31 março 2010

A reportagem está com os dias contados?

O quê? Um assassinato.
Quem? Um sujeito pobre.
Onde? Na periferia.
Quando? Ontem à noite.
Como? Disparo à queima roupa.
Por quê? Dívida por drogas.

Para o leigo, as perguntas e respostas acima podem parecer muito técnicas, mas ajudam a entender como funciona a produção da notícia. A estrutura baseada nas seis perguntas acima foi a redenção da grande imprensa, que conseguiu impor um processo industrial de produção, reduzindo espaço e ampliando a oferta de páginas com publicidade. Ao desintelectualizar a reportagem, os donos das empresas de comunicação conseguiram também tirar o poder das mãos dos jornalistas e espalhar o novo formato para um número maior de jovens egressos das universidades ávidos por uma oportunidade, portanto dispostos a cumprir à risca os manuais de redação e estilo, que consequentemente também se disseminaram. A padronização foi expulsando a alma do texto. Assim, a originalidade foi dando lugar à homogeneização. Quando se discute se a grande imprensa está ou não com os dias contados, penso que é necessário fazer a seguinte distinção: o factual ou "hard news" é feito por um exército de jovens repórteres que cumprem o protocolo. Fazem as perguntas básicas e trazem a "apuração". Portanto, para esse tipo de serviço sempre haverá espaço, porque cabe aos redatores mais experientes dar forma final ao produto. É nessa estapa do processo de produção que o patrão e seus executivos interferem: eles dizem o que deve ou não ter relevância e o que deve ou não ser descartado, sempre sob a ótica do espaço reservado àquela notícia. Mas o que dizer então dos grandes repórteres? Bom, aqui a lógica é outra. Uma lógica que desenvolvo melhor no próximo "post", para não tomar muito tempo de leitura.

30 março 2010

Que desperdício

Hoje cedo estava passeando com o caçula Gabriel pelos parques da cidade. Como ele estuda à tarde, a Alexandra (que aliás está aniversariando hoje) e eu, dividimos a tarefa (e o prazer) de fazer companhia a ele durante as manhãs. E mais um dia brotou aquela que se transformou numa reflexão recorrente: como pode uma cidade com tantos "aparelhos" públicos estar praticamente vazia durante a semana? E nos fins de semana, então, quando o movimento não chega nem perto do que vemos pela TV em outros países ditos mais desenvolvidos? Acho que tenho algumas respostas. A primeira é óbvia: pais e mães trabalham o dia todo e dificilmente têm as manhãs livres para fazer companhia a seus pequenos. Ok, mas não é só isso. As praças e parques ficam muito longe da cidade verdadeira (que vive na periferia). Quase tudo está na região central e, portanto, de acesso difícil e demorado para os moradores. Outra constatação é que a classe média vive em condomínios e, quase todos, têm suas áreas internas de convivência (guetos). Outro grande problema é que praças e parques não têm cercas, nem grades de proteção contra o trânsito intenso ao redor, salvo raríssimas e honrosas exceções. Afinal, não é novidade para ninguém que vivemos num mundo automobilístico. Mas talvez a constatação mais terrível de todas é a de que a maioria das pessoas não está aberta para "conviver". Temem o novo, o inesperado, o simples gesto de bom dia, dito por um desconhecido. As poucas pessoas que rompem com essa lógica de segregação causam espanto, surpresa, admiração e, de vez em quando, até discriminação. Qual será a intenção desse sujeito? Se perguntam. Seria um pedófilo disfarçado de papai? Seria um maníaco em busca da próxima vítima? Mas a realidade impõe uma certeza: quem desconhece o bem público que toda cidade tem a oferecer está perdendo uma enorme oportunidade de "humanização", primeiro pequeno passo para a tolerância, a solidariedade e a justiça social.

29 março 2010

O que quer A CPI do MST?

