30 abril 2010

A Missão


O coronel, todo garboso, cheio de divisas e condecorações recebe em seu grupamento um tenente aviador cuja medalha, que exibe presa ao peito, lhe chama a atenção: é uma rara, de honra ao mérito.
Depois das apresentações, pergunta:
- O oficial conhece este modelo de avião-caça?
- Sim senhor.
- Já voou nele?
- Não senhor.
- Então se prepare porque tens uma missão a cumprir nesta aeronave.
- Sim senhor. Quando?
- Amanhã, logo ao amanhecer.
- Sim senhor.
- Escolha um co-piloto que seja também experiente navegador.
- Sim senhor.
No dia seguinte:
- Pelotão, sentido!
- Splaft!
- Tenente?
- Sim coronel.
- Aqui está sua carta de vôo.
- Sim senhor.
- Vocês deixarão a base dentro de meia-hora e seguirão a rota pré-determinada. No destino, encontrarão um pelotão de infantaria de selva que está isolado há mais de trinta dias e construiu uma pequena pista de pouso numa clareira no meio da floresta. Só haverá comunicação por rádio até a metade do caminho, compreendido?
- Sim senhor.
- Até logo e boa viagem.
- Obrigado senhor.
O avião já está voando há mais de uma hora e cumpriu aproximadamente metade do trajeto:
- Base chama “alfa-gama-dois”.
- “Alfa-gama-dois” na escuta.
- Tenente, mudanças nos planos.
- Sim coronel.
- A partir de agora, vocês abandonam a carta aérea e vão voar por instrumentos, seguindo as coordenadas que vou ditar em seguida.
- Positivo coronel.
Depois de ditar as coordenadas, o coronel pergunta:
- Tenente, o senhor é devoto de algum santo?
- Não senhor.
- Acho bom que escolha um. Vão precisar de proteção.
- Positivo coronel.
- Cerca de duas horas de vôo depois, piloto e co-piloto avistam a clareira no meio da floresta tropical. Parece ser a pista de pouso.
- Depois de aproximar e tocar o solo, o alívio, o pouso foi perfeito.
Piloto e co-piloto tentam contato por rádio, sem sucesso. Nem é preciso. O coronel e seus auxiliares diretos os aguardam na cabeceira da pista.
- Tenente aviador e tenente co-piloto se apresentando, coronel.
- À vontade, senhores. Gostaria de parabenizá-los pelo sucesso da missão e dizer-lhes que não se conhece um herói pela medalha que ela exibe em seu peito, mas pela competência em executar as missões que lhe são confiadas. Queiram receber de nossa divisão uma nova comenda: a de relevante serviço prestado.
- OBRIGADO SENHOR!
publicado originalmente em 15.5.07

29 abril 2010

Ah essa imprensa....

(clique nas imagens para ampliar)

"O que ele quer para o Brasil é o que usualmente nós chamamos de sonho americano."

(Michael Moore, cineasta e autor do perfil de Lula na revista Time, que o considera o homem mais influente do planeta)


Nos portais que destaquei só faltou um detalhe: o presidente está no topo da lista!


Mais uma cortesia de: http://satiro-hupper.blogspot.com

Me encontraram 3

Vamos às cinco últimas pistas:
6. Aos 26 anos de idade fui secretário de imprensa e divulgação do Sindicato dos Radialistas de São Paulo. Fiz muitos boletins Antena Liga, folhetos, convocações e participei das mobilizações pelo impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Como a sociedade venceu, não precisei ir para o exílio defender meus ideais. Assim, escapei de virar um comunista subversivo.
7. Aos 27 anos de idade fui morar no Arraial D'Ajuda, em Porto Seguro, na Bahia. Ah, então fumou maconha? Fumei, mas a exemplo de Bill Clinton, não traguei. Álcool? Aprecio com moderação. Festa rave? Fui a duas, mas de cara quase limpa. Arrendamos uma pousada e estouramos no verão. Ganhamos tanta "grana" que o dono, um ex-bicho grilo convertido ao capitalismos mais do que selvagem decidiu nos despejar, alegando que a exploração do negócio era "predatória" ao patrimônio dele. Hum-hum. Fizemos um acordo e pulamos fora. Assim, escapei de virar um capita... ops, um empreendedor turístico.
8. Aos 38 oito anos caí na malha fina da Receita Federal por erro de preenchimento na declaração de ajuste. Aos 39 tive a declaração retida mais uma vez. Descobri que era só fazer uma declaração retificadora e enviar pela internet. Fiz isso com a do ano seguinte, mas a do exercício anterior já tinha virado um procedimento técnico e foi preciso de retificação mediante correspondência da delegada da Receita da minha região. Paguei a diferença e está tudo certo. Assim, escapei de ser comparado a Al Capone.
9. Aos 43 anos tenho a minha casa (comprada com o dinheiro da indenização que recebi, depois de ser demitido sem justa causa, mas por uma causa mais do que justa, como disse minha mulher à época. Aliás, ela mantém o blog no seguinte endereço, a ser consultado: http:xanmello.blogspot.com. Temos dois carros. Um para viajar com a família quando dá (tem 4 anos de uso e 90 mil km) e um bem pequeno que uso para trabalhar (tem 2,5 anos de uso e 70 mil km). Assim, escapei de ser acusado de enriquecimento ilícito.
10. Tenho uma pequena empresa e sou prestador de serviços em jornalismo. Nunca participei de licitação e não presto serviço a nenhum órgão público, apesar de não ver nenhuma ilegalidade nisso. Tenho colegas que o fazem com a maior dedicação e honradez: é o caso do Azenha, que já foi vítima de assassinato de reputação, termo cunhado por Luis Nassif no dossiê que se transformou numa referência sobre a podridão que paira sobre o tipo de jornalismo de esgoto que se pratica no país. Se o repórter investigativo quiser também, posso recebê-lo em minha casa para uma entrevista (mas vou ter que gravá-la, para poder atestar o que disse e em que contexto). E autorizo minha contadora a abrir as contas da empresa para ele, em caso de dúvidas. Assim, acho que não serei mais uma vítima da pena de aluguel de colegas covardes e inescrupulosos. Agora, para todo o resto, conto com a minha assessoria jurídica especializada em direito constitucional e crimes de imprensa e com a "douta banca de jurisconsultos" do Cloaca News, que gentilmente ofereceu seus préstimos.

28 abril 2010

Me encontraram 2

Quem sabe nosso farejador possa seguir uma das dez pistas que preparei para ele. Aí vão as primeiras cinco:
1. Aos 10 anos de idade fui flagrado furtando dinheiro de um tio no vestiário do clube. Era uma nota de 50 (então a maior, da época). Fui enquadrado na "Lei de Segurança Nacional" lá de casa e tive que, envergonhado, devolver o dinheiro em público e pedir desculpas. (a humilhação foi tamanha, que isso nunca mais se repetiu). Assim, escapei de virar um assaltante de bancos. Como frequentador do clube, o Rodrigo Vianna pode atestar a veracidade do caso nos anais da diretoria.
2. Aos 14 anos fui convidado a me retirar da escola pública onde estudava, três meses antes do fim do ano letivo, porque não tinha notas nem frequência suficientes para conseguir aprovação. Além do mais, ficava aos amassos com a namorada no páteo e pasmo: fumava. Assim, escapei de virar um mau exemplo aos colegas.
3. Aos 21 anos de idade participei de uma mobilização na faculdade pela aplicação dos índices corretos para reajuste das mensalidades. Fizemos uma mobilização, suspendemos o pagamento e obrigamos o diretor da escola a se reunir com uma comissão para rever a decisão. Assim, escapei de, expulso, ir parar na clandestinidade.
4. Aos 23 anos de idade fui indiciado por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) depois de um atropelamento. A vítima atravessou correndo pela faixa de pedestres de uma movimentada avenida de São Paulo. Parecia fugir de alguém e arriscou, mesmo com o sinal aberto para os carros. A meu favor havia laudos periciais e o depoimento de uma testemunha ocular. A pena prescreveu e o processo foi arquivado. Assim, escapei de virar um assassino.
5. Aos 24 anos de idade, ao lado de um grupo de manifestantes, resistimos ao fechamento de bares noturnos numa pacata cidade no interior de Wisconsim, nos Estados Unidos. Policiais do choque, perfilados, começaram a marchar em direção ao grupo. Os que se sentaram no chão, pacificamente, foram presos e indiciados por desrespeito à lei e à ordem. Os que fugiram se perfilaram na principal rua do centro e começaram a desafiar os policiais, que cumpriam ordens de realizar dispersão com bombas de gás lacrimogênio. Por conhecer o manuseio do artefato (servi o Exército Brasileiro, lembram-se?) recolhi uma das bombas, antes que explodisse, e arremessei de volta contra os agentes da lei. Quando me voltei para trás gargalhando, uma bateria de fashes foi disparada contra mim. Ao acordar na manhã de domingo lá estava eu na capa do principal jornal da cidade, numa foto de meia página em quatro colunas. Para os que não sabem, até bem recentemente o jornal de domingo era uma instituição. Dele a família de classe média americana recortava os cupons de desconto, um hábito de décadas daquela sociedade de consumo de massas. Fiz do episódio trabalho de conclusão de curso na universidade. Assim, escapei de virar terrorista latino. (como não tive tempo de escrever tudo, trago as outras cinco pistas amanhã, ok?)

