Não tive condições de atualizar o blog nos últimos dias. Não foi por falta de vontade, mas por absoluta falta de tempo. A analogia que faço, quando penso na intensidade de atividades e das emoções vividas dos últimos dias, é com a piracema, período de desova, em que os peixes vencem a correnteza, num esforço aparentemente maior do que o tolerável. Depois de ultrapassadas as corredeiras, vem o remanso, o corpo se entrega ao cansaço e o espírito à doce sensação do dever cumprido. A primeira lição é a de que, a cada dia, a vida insiste em demonstrar que somos apenas depositários fiéis desta casca que nos reveste. E que tudo o que temos e acumulamos não significa nada, diante da grandeza do infinito a da teimosia do destino em fazer tudo à sua maneira, independentemente da nossa vontade. E a verdadeira graça da vida é aceitar que é sempre assim. É se lançar inteiro numa jornada, testar suas forças, seus limites, superando obstáculos e descobrindo que a experiência - boa ou má - só nos lapida. Ao fim do processo comungo com meus leitores este estado de gratidão. Em breve, uma nova série de ficção sairá quentinha do forno. É um prazer enorme estar de volta ao lado de tantos desconhecidos e de outros, nem tanto, que gostam de ouvir minha voz!
Pouca gente dispõe de duas horas, num dia de semana corrido como é para todos, para assistir, ao vivo, a uma entrevista com um presidente da República em fim de segundo mandato. Mas seis mil pessoas encontraram uma maneira de fazê-lo, na última quarta-feira, pela internet. E dezenas de milhares de outras procuraram tempo para assistir depois, gravada. Não era uma entrevista comum. No Palácio do Planalto, pela primeira vez na história do país, Lula acomodava em poltronas nobres, um grupo que se dispõe a falar com aqueles que não se sentem compreendidos, nem alcançados pelos meios de comunicação convencionais. O fato em si foi tão importante, que na rede mundial, a repercussão foi assustadora. Pelo tweeter, a "tag" #lulablogs chegou ao topo das citações, não só no Brasil, como em todo mundo. Diante disso, os portais, as redes de rádio e as de televisão se viram obrigados a abrir espaço para um fato que se impôs, independentemente da vontade dos pauteiros e editores das redações pelo país. Tudo isso consagra, na prática, o que empiricamente nós internautas e blogueiros estamos experimentando há algum tempo: o poder de difundir informação com capilaridade, rapidez e credibilidade, portanto, influência. A velha mídia já percebeu a força desta onda, mas faz de conta que ela ainda é uma "marolinha". Ao partir para o confronto com esses guerrilheiros, como decidiram fazer nos últimos dias, não se esqueçam das lições da Guerra do Vietnã. Vocês podem ter treinamento, arsenal e muito, muito dinheiro. Nós, do lado de cá, no meio da selva, temos a força de um ideal e conhecemos o território da notícia como poucos. Durante a entrevista, uma frase do presidente chamou a atenção. Lula disse, não com essas palavras, que a velha mídia vê os fatos sempre pelas lentes empoeiradas dos mesmos intérpretes. E isso já experimentei na prática na Corte do Cosme Velho. Economia: fulano e sicrano, Contas Públicas: beltrano, e assim por diante. É esse distanciamento da realidade o maior inimigo deles, não nós.
Nunca antes na história deste país um presidente da República abriu espaço na agenda para jornalistas independentes, que se expressam pela internet. É o que vai acontecer amanhã, em Brasília. O presidente Lula será entrevistado por Miro, Altino Machado, Rodrigo Vianna, sr. Cloaca, Conceição Lemes (pelo Viomundo, do Azenha), Edu Guimarães, Leandro Fortes, Pierre Lucena (do Acerto de Contas), Rovai e Túlio Vianna. A entrevista está marcada para às 9h da manhã no Palácio do Planalto e terá transmissão ao vivo pelo Blog do Planalto e pelos que quiserem incorportar o sinal retransmitir simultaneamente pela rede. É uma oportunidade diferente, porque é possível que os colegas façam perguntas alternativas ao que já foi consagrado pela grande imprensa, como sendo o senso comum. Oportunidade para o presidente responder, por exemplo, porque não apontou o dedo para as verdadeiras feridas da nossa sociedade e por que foi tolerante demais com alguns "atores" da nossa história? Quem sabe seja uma oportunidade também, agora que as luzes se apagam, de falar sobre determinados fatos, sem se preocupar se serão ou não distorcidos e manipulados desta vez. É uma senhora oportunidade, para nós e para ele. E não poderíamos estar melhor representados nesta hora. Sucesso a todos!