Quer devassar as contas do movimento, que tem sido demonizado pela grande imprensa desde o início dos anos 2000, como já descrevi em outras postagens, aqui no blog. A resposta, os deputados da CPI poderiam procurar aqui: "Eu considero sete fontes de recursos internos que o MST desenvolveu para fortalecer sua atuação, nesse processo de fazer a luta na terra, de fortalecer as suas comunidades, seus assentamentos. E aí tem alguns detalhes, alguns números interessantes. Porque eu apresento dados do volume de recursos que são repassados para entidades parceiras por parte do Governo Federal. Eu sublinho no rodapé dessa mesma página o fato de que as principais entidades ruralistas do Brasil têm recebido 25 vezes mais subsídios do Governo Federal. E o curioso de tudo isso é que só é fiscalizado como o pobre recebe recurso público. Mas, sobre os ricos, que recebem um volume de recursos 25 vezes maior que o dos pobres, ninguém faz nenhuma pergunta, ninguém fiscaliza nada. Parece que ninguém tem interesse nisso. E aí o Governo Federal subsidia advogados, secretárias, férias, todo tipo de atividade dos ruralistas. Então, chama a atenção que propriedade agrária no Brasil, ainda que modernizada e renovada, continua a ter laços fortes com o poder e recebe grande fatia de recursos públicos. Isso são dados do próprio Ministério da Agricultura. Ainda no Governo Lula, a agricultura empresarial recebeu sete vezes mais recursos públicos do que a agricultura familiar. Sendo que a agricultura familiar emprega 80% ou mais dos trabalhadores rurais." Miguel Carter é organizador do livro 'Combatendo a Desigualdade Social - O MST e a Reforma Agrária no Brasil.' Este é um trecho da entrevista que o professor da American University, em Washington D.C., que estuda o assunto há quase duas décadas, deu ao jornalista Paulo Henrique Amorim, do site Conversa Afiada.

28 março 2010

Elemento Novo

Senhoras e senhores frequentadores, acabo de acrescentar um novo elemento ao blog. Está no pé da página, logo abaixo, depois da postagem mais antiga. É um vídeo, com o "making of" que fizemos para o lançamento do Programa Olhar Brasileiro, que foi ao ar durante alguns meses em rede nacional, pela TV Record, em 1993. Foi a primeira iniciativa na televisão brasileira financiada por sindicatos e sob a ótica do trabalhador. Uma experiência da TVT, a TV dos Trabalhadores. Era uma revista eletrônica que ia ao ar bem cedo, aos domingos. A audiência não era lá essas coisas, mas participar daquele projeto pioneiro foi um fato muito importante para minha formação humana e de jornalista. Brinquei outro dia com a editora Angela Canguçu, minha colega de redação, dizendo que o programa acabou porque eles pegaram o dinheiro para fazer a Caravana da Cidadania do Lula, com o Ricardo Kotscho, Angela e tantos outros colegas. Demos muitas risadas neste dia. Lembrei disso tudo hoje, enquanto conversava com o Lucas Krauss, um idealista, como eu, que está produzindo um vídeo no formato documentário de 10 minutos, para o Coletivo Intervozes. O objetivo deles é tentar demonstrar, de forma bastante didática, como se dá a criminalização dos movimentos sociais, pela grande imprensa. Em linhas gerais, expliquei que, primeiro, vem o interesse do dono do veículo, segundo, os interesses dos patrocinadores e só por último o interesse público, quase sempre oposto aos interesses mesquinhos dos grandes grupos econômicos. Depois, por questões técnico-operacionais. O modelo de negócio que maximiza a produção e corta custos. Ainda falamos sobre a hierarquia nas redações, que faz com que ascendam aqueles que melhor compreendem e implementam essa lógica. Falamos também sobre a má formação do jornalista em geral e das ferramentas para diminuir a relevância de determinados fatos em relação a outros. Por fim, discutimos um pouco a forma e o conteúdo e dei o seguinte exemplo como uso da linguagem na manipulação da notícia: O MST "invadiu uma fazenda", em vez de "ocupou uma área do estado, grilada por fazendeiro e, desde então, em disputa judicial". Foi um bom papo. Espero ter conseguido contribuir com o debate.

