos meios de comunicação não deixou de atingir a reputação de Assange e, com isso, contribuir para a sufocação que governos poderosos buscam aplicar à divulgação que esse valente australiano faz de documentos sigilosos, pelo seu site WikiLeaks.

Não estamos só diante de muitos gatos graúdos e um ratinho que lhes roubou pedaços do melhor queijo escondidos com cuidado. É de liberdade de informação que se trata. É do direito dos cidadãos de saber o que seus governos dizem e fazem sorrateiramente, no jogo em que as peças são as comunidades nacionais.

É de jornalismo que se trata. E os meios de comunicação jornalística estão ficando tão mal quanto os países, governos e personagens desnudados pelo Wikileaks. Era a hora de estarem todos em campanha contra os governantes que querem sufocar as revelações. Ou seja, em defesa da liberdade de informação, da própria razão de ser que os jornais, TVs, rádios e revistas propagam ser a sua.

Com escassas exceções, que se saiba, os meios de comunicação estão muito mais identificados com os governos e governantes do que com os cidadãos-leitores e com a liberdade de informação. A união e a contundência que têm na defesa da sua liberdade de empresas, dada como liberdade de imprensa, não se mostra: segue, nos Estados Unidos, o aprendizado imposto pela era Bush e, no restante do Ocidente, os reflexos desse aprendizado sob a paranoia do terrorismo.

Os jornalistas profissionais não estão melhor do que os meios de comunicação. Poucos são os seus recursos de expressão, mas, ao que se deduz do noticiário rarefeito, as manifestações de repúdio à pressão contra as revelações do Wikileaks são feitas por leitores/espectadores. Os jornalistas apenas as registram, pouco e mal.

08 dezembro 2010

Transparência, o futuro da democracia

Para escolher a legenda clique em view subtitles.

Começam a aparecer as "estupradas"

Por Thaís Romanelli, via Ópera Mundi


Uma cidadã cubana que acusa o jornalista australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks, de "crimes sexuais" na Suécia foi apontada como "colaboradora" da CIA e teria planejado o caso, segundo a rede de TV venezuelana TeleSur. No início do ano, ela mesma divulgou na internet um "guia para se vingar" de alguém usando denúncias de abusos sexuais.

De acordo com as informações publicadas nesta terça-feira (7/12), a cubana Anna Ardin (cujo nome real seria Ana Bernardín) teria sido uma das primeiras a denunciar Assange por "abuso sexual" à polícia sueca, junto à amiga sueca Sophia Wilén.

A prisão do fundador do site Wikileaks, o jornalista australiano Julian Assange, provocou grande repercussão na mídia internacional. As vozes de entidades de defesa da liberdade de imprensa, porém, não protestaram até o momento, nem questionaram a validade da ordem de prisão da Justiça sueca, que acusa o jornalista de "crimes sexuais".

Entidades como a Associação Mundial de Jornais, o World Press Freedon Committee e a norte-americana Freedom House costumam protestar no caso de prisões políticas contra jornalistas, principalmente em países não alinhados a potências ocidentais. Desta vez, por enquanto, evitaram criticar a ação contra colega preso.

A queixa, porém, seria relativa ao fato de Assange, supostamente, não ter utilizado camisinha durante as relações sexuais que teria tido com elas, enquanto Ardin dormia em sua resisidência em Estocolmo. Além disso, Ardin e Wilden denunciaram Assange por ter mantido relações sexuais com as duas na mesma semana - o que, na Suécia, é ilegal.

De acordo com a versão apresentada, no dia 11 de agosto deste ano, Assange teria ido à Suécia a convite do movimento de centro-esquerda Broderskap ("fraternidade" em sueco, ligado ao Partido Social-Democrata Cristão) para participar de um seminário. Na ocasião, segundo Ardin, ela própria ofereceu sua casa para hospedar o fundador do Wikileaks, já que ela estaria fora da cidade. Ardin, porém, voltou antes do previsto, mas mesmo assim hospedou Assange em casa. Segundo ela, em uma das noites após jantarem juntos, tiveram relações sexuais com camisinha, que chegou a rasgar.

