30 junho 2010

Desculpas

Achamos que não viveríamos para ver o todo-poderoso presidente da Fifa Joseph Blatter pedir desculpas por erros de arbitragem na Copa. Todos viram no telão do estádio o escandaloso primeiro gol do atacante argentino Tevez, impedido, contra o México que, depois disso, se perdeu em campo. Também foi acintoso o erro do juíz uruguaio ao não validar o gol de Lampard, que daria o empate à Inglaterra contra a Alemanha. Ao contrário de outras Copas, os juizes já estão de volta aos seus países de origem e não apitarão mais jogos. E a Federação admitiu pela primeira vez considerar o uso da tecnologia para evitar erros de tamanha gravidade. Mas o que teria acontecido, Blatter mudou? Não, ele está sendo pressionado a ser mais transparente. E onde há pressão, há recuo. As acusações de corrupção na entidade, superfaturamento e desvio de dinheiro na promoção de eventos e distribuição de propinas entre os cartolas têm desgastado a imagem da Federação, que precisa reagir para não perder espaço. Por isso o recuo. Ainda assim, chamam a atenção as presenças de um representante africano nas quartas, para manter a chama acesa, quatro sul-americanos (afinal a próxima copa é em nosso continente) e apenas três europeus: Alemanha, Holanda e Espanha. Um cruzamento curioso de patrocinadores mostra que a marca esportiva patrocinadora da Fifa, a Adidas, estará obrigatoriamente na final (é assim desde 1978!). Para quem gosta de teorias conspiratórias esses ingredientes fazem um prato cheio. E, seguindo a lógica do negócio, seria ótimo que o título ficasse com um país da América do Sul, não acham? Seria o Brasil? Começo a duvidar...

29 junho 2010

A Coletiva

A entrevista coletiva é a arena preferida dos jornalistas. É ali que eles "jantam" o entrevistado. Foi o que tentaram fazer com o técnico da seleção brasileira no início da Copa, lembram-se? Mas não conseguiram. Aí exercitaram um pouco o espírito de corpo, depois o de porco e por fim desistiram. Na coletiva desta segunda-feira estavam todos mansinhos. Também, 3x0 retumbante... Mas nossos meninos não jogaram tudo o que uma seleção brasileira é capaz. Convenceu? Sim, mas sabemos que Kaká e Luís Fabiano estão sem ritmo de jogo, que Robinho não está na sua melhor fase e que os grandes em campo foram Lúcio (mais uma vez), Juan e Júlio Cesar, os três defensores, e Gilberto Silva, nosso curinga no meio de campo. Ainda assim, temos atacantes tão brilhantes que mesmo em má fase são capazes de marcar. Mas não queria falar sobre o jogo e sim sobre a coletiva. Muitos dos colegas se comportaram como se fossem as estrelas. Se esqueceram de uma lição fundamental: a estrela é a notícia! Os figurões são tomados pela arrogância, empáfia, soberba... A consagração fez mal a eles. Estão mais preocupados com os hotéis de luxo, os jantares e as conversas com os cartolas. Há muito deixaram de fazer a lição de casa que é se dedicar ao ofício de apurar a informação. Aí tentam compensar com a experiência e muita, muita opinião. Eles iludem os colegas e o público por um tempo, depois vão perdendo relevância e, em pouco tempo, quem não se interessa mais por eles são os próprios patrões. Um bom exercício é reparar como os jornalistas sóbrios são os que mais acertam em coberturas assim. E quase sempre não precisam sequer ir às coletivas.

28 junho 2010

Porque hoje é uma Segunda-feira atípica


Chupa Urubuzada! Teve colunista que tripudiou o Dunga comparando-o ao Serra, pode? Chuuuuuuuuuuuuuuupa!

27 junho 2010

Porque hoje é Domingo

26 junho 2010

Porque hoje é Sábado

25 junho 2010

Dilma não é a babá de Mara

Conheci Mara Gabrilli no início dos anos 80. Estudamos juntos no Colégio Jabaquara, que era para onde os incapazes de cursar o Colégio Bandeirantes, ou por indisciplina, ou por incompetência, eram matriculados. Mara era a sex simbol da sala. Quando vestia sua calça Fiorucci italiana branca a galera ia ao delírio. Foi talvez a pessoa mais rica que conheci. Ela e o Beto, seu irmão tão doce, gentil e delicado andavam de Mercedes-Benz com motorista uniformizado e tudo. A mãe dela, apesar de seus quase cinqüenta, era tão vistosa quanto a filha. De vez em quando aparecia para apanhar Mara na escola num reluzente mercedes esportivo e conversível. Mara fazia tênis ao lado do clube Pinheiros e morava numa mansão no ABC, com mordomo, governanta, empregada e mesa farta. O pai enriqueceu oferecendo transporte público aos metalúrgicos e outros trabalhadores da base da pirâmide. Certa vez Mara nos convidou para ir para a chácara da família, em Atibaia. Uma amiga que morava na zona Norte e eu fomos de ônibus, a partir do Terminal Rodoviário Tietê. O motorista nos esperava na cidade. Não era uma chácara como as que estamos habituados a ver por aí. Era um clube de campo! Lago, piscina, quadra de tênis iluminada à noite, adega, lareira... Um espetáculo! Atrás da casa se deu um acontecimento que nunca me esqueci. Enquanto vigiávamos, para ver se ninguém aparecia, Mara descalça andava na grama. Já tinha dezessete anos quando nos confidenciou que a mãe não a deixava por os pés no chão. Reencontrei-a no início dos anos 90 em frente ao Espaço Unibanco, na Rua Augusta. Ela tinha sido vitimada por um acidente e perdido a mobilidade. Aderiu à causa dos deficientes físicos com brilhantismo. Mas, convenhamos, não dá para esperar que ela goste da Dilma, não é mesmo? E não por culpa dela, por ser uma questão de berço.