Passei a tarde de domingo esperando para fazer um boletim de ocorrência de furto de veículo. Nada tão extraordinário assim, considerando que furto de veículo no estado de São Paulo é tão rotineiro quanto levar o carro para lavar. Naquela tarde, por exemplo, foram três veículos. Numa cidade de 60 mil habitantes. Ao chegar à delegacia, dei de cara com o sujeto. Estava algemado, olhar cabisbaixo. Nunca tinha visto um estuprador de perto. E logo pensei: - Será que ele tem algo de diferente de nós? O quê? Parecia uma pessoa comum, como tantas outras... Talvez seja isso! Um estuprador é capaz de ser e agir como outra pessoa qualquer. O crime tinha acontecido hora antes em Valinhos. Ele violentou a vítima ameaçando-a com uma pequena faca serrilhada de cabo amarelo. Ela seguia com ele no carro pela Rodovia Anhanguera em direção a São Paulo. Será que pensava em matá-la? A cancela automática do pedágio não abriu e o carro da frente parou. Ele diminuiu a velocidade, o bastante para a garota abrir a porta e se jogar para fora. Um carro de polícia vinha logo atrás e quase passou por cima dela. Começou a perseguição. Ele levou a pior, depois de bater em outro carro. Na delegacia, os policiais estavam excitados. Tão excitados quanto jornalistas diante de uma queda de avião, ou um pescador ao fisgar um dos grandes. Muitos guardas, doze ao todo, se cumprimentavam com entusiasmo. Tudo meio patético, para quem vê naquele fato algo tão revelador da nossa miséria existencial. Depois de lavrado o fagrante, o estuprador foi encaminhado à carceragem, para aguardar remoção para o Centro de Detenção Provisória de Campinas. Neste momento, muitos fotografaram o acusado, espécie de troféu. A jovem repórter anotou cuidadosamente todas as informações e também pediu ao guarda que fotografasse o criminoso. Acho que preferiu não olhar diretamente para ele pela lente. Quando a delegacia esvaziou, Vera, a plantonista, ouviu um ruído na carceragem e foi checar. Voltou assustada e avisou: - O cara está tentando se matar! Pensei comigo: - A jovem repórter acaba de deixar a notícia atrás das grades, ensanguentada. Foi um corre-corre. Decidiram algemá-lo com as mãos para trás. Enquanto isso, o telefone tocava sem parar. Repórteres, esposas (três se apresentaram assim), a mãe e uma tia, que desabafou: - De novo! Quando puxaram a capivara do cidadão, lá estavam: duas condenações, uma de quatro anos e oito meses e a outra de dois anos e tanto. Ambas pelos mesmos crimes. Pensei: - Esse aí é caso perdido. Um detalhe me chamou a atenção: - O guarda que o prendeu disse que o homem tinha voz afeminada, achou até que fosse "gay". Seria mais um caso emblemático de vítima de abusos na infância? Ninguém vai querer contar toda a história. E sabe por quê? Porque agora que ele está preso, ninguém quer mais saber.
Da série ficção, a preferida dos internautas. Os repórteres entrevistam um dos mais importantes médicos do país, cotado inclusive para ser ministro da Saúde, numa dessas bolsas de apostas que são muito comuns às vésperas da posse de um novo Governo. Ele havia acabado de submeter a futura presidente a uma bateria de exames que, para felicidade geral da nação, nenhuma alteração apresentaram. É um fim de semana e o médico parece um pouco entediado de estar trabalhando. Lá fora um sol de 28 graus Celsius. Quem puxa a entrevista é o repórter daquela que já foi a maior e mais importante emissora do país, mas que vem perdendo espaço e prestígio numa velocidade assustadora. Ao final da entrevista, o repórter pergunta: - Qual o nome do senhor? Oras, que atrevimento, pensei. Como um repórter de plantão na frente de um hospital renomado, com assessoria de imprensa mais do que eficiente, é capaz de perguntar o nome do entrevistado diante das câmeras? De certo que ele só quis colaborar com o editor, mas faça o favor, é muito deselegante fazer isso com alguém naquele papel. É uma questão de liturgia. O cara, naquele momento, é "o cara". Não dá para perguntar quem é ele. Se o editor tiver alguma dúvida, que dê um google depois! Repórteres mais experientes (e educados) costumam fazer o seguinte: depois que o entrevistado se afasta ele diz: - Atenção editor, acabamos de gravar com o fulano de tal, médico, etc... Claro que a reação geral foi de pasmo mas, gentilmente, o médico gravou o nome. Depois, deu um sorrisinho amarelo, despediu-se de todos e, como diria Ari Barroso, "desapareceu no turbilhão da galeria". Quem erra pode até esquecer que errou, mas podem ter certeza que quem passa por este tipo de constrangimento nunca mais esquece. Eu, no lugar do repórter, começaria a torcer para o tal médico não virar ministro, hehehe.
"A Revolução vai colocá-lo no banco do motorista. A Revolução não será televisionada. A Revolução será ao vivo." (Gil Scott-Heron) E no caso do Brasil, sem armas (grifo meu).