27 abril 2010

Tá rolando um viral com a minha foto!

Oi, Aurélio, isso sim é que é montagem, em Lego.
Um beijo, Marcia Cunha (jornalista)

Me encontraram

Uma colega me disse que um repórter investigativo está devassando a minha vida. Duvido, mas ainda que o fosse, certamente não tem o talento dos melhores que já conheci: Luiz Malavolta e Robinson Cerântula. Aliás, o segundo, até recentemente, entediado, dava plantão na chefia de reportagem nos fins de semana, despachando motoqueiros e passando a escala para os repórteres, por telefone. Nada contra a chefia de reportagem, uma das funções mais importantes do telejornalismo, cuja finalidade é tão estratégica que virou até curso de formação superior com aplicação em diversasas áreas: a logística. Mas no caso do Robigol (apelido carinhoso dado pelos colegas, em alusão ao craque) chega a ser bizarro. Como pode uma ave rara daquelas ficar engaiolada. Será que os "gestores" não entendem que determinadas espécies não cantam em cativeiro? Bom, deixa para lá. Vamos voltar ao meu caso. Fiquei pensando o quê um repórter investigativo descobriria sobre mim. E caso descobrisse algo de muito bombástico, dificilmente me procuraria para ouvir a minha versão. A estratégia provavelmente seria a seguinte: produz-se a reportagem e, quando ela está pronta, telefonam para pinçar alguma frase fora de contexto, quando muito. Em geral, procuram a pessoa minutos antes do fechamento, torcendo para o telefone dar caixa postal, porque assim, basta dizer: fulano foi procurado e não respondeu à nossa reportagem. Como dificilmente vão colher a minha versão, vou fazer uma coletânea dos "melhores momentos" da minha vida (que será assunto da próxima postagem, porque a vida anda bastante corrida ultimamente).

26 abril 2010

Prova Comparativa


Para quem não conhece o Sátiro, aqui vai: http://satiro-hupper.blogspot.com

25 abril 2010

Achei o informante

O sujeito do outro lado da linha se assustou quando me identifiquei. Pareceu não imaginar que conseguiria achá-lo. Gaguejou e, de início, negou ter feito a impressão que tinha em minhas mãos. Depois de explicar a ele como o encontrei e que não iria prejudicá-lo, finalmente admitiu. Trabalhamos juntos durante quase dez anos, mas nunca tivemos amizade, apesar de conversarmos de vez em quando. Ele não é jornalista, trabalha na área técnica de televisão. Disse que conhecia meu blog, e que se considera "uma pessoa de esquerda", que fica indignada com as coisas que ouve e vê no trabalho. Achou que no anonimato pudesse me ajudar. Quando perguntei sobre o documento que ele me encaminhou, se atrapalhou. Disse apenas saber que era importante, porque se referia ao Instituto Millenium, por isso quis que chegasse ao meu conhecimento. Perguntei se o material vinha anexado a alguma pauta do jornalismo. Ele disse que não. Quando perguntei como teve acesso aquilo, abriu o jogo: contou que um colega nosso (cujo nome não vou revelar por razões mais do que óbvias) tinha ido à sua casa e usado seu computador para abrir a escala de trabalho do dia seguinte. Ao usar o sistema de acesso remoto, o login e a senha foram salvos pelo computador, sem que o colega percebesse. Um dia, tomado de curiosidade, resolveu explorar os arquivos do jornalista. Foi quando encontrou e imprimiu o documento, que vinha anexado a uma correspondência interna. Perguntei se ele tinha consciência do tipo de violação que tinha cometido. Respondeu que sim, mas ponderou que se comparada à manipulação que todos os brasileiros somos vítimas, tratava-se de um crime menor. Contei a ele que este tipo de acesso remoto que o colega fez, a partir do seu computador, fica registrado durante um tempo no servidor "exchange" e que, para sua proteção, era bom que fizesse uma faxina na máquina e removesse todos arquivos temporários, "cockies", senhas... e torcesse para não ser identificado. Ele agradeceu preocupado e desligou. Mas se um dia os barões me torturarem para que eu diga quem é o informante, vou candidamente dizer: - Não!

24 abril 2010

A prova do Crime

(clique para ampliar)

Veja!

Qual não foi a surpresa ao saber que uma foto minha ilustra o rodapé da página 10 daquela que já foi considerada a revista semanal mais importante e influente do país e que, hoje, encalha nas bancas toda semana? A edição de assinantes passa boa parte do tempo, ou na soleira da porta dos apartamentos, ou na mesa de centro da sala de estar da classe média paulistana, quando não, na portaria do prédio, ou mesmo no lixo, intacta, sem sequer ter sido folheada. Enquanto isso, a tiragem só cai ano após ano. Se fosse na década de oitenta ficaria feliz e me consideraria uma celebridade a caminho dos quinze minutos de fama. Hoje, fico triste. Triste porque eles sequer procuraram saber quem são os "anônimos" daquelas fotos que eles chamam de "divulgação espontânea" da capa da semana passada, o que é prova de mau jornalismo. E, depois, porque deveriam saber que o uso indevido de imagens pode resultar numa boa indenização. Mas o pior mesmo foi interpretar aquela manifestação como um gracejo ao candidato do PSDB à presidência, quando na verdade é uma ironia à foto tosca que serviu de capa à edição da semana passada, que também encalhou. Outro "convidado" da página 10 é Ladislau Cardoso, sósia do jurista, diplomata e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricúpero (a foto dele está no centro, na segunda linha, da montagem que copiei do sítio da revista, na internet, esta semana). Ah, se os editores soubessem o que o Lalau (que é como os íntimos o chamam) pensa deles... Bom, sobre as impressões do Lalau, é melhor perguntar para ele. Enquanto isso, vou consultar minha assessoria jurídica para saber quais providências serão tomadas. Aceito sugestões dos internautas.

22 abril 2010

De onde veio o envelope?

Era um documento apócrifo. O envelope não tinha remetente. Foi colocado entre o limpador de para-brisas e o vidro dianteiro do meu carro. Era início de março, momento mais do que oportuno para tratar do assunto no blog. Mas preferi agir com cautela. Os papéis pareciam ser uma sequência de frases síntese de uma apresentação tipo power point. Desconfiei, apesar de achar que aquele amontoado de informações faziam algum sentido naquele contexto: afinal a turma do Millenium tinha acabado de se encontrar no Hotel Golden Tulip, em São Paulo. Algo ali me chamou a atenção. Era como se os papéis tivessem sido impressos pela internet, porque havia no topo aquele amontoado de códigos no cabeçalho que aparentemente não fazem sentido algum para um leigo. Mas, pela internet, descobri que aquilo continha uma infinidade de informações sobre as quais nunca nos interessamos, mas que podem ser úteis. Pensei: talvez a pessoa que me endereçou aquilo quisesse permitir que eu identificasse a fonte de alguma maneira. Mas quem seria capaz de decifrar aquela combinação? Procurei um especialista na polícia. Mas não havia segurança de que o sujeito seria capaz de guardar segredo e desisti. Por intermédio de um internauta conhecido cheguei a uma pessoa que talvez pudesse me ajudar. Marcamos um encontro para eu lhe apresentar o papelório. Era um café com acesso à internet. Ele abriu seu laptop sobre a mesa e disse: - Então, o que tens aí? Respondi que queria saber se com aquele amontoado de códigos ele poderia descobrir alguma informação adicional. Também disse que achava que a pessoa que me enviou aquilo talvez quisesse que eu seguisse aquela pista, para comprovar a veracidade daquele material. Ele me respondeu que era mais provável que a pessoa tivesse feito uma impressão às pressas. Ele identificou com certa facilidade a origem do documento e o IP da máquina de onde ele partiu. Tinha sido originado de uma rede coorporativa, tipo intranet. Mas o login de usuário indicava que o acesso era remoto tipo exchange (de fora da empresa). Perguntei se acessar uma rede corporativa remotamente não era privilégio de poucos, por uma questão de segurança do sistema? Ele respondeu que sim. Com o IP da máquina foi possível descobrir de que lugar do Brasil o acesso foi feito e mais, com ajuda do google earth deu para visualizar o bairro e a rua onde a máquina está localizada. De posse da informação sobre qual rede e qual computador, pude concluir que era possível que aquele amontoado de informações fossem autênticas. Foram estas as informações que publiquei no post de ontem. Muitos se queixaram da qualidade do texto. Imagino que o texto vinha amparado de explanação. Também não sei se está completo ou é um fragmento. O que pretendo descobrir agora é: quem foi o informante e mais, de quem é a autoria do texto. Ah, e se a palestra foi feita e quem eram os convidados. A julgar pelos acontecimentos da primeira quinzena de Abril, parece o projeto vai de vento em popa. Vou mantê-los informados.