24 junho 2010

Esquenta

Entramos nas vinte e quatro horas que antecedem a última partida da seleção brasileira na etapa classificatória. Nenhum brasileiro admite esta hipótese, mas podemos até perder para Portugal. Só que dificilmente isso acontecerá, diz o nosso comentarista informal Carlos Dorneles, que tem um argumento arrebatador: os portugueses vão entrar de nariz empinado e isso é tudo o que o Brasil gosta. Concluo que time que entra em campo de salto alto desfila. E quem desfila em campo gramado, não raro, escorrega e cai. Mas o que está mesmo me chamando a atenção nesta Copa é que, desta vez, não tem aquele oba-oba em cima dos jogadores, aquele clima interminável de já ganhou, somos os melhores, uns são mais célebres do que os outros... Como o clima é sóbrio, sereno, os torcedores ficam menos ansiosos e os ânimos menos exaltados, o que diminui a euforia exagerada e muitas vezes desnecessária. Assim, o efeito montanha russa da cobertura vira mero gira-gira de parquinho. Resultado da era Dunga de tratar a imprensinha. (Imprensinha é o apelido dado pelo meu amigo Tito. Tito é amigo desde os tempos em que o mar morto estava doente. Velha essa, não?). Tito na intimidade está aqui: ( http://expatriatedinlondon.blogspot.com ). Ao apostar no conjunto e tirar os jogadores dos holofotes "cegantes" da mídia, o técnico faz um favor à equipe e aos brasileiros. Palpite do Dorneles: 2x1 para o Brasil. Palpite meu: 1x1. Em ambos os casos o Brasil sai classificado em primeiro da chave. Agora é esperar...

23 junho 2010

David e Golias


David com a cabeça de Golias, de Caravaggio

Os últimos episódios envolvendo a principal empresa de comunicação do país, as transmissões dos jogos da Copa e a disputa com o técnico da seleção brasileira, Dunga, mostram como a internet permite uma experiência revolucionária, não só para manifestação das divergências com espontaneadade, mas também para a organização das forças de resistência. É claro que quem está no poder vai chamar isso de intolerância, autoritarismo e, até, de terrorismo. É a doutrina do terror consagrada entre os "neocons". Afinal, espalhar o medo é um recurso de mobilização. Os jornalões fazem isso hoje, em coro. Tentam provar que o que existe é um cerceamento do direito de informar quando, na verdade, o que está acontecendo é uma denúncia sobre práticas de manipulação e distorção, por causa de interesses comerciais contrariados. Essa disputa política não se dá apenas nos meios de comunicação. Veja os Estados Unidos, por exemplo. É exatamente assim que agem ao impor sanções ao Irã. Com o Estado de Israel não é diferente, para justificar o massacre ao povo palestino. É assim também na China, quando sufoca o Tibete, e na Rússia, quando tenta calar o grito de liberdade na Chechênia... São muitos exemplos. Portanto, o que está em jogo nesta disputa é poder, poder de informar, direito ao contraditório e à critica. O fim do privilégio, do pensamento único, do cartel, do monopólio, do absolutismo que leva à tirania. Devemos comemorar, porque estamos assistindo de camarote à uma revolução pacífica, cuja armas são virtuais. E não tenham dúvidas, no final David sairá vitorioso.

22 junho 2010

Alô alô, responde

- Alô.
- Como vai comandante?
- Bem, e você, meu caro?
- Muito bem também. O país parou ontem para discutir sua reação, depois do jogo de domingo.
- Eu sei, eu sei... Tenho visto as informações.
- Mas, afinal, o que aconteceu?
- Eu estava respondendo à pergunta quando o jornalista começou a me criticar pelo telefone, na minha frente. Perguntei se era comigo e ele amarelou. Foi um cagão. E não é a primeira vez.
- A empresa em que ele trabalha te criticou abertamente durante o programa de maior audiência anteontem à noite.
- Eles vão me criticar enquanto durar a Copa do Mundo. E sabe por quê? Porque eles perderam a exclusividade de falar com quem queriam, a hora que queriam, de pressionar, de escalar jogador. Acabou a bagunça! Acabou a zona mista (área reservada da concentração onde jogadores, jornalistas, patrocinadores, convidados ficavam juntos). Fechei o treino... Tudo isso deixou eles muito irritados. Só que eles não podem falar abertamente, então eles usam seus "vassalos", como você costuma chamar a matilha de pit bulls aí no DoLaDoDeLá. No caso desse jornalista, por que ninguém pergunta o que ele fazia no início da carreira? Por que ninguém conta que tem gente que se aproveita do talento de profissionais sérios para subir na profissão?
- Estão dizendo até que você pode ser punido pela Fifa por ter...
- Não me importo! Meu propósito é ganhar a Copa do Mundo e vou fazer tudo o que for possível para isso. Não ligo para o que eles falam e fazem. Nunca liguei. Ninguém se lembra, mas eles tentaram me derrubar várias vezes. Fizeram campanha contra mim nas eliminatórias. No fundo, no fundo, eles torcem para a seleção perder sabe para quê? Para sair dizendo: viu só? Se fosse do nosso jeito... É um sentimento tão mesquinho que eles querem que eu me dê mal, não se importando com o resultado.
- É que as coisas sempre foram do jeito deles...
- Foram, não são mais! Quando é que eles vão acordar para isso! Acabou o pensamento único, acabou a manipulação, acabou o monopólio. Se não entenderem por bem, vão entender por mal.
- Posso publicar nossa conversa no blog?
- Faça como de costume, se alguém perguntar se falou, negue. Um abraço.
- Um abraço Dunga. E obrigado.
- Disponha.