O Prudente, um dos meus mais fiéis frequentadores, me sugeriu hoje que trocasse a grafia de Brazil no meu perfil. Ele não é o primeiro que faz esta recomendação. Nas ferramentas do blog, por mais que eu escolha o meu país grafado com "s", quando salvo a configuração ele exibe com "z". Tenho uma hipótese para isso. Minha conta, ao contrário de outras, está indexada nos Estados Unidos. Quando a criei, em 2006, o Blogger ainda não estava no país. Chegou meses depois, pelos braços da Globo ponto com e por alguma razão acho que, se minha conta tivesse sido cadastrada aqui, ela já teria sido bloqueada, hehehe. Lá nos States eles não me alcançam, pelo menos por hora. Mas mesmo que me alcançassem, "prudentemente" tenho um espelho do blog num servidor de algum país da Ásia, acho que na Índia, que traz todo o conteúdo de volta em algumas horas. Segredos que aprendi aqui na rede. Também acho que Brasil é com "s", assim como sempre defendi que Petrobras não fosse transformada em Petrobrax, como queriam os tucanos, nos tempos de FHC. Não gosto muito dessa informação no meu perfil, mas sou obrigado a aceitá-la, em função das circunstâncias. Se um dia a turma do Blogger quiser fazer a correção, fica a sugestão para eles. Já me convidaram, mais de uma vez, para migrar para o Wordpress. Resisto, porque daria um trabalho enorme e alguns arquivos teriam que ser recuperados um a um. Como tem também a questão dos direitos autorais, poderia ficar ainda mais complicado. Na vida há sempre a possibilidade de começar tudo de novo, é verdade. Aliás, não seria a primeira vez. Mas dá uma preguiça... Uma das vantagens que o Wordpress traz, segundo meus "consultores", é ter acesso ao Google Analytics, uma ferramenta que já é fundamental para transformar o blog em fonte de renda. Questões para 2011. Por enquanto deixa como está. Espero que a turma tolere o "z" por mais um tempo.
A pergunta do título deve ter martelado a cabeça dos que acompanharam a última série do DoLaDoDeLá. Teve visitante tão preocupado, que achou que eu tinha decidido escancarar a intimidade de algum parlamentar ou colega de profissão, o que seria - com razão - um absurdo. Entendo a preocupação, afinal, a internet é um território vasto para navegar e com paradas imprevisíveis. Alguns podem estar chegando ao blog agora, pela primeira vez. Por isso, tenho que ser redundante às vezes. Esta é a oitava série de ficção que escrevo no intervalo de um ano e meio. Aliás, recomendo a leitura das outras (ver arquivo). No início, tinha apenas 70 acessos por dia. Depois, saltei para 130, 300, 600 e agora parece que a frequência está estabilizada em 1.200. Durante o processo eleitoral, teve dia de eu ter mais de 2.300! Considero um feito. Para quem não tem vitrine, trabalha na cozinha do telejornalismo e conta com a divulgação generosa de poucos amigos e blogonautas, acho até que fui bem longe. Por isso, considero que, de tempos em tempos, os leitores mereçam uma satisfação. A ficção que escrevo tem sempre um ponto de partida na realidade. Mas a trama se desenvolve conforme a necessidade em manter a relevância, atingir o clímax e, se possível, surpreender, senão sempre, pelo menos no desfecho. Por isso, novos ingredientes vão sendo acrescentados e o relato vai modificando a história original. Mas isso não descaracteriza o sentido, que é o de alertar para o fato de que, com ou sem "glamour", as pessoas, todas de carne e osso, nascem, crescem e morrem. E nesse intervalo vivem experiências e sentimentos comuns a todos os seres humanos. Portanto, a identidade das personagens deixa de ser importante. Importante é a lógica do poder, do abuso e do arbítrio. E de como podemos ser ao mesmo tempo vítimas e algozes da nossa própria história. Mais uma vez só tenho a agradecê-los: obrigado e voltem sempre!
Santa acordou num quarto escuro e muito equipado. O padre segurava sua mão.
- Onde estou?
- Está segura, minha filha. Agora, o que mais precisa é descansar.
- Quem me trouxe para cá?
- Eu.
- Que lugar é esse?
- Uma clínica.
- O que vim fazer aqui?
- Durma em paz e amanhã conversamos, pode ser?
Mal o padre terminara de falar e Santa já estava de volta em um sono profundo, sedada mais uma vez.
Quando acordou foi informada pelo padre que, a pedido do Senador, da empresa e da mulher do jornalista todos, inclusive ele, acharam melhor tirar o bebê de seu ventre. Santa entrou em choque, estado que durou duas semanas. Durante este período, às vezes tentava chorar, mas as lágrimas não vinham. Foi tomada por um vazio, uma angústia que durou muitos meses. Neste período ficou na sacristia, sob os cuidados do padre, com a anuência do bispo. Afinal, ela só tinha mesmo o pai com quem contar. Aos poucos se recuperou e voltou a trabalhar. Mas a desilusão era tão grande, que não tinha mais vontade de se arrumar. Fora de peso e sempre descuidada foi ficando inviável aparecer na TV. Um dia o chefe a chamou e ofereceu uma vaga de editora de texto. Indiferente, Santa aceitou. Depois de um tempo arrumaram para ela um cargo de chefia sem grandes responsabilidades. Da única vez em que reencontrou o Senador, nos corredores da emissora, cuspiu-lhe na cara e chamou-o de porco. Ele fez como se não fosse com ele e seguiu em frente. Santa adotou seu segundo nome, Maria. Nunca mais ficou sem antidepressivos e remédios para dormir. Tem uma boneca, presente de Su, que cuida como fosse seu bebê. (não continua)
Santa contornou o Parque da Cidade a pé e seguiu em direção à W3 Sul. Queria encontrar a pequena igreja que tinha visto por ali. Se não estivesse enganada era na quadra 103. Atormentada, lembrou-se da devoção e religiosidade da avó. Foi quando as lágrimas começaram a descer. Entrou e foi direto ao confessionário. Em poucos minutos ouviu alguém cerrar a porta e desatou a falar. Contou da infância, das angústias, da falta do pai e da mãe. Falou da tia e da avó. Desabafou sobre a vida no Rio e tudo o que de errado fez. Não se sentia culpada, mas carregava um peso, algo do qual precisava se livrar, antes de ser mãe. O padre ouvia com atenção. Santa descreveu também como foi a chegada em Brasília e o romance com o Senador. Descreveu ainda o trabalho e ressaltou o carinho que cultivava pelo colega que estava agora num leito de UTI. Foi quando o padre, com forte sotaque italiano, disse:
- Posso ajudar você a dar um tempo daqui. Tenho algumas economias e posso levá-la para um lugar tranquilo, para que tenha seu bebê.