27 março 2010

A compaixão no colo da sociedade

O sentimento de ódio, que move o desejo de vingança é contrário à compaixão, que leva ao perdão. Sei que para nós, humanos, é impossível ficar indiferente a um crime bárbaro, como matar e depois jogar uma filha pela janela, se é que foi assim mesmo. Enquanto durar o silêncio dos protagonistas, nunca saberemos com 100% de certeza. Mas o que me assustou muito, durante a extensa cobertura do caso Isabella foi a mobilização e o sadismo de parte da platéia, tanto em frente ao Fórum de Santana, zona Norte de São Paulo, quanto em casa, diante dos televisores. Existe um prazer mórbido em apreciar a dor alheia, seja na desgraça, seja na reparação, pela justiça, se é que a sentença do juri vai reparar alguma coisa. Pode parecer ingênuo da minha parte, mas em casos assim não há vitoriosos, nem derrotados. As duas famílias perderam um ente querido e a sociedade assistiu à violência que é parte de todos nós, mas que se manifesta apenas (e ainda bem) por intermédio de indivíduos mais vulneráveis. Nesse sentido, somos todos responsáveis pelo assassinato, afinal, a sociedade é um organismo, um corpo em movimento. Também não nos esqueçamos que seremos responsáveis (o Estado) pela tutela de dois presos nos próximos 20 ou 30 anos, financiados por todos nós. Enquanto apreciávamos o desfecho do caso, professores e policiais, ambos funcionários públicos do Estado, portanto nossos companheiros de "organismo" se enfrentavam nas proximidades do Palácio dos Bandeirantes, na zona Sul. Um professor, movido pelo sentimento de compaixão, aquele mesmo sobre o qual falei lá em cima, carrega seu "oponente" ferido nos braços e é flagrado pelo olhar atento do repórter fotográfico Clayton de Souza, do jornal O Estado de São Paulo. A foto é mais um retrato da nossa dor. A dor de uma sociedade doente que prefere aprofundar as desigualdades, numa luta insensata pelo poder, enquanto espalha seus corpos pelo caminho.

Em tempo (21:41) - Parece que o policial é, na verdade, uma policial e o homem que a carrega é outro policial "à paisana". Se assim for, mais triste ainda porque nada de compaixão. Talvez o contrário, infiltração.

26 março 2010

A Santa Sé

O furo de reportagem do The New York Times, que trouxe a notícia de que o então prefeito da Congregação para a Fé, Cardeal Joseph Ratzinger, teria acobertado, nos anos 90, denúncias de abusos sexuais por um padre a mais de duzentas crianças surdas, durante 20 anos, em Wisconsin, nos Estados Unidos, caiu como uma bomba sobre a já combalida Igreja Católica, às voltas com centenas de denúncias de prática de pedofilia e abusos de toda sorte, cometidos por clérigos ao longo de anos e anos, em todo mundo. Minha família é um exemplo. O patriarca, capitão São Roque, era filho de um padre com uma escrava. Mas a notícia, na minha opinião, não deveria causar tanto escândalo. Quando a Igreja decidiu impor o celibato, do ponto de vista doutrinário, justificava o gesto como uma manifestação de fé, à altura do Cristo. No entanto, foi na Idade Média que o celibato associado ao sacerdócio passou a ter finalidade econômica, evitar que o patrimônio da Igreja fosse dilapidado com disputas entre herdeiros do clero. Além disso, segundo a história, o celibato evitava ainda que os padres tivessem que se dividir entre o ofício sagrado e a família. Desde então, todos sabemos que, para por em prática tal dogma com o devido rigor, foi necessário tolerar certos desvios, sobretudo os de caráter sexual. E foi graças a esse padrão que a sociedade foi se acostumando com padres que enfiavam a mão sob as saias das mulheres, beijavam os vãos de seus seios pelos decotes, atraiam crianças para figurar de assistentes e coroinhas e corrompiam outras tantas de temperamento mais vulnerável, na sacristia. Oras, por tudo isso, a notícia não me causa espanto. Afinal, o maior mal que o poder impõe é a tentação. Onde há poder, há corrupção, arbítrio, cumplicidade, submissão e silêncio. Por que seria diferente na Santa Sé?