21 junho 2010

Os Urubus de Plantão

Eu tentei evitar. Fiquei tangenciando, escolhendo abordagens paralelas, mas hoje não dá. Tenho que falar da seleção e do nosso técnico. Até ontem o Dunga era considerado burro, truculento, autoritário, até de nazi-fascista chamaram o cara na televisão. Tudo porque ele tem sido coerente desde o início. Fez uma boa campanha nas eliminatórias e trouxe a equipe até aqui apostando no conjunto. Insistiu em jogadores considerados mortos, sobretudo pelas críticas carioca e paulista: como por exemplo o Robinho, que tentaram apagar na Inglaterra, o Luis Fabiano que está fora do eixo Madrid-Milão e o próprio Kaká, contundido às vésperas do mundial. E assim, de súbito, silenciou os corneteiros de plantão. O que se viu neste domingo não chegou a ser um espetáculo tempestuoso, digno dos melhores que já vimos a seleção jogar, mas não faltaram lampejos do consagrado futebol-arte. Que coisa, né, às vezes é preciso um jumento para levar o peso nas costas morro acima, não é mesmo? As escolhas foram claras: Dunga apostou na experiência (a seleção é a que tem a maior faixa etária média: pouco mais de 29 anos) porque ele sabe que lá na frente a camisa pesa e a responsabilidade também. Muitos já disputaram finais em seus clubes e a maioria deles já é consagrada, convive com a fama diariamente. Também não podemos nos esquecer que um atleta de ponta precisa ter rotina (dieta, treino, disciplina) coisas que os mais jovens são tentados a deixar de lado quando os holofotes acendem e quase sempre cegam. Dá para imaginar o que se passa na cabeça de um jovem que tem a atenção de 200 milhões de brasileiros, fora os gringos? Multiplica por dez, vinte... Não é fácil. Mas está ficando, com a ajuda de Dunga e suas escolhas. Uma delas é deixar os urubus da imprensa bem longe deles. Espero que dê certo.

20 junho 2010

Porque é domingo

"Histórias têm sido usadas para expropriar e tornar maligno.
Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar.
Histórias podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias podem reparar essa dignidade perdida."
(Chimamanda Ngozi Adichie, escritora nigeriana)


Na base do vídeo dá para escolher legendas em português!

O vídeo não é recente, é de outubro do ano passado, mas a mensagem que ele encerra é atualíssima. Vale a pena assistir, principalmente porque hoje é domingo.

19 junho 2010

Porque hoje é sábado

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
(Vinícius de Moraes)

18 junho 2010

Maradona x Dunga

Reparem como Maradona, agora no papel de técnico, está roubando a cena nesta Copa do Mundo. A genialidade de craque se manifesta desta vez fora dos gramados. Não apenas pelo carisma, mas pela capacidade de criar polêmica em torno de si e atrair os holofotes da mídia pela excentricidade e extravagância. De certa forma ele alimenta na imprensa o culto à celebridade, à rivalidade, à disputa cívica e ufanista. E desperta sentimentos que encontram acolhida fácil no grande público: o exibicionismo, a ostentação nacionalista, o revanchismo... Portanto, como "projeto político", o craque é tudo o que deveríamos repudiar. E é o que se apelidou de conduta "marqueteira". Curiosamente, em contraste com o ídolo argentino, está o técnico canarinho Dunga, cujas principais características são a discrição e a disciplina. Tudo o que a imprensa não gosta e, por extensão, o público também. Há uma máxima que se ensina nos cursos de jornalismo que diz: o cachorro morder o homem não é notícia. Notícia é quando o homem morde o cachorro. Tem outra: carro atropelar bicicleta não é notícia, mas bicicleta atropelar carro... Claro que são apenas metáforas. Se o cão for um pit bull e o ciclista uma celebridade, ou mesmo se houver circunstâncias curiosas em ambas as histórias, elas serão notícia sim! O importante a ressaltar é a necessidade que a imprensa tem de procurar o "extraordinário". É este o ganha-pão dos jornalistas. Lembro-me de ouvir uma passagem curiosa que se deu num jornal de Marília, interior de São Paulo, nos tempos em que o oeste paulista tinha relevância econômica e política no estado. O repórter iniciante chega à redação. O chefe de reportagem diz: você vai cobrir o treino de futebol do Marília Atlético Clube. No fim do dia o repórter volta e o chefe pergunta: tem matéria? E ele responde que não, porque houve uma briga e o técnico cancelou o treino. Óbvio que foi a matéria de capa do dia seguinte. Todo esse blá-blá-blá foi só para dizer que é bem provável que esses dois projetos (Maradona e Dunga) se encontrem mais adiante. E posso apostar que a imprensa, e boa parte do público, estarão confusos, diante de tanta simpatia construída em torno dos argentinos, por causa da marquetagem do Maradona.