Achou aquela oferta curiosa e resolveu que ia pensar. Agradeceu, fez o sinal da cruz e saiu. Apanhou o primeiro táxi e seguiu para o hotel. Chegando lá recebeu a notícia de que dois homens haviam procurado por ela. Eram enviados do Senador, concluiu. Sobressaltada pensou que de protegida pudesse estar sendo perseguida.
- Eles disseram se iriam voltar?
- Sim, dentro de uma hora.
Santa tinha que correr. Subiu, pegou a mochila, colocou o que coube dentro e saiu apressada. Quando chegou de volta à igreja o padre não estava. Ficou desesperada, sem saber para onde ir. Foi quando uma mão grande veio por trás e colocou um lenço tapando sua boca e o nariz.
(continua)
- Alô.
- Sabe aquele jornalista que você me falou que estava saindo com a Santa às vezes?
- Sei.
- Vai lá e faça o serviço.
- Dá um susto ou apaga, chefe?
- Dá uma boa surra nele. Depois diga a ele que vai ser papai.
- Como sabe se é ele?
- Meu não pode ser, porque sou vasectomizado. Se a única pessoa com quem ela sai é ele, então é ele, oras.
- Mas não posso garantir que só saia com ele, chefe.
- Faça o serviço.
- Ok.
(...)
- Olá, trabalho com seu marido.
- Oi, já te vi na TV.
- Como ele está?
- O quadro é estável mais vai ficar em observação na UTI.
- Quando ele melhorar, diga que estive aqui.
- Digo sim, muito obrigada.
- Até logo.
(...)
- Alô.
- Su, encrencas.
- O que foi desta vez?
- Acho que o Senador desconfia que eu saía com o Ícaro.
- Por quê?
- Ele foi espancado por dois homens que disseram que a surra era presente para o futuro papai.
- Mas você não estava grávida do Senador?
- Não, Su, ele operou faz tempo e não pode mais ter filhos.
- Isso você não me contou. Quer dizer então que o pai...
- Hum-hum.
- Cara, você está mais enroscada do que eu pensava.
- Não sei o que fazer...
- Nem eu.
(continua)
- O que você acha que eu devo fazer?
- Se livrar do bebê, oras.
- Mas eu não quero.
- Santa, não seja boba menina, uma gravidez agora vai atrapalhar sua vida.
- Não se eu assumir sozinha.
- E você acha que o Senador vai querer?
- Sei lá, só vou saber depois de falar para ele.
- Eu acho uma fria. Você está começando uma carreira nova, não tem ninguém aí para te ajudar, vai carregar uma barriga nove meses, vai precisar de pelo menos mais dois anos até a criança não precisar tanto de você... Pense bem Santa.
- Vou conversar com ele primeiro.
- Faça o que achar melhor e, qualquer coisa, me liga.
- Ok, obrigada amiga.
- Se cuida.
(...)
- Alô.
- Quem te liga sou eu, lembra?
- Só estou ligando porque preciso muito falar com você.
- Conversamos na quinta, oras.
- Não vou conseguir esperar.
- Está bem.
- Pegue um táxi e vá para a casa do Lago. Te encontro lá às 18h.
- Ok.
(...)
- E, então?
- Estou grávida.
- Como assim?
- Estou grávida.
- E o que vai fazer?
- Vou ter o nenêm.
- O quê?
- Quero esse bebê.
- Você deve estar brincando...
- Não, estou decidida.
- Acho loucura. Você não vai poder contar comigo. Se alguém souber...
- Sabia, sabia, como sempre está só pensando em você.
- Veja bem, Santa, isso é uma loucura.
- Não faz mal. Não preciso de você!
- Pense mais um pouco, deixe as coisas ficarem mais calmas primeiro aí você decide...
- Já decidi.
- Bom, neste caso, acabou para mim.
- Você é quem sabe.
(continua)
Velhos piratas, sim, eles me roubaram,
Me venderam para navios mercantes
Minutos depois deles terem me tirado
De um buraco menos profundo
Mas minha mão foi fortalecida,
Pela a mão do todo poderoso
Nós avançamos nessa geração
Triunfantemente!
Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Canções de redenção
Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de nós pode libertar nossas mentes
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que cumprir inteiramente o Livro
Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Canções de redenção
Canções de redenção
Liberte-se da escravidão mental,
Ninguém além de você pode libertar sua mente
Não tenha medo da energia atômica,
Porque eles não podem parar o tempo
Por quanto tempo vão matar nossos profetas?
Enquanto nós permaneceremos de lado olhando
Huh, alguns dizem que é apenas uma parte disto
Nós temos que completar o Livro
Você não irá ajudar-me a cantar,
Essas canções de liberdade?
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Porque tudo o que eu sempre tive são:
Canções de redenção
Essas canções de liberdade
Canções de liberdade
- Su, é a Santa.
- Menina, tá viva?
- Sim, estou aqui em Brasília.
- Já faz tempo, heim?
- Oito meses.
- E o trabalho?
- É duro. Começo bem cedo, faço uma entrada ao vivo para o telejornal da manhã, gravo dois flashs para a programação local e faço uma reportagem para o telejornal da hora do almoço. Às vezes passo das duas, quando tenho que deixar alguma coisa gravada. E, uma vez por semana, gravo no estúdio para um programa da TV a cabo.
- Nossa, quanta coisa....
- É uma exploração o que eles fazem com a gente aqui. Você acredita que o meu salário é o piso de jornalista?
- Verdade?
- E se não quiser, tem fila para ficar com a vaga.
- Covardes, não?
- Nem me fale...
- E o bofe?
- Já estou cansada dele, mas liga duas vezes por semana e toda quinta-feira à noite nos encontramos.
- E o que faz nos fins de semana?
- Às vezes saio com uma colega, mas a cidade é muito chata. E você, Su?
- Na mesma. De casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Faço meus shows no fim de semana e quando meu negrão quer passo a noite com ele.
- Su, preciso te contar uma coisa.
- É? Diga.
- Acho que estou grávida.
(continua)
Com indicação do Senador a vaga apareceu fácil na emissora. A jovem jornalista era bonita, tinha voz boa e sabia bem como se comportar. Mas tinha muita dificuldade em juntar as partes de uma reportagem de TV. Contou com a ajuda sempre prestativa do chefe de reportagem da tarde que, depois do expediente, ía para a ilha de edição com ela, mostrava os trechos mais importantes das entrevistas e dava idéias de como fazer para amarrar o texto. E, claro, sempre que tinha chance, passava uma cantada na garota. Ela gostava de tudo, inclusive dos galanteios do experiente jornalista, casado e pai de duas lindas filhas já adultas. Numa noite, num bar, achou que podia levar aquela história adiante, só para experimentar. Dali em diante passaram a se curtir de vez em quando.
- Como vai o trabalho? Perguntou o Senador.
- Vai bem, meu amor. Acho que estou evoluindo. O Ícaro, chefe de reportagem, é um sujeito muito legal. Faz tudo o que está ao seu alcance para ajudar.
- Ah, que ótimo, respodeu o Senador, meio desinteressado.
- O que vamos fazer?
- O de sempre, oras.
- Então tá.
Os dois seguiram no carro de vidros escuros até a mansão mobiliada à venda no Lago Norte, onde estavam acostumados a se encontrar. Era sempre a mesma coisa. Ela apanhava um táxi na porta do hotel, seguia para a Asa Norte e, no ponto pré-determinando, esperava discretamente o carro dele chegar. Sempre tinha uma mochila grande com fantasias (enfermeira, coelhinha, can-can...), maquiagem, cremes e uma troca de roupa, para o caso de numa emergência o pessoal da TV chamar. Os encontros duravam algumas horas. Champagne francês nunca faltou e quase sempre os dois recebiam comida de algum restaurante, pizzaria ou lanchonete que mandavam entregar. Depois de tudo, ele sempre a deixava num posto de gasolina onde ela pegava outro táxi para voltar ao hotel. (continua)
- Vamos pela orla, respondeu Santa.
Enquanto o carro seguia veloz, a jovem jornalista fazia planos. Faria carreira de repórter de política em Brasília. Se tudo desse certo poderia até se casar. O Senador seria apenas a ponte para um caminho seguro. Rico e maduro, não daria um pingo de trabalho, desde que ela soubesse como levar. Mas teria que ser bastante cuidadosa, para ninguém desconfiar. Em Brasília? Difícil...
- Boa tarde.
- Tenho uma reserva.
- Preencha esta ficha, por favor.
- Claro.
- Aqui estão as chaves. O apartamento é o 1202.
- Obrigada.
O hotel era no Plano Piloto. Da varanda avistava-se a Esplanada dos Ministérios e lá no final o Congresso Nacional. A emissora era próxima. Durante algum tempo era ali que ela iria morar.
- Alô.
- Fez boa viagem, meu bem?
- Oi meu amor, fiz sim. Quando vamos nos ver.
- Na quinta-feira combinamos como fazer.
- E até lá eu faço o quê?
- Alugue um carro, passeie, vá às compras. Aproveite! Você ainda está com aquele cartão de crédito que deixei com você?
- Sim.
- Então agora ele é todo seu, pode gastar.
- É mesmo?
- É mesmo. (continua)
- Su?
- Sim.
- Estou indo para Brasília.
- É mesmo?
- É. Vou a convite do Senador.
- Juuuuuuuura!