25 março 2010

O terreno visto de cima

- Governador?
- Aqui na eternidade não temos passado, nem futuro. Portanto, me chame apenas pelo meu nome, por favor.
- Ok, como vai o senhor, seu Mário Covas?
- Muito bem, como todos por aqui também.
- Como é o céu?
- O céu somos nós que fazemos. Ele é um lugar que não existe na prática, porque aqui não há essa noção de tempo e espaço, que vocês têm aí embaixo.
- E o inferno, é perto?
- Outra confusão que vocês fazem é essa: o inferno não existe.
- Como assim?
- O inferno e o paraíso estão dentro de nós. Quanto mais aproximamos nossa crença à nossa ação, melhor é a nossa existência no firmamento.
- Mas como é a rotina aí, o que se faz...
- Bom, depende. Eu passo boa parte do meu tempo, se é que posso chamar assim, jogando.
- Jogando no céu?
- Sim. Temos um grupo que, ora joga buraco, ora dominó.
- E quem são?
- Bom, tem o Severo (Gomes), o Franco (Montoro) e o Ulisses (Guimarães).
- E quem é o melhor jogador?
- Aqui não tem melhor. Aliás, uma coisa que aqui não existe é hierarquia, poder, dinheiro, fama e nenhum dos sentimentos que aprisionam os pobres mortais.
- Então como funciona o jogo?
- Distribuimos as cartas e jogamos?
- E quando um bate?
- Nunca ninguém bate porque o jogo termina sem essa opção.
- E que graça tem então?
- Só estando aqui para saber...
- O senhor tem notícia do Tancredo?
- De vez em quando ele aparece. Mas anda muito ocupado tentando inspirar o neto.
- Ah, sei.
- O problema do Aécio é que ele é muito jovem e foi castigado com o charme e a beleza, que vivem tirando ele do caminho. Não pode ver um rabo de saia, nem receber um convite para festa no Rio que lá vai ele...
- O senhor acha que ele não está preparado para ser presidente.
- Ainda não. Não sei se sabe, mas toda vez que olhamos para baixo uma enorme tela de LCD se abre aos nossos pés. Parece cinemascope, não sei se é da sua época...
- Não, mais sei do que se trata.
- Dessa forma podemos ver o presente, o passado e o futuro. Basta querer.
- Não diga, que bom. E o que o senhor tem a me dizer então do futuro do candidato do partido que o senhor ajudou a construir?
- Sombrio, como ele o é. Política é a arte da conciliação, não da divisão. Ele não agrega, ele divide. Veja o que fez com o Alckmin, até com o próprio Aécio, com os demos...
- Quer dizer então que a próxima eleição é da Dilma.
- Não falo sobre o futuro.
- Ok, então fale o que o senhor acha do atual presidente.
- Olha, sempre fomos amigos. Outro dia tive com o Sérgio Vieira de Mello, lembra dele?
- Claro.
- E o Sérgio tem uma boa definição: Lula é um apaziguador! Um dos maiores que a humanidade já viu. Não por acaso, tem sido chamado para mediar conflitos no mundo todo. Veja a cilada que armou para os israelenses, por exemplo. Veja o que fez com a secretária de estado americana, que voltou para casa com o rabo entre as pernas... Veja a aproximação respeitosa com paises do chamado "eixo do mal". A compra dos caças. O Sérgio fez uma lista de exemplos.
- Então ele vai para o céu?
- Ele já está no céu, meu caro. Agora me desculpe que tenho um encontro com São Pedro. Ele e São Paulo não se entendem ultimamente. Culpa de quem? Do Serra, é claro.
- Só mais uma pergunta: e o terreno?
- Qual, o do brooklim?
- Isso?
- Não quero falar sobre isso. Uma hora a verdade aparecerá.
- Posso publicar nossa conversa no blog?
- Claro que pode, ninguém vai acreditar mesmo.
- É verdade!
- Adeuuuuuuuuuuuus.