A Europa em crise



Atualização às 10h30: Sérvia 1 x 0 Alemanha

Quem diria, justo os franceses que foram tão críticos conosco, ao dizer que vencemos sem classe, justo eles que só se classificaram para a Copa com um tapinha de Henry contra a Irlanda, nas eliminatórias. Pois é, o feitiço virou contra o feiticeiro. A França corre um enorme risco de voltar para casa ainda na fase classificatória. Mas os franceses não foram os únicos a escorregar. Os espanhóis estão de joelhos e os portugueses em crise. Inglaterra e Italia... também não convenceram na primeira rodada. Sobraram de europeus tradicionais, portanto, a Alemanha e a Holanda. Do nosso continente temos Argentina, Uruguai, México, Chile, Brasil e até o Paraguai fazendo a lição de casa. Nesta sexta-feira tudo indica que a Alemanha terá dificuldades para enfrentar a Sérvia, que precisa de um resultado positivo se pretende chegar à próxima fase. Se a Alemanha escorregar e a Holanda ceder diante do Japão estaremos pela primeira vez sem uma grande seleção européia favorita na corrida ao título. A Argentina com todo o marketing do Maradona, o Uruguai com toda a sua garra e o Brasil, mesmo jogando só para o gasto, pelo menos por enquanto, são os mais bem cotados para chegar perto da taça. Mas a Copa está apenas começando. Tem muito futebol pela frente. E muita zebra costuma pintar também. Está divertido.

16 junho 2010

Eles estão morrendo de medo

Por força do ofício passei esta quarta-feira pesquisando a reação da imprensa internacional à vitória do Brasil sobre a Coréia do Norte. Descobri que nem todas foram desfavoráveis. Os dois principais jornais esportivos italianos, por exemplo, exaltaram a vitória da seleção canarinho. Um deles chamou o gol de Maicon de obra prima e o outro enalteceu nosso craque. Na Espanha, os jornais estavam mais preocupados com a estréia da seleção deles, considerada a grande favorita da vez, mas que foi surpreendida pela modesta Suíça. Ainda assim, um dos jornais abriu espaço para o nosso lateral e aproveitou para alfinetar o craque Kaká, que teve uma atuação sem brilho. Aqui é importante contextualizar. Como nosso meia é idolo do futebol espanhol é natural que a imprensa daquele país cobre mais do jogador que acostumou ver brilhar em seus gramados. Assim como a imprensa italiana, por também estar acostumada, vai enaltecer o lateral da Inter de Milão. No fundo, no fundo, os jornais estão dando satisfação aos torcedores, seus públicos leitores. Em Portugal, o espaço dado pelos jornais foi o mais modesto. Também, com o escorregão de Cristiano Ronaldo e companhia, depois do empate com a Costa do Marfim, faltou foi papel para tanto assunto. A imprensa argentina até que pegou leve conosco. Considerando que um de seus jornais nos trata como macacos, dizer que fomos "salvos" por Elano até que não chega a ser tão humilhante assim. Agora, o francês L'Equipe chutou o pau. Uma foto de página inteira com o Kaká em primeiro plano e a seguinte manchete: O Brasil luta sem classe. Como se classe ganhasse título. Para o comentarista informal do blog, Carlos Dorneles, a turma que torce contra está mesmo é aqui no Brasil. Para ele, a Coréia jogou pelo empate, o que significaria uma enorme vitória. Eles estavam trancados na defesa. Dividiam todas as bolas e corriam incansáveis o tempo todo. Houve até quem os ironizasse dizendo que era o medo de seu ditador Kim Jong-Il. Para o comentarista, o Brasil até que foi bem e Dunga continua sendo perseguido. Na raiz da torcida contra representada, segundo ele, pela mídia grande e a elite branca, está o temor de ver Lula em mais essa fotografia. Eles estão morrendo de medo...

15 junho 2010

Os 7 Pecados Capitais

A Corte do Cosme Velho assessorada pelO Guardião da Doutrina da Fé e seus colunistas (que o Paulo Henrique Amorim chama de colonistas) pensa que pode controlar corações e mentes. Pobrezinhos. Baixaram na semana passada o "Estatuto das Eleições", espécie de 7 Pecados Capitais.
Veja como funciona:
1. Nada de opção eleitoral explícita pelos seus jornalistas;
2. Nada de camisetas, "botons" e adesivos nos carros que ficam no estacionamento;
3. Nada de "retweet", que é você replicar notícias relevantes no seu perfil na sua rede de relacionamentos na internet;
4. Nada de expor sua opinião pessoal na rede, seja em caráter privado ou não;
5. Quem quiser aderir a uma candidatura (livre manifestação da vontade do eleitor e portanto direito assegurado pela Constituição Federal) deverá se demitir e guardar quarentena à critério da direção da casa, antes de ser recontratado. Como se voltar para a firma depois de passado o processo eleitoral fizesse parte do plano deles, francamente...
6. Que tal essa regra? Só vale publicar opinião dos candidatos quando ela "ajudar o eleitor a decidir seu voto". Ótimo, de uma objetividade ímpar, não acham?
7. E que tal essa outra aqui: nada de aceitar convites para viagens, divulgar estimativa de público em comícios e eventos promovidos pelos partidos e divulgar pesquisas de opinião que não estejam registradas na Justiça Eleitoral. Agora sim!
Mas não há nenhuma menção sobre a divulgação de dossiês apócrifos, factóides e análises tendenciosas, a exemplo do que já acontece há quatro anos. Ainda assim, o objetivo da firma não poderia ser mais nobre: produzir uma cobertura "com equilíbrio, independência e pluralidade", hehehe, conta outra. E mais, as orientações não valem para "colaboradores eventuais e articulistas". Ah bom, que susto, achei que era para todo mundo!!!

14 junho 2010

Cala a Boca!