Quem tem medo?

Recebi o documento em envelope lacrado com carimbo de confidencial: Uma pequena guerra, do espanhol guerrilla, ou guerrilha é um tipo de guerra não convencional, que tem de um lado um oponente forte e bem armado e, de outro, combatentes hábeis, velozes e capazes de se camuflar e se esconder rapidamente. Esta é, hoje, a disputa que se dá entre a grande imprensa e os produtores de conteúdo, jornalístico ou não, entrincheirados na rede invisivel e ramificada da web. O enfrentamento se dá a partir de idéias, que não encontram acolhida entre as teses formais; e de informações, que não teriam relevância, não fosse um olhar mais atento e desvinculado dos interesses tradicionais. Quando o adversário, por mais forte que seja, admite limitações nesse campo de combate, como tem acontecido nos últimos tempos, é sinal de que os "guerrilheiros" começam a vencer, não só no plano material, mas principalmente no plano moral, cuja ação é psicológica. Enfraquecidos, os setores tradicionais começam a enfrentar uma chaga que nasce dentro do próprio corpo e é representada formalmente pela deserção (o que também já se nota). Por isso, a necessidade de transformar desertores em criminosos, como forma de intimidar e evitar que as baixas se dêem por desistência ao combate. Ao agir em vários flancos, os exércitos formais perdem coordenação, mobilidade e, consequentemente, capacidade de ação. Como a liberdade de ação na rede é enorme, as estratégias formais de ação dos guerrilheiros não perdem efeito, ao contrário, se multiplicam. Assim, só há uma maneira de modificar esse quadro, que tende a levar à desmobilização das forças convencionais: 1. A criação imediata do Instituto Millenium, que reuna pensadores capazer de forjar um discurso de forte apelo emocional, preferencialmente atemorizando a opinião pública. 2. A criação de meios de reduzir o campo de ação dos guerrilheiros (regulamentação severa, censura e manipulação). 3. O esgotamento da capacidade do adversário de renovar as forças para uma nova ação (sufocamento). Mas a estratégia vai exigir de todos esforço considerável e, se a duração for muito longa, o tempo pode ser fator insuportável. O passo seguinte seria uma Guerra de Libertação, popular e de forte apelo emocional. Este será o novo cenário, caso nada seja feito a tempo. E as consequências serão a revisão da lei de concessões e a nova dinâmica de distribuição de verbas públicas para comunicação. É isso o que nossos adversários pretendem e é contra isso que temos que lutar com todas as armas que temos. Mas eles têm uma boa maneira de impedir nossa repressão: eles conseguem novos "informantes" numa velocidade e dimensão jamais experimentadas. Portanto, nessa Guerra, temos que usar o medo como forma de esgotar suas principais fontes: a livre circulação de idéias e informação.

20 abril 2010

A fonte, o anonimato e a honra

Estamos no ano de 1985. Segundo Batalhão de Polícia do Exército, à rua Abílio Soares, no bairro do "Paraíso", em São Paulo. Na Companhia de Escolta e Guarda, Pelotão de Escolta, lotado na oficina de motos dos batedores, dá expediente um soldado de número 897, que atende pela alcunha de Aurélio. Sua função é cuidar da limpeza da oficina, das ferramentas, da segurança das peças importadas de motos Harley-Davidson 1200 c.c., do controle do almoxarifado e dos arquivos do escritório. Muitas missões eram sigilosas. O quartel vive uma situação inusitada. O Comandante do Batalhão é menos graduado do que o Comandante da Companhia em que o soldado serve. O Capitão Pereira Barreto, oficial coberto de medalhas, com curso de sobrevivência na selva e paraquedismo, portanto a elite da elite da elite da tropa, é obrigado a se curvar às ordens daquele que, em tese seria seu subalterno, não fosse uma distinção: o Comandante-em-chefe é o principal oficial-batedor de um quartel, cuja a especialidade é escoltar e guardar autoridades civis e militares. O capitão bem que tentou ser batedor, mas não conseguia superar o rigor do exame, diziam as más línguas. E o pobre soldado Aurélio no meio desse fogo-cruzado. No primeiro acampamento, nossa Companhia foi submetida a um massacre pelo capitão Pereira Barreto. Marchamos 16 km com paramenta completa, montamos acampamento e ainda tivemos instrução noturna. Nos outros dias não foi diferente, na gíria: ralo! Quanto exaustos, lá pelo terceiro dia, fomos submetidos a um exercício de guerra. Cada recruta, em pequenos intervalos, partia sozinho para o campo de prova levando uma mensagem secreta. Teríamos que vencer vários obstáculos, entre eles, travessia com água no pescoço, tunel de gás lacrimogêneo, campo hipoteticamente minado e, caso nos perdessemos, cairíamos na emboscada dos inimigos, sargentos e cabos sedentos, verdadeiros cães de guerra. No fim da prova o soldado Aurélio sucumbiu. Amarrado e amordaçado foi obrigado a revelar o conteúdo da mensagem que trazia. Respondeu candidamente: não. Admirados, os cães de guerra tentaram de tudo: coação, intimidação e tortura. Entre os dedos da mão espalmada um cartucho de festim do fuzil automático leve, o FAL. Enquanto um comprimia os dedos, o outro girava a ponta que ía perfurando a pele. Quando perceberam que o soldado não entregaria os pontos decidiram libertá-lo, não sem antes parabenizá-lo. Ao chegar ao acampamento, o oficial que prestou assistência médica perguntou se o soldado tinha algo a representar contra algum militar. Mais uma vez ele, candidamente, disse não. Entrou em forma com outros recrutas com a mão enfaixada, sentido dores por todo corpo e em silêncio. No dia da baixa antecipada por uma moléstia hereditária, o capitão Pereira Barrero, ao assinar o documento de liberação, olhou fixamente para o recruta e disse: - É uma pena que você está deixando o Exército Brasileiro. Você tem honra, a maior qualidade de um homem. Durante todo o dia de hoje fui assediado para dizer como consegui a história que publiquei ontem. Depois de 20 anos de profissão, descobri que uma fonte só te revela uma informação bombástica quando tem certeza que o anonimato dela será preservado mesmo sob totura, ou com a própria vida, se for preciso.