No dia seguinte, ao final do seminário, Assange teria seduzido Sophia Wilén, com quem também teria feito sexo, na cidade de Enkoping, onde ela mora. De acordo com Wilén, ela e Assange tiveram relações duas vezes, uma com e outras sem o uso de preservativos, em razão de uma recusa do fundador do Wikileaks.

Dez dias depois, as duas mulheres se apresentaram à polícia sueca para denunciar Assange por crimes sexuais. Ardin, porém, se apresentou como militante feminista a princípio e declarou que estava apenas auxiliando Wilén. Dias mais tarde, declarou seu envolvimento com Assange, alegando que "inicialmente o sexo foi consensual, mas logo se transformou em um abuso", já que o preservativo teria rompido e Assange continuado a relação à revelia dela.

Vingança

Anna Ardin é uma ativista feminista conhecida na Suécia. Em 19 de janeiro de 2010, ela escreveu em seu blog (annaardin.wordpress.com) um post com o título "Sete passos para uma vingança judicial", incluindo instruções sobre incriminar alguém usando acusações de teor sexual. Seu blog faz referências a outros como Generación Y (de Yoani Sánchez) e Desde Cuba, ambos de dissidentes cubanos.

Acusada de ter mudado o depoimento a mando da CIA, Ardin se defendeu em seu blog garantindo que as denúncias não haviam sido coordenadas.

"A responsabilidade do que aconteceu comigo e com a outra jovem é do homem que tem uma visão distorcida das mulheres, que tem um problema em aceitar um 'não'", argumentou, no post citado.

Anti-castristas

Segundo a TeleSur, ela também seria ligada ao ativista anti-castrista Carlos Alberto Montaner e ficou conhecida por escrever em websites financiados pela USAID (agência dos Estados Unidos para empréstimos a países subdesenvolvidos) e controlados pela CIA, como o Misceleanas de Cuba, do cubano Alexis Gainza Solenzal, que criticam o regime da ilha.

Montaner é co-autor, junto com o peruano Mario Vargas Llosa, do livro anti-esquerdista Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano (Bertrand Brasil, 1997). Nos anos 1960, chegou a ser preso em Cuba por acusações de trabalhar para a CIA em operações de sabotagem, até fugir da prisão e encontrar asilo na Espanha, então sob o regime franquista.

07 dezembro 2010

Por que o Wikileaks incomoda muita gente?

Com a prestimosa contribuição do incansável Stanley Burburinho.
Para ver a segunda parte, aqui:

Talkin' About a Revolution

Você não sabe
É melhor você correr, correr, correr ...
Oh, eu disse que o melhor
Corra, corra, corra ...
Falando sobre uma revolução

Estamos Falando sobre Revolução

Por Heether Brooke*, do The Guardian


A diplomacia sempre incluiu jantares com as elites dominantes, acertos de bastidores e encontros clandestinos. Agora, na era digital, os relatos de todas estas festas e diálogos aristocráticos pode ser reunido numa enorme base de dados. Uma vez recolhidos em formato digital, é muito fácil compartilhá-los.

Na verdade, é para isso que a base de dados Siprnet, de onde os segredos diplomáticos norte- americanos são vazados, foi criada. A comissão governamental criada nos EUA para avaliar a segurança nacional após o 11 de Setembro fez uma descoberta notável: não era o compartilhamento de informações que ameaçava os EUA, mas o não-compartilhamento. A falta de cooperação entre agências governamentais e a retenção de informações por burocratas desperdiçaram muitas oportunidade para bloquear os ataques contra as Torres Gêmeas. Em resposta, a comissão ordenou uma restruturação dos serviços do governo e da inteligência, para que se adaptassem à própria web. A nova prática era de colaboração e compartilhamento de informações. Mas, ao contrário de milhões de membros do governo e empresas terceirizadas, o público não tinha acesso à Siprnet.