24 março 2010

Ah, o terreno...

Negociata é um termo que ficou muito popular nos jornais nos anos 50, com a construção de Brasília. Para acusar Juscelino, a oposição chamava de negociata todas as cessões de direitos, concessões e contratos. Afinal, avançar 50 em 5 exigia certas "vistas grossas". Pois bem, vamos a um exemplo concreto. Por alguma razão litigiosa ou de interesse público, um órgão ligado ao estado (Departamento de Estradas e Rodagem) desapropria uma enorme área num bairro da zona sul de São Paulo (brooklim). Aí, o enorme terreno em área nobre - com água e esgoto, luz, telefone, várias linhas de ônibus e ao lado de dois Shoppings Centers é cedido para um "condomínio" interessado em construir um hotel, uma emissora de TV e um banco. Repare que o três ramos de atividade têm "tudo a ver". Bom, o consórcio adquire o terreno, que é escriturado e registrado num dos Cartórios da cidade. Só que, na hora de fazer a "partilha", um dos grupos interessados "empurra a cerca" para mais adiante, planta umas árvores, faz uma pista de "cooper" e abre o terreno para os funcionários terem "alguns minutos de relaxamento em meio a estafante rotina". Eu, Marco Aurélio Mello, fiz várias caminhadas no local e sou testemunha de que o terreno foi invadido sim pela Corte do Cosme Velho. Eis que aparece o reclamante: Manoel Borges Ferreira, 66 anos, dono do terreno que foi "grilado" e depois negociado com o governo do Estado (leia-se José Serra). Manoel tem escritura, recolhe IPTU e tem registro no 15º Cartório de Imóveis. Fala seu Manoel: "Eu entrei com uma ação anulatória da escritura de cessão de direitos do DER para a Secretaria da Fazenda do Estado. Esta ação está correndo. Esta semana, eu entrei com outra ação, uma proibitória. É para impedir que o Estado construa ali a escola técnica. Se quer fazer a escola, procure outro terreno. Não invada o meu. Estou levantando dinheiro para pagar as custas, que são muito altas. Devo pagar esta semana e então o juiz poderá apreciar meu pedido de liminar." Quer um conselho seu Manoel? Procure o MST e faça um acordo com o meninos que eles resolvem isso rapidinho para o senhor.

23 março 2010

É a economia, estúpido!

Em noventa e quatro, os candidatos da oposição foram para a campanha eleitoral como quem vai para a forca. O Plano de estabilização da economia, capitaneado pelo então ministro da Fazenda do Governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, tinha causado uma onda de euforia na sociedade brasileira e, portanto, na nossa economia. Um real valia um dólar. O consumo explodiu e o turismo interno também "estava bombando". Prova disso é que naquele verão tivemos quase 100% de ocupação na pousada que administrávamos no Arraial D'Ajuda, na Bahia. Ainda naquele ano, FHC foi eleito com 55% dos votos, logo no primeiro turno. Dois anos antes, a frase de um marqueteiro politico tinha sido importante para explicar a vitória do democrata Bill Clinton, na corrida à Casa Branca: "É a economia, estúpido!" Portanto, ignorar que a economia é a chave para enteder a cabeça do eleitor, é ignorar a história. História que voltou cristalina à mente, depois que li a notícia de que os juros ao consumidor são os mais baixos desde o início da série histórica, em 1994: 41,9%. A inadimplência também cai, o que diminui o risco de emprestar e, consequentemente, fará as taxas cairem ainda mais, lá na frente. Para completar esse cenário, a economia se expande com força, a oferta de empregos aumenta, aumenta a renda e, assim, a arrecadação federal. A inflação também parece estar controlada e o câmbio, bom o câmbio é assunto para o Nassif. Vendo do meu canto, a continuar esse sol e este céu azul no horizonte, vou ser obrigado a dizer em Outubro: É a economia, estúpido!