19 abril 2010

Os bastidores do quase-golpe

Da série ficção, a preferida dos internautas. Começou com um telefonema de um ator consagrado para o diretor do núcleo. Ele estava irado com a peça promocional que foi ao ar na noite de Domingo. Era um institucional de trinta segundos em que ele dizia apenas duas palavras. Mas a montagem induzia o telespectador a acreditar que se tratava, não de uma campanha de aniversário da maior emissora de televisão do país, mas um mosaico grosseiro cujo slogan "a gente faz senpre mais" é uma clara alusão ao do candidato José Serra. E para corroborar com a leviandade, ainda vinha o número quarenta e cinco assinado na peça, ao lado do logotipo. Ao todo, foram quarenta celebridades entre as turmas das produções, humor, shows, esporte e jornalismo. Achei até curioso a manifestação ter partido de um ator e não de um de nós. Afinal, vendemos a eles apenas nossa força de trabalho, não nossas consciências. Será? Nem sei mais... O ator foi duro e franco com o executivo da empresa. Se alguma providência não fosse tomada, ele ia aos jornais dizer que foi vítima de manipulação. Era tudo o que a emissora não queria ouvir nessa altura do campeonato. Ainda que seu candidato pudesse ser o mesmo que o da emissora, ele jamais se sujeitaria a trabalhar naquelas condições. E antes de desligar, avisou: Eu não estou sozinho. O diretor pediu paciência, disse que ia encontrar uma saída. Pensou em quem confiar num momento desses de conflito: talvez um executivo que tivesse bom transito com o jornalismo. Afinal, foi coisa dos herdeiros da Corte do Cosme Velho, incentivados pelo Guardião da Doutrina da Fé, pensou. Assim que amanheceu propôs o encontro ao executivo que considerou ser hábil o bastante para apagar o fogo. Nisso a internet já fervilhava. Pressões vinham de todos os lados, a opinião pública, os patrocinadores, os políticos, os amigos. É preciso convencer a direção de que foi um tiro no pé. Mas como fazer isso? Juntando argumentos. E lá foram os dois tentar convencer os acionistas de que aquilo fora um erro. Os artistas respeitam os interesses comerciais e políticos da emissora, mas consideram que não cabe a eles exercer esse papel institucionalmente. O artista é o vendedor de sonhos e ilusões para todos, não só para um determinado grupo político. Afora os artistas, tem os jornalistas que emprestam sua credibilidade à emissora. Ações assim pode arranhar para sempre esse vínculo com o telespectador. E assim foram as tratativas durante toda a tarde. Ok, mas qual seria a solução? Pensaram em várias. Ao final do encontro triunfou aquela que diz assim: "O texto do filme em comemoração aos 45 anos da Rede Globo foi criado - comprovadamente - em novembro do ano passado, quando não existiam nem candidaturas muito menos slogans. Qualquer profissional de comunicação sabe que uma campanha como esta demanda tempo para ser elaborada. Mas a Rede Globo não pretende dar pretexto para ser acusada de ser tendenciosa e está suspendendo a veiculação do filme." Esta noite não vai ser boa, nem para o Guardião, nem para a Central de Comunicação, e muito menos para o patrão. Nós aqui fora sabemos de tudo! O Povo não é bobo. Fiquem espertos.

Porque o assunto é importante

Indiquei para alguns no fim de semana, no campo de comentários, o link que mostra como fraudar o software de uma urna eletrônica. Considero o assunto da maior relevância e, por isso, trouxe para a capa do blog. Quem tiver dez minutos livres e estiver curioso, aconselho a assistir ao vídeo e depois deixar um comentário. Muita gente tende a achar que somos alarmistas, adeptos de teorias conspiratórias, etc... Discordo, estamos avaliando riscos e zelando pela democracia.

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18 abril 2010

Para olhar adiante

Por todos os indicadores econômicos e sociais divulgados nas últimas semanas é possível assegurar que o Brasil está crescendo forte e rapidamente e, mais do que isso, combatendo como nunca antes a pobreza e a desigualdade social. E qual tem sido papel do Estado? Dar condições para que esse crescimento ocorra sem obstáculos e sobressaltos. Crescer implica em, necessariamente, aumentar a oferta de energia, de infra estrutura e de mão de obra qualificada. O que temos visto pelo Brasil afora é um enorme esforço nesse sentido, que faz aparecer de Norte a Sul do país milhares de canteiros de obras. Usinas hidrelétricas, gasodutos, portos, ferrovias, estradas, sistemas de irrigação e escolas, muitas escolas. O dinheiro sai do Orçamento, do BNDES, da Petrobras e de outros fundos. A iniciativa privada, ao contrário do que se esperava durante o dolorido processo de sucateamento-demissões-privatizações não ampliou a oferta de bens e serviços, senão com a ajuda do Estado. Seus investimentos se limitaram a, quando muito, ampliar apenas a produção, preferencialmente agregando tecnologia intensiva com o intuito de reduzir ao máximo a oferta de postos de trabalho. Ao acumular, diminuir o endividamento e investir pesado nós, o Estado, estamos acelerando ainda mais nosso crescimento. Antes, quando o dinheiro era escasso e liberado a conta-gotas, só os grandes grupos se beneficiavam. Hoje, os grandes grupos sozinhos não dão conta de tanta demanda, o que os obriga a aceitar que pequenos agentes sejam incorporados ao negócio, descentralizando a gestão e ampliando a oferta de recursos em todo o país. E é sempre bom lembrar que a grande maioria dos brasileiros somos honestos e trabalhadores. Claro que, no meio de tudo isso, há conchavos, irregularidades, desvios e corrupção. Temos instituições e meios legais de combater, investigar e punir os responsáveis. Mas não podemos parar. Temos os próximos 20 anos para ocupar o espaço que está destinado a nós: figurar entre as sete economias mais importantes do planeta. O desafio está na nossa frente. Só depende de nós.

17 abril 2010

A vulnerabilidade da Urna Eletrônica

Achei que tinha que trazer a polêmica para a capa do blog porque é um dos assuntos mais importantes, na minha modesta opinião, para aqueles que zelam pela nossa jovem democracia. Existe sim vulnerabilidade no processo eleitoral eletrônico brasileiro. E discutir isso é muito importante para todos nós! A polêmica toda está no campo de comentários da postagem "O Hacker", mais abaixo:

(por José Carlos - não tenho o sobrenome)

José Vitor - ainda não vi ***nenhuma*** crítica às urnas eletrônicas que aponte algo de concreto que possa ser discutido em termos mais técnicos.

3.1.2 Programas Modificados - 2000
2. Depois de homologado, gravado em CD-ROM e lacrado na frente do MP e dos
Partidos em 06 de agosto de 2000, o software das urnas foi modificado de
forma que os programas de computador colocados nas urnas eletrônicas em 2000 eram diferentes da versão oficial homologada.

3.1.3 O Caso Diadema, SP - 2000
A análise desses arquivos revelou que todas as urnas eletrônicas tinham sido
carregadas fora da cerimônia oficial de carga e lacração, dias antes da convocação por edital público, tendo todas ficado sem lacres durante dias.

3.1.6 O Caso Campos do Goitacases, RJ – Eleição Suplementar 2006
Essa eleição suplementar em Campos do Goitacases, RJ, foi realizada em
março de 2006 por anulação do pleito oficial de 2004. A cerimônia oficial obrigatória seguinte, chamada de Oficialização do Totalizador, não foi marcada pela autoridade eleitoral local. Levou horas de tratativas, para convencimento dos servidores eleitorais, de que havia necessidade de conferência das assinaturas digitais dos programas instalados nos computadores de totalização antes da oficialização do sistema. Aberta a cerimônia, encontrou-se um programa instalado no sistema de totalização cujo resumo digital diferia da tabela obtida, a duras penas, no TSE.

3.1.7 O Caso Alagoas - 2006
Entre a diversidade de lançamentos impróprios
encontrados nos arquivos LOG de Alagoas 2006, havia o seguinte:
• Mudança do número do município da urna, depois de carregada e lacrada.
• Mudança do número da própria urna, depois de carregada e lacrada.
• Registro de eventos inexistentes como “código para uso futuro”.
• Omissão de eventos reais ocorridos.
• Sequência de substituição de urnas com ordenação irregular.
Havia 13 tipos diferentes de irregularidades nos arquivos LOG, que atingiram
2282 (44%) das 5166 urnas utilizadas.
• Mais de 25% dos arquivos LOG deixaram de registrar o evento de auto-teste,
obrigatório segundo a regulamentação.
• Havia uma diferença superior a 22 mil entre o total de votos válidos para o
pleito de governador registrados nos arquivos LOG e os registrados nos
arquivos BU.

A autoridade eleitoral brasileira, que ao mesmo tempo é responsável administrativa pelo sistema questionado e juiz nos recursos contra ele, inviabilizou uma perícia independente com as seguintes decisões:

• Decretou arbitrariamente que apenas os arquivos RDV, e não os arquivos
LOG, devem ser usados para contar a quantidade de votos válidos, embora
essa informação esteja registrada e disponível nos dois arquivos e que não
poderia haver diferença entre os totais obtidos nos dois arquivos.
• Simultaneamente, negou acesso aos arquivos RDV pelos assistentes
técnicos do requerente.
• Transferiu para o requerente a cobrança antecipada de R$ 2 milhões para
que fosse desenvolvida uma perícia nas urnas eletrônicas.
• Diante do não pagamento desse de valor, proibitivo para qualquer candidato
em todo o Brasil, o requerente foi multado e condenado por litigância de
má-fé, mesmo tendo apresentado provas materiais inquestionáveis do mau
funcionamento das urnas.
• A perícia sobre as urnas não foi permitida.

Isso e muito mais você encontra no relatório do Comitê Multidisciplinar Independente - ou CMInd, lançado essa semana(com 105 páginas).

www.votoseguro.org/textos/RelatorioCMind.pdf

Se puder, leia nesse fim de semana.
Abraço.