Porém, os dados têm o hábito de se espalhar. Eles escorregam entre a segurança militar e também podem vazar pelo Wikileaks, o meio pelo qual eu obtive as informações. Eles violaram até os prazos de fechamento do Guardian e de outros jornais envolvidos na divulgação da história, quando um cópia clandestina do semanário alemão Der Spiegel acidentalmente chegou às bancas em Basle, na Suíça, domingo passado. Alguém a comprou, entendeu o que ela continha e começou a escanear as páginas, traduzindo-as do alemão para o inglês e postando no Twitter. Parece que os dados digitalizados não respeitam autoridade alguma, esteja ela no Pentágono, no Wikilieaks ou num editor de jornais.

Cada um de nós já viveu, pessoalmente, as enormes mudanças que vêm com a digitalização. Fatos ou informação que considerávamos efêmeros e privados agora são permanetes, públicos e agregáveis. Se o volume dos atuais vazamentos parece grande, pense nos 500 milhões de usuários do Facebook, ou nos milhões de registros mantidos pelo Google. Os governos mantêm nossos dados pessoais em enormes bases. Era caro obter e distribuir informação. Agora, é caro retê-la.

Mas quando os devassa de dados atinge o público, os governantes parecem não se importar muito. Nossa privacidade é disponível. Não surpreende que a reação aos novos vazamentos seja, agora, diferente. O que transformou, num sentido revolucionário, a dinâmica do poder não é a escala das revelações – mas o fato de que indivíduos podem tornar pública uma cópia de documentos do Estado. Em papel, estes vazamentos equivalem, segundo estimativas do Guardian, a 213.969 paginas A4, que teriam, empilhadas, a altura de 43 quilômetros. Algo impossível de vazar com segurança, na era do papel.
Para alguns, a novidade significa uma crise. Para outros, uma oportunidade. A tecnologia está rompendo as barreiras tradicionais de classe, poder, riqueza e geografia – e substituindo-as por um ethos de colaboração e transparência.

Um ex-embaixador dos Estados Unidos na Rússia, James Collins, disse à CNN que a revelação dos registros pelo Wikileaks “impedirá que as coisas seja feitas de forma normal e civilizada”. Muito frequentemente, “normal” e “civilizado” significa, na linguagem diplomática, fazer vistas grossas para injustiças sociais flagrantes, corrupção e abuso de poder. Depois de ler centenas de documentos, constato que muito dos “danos” que eles provocam é revelação embaraçosa e constrangedora de verdades inconvenientes. Em nome da segurança de uma base militar num dado país, nossos líderes aceitam um ditador brutal que oprime seu povo. Isso pode ser conveniente a curto prazo para os políticos, mas as consequências a longo prazo para os cidadãos do planeta podem ser catastróficas.

Os vazamentos não são o problema, apenas o sintoma. Revelam a desconexão entre aquilo que as pessoas desejam e precisam e o que realmente fazem. Quanto maior o segredo, mais prováveis os vazamentos. O caminho para superá-los é assegurar um mecanismos robustos para acesso público a informação relevante.

Graças à internet, esperamos um nível muito maior de conhecimento e participação, em muitos aspectos de nossas vidas. Mas os políticos resistem resolutamente aos novos tempos. Vêem-se como tutores de um público infantil – que não merece nem a verdade, nem o poder real que o conhecimento oferece.

Muito da revolta governamental sobre os vazamentos não tem a ver com o conteúdo do que é revelado, mas com a audácia de quem rompe o que eram fortalezas invioláveis da autoridade. No passado, confiávamos nas autoridades. Se um governante nos dissesse que algo poderia prejudicar a segurança nacional, tomávamos a afirmação como verdade. Agora,os dados crus por trás desta crença estão se tornando públicos. O que percebemos de vazamentos sobre as despesas de parlamentares, ou a cumplicidade de governos com a tortura, é que quando os políticos falam sobre uma ameaça à “segurança nacional”, referem-se frequentemente à defesa de sua própria posição ameaçada.

Estamos num momento crucial, em que alguns visionários, na vanguarda de uma era digital, enfrentam quem tenta, desesperadamente, controlar o que sabemos. O Wikileaks é o front de guerrilha, num movimento global por maior transparência e participação. Projetos como o Ushahidi usam redes sociais para criar mapas onde os cidadãos podem relatar violências e desafiar a versão oficial dos fatos. Há ativistas empenhados em liberar dados oficiais, para que as pessoas possam ver, por exemplo, os orçamentos públicos em detalhe.