22 março 2010

A Espetacularização da Notícia

Começou já na semana passada com a justiça alardeando o "esquema especial" para o julgamento do casal acusado de ter atirado uma criança da janela do prédio em que viviam, na zona Norte de São Paulo. O assunto foi muito popular na época e rendeu uma cobertura no limite do esgotamento das possibilidades. Nós jornalistas temos uma vocação tremenda para espremer, espremer até não ter mais caldo para tirar de uma história. Nesse sentido, é difícil acreditar que nós somos os "carniceiros" e a sociedade vítima do nosso "jornalixo". Acho que um complementa o outro. Existe demanda para esse tipo de drama, talvez a mesma demanda que existe para as telenovelas. As pessoas gostam de acompanhar uma história que não é a delas, isso desde tempos imemoriais. Só espero que a turma esteja preparada para tamanha overdose. De agora em diante serão horas e horas de noticiário mostrando tudo e simulando tudo, até que saia a sentença lá pro fim da semana. Haja fôlego para uma cobertura assim e haja estômago para o que virá. Para quem gosta, boa sorte! Eu, na medida do possível, vou me limitar a fazer o meu trabalho e só.

21 março 2010

O pão e a Coca

A decisão tinha agradado o editor-chefe do principal telejornal da emissora, que autorizou a reportagem por São Paulo. Por alguma razão, tinhamos duas marcações (uma na periferia, outra na região central). Duas marcações é coisa rara, porque implica em tempo e custo. Normalmente, este tipo de matéria (em cima de uma nova norma) é resolvida com uma marcação apenas e uma entrevista. É o tipo de vt que começa com um texto curto, vem algumas entrevistas de consumidores, uma participação do repórter explicando como vai funcionar, de agora em diante, e uma frase que encaminha para o entrevistado, que vai necessariamente defender a tese que saiu pronta da reunião, horas antes. Mas não era uma decisão qualquer. E a repórter também não era uma qualquer, era a Neide Duarte. Foi em Outubro de dois mil e seis. A notícia: padarias e supermercados só poderiam vender pão francês a quilo. Quem não cumprisse a nova regra poderia ser multado. Logo que cheguei à redação já tínhamos a primeira fita, porque a repórter entrou cedo. Ao conversar com ela pelo telefone, Coca (apelido carinhoso que recebeu dos colegas) me contou que a matéria não era aquela que os chefes tinham decidido na reunião. Segundo uma das mais experientes repórteres em atividade no país, a notícia boa era que a decisão agradou o rico e confundiu o pobre. Como assim, perguntei? Na periferia o sujeito entra na padaria e pede: - Me dá um real de pão? Com a balança era impossível pesar um real. Historciamente o país se habituou ao pãozinho de 50gs. Como nem toda padaria fazia o pão no peso certo, as autoridades resolveram obrigá-las a pesá-los. Nada mais justo, na cabeça de qualquer um. No entanto, nada mais confuso, na cabeça de donos de padaria e de consumidores. Como na periferia um real comprava cinco pãeszinhos (R$ 0,20 a unidade), ao pesá-los nem sempre viriam os cinco, quase sempre quatro, porque o peso nunca era uniforme. Como se adaptar? O pão teria que ser menor e consequentemente pesar menos para caber no um real. Essa era a matéria, mas os chefes não iriam aceitar. Adotamos o expediente de "por o bode na sala". Fechamos a matéria como achávamos que tinha que ser e mandamos pouco antes do jornal ir ao ar. O editor-chefe ficou furioso e só exibiu a reportagem porque era o assunto do dia, não teria como derrubar. Depois, por um capricho, passou o resto da semana recontando a história a partir da zona Sul do Rio de Janeiro em que só se viam as vantagens de se comprar o pão pelo peso. Vantagens sem dúvida, indiscutíveis. Só que nem sempre a realidade segue a cabeça do chefe. Não é para isso é que existe o repórter? Ou existia, nem eu sei mais...