16 abril 2010

Curtas do Cotidiano

- Oi.
- Oi.
- Tudo bem?
- O Pedro está "p" da vida?
- Por quê?
- Porque o Gabriel entrou no quarto dele e amassou as figurinhas da copa.
- Como foi isso?
- Ele estava aqui na sala comigo, deu uma saidinha, demorou a voltar e eu perguntei: - Gabrié-el o que você tá fazendo??? Ele voltou para sala deu uma olhadinha, pensou em voltar, mas ficou. O Pedro tinha acabado de colar as figurinha no álbum, tinha dado os papeizinhos de trás para o Gabriel que brincou um tempão. Depois o Pedro desceu com turma para o campinho e ele foi lá no quarto e amassou as repetidas. Aí, quando o Pedro voltou, pôs a culpa em mim. Disse que eu é que tinha deixado...
(...)
- Oi filho.
- Oi pai.
- O Gabriel amassou suas figurinhas?
- Amassou.
- Deixa eu ver?
- Olha, essas aqui eu salvei. Essas outras não deu.
- Chato, né filho?
- É.
- Quantas ficaram amassadas?
- Nove. Já falei que a mamãe vai pagar com o dinheiro dela.
- Quantas vem em cada pacotinho?
- Cinco.
- E quanto custa cada pacotinho?
- Setenta e cinco centavos.
- Então está ai.
- Não precisa pai, eu tenho no cofrinho.
- Pode ficar com esses dois reais. O Gabriel é filho e, por enquanto, sou o responsável pelos erros dele, certo?
- Obrigado pai.
- De nada. Ah se todos os grandes problemas da humanidade fossem como os das crianças e pudessem ser resolvidos com setenta e cinco centavos, não é mesmo?
(...)
- Ah, comprou camisa nova, heim? (ela diz)
- Não é nova. É aquela que eu comprei para o casamento da Ana. (ele diz)
- Hummmm. (ela diz)
- A Ana vai fazer 10 anos de casada. (ele diz)
- Rárararara... (ela ri)
- Você achou mesmo que eu ía sair para comprar camisa? (ele diz)
- Ah, sei lá (ela ri de novo)
(...)
Somos todos iguaismesmo só que em endereços diferentes...

Brasil Pandeiro

Os Novos Baianos
Composição: Assis Valente, 1940

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor
Eu fui na Penha, fui pedir ao Padroeiro para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, Pendura a saia eu quero ver
Eu quero ver o tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará.
Na Casa Branca já dançou a batucada de ioiô, iaiá

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar

Há quem sambe diferente noutras terras, noutra gente
Num batuque de matar

Batucada, Batucada, reunir nossos valores
Pastorinhas e cantores
Expressão que não tem par, ó meu Brasil

Brasil, esquentai vossos pandeiros
Iluminai os terreiros que nós queremos sambar
Ô, ô, sambar, iêiê, sambar...

Queremos sambar, ioiô, queremos sambar, iaiá

(se clicar no título você vai direto para o vídeo no youtube)

14 abril 2010

O hacker

- Olá, como vai?
- Indo.
- Te chamo de hacker ou de cracker?
- Chame do que quiser, oras.
- Ok. Como foi que você fez para invadir o sítio do Partido dos Trabalhadores?
- Foi mais fácil do que imaginava. Quebrei o código.
- E como funciona isso?
- Você entra nas configarações do sistema e conversa com os programas dele.
- E como você faz para a página não abrir e depois mandar o usuário para outro lugar?
- Simples, a gente instala um programa espião que, toda vez que um computador acessa aquele endereço eletrônico, o sisteminha que tá rodando em paralelo leva o usuário para outro lugar.
- E você fez isso a pedido de alguém do PSDB?
- Adoraria, porque teria ganhado uma grana. Geralmente nós não trabalhamos para alguém. Nós usamos nossas ferramentas e nosso conhecimento por pura diversão. Funciona como os pichadores. Quando você quebra um sistema importante e consegue tirar "o cara" do ar você ganha publicidade, acumula pontos com a moçada, respeito, entende?
- Sim. E dá para descobrir quem fez o serviço?
- Claro. Tudo o que fazemos na internet deixa rastros. O que tentamos é confundir os investigadores depois. Abrimos pistas falsas, seguimos caminhos tortuosos e, assim, dificultamos o trabalho de identificação.
- Mas dá para te achar?
- Sempre dá.
- E você não tem medo de ser reconhecido e preso?
- Honestamente? Não.
- Por quê?
- Porque tem gente grande que adorou o que eu fiz e já me falou que pode me ajudar, se eu quiser...
- Ué, mas como eles te descobriram?
- Eu que descobri eles, hehehe...
- Mudando um pouco de assunto, você se considera capaz de fraudar qualquer sistema?
- Todo sistema é passivel de fraude. O que precisamos é apenas tempo.
- E o que você acha do sistema eletrônico de votação adotado no Brasil?
- Fácil de fraudar.
- E como funcionaria essa fraude?
- É só você inverter o código. Por exemplo, o sujeito vota num determinado candidato que a máquina mostra, mas o sistema registra o nome de outro. Dá para fazer também, tipo: cada dois votos para determinado número, um é encaminhado o outro... São várias fórmulas.
- Simples assim?
- É.
- E por que ninguém diz isso?
- Não sei.
- Teve um político, o Brizola, que dizia que a urna tinha que imprimir comprovante. Seria mais confiável?
- Claro, em caso de dúvida era só contar os papelzinhos.
- Ahhhhhhh.

13 abril 2010

A Luta pelo Poder

As organizações (em letra minúscula) não fazem menção à última pesquisa de intenção de votos para presidência da República. Claro que não farão, afinal a diferença entre o primeiro e o segundo colocado é de mísero 0,4 ponto percentual. O que é isso? Nada. De agora em diante eles estão em campanha. Só vão divulgar o instituto ligado ao jornal paulista e o instituto "deles". A posição já foi definida pelo comitê gestor. Eles estão com medo. É o mesmo medo que eles tinham em 2006, mas agravado pelo sucesso retumbante da atual gestão associado ao fato da pouca "permeabilidade" da neófita candidata mineira, radicada no Rio Grande do Sul. Escolher é renunciar. E eles já estão fechados. Vão fazer tudo o que estiver ao alcance deles para voltar ao poder. Tudo. Mas pensando bem, o que significa a nova pesquisa? Nada. Estamos há sete meses das eleições. Antes haverá Copa do Mundo. Vocês sabiam que o álbum de figurinhas esgotou no domingo e que a gráfica está trabalhando a todo vapor para atender à explosão de encomendas? Se você tem um dinheirinho guardado, aconselho: aposte todas as fichas em tecidos verde e amarelo, bandeiras, flâmulas, tudo o que fizer menção, mesmo que vagamente, à seleção. Daqui a pouco estará em campo o coração de 190 milhões de brasileiros que, inebriados, só vão se lembrar que temos eleição lá para Agosto, Setembro. Por enquanto, essas sondagens servem apenas para alimentar o noticiário com especulações e troca de insultos de lado a lado. Vamos nos embriagar de futebol, primeiro. E quer saber mais? Ninguém dá importância à única sondagem que importa: a resposta espontânea. O resto é bobagem. Ah, já ía me esquecendo do conselho do Geraldo Alckmin, em 2006, "eleição só começa quando mudar o horário da novela", ou seja, quando as campanhas ganharem o horário nobre da TV. Até lá, bem amigos...

12 abril 2010

O Poder

O poder é talvez a pior de todas as serpentes que vivem nos jardins do Éden. Se existe o paraíso na terra ele se chama exercício do poder. Quem tem poder, de fato e de direito, em tese tudo pode. E por tudo poder, muitas vezes submete a vontade de todos à sua propria. E é este o risco. E não há risco maior do que não se curvar às regras democráticas e propor reescrevê-las. Fernando Henrique Cardoso o fez, quando, dissimuladamente, defendeu a aprovação da emenda da reeleição, no auge da sua popularidade, em benefício próprio. Foi um golpe (dentro da legalidade, mas foi). Justo Luiz Ignácio, o sapo barbudo, o radical, golpista, conivente com a corrupção, aquele que não tem o direito de errar, curiosamente não agiu como o colega antecessor. Aliás, jamais o faria, mesmo podendo, se assim o quisesse. Caso quisesse, poderia ser o ditador mais popular que o país já teve, depois de Getúlio Vargas. Poderia governar a exemplo de Hugo Chaves, na base da consulta popular, por referendo ou plebiscito (dentro da legalidade também). Mas preferiu a via democrática e deu mais uma lição aos brasileiros e à crítica, que insistia na tese de que tentaria a nova reeleição. Sua popularidade é um caso sem precedentes. Seria uma alucinação coletiva de 90% da população? Não. Seu caminho é o do diálogo, da tolerância e do consenso. Por isso tem se projetado, como nunca antes outro lider brasileiro, na história da humanidade. Todos sabemos que ele não é perfeito, fez o governo do possível, tolerou o impensável e sabe que só há uma alternância de poder possível: eleger sua candidata. Porque ele também sabe que, se não for assim, corremos o risco de deixarmos de ser os protagonistas da nossa história. Porque os adversários estão do outro lado, associados às idéias políticas que ficaram à margem dessa gestão. Portanto, o caminho é um só: prosseguir ou retardar o processo. Esta será a escolha do eleitorado em Outubro. O que precisamos mesmo é de um governo reformista. Mas ainda não será dessa vez!