Por ironia, o Departamento de Estado dos EUA foi um dos grandes incentivadores da inovação técnica, como meio para levar a democracia a países como o Irã e a China. O presidente Obama exortou regimes repressores a deixar de censurar a internet. No entanto, uma lei que tramita no Congresso permite ao Procurador-Geral em Washington criar uma “lista suja” de websites. É possível acreditar numa democracia forte apenas para assuntos externos?

Os governantes costumavam controlar os cidadãos por meio do fluxo restrito de informações. Agora, está se tornando impossível vigiar o que a sociedade lê, vê e ouve. A tecnologia permite desafiar coletivamente a autoridade. Os poderosos vigiaram por muito tempo as sociedades, para controlá-las. Agora, os cidadãos estão lançando um olhar coletivo sobre o poder.

É uma revolução, e todas as revoluções geram medos e incertezas. Caminhamos para um Novo Iluminismo da Informação? Ou a revanche daqueles quer querem manter controle a qualquer custo nos levará a um novo totalitarismo? O que ocorrer nos próximos cinco anos definirá o futuro da democracia no próximo século. Por isso, seria ótimo que os nossos líderes respondessem aos desafios de hoje com um olhar sobre o futuro.

Heether Brooke é jornalista, escritora e ativista pelo Direito à Informação. Nascida nos Estados Unidos, vive em Londres e colabora com o The Guardian.

Pegaram o Cara!

Despertar a fúria da "América" e seus aliados tem um preço. O australiano Julian Assange, fundador do Wikileaks, está preso. Ele se apresentou à polícia de Londres que o procurava, depois que a Suécia pediu sua prisão. Agora, ele responderá a quatro acusações feitas contra ele em 2010, incluindo a de estupro. O advogado de Assange na Grã-Bretanha, Mark Stephens, disse à BBC que os promotores suecos haviam se comportado de maneira "bizarra" e dificultado o acesso do seu cliente ao teor das acusações. Ontem, australianos influentes divulgaram uma carta em que pedem à primeira-ministra do país, Julia Gillard, proteção ao cidadão australiano Julian Assange, que já foi ameaçado por seu país de ter o passaporte cancelado. Na segunda-feira, o banco suíço PostFinance já tinha congelado contas bancárias de Assange alegando irregularidades cadastrais. Empresas como a PayPal e a Amazon deixaram de hospedar o site do Wikleaks e, segundo seus colaboradores, Assange teria perdido, em apenas uma semana, 100 mil euros! Há muitos documentos a serem processados e divulgados. Portanto, não há prisão ou retaliação que possam impedir a força do que está por vir.

06 dezembro 2010

A Convivência

Vamos envelhecendo e nos esquecendo da importância de conviver. É convivendo que exercitamos a paciência, a tolerância e o espírito colaborativo, tão importantes para a construção de projetos coletivos. Nos reunimos este fim de semana para "festar". Foi delicioso. Na foto, da esquerda para a direita, e de baixo para cima, temos: o Eduardo Prestes (autêntico piloto gaucho de churraqueira), Angela Canguçu (dona da originalíssima receita de salada de nozes), Márcia Cunha (dona de uma soborosíssima receita de sorvete de franboesa), Azenha (aniversariante e responsável pela infraestrutura), Gabriel (responsável pela bagunça e gritaria, típicas de uma criança colorida de 3 anos), O casal Mello (responsável pelo Cassino que avançou pela noite de sábado) e o Vianna (comentarista oficial das grandes jogadas). O Pedrão só não apareceu porque prefiriu ficar nos bastidores, atrás da câmera. Porque ele é tímido (e modéstia à parte, lindo).

05 dezembro 2010

Porque hoje é Domingo


Eu dei um passeio paradisíaco através do nosso silêncio

Eu sabia que a espera havia começado
E fui direto... em direção ao sol

04 dezembro 2010

Primeiro Encontro Nacional de Blogueiros Sujos e Elite Branca

(Neste fim de semana em praia não informada do litoral norte de São Paulo)


E vivendo, vivendo
E eu, vivendo, sobre o mar...