19 março 2010

Adivinhem onde fica o terreno?

A notícia saiu com certa discrição no portal das organizações, um dos quatro mais acessados do país. Trata-se de um convênio para capacitar jovens em cursos técnicos profissionalizantes na área de TV. Como até o reino mineral sabe, este tipo de profissional está sendo caçado por aí, depois que a disputa ficou acirrada entre as empresas de comunicação, produtoras de conteúdo para internet, telefonia, publicidade e, mais recentemente, campanhas políticas. Funciona assim: o Governo do Estado de São Paulo (leia-se José Serra) entra com o terreno e as instalações e as organizações com a obra. Depois que o prédio tiver sido levantado em terreno público... (oras, deixa isso pra lá, homem!) Bom, voltando à escola, depois que o prédio tiver sido levantado serão formados por ano cerca de 240 profissionais. Quem toca tudo é uma Fundação ligada ao Governo. No dia da formatura o pessoal do recrutamento da emissora vai estar de olho nos melhores alunos. Ahhhh, entendi. Só não me perguntem onde fica o terreno. Tenho vergonha de contar para vocês. Só espero que eles não construam um prédio muito grande, para não atrapalhar a vista privilegiada da Ponte Estaida, a partir dos estúdios de vidro. E depois ficam espalhando por aí que vivemos num Estado Democrático de Direito. Democrático de quem, cara pálida? Faz o favor!

18 março 2010

A dona Fulana

A cozinheira estava feliz da vida. Tinha acabado de comprar geladeira e fogão novinhos. Isso foi às vésperas no Natal de 2005, quando uma enorme rede de lojas de eletrodomésticos decidiu montar um mega feirão em São Paulo só para vender aos pobres. A reportagem que iria ao ar naquela noite, no principal telejornal da emissora, tratava a dona fulana com reverência (o nome eu não me lembro mais. Aliás, isso não importa, como veremos adiante). Afinal, graças à iniciativa individual estava superando a pobreza (esse era o enfoque da reportagem). O cinegrafista, um dos mais brilhantes e experientes ainda em atividade, teve a idéia de fazer uma imagem da mulher olhando pela janela aquela cena que ilustra o tipo de texto que diz que ela "sonha com uma vida melhor". Quando a imagem deriva para fora, vê-se uma vala por onde corre um enorme esgoto a céu aberto. Há lixo e entulho por todo lado. Ao longe, uma das Marginais e um bairro rico na outra margem do rio. A mulher morava na periferia de São Paulo, vendia uma boa quantidade de salgados para bares no centro da cidade, estava adquirindo renda e cidadania, mas não tinha as mais básicas condições de higiene. Não que ela fosse suja, ao contrário. No barraco tudo era limpinho, bem acondicionado. O problema foi ver o que estava do lado de fora. Ficamos, o editor de imagens e eu, chocados e nos perguntamos: seria prudente usar aquela personagem no vt? Não podíamos prejudicar o ganha-pão dela, quando os compradores descobrissem aonde ela morava? Na duvida, não usamos a bela imagem do cinegrafista que, sozinha, sintetizava a condição de boa parte dos brasileiros, sobretudo os que vivem apartados, nos grandes centros urbanos. Essa imagem me veio à mente, assim que li hoje a notícia de que de cada seis brasileiros que vivem em favelas, um deixou de morar nelas, nos últimos dez anos. É pouco? Claro que é pouco! Longe demais do ideal e muito aquém das nossas possibilidades. Faço votos que dona fulana esteja entre os que sairam. Para os que ficaram, minha torcida e esperança.