11 abril 2010

A Alternância de Poder

Este é um assunto muito delicado de se tratar, porque muitos vão pensar que é um discurso que interessa mais à oposição do que à situação e, como sabemos, a oposição não é flor que se cheire. Mesmo assim, ainda não vi esta análise posta sobre a mesa da sucessão presidencial. A alternância do poder é corolário da democracia. Não existe democracia sem alternância. O problema é que a nossa alternância é capenga. Por quê? Porque ao explorar a visão maniqueista da sociedade, tanto a situação, quanto a oposição criam a ilusão de que o tabuleiro permite apenas jogar ou de um lado, ou de outro. Entretanto, há outras propostas e programas políticos, mas que não encontram ressonância, porque ficam sem visibilidade. No caso da disputa Dilma-Serra, por exemplo, há outros atores, como: Ciro e Marina. Mas por que eles não conseguem aumentar a "audiência"? Porque o modelo de democracia segue lógica idêntica ao dos Estados Unidos: democratas de um lado, republicanos de outro, financiados pelo poder econômico associado à uma ou outra proposta. Assim, vira uma decisão de campeonato, um Fla-Flu. O que permitiria então que a sociedade encarasse a alternância do poder como parte do jogo democrático? Regras que permitissem que todos os candidatos disputassem em iguais condições. E como se daria isso? Impedindo, primeiro, que o poder econômico interferisse na disputa. Como? Proibindo por exemplo o financiamento de campanhas, senão por doadores pessoa física. Impedindo doações de empresas, igrejas, entidades de classe, sindicatos, movimentos sociais... Para isso, seria necessário também a construção de um Fundo Eleitoral, capaz de financiar todos os candidatos proporcionalmente à representatividade de seus partidos. Isto igualaria as condições de Dilma, Serra, Ciro e Marina, entre outros, e permitiria aumentar as oportunidades para os que têm menos espaço. Desta forma, reduziríamos muito a influência do poder econônomico - pelo menos diretamente - a aumentaríamos a chance de alternância. Do jeito em que o jogo está sendo jogado, Ciro servirá de braço auxiliar de Dilma e Marina, muito à contragosto, como bem sei, de braço auxiliar de Serra. É a lógica, distorcida por efeito de nossa realidade política. Mas, voltando, que a alternância de poder é importante, isso é sim, não tenham dúvida! Não existe democracia de partido único.

10 abril 2010

Cotidiano com Amor

O marido chega tarde em casa depois de 12 dias ininterruptos de trabalho. A esposa e o filho mais velho o cumprimentam com entusiasmo e ela decreta:
- Deixe tudo aí em cima e venha aqui no quarto que temos uma coisa para te mostrar.
- Ok, ele responde. No caminho perguntam:
- Gostou da calça que comprei para ele? (apontando para o filho)
- Legal. Quando entram no quarto, sobre a cama, várias outras coisas. E eles vão mostrando. Essas são do pequeno, essas da mãe e...
- Este conjunto de moleton é seu.
- Hummmm.
- Gostou?
- Posso responder com sinceridade?
- Claro que pode! O que mais queremos é que seja franco. Não adianta nada a gente ficar com uma coisa que não gosta. E, depois, não tem problema. A gente troca...
- Você tem certeza que posso dizer o que eu achei? Ele é testemunha. (olhando para o filho)
- Claro que tenho certeza! É para dizer a verdade.
- Você ouviu, não é filho? Ela falou para dizer o que achei. (O filho consente com a cabeça)
- Não gostei.
- Como assim, não gostei?
- Não gostei. Acho que não preciso de mais um.
- Como não precisa de mais um? Você vive usando as mesmas roupas surradas, a mesma bermuda, a mesma camiseta manchada, parece um mendigo. Você não tem vergonha, não?
- Não.
- Não vai querer mesmo?
- Não.
- Tudo bem. Mas vou te dizer uma coisa: não compro mais nada para você! Foi a última vez!
- Ok, pode deixar que eu compro.
- Quando? Você nunca compra, você não vai, só fala. Precisa de sapatos, calças, camisas. Não dá para você andar desse jeito.
- Depois vou ao shopping e escolho alguma coisa.
- Ao shopping? E você vai a shopping? Hahaha. Conta outra.
- Depois vamos ao shopping, não é filho? (ele assente com a cabeça) Vou comprar umas calças para ele, que já combinamos e compro algo para mim também.
- Está bem, mas que fique bem claro: foi a última vez que eu comprei alguma coisa para você, ok? O pai e o filho caem na risada enquanto ela deixa o quarto enfurecida.
- Você é testemunha, filho. Eu perguntei antes se podia dizer o que tinha achado e ela disse que claro, podia dizer sim.
- É verdade, pai. (e os dois continuaram a rir) Depois, mais calma ela volta ao assunto e mais uma vez afirma categórica: nunca mais vai comprar nada para ele. Pai e filho duvidam. No dia seguinte ela acorda cedo e troca o moleton por três camisetas iguais, de cores diferentes, bem do jeito que ele gosta. E dá tudo certo. Ao contrário do que pode parecer, só no amor essas coisas acontecem. Por isso são tão divertidas. São situações que vão valer boas gargalhadas por toda a vida. E se o pequeno tivesse acordado, o que diria?
- Ai ai viu!

Em tempo: meu filho me disse que a mamãe não falou mendigo e sim pé rapado. Para mim é a mesma coisa, para eles preconceito.

09 abril 2010

Quando o erro é ter marido

Senhoras e senhores, digamos que vocês pudessem embarcar comigo nesta viagem: desmaterializar-se e assistir ao vivo e em cores à história de um não-fato que por pouco, muito pouco, quase virou verdade. Pelo menos enquanto durasse o trâmite judicial do pedido de direito de resposta e eventual indenização por perdas e danos. Conhecendo a morosidade do processo, o escândalo seria até conveniente e vocês vão entender o porquê. Estamos num plantão em novembro último, no feriado de Finados. O responsável pelo principal telejornal do país naquela noite tem em mãos uma reportagem que mostra que o jatinho de um bispo foi apreendido num aeroporto no Norte do país. A reportagem cita como fonte a Polícia Federal e diz que a aeronave tinha sido apreendida e que havia até dinheiro dentro. O sujeito sabe que tem uma bomba mas, desconfiado, decide ele mesmo apurar melhor a história. Consulta uma colega na redação de São Paulo (uma colaboradora com mais de uma década de bons serviços prestados) e pergunta: - Tem como eu falar com o seu marido? E ela responde: - Claro, o numero do celular é esse e o rádio dele é o seguinte, anote ai. O marido da colaboradora é um jornalista que recentemente tinha assumido uma posição importante na emissora rival, para cuidar da comunicação institucional do grupo. O colega que tem a bomba liga para ele e diz: - Amigão, é o seguinte: temos isso, isso e isso. A matéria vai ao ar, mas preciso de uma confirmação: o avião foi ou não apreendido? Do outro lado da linha o colega responde: - Olha, não trabalho para a igreja, que não tem nada a ver com a emissora, mas vamos fazer o seguinte: considerando a urgência do pedido, o tempo curto até o jornal ir ao ar, a facilidade de acesso que tenho às fontes e a consideração por você, vou entrar no circuito. Minutos depois ele descobre que o avião não tinha sido apreendido coisa nenhuma. Ele estava numa área do aeroporto reservada às aeronaves que não tinham feito alfândega (funciona assim: o avião chega do exterior e faz alfândega em um determinado aeroporto país, sem a necessidade de fazer em todos). Bom, minutos antes do telejornal ir ao ar a reportagem caiu. Vale lembrar que as duas emissoras disputam anunciantes e telespectadores e vira-e-mexe se estranham, levando ao ar reportagens que fazem acusações mútuas. Mas a história não termina aí. Advinhem o que aconteceu com a colega, aquela de mais de uma década de bons serviços prestados? Quando o guardião ficou sabendo... (Guardião é aquele que não desabotoa o colarinho da camisa. Qual será o flagelo que ele esconde, heim?) Ela foi dispensada três semanas depois, sob a alegação de que o fato de ser casada com o sujeito da outra emissora tornara-se um impeditivo profissional. Injustiça? Deixo a palavra com os leitores... Ah, já estava me esquecendo, nos materializamos de volta no ponto de partida da nossa viagem, portanto, isso não aconteceu, foi só um estado de transe coletivo, ok?