Tem um ditado que diz: fale bem, fale mal, mas fale de mim. Ao escolher um personagem-símbolo para a Copa do Mundo, seja para elogiar, ou criticar, estamos dando a este personagem publicidade, relevância. Se por acaso ele já é uma figura pública então, pior ainda, porque ao agir desta forma, o que fazemos na verdade é amplificar ao máximo o ruído em torno dele, como uma dessas "vuvuzela" que se popularizam por aí, sem necessariamente causar o efeito negativo que se pretende. Se queremos demonstrar repúdio ou repulsa, o melhor caminho é a indiferença. E como manifestá-la? Mudando de canal, excluindo o personagem de nossas vidas. No exemplo em questão, não é difícil. Se muitos agissem assim, talvez não houvesse tanta publicidade e folclore e consequentemente tal personagem não teria a importância que tem. E por não ser tão importante, talvez não tivesse tanto poder traduzido - infelizmente - numa conduta profissional grosseira e arrogante, como já foi demonstrada em várias ocasiões. Se algo te faz mal, tire de sua vida. Simples assim!

13 junho 2010

Contra a Maré

Na pasta dos meus favoritos do navegador tenho 40 endereços (entre portais, sites e blogs). Tento abrir todos diariamente. Claro que é praticamente impossível, diante da correria do dia-a-dia. Mas, de uns tempos para cá, tem sido fácil. Não porque esteja sobrando tempo, ao contrário, é porque está faltando assunto. Sem assunto, menos atualização. Menos atualização, menos conteúdo novo para ler, e assim por diante... Culpa do calendário. Uma grande cobertura, como a Copa do Mundo, mobiliza muitos profissionais, recursos, tempo e espaço. E isso compromete a produção regular de noticiário. Com menos notícias há menos interpretações e análises. E menor diversificação de temas. Além disso, muitos produtores de conteúdo para a internet, jornalistas ou não, passam a se dedicar também à leitura do noticiário esportivo e a exercer como todos sua torcida, o que também contribui para diminuir o tempo dedicado à produção de conteúdo diversificado e relevante. Dos favoritos que frequento, portanto, à exceção da Copa, só sobrou mesmo o "nheco-nheco" da política, cada vez mais monótona e repetitiva, "Os Senhores da Guerra" a espalhar terror pelo mundo e o noticiário criminal, que nunca perde público cativo, infelizmente. Apesar disso, o mundo continua igual, com pessoas nascendo, vivendo e morrendo todos os dias e com a mais variadas histórias para contar, do drama à superação, havendo ou não interesse geral para elas. Não adianta, acho que nos próximos dias remar contra a maré é loucura!

11 junho 2010

Sobre pássaros e açougueiros

Mudei o desenho do blog. Ficou DoLaDoDeLá, com o gosto da liberdade, e pássaros (parecem pombos) voando para longe. Foi minha mulher e sócia (http://xan-mello.blogspot.com) quem fez esta analogia, de primeira, assim que escolhi o desenho esta manhã. Foi no apartamento dela em São Paulo, quando namorávamos, que vi pela primeira vez uma reprodução do quadro "Therapeute", de Rene Magritte, feito em 1941, e que ilustra este "post". Não fosse padronizado pelo blogger, ousaria dizer que o novo "layout" foi feito sob medida para o blog. O apreço que tenho pela liberdade só não é maior do que a admiração que tenho pelos pássaros, que aliás são a síntese deste ideal, de seguir com o vento. Aqui em casa abasteço diariamente o comedor. E quando, por alguma razão, me esqueço ou atraso, eles cantam para me chamar. Não é de hoje que cultivo minha relação com pássaros. Quando era criança tínhamos nas gaiolas (sim, na gaiola, pode?) um sabiá e um pássaro preto. Um dia abri a portinha e o sabiá voou para o pé de romã do vizinho. E de lá, só Deus sabe... Talvez tenha virado comida de gato, já que foi criado em cativeiro. Decidimos que não correríamos o mesmo risco com o pássaro preto. Assim, minha mãe cortou uma das asas do bicho. Passamos a soltá-lo no quintal, mas nos esquecemos de que asas crescem. Um dia ele arriscou e foi-se. Atraído por seus pares nas paredes do açougue próximo foi ciscar por lá e por lá ficou, capturado. Não tínhamos como provar que era nosso. Afinal, uma ave, mesmo em cativeiro não pode ter dono, não é mesmo? Me contentei então em passar por lá de vez em quando e pedir para coçar a cabeça do pretinho, como fazíamos costumeiramente. O açougueiro sabia que a ave tinha vindo de casa, mas se fez de morto. O blog é isso: - A possibilidade de voar para longe e evitar os açougueiros e gaiolas que existem por aí. Ah, e não se fazer de morto!

10 junho 2010

Barbas de Molho

Dia desses questionei aqui no blog o quanto é péssimo depender de um único fornecedor. Isso vale para a máquina de café, assim como vale também para um fornecedor de notícia. No entanto, em se tratando de jornalismo, a questão é um pouco mais complexa. Às vezes você pode até ter vários fornecedores diferentes, mas se a interpretação do fato é mesma em todos os jornais, a quantidade de fontes diferentes não tem importância nenhuma. É o que temos visto há algum tempo no noticiário, com raras e honrosas exceções. Exemplo recente foi o caso do crescimento do PIB. Passamos décadas rezando para o Produto Interno Bruto crescer vigorosamente. Mas como a imprensa faz oposição sistemática ao governo, a alta do PIB, que em qualquer lugar do mundo seria motivo de festa, aqui virou maldição. Claro que noticiar com viés negativo ainda é melhor do que censurar. Por isso, fiquei assustado com a notícia, hoje, de que a British Petroleum adquiriu direitos sobre termos de busca na internet. Alguém já tinha ouvido falar nisso? Digamos que o internauta digite em inglês "vazamento de petróleo" no Google. o buscador direcionaria o internauta ao site da gigante do petróleo, em vez do usuário cair em algum endereço onde o conteúdo crítico, verdadeiro, pudesse desgastar ainda mais a imagem da BP. Diante de um acidente ecológico de dimensões catastróficas e sem precedentes, a empresa mobiliza profissionais e recursos - certamente não pequenos - para controlar o acesso à informação. Isso para mim tem um nome: censura. por isso, aconselho: se o internauta é adepto de um único sistema de buscas é bom "por as barbas de molho".