02 dezembro 2010

Vivo ou Morto

A vida do novo inimigo número um da "América" não será fácil. Todos os países signatários da Interpol podem prendê-lo a qualquer momento. Ao todo são 188, incluindo o Afeganistão e o Zimbábue. A Austrália, seu país natal, a Suécia, onde responde pelo crime de abuso sexual e estupro contra duas mulheres, sim eu disse duas, simultaneamente. Estranho, não? Ou a Islândia e a Suiça, onde cogitou viver, mas pode encontrar embaraços, agora que é caçado em troca de grande recompensa pelo Governo mais rico e influente do planeta. Por enquanto, seus planos são se comunicar com a imprensa virtualmente, ou por vídeos gravados previamente (à la Osama Bin Landen) ou ainda por telefones celulares, via Skype. Diz a lenda que Assenge é tão paranóico (confesso que eu também seria), que troca de celulares em intervalos menores do que uma hora. O repórter do New York Times que o entrevistou em outubro, John F. Burns, disse que Assenge usa dinheiro em vez de cartões de crédito e fica hospedado com amigos, ou em hotéis, com nome falso. Em abril deste ano Assenge foi para Washington mostrar, no Clube Nacional de Imprensa, um vídeo de um helicóptero militar dos EUA matando doze pessoas em Bagdá, em dois mil e sete, sendo dois jornalistas entre eles. Em julho, seu site colaborativo, o Wikileaks, vazou 77 mil documentos militares dos EUA sobre o Afeganistão, e em outubro, cerca de 400 mil documentos secretos sobre a guerra do Iraque. Os EUA vão tentar processar Assenge por espionagem. Sugiro uma caverna no Afeganistão. Lá ninguém o encontra. Aliás, onde mesmo está Bin Laden?

novo endereço eletrônico:
http//wikileaks.ch/

01 dezembro 2010

Cuidado: vão tentar transformá-lo em Bin Laden

Ao abrir a Caixa de Pandora com os fantasmas do Serviço de Inteligência e Departamento de Estado da "América", Julian Assange e sua equipe de hackers e colaboradores iniciam um combate contra a concentração na produção do noticiário – na maioria das vezes, e no Brasil, em particular, apenas atendendo a interesses das grandes agências – levando a um fenômeno que o Secretário Nacional de Comunicação, Franklin Martins, apelidou de "efeito pedra no lago" (quando ondas concêntricas se formam num determinado ponto e se expandem em direção à margem). Por isso, Assange diz que documentos, como os que foram vazados nos últimos dias pelo Wikileaks: “São a coisa mais importante que eu já vi”. Senhoras e senhores, estamos diante do fato mais relevante da história contemporânea, e que deve ser determinante para o fim da hegemonia política do Império Estadunidense. Um processo irreversível de transparência, graças ao poder e alcançe da rede mundial de computadores. É um atalho importante entre notícia e versão, maior dilema do jornalismo quando em busca da "verdade". Preparem-se amigos, porque nos próximos anos nosso planeta viverá fortes emoções! Isto é, se antes não botarem as "mãos sujas de sangue" em Assange e sua turma.
http://wikileaks.org/

Atualização às 17:55 - Se você tentou acessar e não conseguiu, desista. A Amazon.com Inc. informou que não mantém mais o site em seus servidores. Não falei?