- Ele mandou passagem e disse que vai arrumar um emprego para mim como repórter de TV.
- Cuide-se menina e qualquer coisa que precisar é só ligar.
- Um beijo minha amiga. Você mora no meu coração.
- Você também.
Su desligou o telefone e pôs-se a lembrar. Santa estava na pior quando se conheceram. Sem mais nem menos, o dinheiro que o prefeito mandava minguou. E voltar para o norte de Minas nem pensar. Para pagar faculdade e todas as despesas no Rio, só mesmo "usando o diploma que Deus deu". A boate em Copacabana era ponto de encontro de drag queens e garotas de programa. Santa era uma unanimidade, principalmente entre os fuzileiros navais, que vinham de intercâmbio. Santa também frequentava os books dos principais hotéis da zona Sul. E, sempre que convidavam, figurava num programa de humor.
- À beira-mar ou pelo Túnel Rebouças? Perguntou o taxista. (continua)
Foi à beira do açude que o pai chamou o filho para conversar. Homem de posses, coronel do sertão alagoano, tinha planos para o rapaz.
- Você vai para a capital estudar.
- Sim senhor, meu pai.
- Quero que volte doutor. Não se preocupe com dinheiro. Do que precisar eu posso pagar.
- Obrigado meu pai. Vou te encher de orgulho. Não vais ter do que reclamar.
- Faço fé no seu futuro, meu filho.
E assim foi. Quando voltou advogado, no primeiro pleito virou vereador. Depois prefeito, deputado estadual e por pouco não concorreu a governador. Mas os planos do partido eram outros e ele foi para Brasília, como deputado federal. A carreira foi rápida. Da formatura como advogado à diplomação na Câmara Federal apenas 10 anos se passaram. Habilidoso, logo pegou gosto pelos negócios da política. Aprendeu a mexer no orçamento da União, a fazer favores para deputados do baixo clero e o melhor, a concentrar poder. Não demorou muito virou líder de bancada, depois de partido e de governo. Com a reeleição, duas vezes, o caminho estava aberto para virar Senador. (continua)
Foi numa procissão em louvou à padroeira que eles se conheceram. Ela com apenas 14 anos de idade e o missionário, recém chegado da Itália, com 23. Foi um encontro lindo, arrebatador. O padre fora designado para a pequena paróquia do Vale do Jequitinhonha. A garota morava a cerca de 50 km de distância, numa localidade próxima. Não tardou e passaram a manter um romance secreto. A mãe da menina, viúva, beata e ceramista, fazia vistas grossas. Criava a filha caçula e a irmã mais velha, com a ajuda da avó. O marido, caminhoneiro, tinha morrido ao volante, num acidente horroroso. Não passaram muitos meses e a garota engravidou. Assim que a notícia correu, o padre foi transferido para outra diocese bem distante, destino que o bispo se recusava a revelar. A gravidez foi de risco. É como se no ventre a garota fizesse crescer tudo aquilo que quisera ser. No oitavo mês a bolsa estourou. Para não perder o bebê, a menina foi levada até a capital, onde veio a falecer. À pequena sobrevivende, alva e dos olhos bem verdes, deram o nome de Santa. Abençoada, cresceu sob o manto sagrado da igreja. Não havia necessidade da família que o bispo deixasse de atender. Bastava apenas uma solicitação e logo o mensageiro trazia o envelope com o dinheiro do dízimo, desviado para nobres fins. O pacto de silêncio incluia a irmã da morta, a mãe e a avó. Santa cresceu com conforto. Nunca entendeu o papel do bispo, nem nunca teve curiosidade de saber quem era seu pai. A tia virou funcionária pública e durante muitos anos foi confidente fiel e amante do prefeito da localidade. E foi graças a ela que Santa conseguiu prosserguir no Rio os estudos em Comunicação Social. (continua)
Nesses dias de mar calmo, depois que a tormenta eleitoral passou, fiquei pensando se não seria o caso de dar início a uma nova série de ficção. A inspiração me trouxe um roteiro bem original baseado, claro, mais uma vez, em fatos reais. É um processo muito interessante esse de criar. Primeiro, vem à cabeça os personagens centrais da trama, neste caso: um homem poderoso e uma mulher em ascenção social. Depois, os detalhes da história vão sendo consolidados: De onde vem a mulher? E de onde vem o homem? Como combinar as duas histórias e dar a elas sentido comum? Quais os enigmas da trama? Em função disso, vai-se desenvolvendo o roteiro. Conforme as personagens vão-se construindo e se articulando, faz-se necessário um desfecho e a "moral da história", Quando todas essas perguntas estão satisfatoriamente respondidas, começa o movimento espasmódico de criação. É como se o autor entrasse num transe criativo, a exemplo de um surto psicótico. Ele passa a ser "obsediado" pelas personagens, que insistem em tomá-lo de assalto em momentos, dos mais serenos, aos mais conturbados. Autor e obra estabelecem uma relação dialética. Uma guerra começa entre suas convições (aquilo que funciona como seu "ser no mundo") e uma pressão enorme daquele "outro" que quer se impor. Portanto, é hora de escrever, freneticamente. Mas desde que o leitor, o objetivo-fim, esteja pronto a mergulhar "no mundo novo, desconhecido, enigmático e surpreendente" da nova trama. Estou pronto. Dependo de vocês. Que tal? Vamos nessa? Espero comentários de incentivo para começar...