08 abril 2010

O beija-flor

Desde março do ano passado tenho tentado profissionalizar mais o blog. A partir de setembro começei a postar religiosamente todos os dias. Em alguns momentos, em intervalos menores até do que 24 horas. Sempre preocupado em tentar apresentar um olhar original sobre determinado fato, impressões sobre política e economia, reflexões "filosóficas" sobre o cotidiano, as histórias que eu sempre nego se alguém perguntar, e as ficções, entre elas seis séries, que acabaram virando marca registrada e atraindo os frequentadores assíduos de todo o mundo. Este mês o blog faz quatro anos. São mais de quinhentos e cinquenta textos, quase todos de minha própria lavra. O que tenho vivido nesse espaço é um dos mais importantes aprendizados de toda a vida. A diversidade, a interatividade, a liberdade de criticar e ser criticado, a auto-crítica... Acho que devo muito aos visitantes, a grande maioria no anonimato da rede. Passei quase três anos com uma média de sete visitas por dia. Hoje, somos quase mil pessoas! Por isso me cobro tanto para estar todos os dias aqui, nem que seja uma passadinha apressada, porque entendo a importância desse espaço, principalmente para mim. Às vezes sou tomado por aquelas dúvidas que todos nós temos: Será que vale a pena? Será que o que escrevo serve para alguma coisa? Será que estou contribuindo de alguma forma para um futuro melhor para todos nós? É quando surge a imagem do incêndio na floresta e do beija-flor levando água no bico para tentar apagar o fogo. Aquelas gotinhas vão servir para alguma coisa? E o beija-flor responde: - Se vão servir eu não sei, estou apenas fazendo a minha parte, da maneira que posso.

07 abril 2010

De olho no futuro

Estamos caminhando bem em direção à inclusão digital. Um em cada três domicílios brasileiros já têm microcomputador e quase oitenta por cento destes já estão conectados à internet. Isso sem contar as "lan houses", escolas e telecentros espalhados por todo o país. Claro que os números crescem em ritmos diferentes: entre os mais pobres e mais ricos, dos menos escolarizados para o mais escolarizados e das regiões menos desenvolvidas para as mais desenvolvidas. Reflexo de uma sociedade muito desigual, que precisa aumentar as oportunidades na base da pirâmide social. Mais da metade dos usuários já fez compras por meio eletrônico e quase um terço usou serviços de Governo Eletrônico. Mas o dado que surpreende mesmo é que noventa por cento das crianças entre 10 e 15 anos já usaram o computador pelo menos uma vez na vida, em todo o país, o que permite um olhar otimista para o futuro. Outra curiosidade: em apenas um ano, o acesso à internet feito a partir de casa (42%) ultrapassou o acesso a partir de "lan houses" (29%). Esses números estão na última pesquisa do Centro de Estudos sobre Tecnologia da Informação e da Comunicação, ligado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil. ( http://www.cetic.br/ ). O estudo só aumenta o meu entusiasmo com a importância do papel do Estado como indutor da universalização da conexão por banda larga e de políticas de incentivos fiscais para a compra de microcomputadores. Acesso amplo à informação é a única maneira de libertar aqueles que dependem de formadores de opinião parciais, políticas de distribuição públicas ou de apadrinhamento político. O que me faz lembrar uma das idéias centrais dos estudos do professor Ladislau Dowbor sobre propriedade intelectual - http://dowbor.org/ :"O acesso livre e praticamente gratuito ao conhecimento e à cultura que as novas tecnologias permitem é uma benção, e não uma ameaça. Constituem um vetor fundamental de redução dos desequilíbrios sociais e da generalização das tecnologias necessárias à proteção ambiental do planeta. Tentar travar o avanço deste processo, restringir o acesso a conhecimento e criminalizar os que dele fazem uso não faz o mínimo sentido. Faz sentido sim estudar novas regras do jogo capazes de assegurar um lugar ao sol aos diversos participantes do processo."
Na foto, o telecentro de Belterra, no Pará (O município tem 17 mil habitantes e já foi o maior produtor individual de seringa do mundo)

06 abril 2010

Contando Mortos

Trabalhar com noticiário factual ou "hard news" é como andar de Montanha Russa. Uma hora o noticiário está calmo, com matérias produzidas, assuntos sem muita relevância até que, de repente, vem o mergulho em queda livre. Adrenalina, coração batendo na boca, vertigem, calafrio, enjoo. Com o tempo, dependentes, os profissionais da área passam a sofrer de pressão alta, do coração, de ansiedade, depressão, pânico, mania... Tive uma colega que costumava brincar dizendo: - Hoje o dia está tão calmo, tá precisando cair um avião para agitar essa redação. Achava aquilo o cúmulo. Batia três vezes na madeira e dizia para mim mesmo: - Deus nos perdoe. Como pode alguém torcer para o pior acontecer? Mas devo admitir que muitos de nós somos assim mesmo: nos excitamos e até nos alegramos com a desgraça alheia. É como se precisássemos constatar que a vida é frágil e que mais uma vez escapamos da morte súbita. Não é diferente do estudante de medicina, que vai para o plantão torcendo por emergências, nem do bombeiro, que passa o dia a esperar pelo pior. O mesmo vale para a defesa civil, o policial, o advogado criminal... Somos tantos. Do outro lado, o público sedento por sangue, corpos, tragédias de toda espécie. Foi assim com o caso Isabella e, mal saimos dele, estamos mergulhados de cabeça na chuva calamitosa de desaguou sobre o Rio de Janeiro. Logo cedo, a audiência foi aumentando, a demanda pelo drama crescendo e as emissoras, ao vivo, respondendo. Será isso por mais uma semana. Todas as perguntas serão feitas, todas as respostas serão dadas. Até que o fôlego acaba, o carrinho vai perdendo a velocidade e uma engrenagem vai levar todos ao topo de novo, para o próximo mergulho.
A foto é de Fábio Gonçalves, da Agência O Dia

05 abril 2010

O Espírito do Tempo

Aproveitei o domingão de Páscoa para assistir aos dois documentários da série Zeitgeist. Recomendo. Ambos são acessíveis no youtube com legendas, mas é necessário banda larga de boa velocidade, já que cada um dura pouco mais de 1h50. Depois, curioso, fiz uma visita ao sítio do movimento e descobri que são quase sete mil os brasileiros que já aderiram. O número é inferior ao de argentinos (oito mil) e a décima parte do de americanos. Mas, ainda assim, me pareceu um fenômeno interessante. Não sei qual o potencial que o discurso tem de se espalhar em ampla escala, mas acho que é grande. Me chamou a atenção, lá pelas tantas, um homem de cabelos brancos falando em um inglês britânico, com forte sotaque indiano, coisas que me pareceram tão familiares. Abaixo da legenda de uma das falas pude ler Krishnamurti. Ora se não era aquele que, durante alguns anos, foi leitura de cabeceira. O homem que deveria ter sido o "Instrutor do Mundo" da Sociedade Teosófica, mas que rompeu com o protocolo para seguir um caminho completamente original, em defesa do autoconhecimento, pela meditação. Um homem que recusou títulos, rótulos e autoridade e se transfomou num dos mais importantes filósofos esotéricos de todos os tempos. Apesar de rejeitar seguidores e idolatria e de não escrever, seus diálogos e palestras gravados resultaram em mais de sessenta títulos. De alguns me lembro bem: O Despertar da Sensibilidade, Libertação dos Condicionamentos e O Homem Livre, "best seller" que curiosamente não consta da bibliografia da Wikipédia. Posso dizer que foi um dos pensadores que influenciaram muito meu modo de ser e agir, principalmente por defender conceitos que para mim viraram convicção, de uns tempos para cá: as autonomias moral e intelectual, conceitos que também encontramos nas obras de Piaget. Aqui preciso fazer justiça com a psicodramatista radicada na Suíça, Cely Ribeiro, minha tia querida, que foi com quem compartilhei livros, impressões e "altos papos".