Do Capão para o Alemão, a profecia dos Racionais Mcs

"Assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e que só morre o pobre."
(brown)
Essa pôrra e um campo minado
Quantas vezes eu pensei em me jogar daqui,
Mas, aí, minha área é tudo o que eu tenho
A minha vida é aqui e eu não preciso sair
É muito fácil fugir mas eu não vou,
Não vou trair quem eu fui, quem eu sou
Eu gosto de onde eu tô e de onde eu vim, ensinamento da favela foi muito bom pra mim
Cada lugar um lugar, cada lugar uma lei, cada lei uma razão e eu
sempre respeitei
Qualquer Jurisdição, qualquer área, Jd. Santo Eduardo, Grajaú, Missionária, Funchal, Pedreira e tal, Joaniza
Eu tento advinhar o que você mais precisa
Levantar sua "goma" ou comprar uns "pano",um advogado pra tirar seu mano
No dia da visita você diz, que eu vou mandar cigarro pros maluco lá no x.
Então, como eu tava dizendo, sangue bom, isso não é sermão, ouve aí tenho o dom
Eu sei como é que é, é foda parceiro, eh, a maldade na cabeça o dia inteiro nada de roupa, nada de carro, sem emprego, não tem ibope, não tem rolê, sem dinheiro
Sendo assim, sem chance, sem mulher, você sabe muito bem o que ela quer (eh....). encontre uma de caráter se você puder,
É embaçado ou não é?

Ninguém é mais que ninguém, absolutamente, aqui quem fala é mais um
sobrevivente
Eu era só um moleque, só pensava em dançar, cabelo black e tênis All Star
Na roda da função "mó zoeira" tomando vinho seco em volta da
fogueira, a noite inteira, só contando história, sobre o crime, sobre as
treta na escola
Eu não tava nem aí, nem levava nada a sério, admirava os ladrão e os malandro mais velho
Mas se liga, olhe ao seu redor e me diga:
O que melhorou? da função quem sobrou? sei lá, muito velório rolou de lá pra cá, qual a próxima mãe que vai chorar?
Há, demorou mas hoje eu posso compreender, que malandragem de verdade é viver
Agradeço a Deus e aos Orixás, parei no meio do caminho e nem olhei pra trás meus outros manos todos foram longe demais, Cemitério São Luis, aqui jaz
Mas que merda, meu oitão tá até a boca, que vida louca! por que é que tem que ser assim?
Ontem eu sonhei que um fulano aproximou de mim,"agora eu quero ver ladrão, pá! pá! pá! pá!", Fim.
É... sonho é sonho, deixa quieto
Sexto sentido é um dom, eu tô esperto, morrer é um fator, mas conforme for, tem no bolso e na agulha e mais 5 no tambor
Joga o jogo, vamo lá, caiu a 8 eu mato a par
Eu não preciso de muito pra sentir-me capaz de encontrar a
Fórmula Mágica da Paz.


Eu vou procurar, sei que vou encontrar, eu vou procurar,
Eu vou procurar, você não bota mó fé, mas eu vou atrás
( Eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Da minha fórmula mágica da paz.
Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Procure a sua(eu vou procurar, eu vou procurar,
Você não bota uma fé...
Eu vou atrás da minha(você não bota uma fé)
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Caralho, que calor, que horas são agora?
Dá pra ouvir a pivetada gritando lá fora
Hoje, acordei cedo pra ver, sentir a brisa de manhã e o sol nascer
É época de pipa, o céu tá cheio, 15 anos atrás eu tava ali no meio
Lembrei de quando era pequeno, eu e os cara... faz tempo, faz tempo,
e o tempo não para
Hoje tá da hora o esquema pra sair, é... vamo, não demora, mano,chega aí!
''Cê viu onti''? os tiro ouvi de monte! então, diz que tem uma pá de
Sangue no campão."
Ih, mano toda mão é sempre a mesma idéia junto: Treta, tiro, sangue, aí, muda de assunto
Traz a fita pra eu ouvir que eu tô sem, principalmente aquela lá do Jorge Ben
Uma pá de mano preso chora a solidão, uma pá de mano solto sem disposição
Empenhorando por aí, rádio, tênis, calça, acende num cachimbo... virou fumaça!
Não é por nada não, mas aí, nem me ligo ô, a minha liberdade eu curto
bem melhor, eu não tô nem aí pra o que os outros fala 4, 5, 6, preto num Opala, pode vir gambé, paga pau, tô na minha na moral na maior,sem goró, sem pacau, sem pó
Eu tô ligeiro, eu tenho a minha regra, não sou pedreiro, não fumo pedra Um rolê com os aliados já me faz feliz, respeito mútuo é a chave é o que eu sempre quis(diz...) procure a sua, a minha eu vou atrás, até mais, da fórmula mágica da paz.
Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Eu vou procurar, eu vou procurar
Você não bota mó fé..., mas eu vou atrás....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Da fórmula mágica da paz