Passadas as eleições, muita gente veio comentar ter sido acometida por uma espécie de "ressaca", uma preguiça, um cansaço. É como se, passado o estado de alerta permanente, a adrenalina finalmente abaixasse e permitisse a todos nós, coadjuvantes do processo, a pausa necessária para cuidar do cotidiano e das tantas demandas sempre reprimidas na vida. Foram dias difícies. Muitos simpatizantes e militantes virtuais se dedicaram mais do que deveriam ou poderiam. O empenho foi tamanho que, nos últimos dias, teve gente que virou a noite numa espécie de vigília contra os trapaceiros e caluniadores de plantão, e muitos - como eu - de tão excitados, não conseguiram dormir direito por várias noites seguidas. Afinal, estávamos em guerra contra um inimigo que sabíamos, poderia nos destruir, caso chegasse ao poder. Agora, enquanto a vida segue seu curso normal, somos tomados por essa satisfação do dever cumprido e cheios de esperança seguimos. Quem disse que construir um país democrático e menos desigual não dá trabalho?
Conversar com uma rede de TV ultraconservadora, que ao longo dos últimos oito anos deu sinais claros de que não dá trégua a um governo popular e democrático, não será tarefa fácil para a nova equipe liderada por Dilma. A não ser que os partícipes do novo gabinete tenham em mãos nomes de repórteres confiáveis o bastante para servirem de interface entre a Corte do Cosme Velho e as "novas fontes". Depois de algumas sondagens nos últimos dias, a equipe de transição encontrou nos quadros da firma três veteranas capazes de levar ao público informações confiáveis, corretas e sem distorção. Resta saber se elas serão capazes também de enfrentar a fúria do Guardião da Doutrina da Fé, derrotado mais uma vez nesta última eleição. Ao que parece, há espaço para isso, uma vez que a concorrência cresce e tende a ocupar os espaços vazios, caso a emissora "Q" (de queda de audiência) não ceda diante da nova realidade. Desmoralizados, os herdeiros tendem a flexibilizar e poderão contar com as "meninas" que passaram os últimos tempos, ora encostadas, ora exiladas em escritórios internacionais e em telejornais de menor visibilidade. Como boa funcionária de carreira da Administração Federal, conhecedora de quem é quem no "mundinho da mídia" brasiliense, Dilma certamente concordará com os nomes apontados. A futura presidente sabe que as três são sérias e experientes e mais: são mulheres, o que "agrega valor". A partir de agora, portanto, está em jogo, além de quem tem a "voz e a verba" nos cargos-chave da República, os repórteres que entrarão em cena com informações quentes, exclusivas. Serão dias de muito corre-corre e empurra-empurra nas coxias.
"Espera-se que, passados os dias mais amargos do malogro eleitoral, José Serra recobrará a serenidade e entenderá que a sua biografia pode encerrar-se, sem nenhum desdouro, mesmo que não chegue à Presidência. Ele prestou assinalados serviços ao país, como líder estudantil, parlamentar e ministro da Saúde, e particularmente a São Paulo, como prefeito e governador, não obstante sua cumplicidade nas privatizações e na abertura do mercado financeiro. Para que volte a candidatar-se, é preciso que se dedique a conhecer realmente o Brasil. Conhecer não é visitar uma cidade ou outra, por algumas horas. É aceitar sua humanidade, ler os seus escritores, assimilar a fantástica sabedoria do povo, enfim, participar de seus sonhos, solidarizar-se e comover-se com seus sofrimentos – enfim, integrar-se em sua realidade." por Mauro Santayana. Para ir à fonte: http://www.jblog.com.br/politica.php
Não dá para perder a entrevista coletiva que o presidente Lula concedeu hoje de manhã no Palácio do Planalto. Em 29 minutos ele desenhou um retrato acabado do processo eleitoral brasileiro. Despiu-se de rancor e revanchismo e demonstrou porque 83% por cento dos brasileiros seriam capazes de assinar um cheque em branco para ele. Criticou as futricas sobre quem ocupará o próximo governo e alfinetou os jornalistas que, por falta de assunto, de experiência ou por má fé, ficam especulando sobre o futuro gabinete. Deixou claro que quem escolherá o time que vai governar o Brasil é a futura presidente, e somente ela. Explicou ainda que tem tempo de validade no cargo e que se transformará depois do dia primeiro de janeiro se transformará num torcedor uniformizado do novo governo, sem corneta. Preciso, abusou das metáforas. Disse que o carro está em marcha, a cento e vinte por hora, com pneus e regulagem ok, e que só depende de Dilma acelerar, com criatividade. Rechaçou os críticos dizendo que, para governar, é preciso seriedade, compromisso e presivibilidade e reafirmou a confiança de que Dilma tem experiência suficiente para levar adiante seu projeto. Aconselhou a oposição a olhar mais pelo Brasil, distinguindo interesse nacional de disputa político-partidária. Clamou pelo novo desafio de se conseguir recursos para a saúde, mas foi enfático ao dizer que medidas impopulares não estão em jogo. Sobre o câmbio, acusou os EUA e a China de praticarem uma guerra cambial. O primeiro, por questões fiscais e, a segunda, por questões econômicas. E acrescentou que é sobre isso que ele e Dilma vão brigar na próxima reunião do G-20, na semana que vem, em Seul. Disse ainda que o salário mínimo pode continuar recuperando valor com força e considerou possível a hipótese de antecipação de reajustes para alavancar o mercado interno. No entanto, aproveitou para criticar as promessas eleitoreiras que foram feitas neste sentido. Falou que, tanto a compra dos caças, quanto a escolha do(a) novo(a) ministro(a) do STF não foram tratadas ainda com Dilma e, feliz da vida, se despediu deixando a nova presidente com os jornalistas.