09 junho 2010

Run, baby, run...

Muitos internautas tornaram-se clientes cativos do blog por causa dos causos da Corte do Cosme Velho. Outros vieram com as séries de ficção. Outros, menos, atraídos por palpites na política, economia, pesquisas de opinião, consumo, estilo de vida, jornalismo, filosofia, família, cotidiano... Cada um tem sua razão para passar por aqui todos os dias. Da minha parte, tento, na medida do possível, agradar todo mundo. É difícil, mas como a frequência tem se mantido estável, suponho que a maioria tem tolerado a instabilidade da rotina. Tenho planos de fazer outra série ficcional em breve, mas tenho que enfrentar, primeiro, a auto censura. Também adoraria falar mais das trapaças e malvadezas do Guardião da Doutrina da Fé e seus templários, mas é preciso associar à memória algum fato histórico que tenha apelo factual, porque senão fica sem graça. Estou certo de que os dois temas são campeões de audiência. Mas ambos exigem um tempo que, hoje, é impossível de encontrar, graças à dinâmica que a vida ganhou em 2010. Não reclamo, afinal, recentemente pedi duas horas a mais, além das 24h existentes e Papai do Céu não se fez de rogado, diminuiu de oito para seis as horas meu sono. Aí quem chiou fui eu: - Assim não dá, meu Deus! O fato é que, se a gente deixar, a insatisfação toma conta e, no geral, ela é paralisante. Como não quero ficar estático, ao cotrário, quero fazer cada vez mais, vou seguindo em frente, tropeçando aqui, escorregando ali... Mas não quero ficar estigmatizado por um único gênero, porque o blog tem função terapêutica e libertária. Se eu ficar impondo cobranças e regras rígidas terei mais um compromisso a me aprisionar... Queria que os parceiros compreendessem a fase e dessem um desconto. Daqui a pouco volto com tudo, prometo! Por enquanto, vamos levando como dá...

Tia Marisa faz aniversário hoje


http://www.denisbrasileiro.com.br/

Réveillon de 2000, fomos para a Fazenda Santa Maria comemorar essa passagem com tia Marisa. Hospedados em sua casa, éramos quatro (meu pai, meu irmão, tia Marisa e eu). Meia-noite se aproximando. A chuva forte fazia imenso barulho no telhado. Um toró! Tempestade! Um olhava para o outro! Sem palavras! Tia Marisa nos oferece uma musica italiana: - Que lá..lá.., que lá... lá... O som alto tentando ganhar do barulho da chuva, provoca gargalhadas nos quatro. Gargalhada que teve a duração da música! Acabou a música, continuamos rindo. Outro dia chegou! Outro ano começou! A chuva parou, mas a alegria até hoje continuou...
Tia Marisa nos ensina a aceitar o que é, sem disfarces. Sem explicações! Ainda bem que logo, em breve vou vê-la! Denis é narrador de rodeio e meu primo.

Para saber quem é a tia Marisa vá à postagem Minha Shangri-lá, logo abaixo.

08 junho 2010

Seria Cansaço?

Tenho observado um fenômeno curioso, desde o fim do mês de maio. Houve uma queda na produção de conteúdo pelos "independentes" da internet. Arrisco alguns palpites. A primeira causa pode ser uma certa sazonalidade. Por alguma razão, os blogueiros deram uma desacelerada. Seria cansaço? Outra hipótese pode ser o novo factóide lançado pela grande imprensa, que criou uma cortina de fumaça e desnorteou a criatividade, ao mobilizar os blogueiros em defesa de uma causa: o desmonte do tal dossiê tucano. Também houve um fato gravíssimo que reuniu a opinião pública na blogosfera: o insistente arbítrio do estado de Israel, que com o seu sionismo e suas bombas, insiste em desafiar o mundo. Além disso, dois importantes produtores de conteúdo decidiram mudar de plataforma e têm enfrentado problemas que, claro, tiram energia preciosa da produção intelectual. E, como não podia faltar, há também a expectativa com a chegada da Copa do mundo, que exige um gasto de tempo significativo para manter-se informado sobre as dores do Kaká, a bola que não obedece, os amistosos que envolvem política e grana, a contusão do goleiro, o brilho e o ocaso dos craques. Por tudo isso, o interesse dos internautas nos "alternativos" também cai. Só não podemos deixar que esta letargia nos contagie, sob risco dos penas de aluguel se alvoroçarem a ocupar com suas bobagens espaço precioso que eles não têm.