04 abril 2010

Dorneles versus o Guardião

Era uma tenda armada no centro da cidade pela Federação do Comércio de São Paulo. Nas prateleiras havia vários produtos e, espalhados ao redor, jovens distribuiam folhetos informativos. Quem tivesse um pouco mais de tempo visitava a "feirinha". Ali, dispostos lado a lado, eletrodomésticos e eletroeletrônicos bem ao gosto da dona-de-casa moderna. Abaixo, o preço de cada um e quanto do preço do produto era imposto. A idéia foi bastante original, mas a pesquisa tinha sido feita por um instituto sem a menor credibilidade. Aliás, certa vez uma repórter da extinta Gazeta Mercantil foi até Curitiba conhecer o tal instituto e voltou dizendo que era pura picaretagem. Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, toda vez que o tal instituto lançava seus estudos sobre a "enorme" carga tributária brasileira, a própria Receita Federal divulgava nota rechaçando a metodologia deles. O Everardo Maciel dava de ombros, mas a Associação Comercial decidiu fazer a parceria assim mesmo. E como o presidente da entidade tinha ascendência sobre o comitê gestor das organizações, lá foi nosso brilhante Carlos Dorneles fazer a reportagem. Ao chegar ao local, o repórter cinematográfico fez imagens diversas, enquanto o repórter preparava para entrevistar o responsável pelo local. Na primeira pergunta o entrevistado já entregou:
- Como foi feita a pesquisa?
- Olha, é um cálculo aproximado, não dá para saber ao certo...
- E o que é imposto federal e estadual?
- Também não dá para saber.
Feitas mais duas ou três perguntas o repórter se deu por satisfeito e voltou para a redação. Na redação o "subversivo" aqui estava escalado para editar o vt. Dorneles me contou o que havia acontecido e preparamos o texto como achamos que deveria ser. Quando submetemos o material para o Rio, o guardião da Doutrina da Fé refugou. Aquela não era a matéria esperada. Dorneles foi calmamente à sala do diretor (aquele que coçava bastante a cabeça) e disse: - Essa é a matéria que eu tenho, não há outra. O vt caiu e com as informações foi feita uma nota coberta com imagens. Lembrei-me desta passagem depois de ver dia desses que o Impostômetro, um painel gigante no centro de São Paulo, tinha registrado a marca de R$ 300 bilhões em tributos. Será que dá para acreditar no cálculo?

03 abril 2010

Castigo ou Regozijo?

Cheguei à redação esbaforido, como de costume. Afinal, morando em Vinhedo, atravessar a Marginal Pinheiros até o Morumbi era uma saga. A coordenadora do telejornal já foi logo informando com aquele sorriso maroto e certo sarcasmo no olhar: - Você vai editar a palestra do Ariano. Duas fitas, com mais de quarenta minutos de gravação. Ela foi uma editora que, com o tempo, assim como tantos, se acomodou e passou a ter preguiça de ir para a ilha (para os que não sabem, ilha é um local pequeno, frio e escuro onde ficam as máquinas de edição). Quarenta minutos significaria fácil, fácil, umas duas horas de ilha, caso tivesse que transcrever muita coisa. Mas, o que para a colega poderia parecer castigo, foi na verdade puro regozijo. Primeiro, porque sempre gostei de ilha. Sou editor de texto por vocação, não porque virei, depois de ter sido repórter, como muitos, nem porque foi uma maneira de consegeuir um salário melhor, como outros. Editar para mim é assistir tudo, garimpar, encontrar relevância num ruído, ter apego aos detalhes, às sutilezas do olhar do cinegrafista. E lá fui eu assistir à aula-espetáculo do mestre. Logo de início a primeira pérola. Ele dizia que tinha recebido o programa do evento e que tinha lá um tempo estimado para ele falar e, em seguida, viria outro convidado. Ele então pergunta para a platéia: - Quem seria o tal Cófi Breaque, que iria falar depois dele? O sujeito era o intervalo, que nós brasileiros preferimos chamar de "coffee break". Nada mais coerente para o pai do Movimento Armorial, que há quarenta anos luta contra o processo de vulgarização e descaracterização da cultura brasileira. Dali em diante, o dia de trabalho virou uma grande diversão e enorme aprendizado. Fui salvo pelo poeta, dramaturgo e romancista paraibano radicado no Recife. Quem lembrou de ter visto essa reportagem no ar dia desses foi a colega recifense, também editora de texto, e das boas, Marianne Brito.

02 abril 2010

O Tripé

Quem frequenta o blog há mais tempo deve ter notado que, afora as reflexões sobre jornalismo e meios de comunicação, tenho uma inclinação por três assuntos que, na minha opinião, constituem o tripé que sustenta a compreensão da dinâmica de uma sociedade: a fé, o dinheiro e o poder. Não por acaso falo com alguma frequência sobre a decadência da Igreja Católica, os rumos da economia e algumas impressões sobre a política. Se o que move o ser humano é o medo e a eterna luta pela sobrevivência, o que nos faz acreditar em nós mesmos e no futuro? A fé. Mas qual é o ideal de felicidade da vida moderna? A ascendência sobre os outros, seja pelo que ostentamos, seja pelo poder que temos concentrado em nossas mãos. Quando estabelecemos este tripé, que nem é assim tão original, já que a disciplina de história ensinada nas escolas do Ocidente segue rigorosamente esta lógica, podemos entender melhor determinados papéis, sobretudo num país emergente, de democracia recente e cheio de injustiças de toda sorte. Enquanto a Igreja Católica sufocou a "vocação pelos pobres" silenciando a Teologia da Libertação, no fim dos anos 70 e durante os 80, uma "Ditabranda", como prefere chamar a Folha de S. Paulo, silenciou as vozes dissonantes desde o golpe militar e o "liberalismo do mercado" mais recentemente libertou a classe média emergente para o consumo de massas. Olhando assim, o que significou a ascenção de um nordestino, migrante, ex-metalúrgico, sindicalista e católico libertário ao poder? Significou "metaforicamente" o fim da Doutrina da Fé professada pela Igreja conservadora, o fim da hegemonia política imposta pela elite intelectual e pelas oligarquias rural, empresarial e midiática e o desmonte do modelo econônico baseado na transferência de patrimônio público para agentes privados, numa escala tão grande que transformou o Brasil num dos países mais desiguais do mundo! Por isso, digo: o que está em curso em 2010 é sim uma guerra, das Igrejas Católica e Evangélicas, por um lado; de dois modelos políticos que se opõem, sendo que o melhor deles é aquele que privilegia um pacto federativo amplo, descentralizado, em que o poder emana dos que estão mais próximos de seus representados (legitimidade); e por fim, de uma lógica capitalista que privilegia o combate à pobreza e à desigualdade pelo Estado versus a centralização e concentração econômicas de antes. Essa guerra vai ser travada num debate público explícito, portanto bom para a democracia. Mas, nos bastidores, pelas mãos da mídia - quase oligopolista - nascerá o discurso golpista, cunhado à sombra da manipulação de imagens e informações, como nunca antes na história desse país. Caberá aos que tem algum discernimento ajudar a iluminar o caminho dos cegos, para que não levemos nosso país mais uma vez ao precipício de um novo totalitarismo. O risco não é pequeno.

01 abril 2010

Os grandes repórteres

Os repórteres que se destacaram na multidão tiveram que, antes, cumprir rigorosamente o protocolo. Só que por uma questão de sorte, oportunidade, carisma, estilo, ou por todas essas razões juntas, se diferenciaram na multidão. Mas depois de consagrados, a primeira coisa que eles querem deixar de fazer é cumprir pauta. Não porque sejam intransigentes, é que o "hard news" com o passar do tempo vira uma espécie de feitiço: crimes, acidentes, incêndios, escândalos, tudo se repete, ano após ano, porém com personagens novos. E por causa disso, o interesse deles vai acabando. Só há um momento catártico: a tragédia. Numa tragédia todos se unem, a redação se multiplica. É quando são produzidas as grandes coberturas jornalísticas. Mas voltando aos grandes repórteres, a consagração traz prestígio, poder de influência, condições especiais. Eles passam a sugerir suas próprias pautas e começam a ter certa autonomia. No entanto, como atraem para si os colegas mais capazes e mais experientes, conseguem aumentar ainda mais a qualidade do trabalho, mas se tornam reféns da "aprovação da pauta", um outro feitiço. Apesar de terem todos os recursos e condições, suas idéias agora terão que ser submetidas aos chefes, que vão decidir se eles podem ou não realizá-las. Não só por questões políticas e ideológicas, mas principalmente pelos custos. Normalmente, as idéias mais originais são coincidentemente as mais caras. Apesar disso, eles superam mais esse obstáculo e, em meio a mais essa adversidade, conseguem dar alma às reportagens.

 
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