Eu vou procurar, sei que vou encontrar
Eu vou procurar, eu vou procurar
Você não bota mó fé..., mas eu vou atrás....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Choro e correria no saguão do hospital
Dia das criança, feriado e luto final
Sangue e agonia entra pelo corredor, ele tá vivo pelo amor de
Deus doutor
4 tiros do pescoço pra cima, puta que pariu a chance é mínima
Aqui fora, revolta e dor, lá dentro estado desesperador
Eu percebi quem eu sou realmente, quando eu ouvi o meu sub-consciente:
"e aí mano brown cuzão? cadê você? seu mano tá morrendo o que você
Vai fazer?"
Pode crê, eu me senti inútil, eu me senti pequeno, mais um cuzão vingativo
Puta desespero, não dá pra acreditar, que pesadelo, eu quero acordar
Não dá, não deu, não daria de jeito nenhum, o Derley era só mais um rapaz comum, dali a poucos minutos, mais uma Dona Maria de luto
Na parede o sinal da cruz, que porra é essa?Que mundo é esse? Onde tá Jesus?
Mais uma vez um emissário, não incluiu Capão Redondo em seu itinerário Pôrra, eu tô confuso, preciso pensar, me dá um tempo pra eu raciocinar Eu já não sei distinguir quem tá errado, sei lá, minha ideologia enfraqueceu: Preto, branco, polícia, ladrão ou eu, quem é mais filha da puta, eu não sei! aí fudeu, fudeu, decepção essas hora... a depressão quer me pegar vou sair fora.
2 de novembro era finados, eu parei em frente ao São Luís do outro lado
E durante uma meia hora olhei um por um e o que todas as senhoras tinham em comum: a roupa humilde, a pele escura, o rosto abatido pela
vida dura
Colocando flores sobre a sepultura("podia ser a minha mãe")Que loucura
Cada lugar uma lei, eu tô ligado, no extremo sul da Zona Sul tá tudo
errado, aqui vale muito pouco a sua vida, a nossa lei é falha, violenta e suicida
Se diz que, me diz que, não se revela: parágrafo primeiro na lei da favela
Legal, assustador é quando se descobre que tudo dá em nada e que só morre o pobre
A gente vive se matando irmão, por quê? não me olhe assim, eu sou igual a você
descanse o seu gatilho, descanse o seu gatilho, que no trem da malandragem, o meu rap é o trilho.
Vou dizer....
Procure a sua paz....
Pra todas a famílias ai que perderam pessoas importante morô meu!!!!
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Procure a sua paz(paz....)
Não se acostume com esse cotidiano violento,
Que essa não é a sua vida, essa não é a minha vida morô mano!!!!
Procure a sua paz....
Aí derlei, descanse em paz!
Aí carlinhos procure a sua paz!
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Aí quico, você deixou saudade morô mano!
Agradeço à Deus e aos Orixás....
Eu tenho muito a agradecer por tudo
Agradeço à Deus e aos Orixás....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Cheguei aos 27, sou um vencedor, tá ligado mano!!!!
Agradeço à Deus e aos Orixás....
Aí procure a sua, eu vou atrás da minha fórmula mágica da paz!
Você não bota mó fé....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Aí, manda um toque na quebrada lá, cohab, adventista e pá rapaziada!!!!
Malandragem de verdade é viver....
Se liga!!!!
Procure a sua paz!!!!
Você não bota mó fé....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Que tu fala é mano brown mais um sobrevivente
Agradeço á deus, agradeço á deus....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
27 anos, contrariando a estatística morô meu!!!!
Agradeço á Deus, agradeço á Deus....
Procure a sua paz....
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)
Eu vou procurar....
Procure a sua paz...
Procure a sua!!!!
Eu vou encontrar
Você pode encontrar a sua paz, o seu paraíso!!!!
Eu vou procurar
Você pode encontrar o seu inferno!!!!
A fórmula mágica da paz........!
(eu vou procurar e sei que vou encontrar)

Eu prefiro a
P a z ! ! ! ! ! !



 
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