Aproveitei a manhã do dia de Finados para levar o Gabriel ao parque, um dos maiores da cidade. Enquanto ele brincava na areia e com amiguinhos ocasionais, eu tentava ler o jornal. Tem sido um exercício difícil. Logo de cara, textos para demonstrar que a agora presidente Dilma não terá autonomia para governar. Aí eu pergunto: como alguém com a trajetória e experiência que ela acumulou pode abrir mão de um direito que acaba de conquistar nas urnas, ainda que apadrinhada por Lula? Essa atitude dos colunistas de jornal tem a imaturidade típica das crianças que, quando perdem, precisam diminuir para o mundo, mais para si próprias, a dimensão da derrota, para suportar o fracasso. Isso é ruim porque desperdiçam uma enorme oportunidade de aprender com seus erros de avaliação e suas próprias limitações analíticas. Outra questão insuportável são as especulações em torno de quem fará parte de futuro governo. Seria mais honesto dizer: olha, para esses cargos há essas pessoas interessadas, ou porque fazem campanha nos bastidores, ou porque seus partidos querem ocupar tais e tais espaços. Seria mais simples do que ficar conjecturando e, ao conjecturar, ficar transformando parceiros em inimigos e semeando a discórdia quando, na verdade, o que está em jogo agora não é mais a divisão e sim o diálogo para construir um governo. Mais uma atitude típica das crianças, que quando veem outras duas em disputa provocam: - Ih, olha só o que ele fez? Eu, se fosse você, não deixava! Eu no seu lugar partia para cima... Agora é ter paciência para suportar esse jogo de empurra, que deve ocupar páginas e páginas de jornal até o Carnaval. Não é à toa que esta é a época do ano em que menos se lê jornal. Aliás, existe algo mais anacrônico do que ler jornal nos dias de hoje, de maneira geral? E para completar o quadro desolador da imprensa brasileira, uma propaganda de página inteira tentando convencer o leitor que o tablóide não tem lado. Ai, ai, viu....
Minha sogra ligou esta manhã para me parabenizar pela vitória de Dilma. Elogiou a dedicação em defender minhas idéias de forma respeitosa e republicana e desejou votos de sucesso à nossa futura governante, a quem cabe agora governar para todos os brasileiros. O gesto da "adversária política" dona Ada não chega a surpreender. Afinal, este comportamento lúcido e sereno é o mesmo que encontramos nas ruas, nesta segunda-feira. Ao contrário do que muitos imaginam, o brasileiro que ora está na situação, ora na oposição, em geral sabe perder e respeitar o adversário. E não dá para ser diferente, afinal, divergir assim é o maior exemplo de maturidade política, de quem prefere o diálogo à força. Agora, passada a "festa da democracia", e antes das especulações sobre quem comporá o futuro gabinete, é importante no entanto tentar entender qual é o recado que vem das urnas. A exemplo do primeiro turno, apenas 3 de cada 4 brasileiros com direito a voto participaram do processo. Isso significa que as abstenções, os votos brancos e nulos dizem que para uma parcela do eleitorado, tanto faz quem será nosso futuro governante. E, seja qual for o escolido, a vida seguirá seu curso. Dos votos válidos (cerca de 75% dos eleitores) Dilma ficou com 3 da cada 5 e Serra ficou com 2 de cada 5. Isso quer dizer que uma parcela significativa vai seguir desconfiada, fiscalizando e cobrando resultados. Foi por esta razão que Serra, o candidato derrotado, ressaltou a importância dos votos que conquistou no segundo turno. Para quem achava que o PSDB estaria morto, foi o partido que mais elegeu governadores, oito, e tem nas mãos máquinas ricas e influentes, como São Paulo e Minas Gerais, por exemplo. Além do mais, agregou setores conservadores e ultraconservadores da nossa sociedade que têm, desde sempre, o apoio explícito da velha mídia, dos bancos, do capital internacional, dos especuladores e rentistas. Mas uma onda se levanta consistentemente, ano após ano, e deve ser observada com atenção: é o avanço do PSB, o Partido Socialista Brasileiro, cujo maior representante hoje é Ciro Gomes, e elegeu 6 governadores, mais do que o PT e o PMDB, os dois principais partidos da coligação, com 5 cada. Partido da base aliada que cresce, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país. De fiel da balança, pode vir a ser um protagonista importante no futuro governo. Se a aliança governista tem PT e PMDB, não pode mais desprezar o PSB.