06 junho 2010

O Beijo Gay

O repórter Maurício Kubrusly fazia uma transmissão ao vivo para a revista eletrônica de domingo da Corte do Cosme Velho, em 1998. No comando das operações um dos cinegrafistas mais renomados da firma, na época: Amauri Trolize. Era o Mercado Mundo Mix, evento que começou em 1995 e reunia a vanguarda da arte, moda, música, design e erotismo. Virou palco de uma variada fauna alternativa, sobretudo o público GLBT (a sigla para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais). Numa cidade multiétnica e multicultural como São Paulo, caiu logo no gosto do público que respeita a diversidade e não cultiva homofobia e preconceito. No meio da fala do repórter, o cinegrafista fez um "travelling" em direção a um casal gay que se beijava ardentemente, com suas línguas se entrenlaçando. Assim que terminada a transmissão, o patrão ligou para a emissora escandalizado. Argumentou que aquilo era um gesto de desrespeito e violência à família brasileira trancada em casa, em frente à TV naquela noite, e exigiu providências enérgicas. Foi um Deus nos acuda. A direção começou a caçada aos responsáveis. A ordem era demitir todos sumariamente. Depois de muita conversa e negociação decidiram que a cabeça à prêmio seria a do Amauri. O profissional com mais de uma década de casa assumiu com altivez e responsabilidade a decisão. E graças ao patrão, a família brasileira, no conforto do lar, foi poupada de "obscenidades" como a livre expressão das preferências sexuais das minorias. Lembrei-me do episódio por ocasião da Parada GLBT que acontece em São Paulo neste domingo. Eles venceram. Viva a diversidade e abaixo os guardiões da falsa moralidade!

P.S. Naquela ocasião não foi só o Amauri que pagou o preço. O cinegrafista Hugo Sá Peixoto também. Foi Hugo quem desobeceu a recomendação de não fazer aquele movimento em direção ao casal e teimou. Levou o coordenador da transmissão para a rua com ele.

04 junho 2010

Minha Shangri-lá

Há passagens da vida da gente que quando voltam têm cheiro, sabor e, principalmente, afeto. Por isso são tão boas de lembrar. Uma dessas boas lembranças era ir à casa da tia Marisa. Éramos em quatro, minhas três irmãs e eu, todos pequenininhos, no início do anos 70. Tia Marisa adorava crianças, do tipo que se senta no tapete, põe todos ao redor e espalha os brinquedos no chão. Era casada com um engenheiro italiano de olhos claros, óculos fundo de garrafa e bochechas vermelhas, chamado Lorenzo. No sobrado, ao lado do São Paulo Golfe Clube, na zona sul, tinha espaço para tudo: a cadela dalmata e seus filhotinhos, o cão boxer... Tia Marisa sonhava com filhos, mas não podia engravidar. Portanto, dedicava-se aos sobrinhos. Sempre fui do tipo "terrível", antigamente dizia-se "arteiro". Nas casas dos outros tios não havia muito espaço para mim, mas na casa da tia Marisa ela deixava tudo, desde que eu cumprisse nossos combinados. Assim, podia brincar com a coleção de carrinhos do tio Lorenzo, com a coleção de Os Cientistas, kits de experiências em caixas de isopor, comprados semanalmente em bancas de jornal: fazia-se pilha, lâmpada, usina hidrelética, conjunto óptico... (será que alguém se lembra disso?). Também tinha Atlas do Corpo Humano com páginas de sobrepor, enciclopédia Barsa, bíblia, dicionário, tudo à mão... A tia Marisa passou a ser o meu parque de diversões preferido. Ela falava inglês e italiano fluentemente e adorava cantar. Teve uma vez que foi para a Itália e voltou feliz porque, sem sotaque, as pessoas achavam que era mais uma italianinha, e ainda por cima tão bonita como Sophia Loren. Um dia perguntei a ela o que era aquela estátua com uma loba e dois menininhos mamando em suas tetas. E ela contou com detalhes a mitologia de Rômulo e Remo, subtraídos de sua mãe e abandonados num cesto no Rio Tibre. Na vitrola Vivaldi, Puccini, Sinatra e nosso preferido: Burt Bacharach. Como se esquecer de "Raindrops keep falling on my head"? Em 73 um filme, que só chegou ao Brasil no ano seguinte, com trilha sonora do "pop star" fez sucesso retumbante: o musical Horizonte Perdido. Até hoje procuro minha Shangri-lá, graças à tia Marisa, uma pessoa especial que, hoje, com diagnóstico de esquizofrenia, leva vida de gente "normal" (o que é normal?) e cuida com tanto carinho de seus filhos imaginários, suas bonecas, espalhadas pelo sofá da sala, na casinha avarandada, na Fazenda Santa Maria.

03 junho 2010

O Cartão de Visitas

As grandes corporações vivem adotando modismos de gestão. Um deles vivi anos atrás na Corte do Cosme velho. Foi o de dividir a empresa em vários centros de custos e transformar os chefes em gestores de orçamento. Logo pensei: - Jornalista detesta números, não sabe sequer fazer uma regra de três, como é que vai gerir orçamento? Depois tem outra, muitos ali não conseguem nem administrar a conta bancária, que vive estourada, como vão planejar a execução orçamentária do departamento? As consequências foram catastróficas. Transformaram os gestores em "cabeças de planilha" e criaram um poder paralelo no departamento, com assistentes administrativos para gerir recursos financeiros/humanos. O resultado? Os repórteres e cinegrafistas em viagem começaram a colecionar e somar notas fiscais. A chefia começou a segurar o helicóptero no chão, mesmo quando a notícia pedia imagens aéreas. E os chefetes passaram a massacrar seus subalternos para engordar seus prêmios de participação. O plano de cargos e salários foi para o lixo, porque para cumprir as metas foi preciso "criatividade": cortar horas-extras. Consequentemente, a qualidade de uma atividade essencialmente intelectual foi descendo pelo ralo. Me lembro de uma passagem interessante. A colega no poder rebolou e conseguiu fazer sobrar dinheiro no orçamento do jornal. Perto do fim do ano estava diante de um problema: se devolvesse para a administração poderia perder o recurso no ano seguinte. Teve uma idéia, não sei se inspirada ou não pelos planilheiros: fazer brindes. Assim presenteou colegas com blocos, canetas, "mouse pads"... Mas teve uma idéia ainda mais brilhante: mandou fazer cartões de visita. Quando recebi minha caixa com 250, pensei: - Para quê cartão para quem trabalha internamente? Distribuí alguns entre os próprios colegas por farra, um para minha mãe, um para cada irmã (duas no total) e um para minha mulher. O resto foi para o lixo anos depois. Mas entendi a lógica: dentro da firma te tratam como um imbecil, te humilham, mantém sua auto-estima lá no chão. Mas para o mundo lá fora você parece ser alguém. Assim, os colegas vivem a ilusão de achar que são o que as pessoas lá fora acham que eles são, enquanto lá dentro estão convencidos por seus chefes de que não passam de um pequeno parafuso na engrenagem, pronto a espanar e ser substituído a qualquer momento. Algo faz lembrar Charles Chaplin em 'Tempos Modernos', não acham?

02 junho 2010

Café Genérico

Um experiente editor me disse certa vez: - Quando a notícia é ruim a gente fala qual é a marca, quando é boa a gente esconde. Era a principal regra para se evitar "merchandising" gratuíto nas reportagens. Mas dependendo da história, se bem contada, a gente nem precisa dizer a marca. Quer ver só? Os colegas do trabalho nos juntamos e compramos, no fim do ano passado, uma maquininha de fazer café expresso (em italiano espresso). Apesar do preço ser relativamente salgado, a possibilidade de cada um ter seu próprio "blend" e a economia de tempo, já que não era mais necessário ir até a lanchonete, justificaram o investimento. Funcionou muito bem, até que começou a faltar o refil no mercado. Do início do ano pra cá é praticamente impossível encontrar o café para colocar no aparelho. Dizem que apenas uma rede de supermercados tem agora o produto para vender. Mas, infelizmente, não há nenhuma loja deles no meu caminho. E mesmo que tivesse, começo a ter dúvidas se vale ou não se submeter a isso! O brasileiro é apaixonado por café. Dos anos oitenta para cá o consumo de café do tipo expresso explodiu no país. A ponto de você dificilmente conseguir tomar um café bem tirado por aí. O conhecimento virou ciência e o profissional especialista ganhou título: barista. A indústria do refil, européia, e uma das maiores multinacionais do mundo no ramo de alimentos, teve a brilhante idéia de levar o expresso para a casa das pessoas, pelo mesmo preço da padaria, ou do bar da esquina. Seria o "case" do ano, não fosse o desabastecimento do mercado. Foi um tiro no pé. As pessoas estão com tanta raiva da empresa que não podem nem olhar para a maquininha. Parece aquela história da bebida láctea que não leva o chocolate que está estampado no rótulo (hehehe). Para o vendedor do aparelho foi ótimo. Com o país crescendo desse jeito, provavelmente a fábrica vendeu todas as maquininhas que previa e mais um pouco. Mas para a indústria alimentícia foi um papelão! Mas nesta história os bobos somos nós. Como é que em pleno século vinte e um aceitamos ficar reféns de um único fornecedor? Se alguma grande empresa de café descobrir esta lacuna comercial, envasar café de boa qualidade nos copinhos plásticos e lançar o "genérico" vai fazer um negócio da China,com todo respeito aos chineses, consagrados nesse tipo de solução alternativa, digamos assim...

01 junho 2010

Já Ganhou

O Brasil será hexa! Carlos Dorneles foi taxativo. E não é qualquer um, não. Além de aficcionado por esportes em geral e por futebol em particular, Dodô (para os íntimos) é um veterano das coberturas. Desta vez não foi para a África do Sul. Como também não tinha ido para a Alemanha em 2006, escanteado (para ficar no jargão) pela direção da firma onde trabalhava porque, assim como outros de nós, resolveu criticar enfaticamente o tipo de jornalismo tendencioso, parcial, manipulador e desonesto imposto pelo Guardião da Doutrina da Fé, da Corte do Cosme Velho. Para sustentar sua afirmação, a de que o Brasil ganhará a Copa, fez uso de um argumento: o de que nunca nenhum país ganhou fora de seu continente, exceto o Brasil. Mas como essas teses só existem para ser negadas pelos fatos, fomos aos argumentos que realmente importam. Segundo nosso "expert", a seleção é favoritíssima principalmente pela seriedade do técnico Dunga, seu conterrâneo. Nosso repórter conta que até recentemente era tudo uma promiscuidade: A emissora (aquela) montava tenda de transmissão no hotel, a concentração era uma farra onde confraternizavam cartolas, patrocinadores e seus parentes e o treino era uma festa para torcida, representada pelo tradicional batuque da arquibancada e por garotas de programa canarinhas vindas de várias partes do mundo. Enfim, um carnaval fora de época. Dunga resolveu botar um freio de arrumação nisso tudo e, claro, contrariou interesses. Os patrocinadores, por razões óbvias, não vão falar nada, mas a emissora que detém os direitos de transmissão bem que tentou. Fez campanha contra o treinador até não poder mais e quase o derrubou do comando da seleção. Conforme o técnico foi ficando, foi conquistando força e poder. Aí perguntei: - Mas ele é bom técnico? E Dodô respondeu: - Se técnico ganhasse copa, Telê Santana teria sido vitorioso. E citou um craque dos gramados, o comentarista Tostão: "técnico não representa mais do 5% de responsabilidade pelo resultado." Bom, então agora é só esperar o título e comemorar. Mas me recuso ouvir a narração pela TV. Se a família concordar vou abaixar o volume e ligar o rádio.

 
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