17 março 2010

Até Parece Ilusão

O Mês de março já vai terminar e, curiosamente, o trânsito da cidade de São Paulo melhorou. Ando cento e cinquenta quilômetros de carro por dia. Parte do percurso é na principal artéria da cidade: a Marginal Tietê. Oras, o que estaria acontecendo? Se para complicar ainda mais, temos obras que criam, pelo menos no trecho que percorro, dois enormes gargalos? Como viajo do interior e volto há dez anos, aprendi a sentir "o pulso" da cidade. Sei quando o paulistano está com pressa, nervoso, cansado... Mas nada disso tem acontecido. Nem chuva tem havido! O que seria, então? Acho que encontrei a resposta: o endividamento do brasileiro que vive nos grandes centros subiu para sessenta e um por cento. Os numeros são da Confederação Nacional do Comércio e foram divulgados hoje. Foi no cheque especial, que parcelou compras pré-datadas desde o Natal, foi no limite do cartão de crédito, que não permite mais extravagâncias, além de todas as despesas sazonais, como: IPVA, material e uniforme escolar... Resultado: o pessoal começou a cortar. Numa cidade como São Paulo essa dinâmica da falta de dinheiro a gente vê nas ruas, literalmente. Lojas e Shoppings Centers andam mais vazios, pequenos negócios e serviços - feitos de carro - ficam concentrados para um ou dois dias apenas (quarta e quinta-feira, em geral), porque na sexta-feira a ordem é salve geral. Outra curiosidade: o número de caminhões de distribuição, que partem das empresas de logística, muitas no entorno da cidade, cai assustadoramente. O resultado é uma "freada" na atividade econômica. Talvez nem tenha grande peso, mas é perceptível. Tanto é assim, que a segunda prévia da inflação de março já mostrou desaceleração, sinal claro de que o consumo diminuiu frente à oferta. Para mim é otimo! Se antes levava pouco mais de uma hora para ir e voltar do trabalho, hoje não passo mais do que cinquenta minutos, em cada viagem. Pena que não será assim para sempre. Mas, pelo menos por enquanto, sobra mais tempo para o blog, o que estou achando ótimo!

16 março 2010

A Nova Revolução

O que está em curso na internet hoje é uma disputa por poder. Poder de informar com qualidade, com opinião sim, mas sem distorcer, nem manipular. E alguns colegas já ocuparam esse espaço importante: Nassif, Azenha, Eduardo Guimarães, Rodrigo Vianna, Marcelo Salles, Bob Fernandes, o velho Kotscho, são tantos... E os internautas - ávidos por um admirável mundo novo - descobriram que há uma maneira de ver fora da caixa, dos padrões tradicionais e estão gostando muito disso. Com uma enorme vantagem comparativa: na internet é possível interagir com o autor. Produzir e agregar conteúdo quase que simultaneamente. E fazer parte de um grupo de trabalho, de estudo, de pesquisa. Tudo numa velocidade inimaginável. Finalmente, a comunicação em via dupla. Portanto, uma comunicação mais completa, plural e abrangente. É claro que nenhum de nós gosta de ser ofendido, atacado, insultado, como tem acontecido mais recentemente. Mas isso é parte do jogo. Setores que sempre tiveram o controle absoluto sobre o conteúdo jornalístico e mais, sobre a opinião, estão perdendo relevância rapidamente. Eles não conseguem mais ecoar seus discursos e se desesperam. O consumidor de informação saiu da caverna e encontrou luz e ar fresco. Lamento, mas essa batalha entre o jornalismo tradicional e o 'novo jornalismo', representado por um sem-número de blogs e sites, rompeu o dique. Agora, a água vai descer. Muitos podem se aproveitar da correnteza e seguir adiante, mas a maioria morrerá afogada. É assim em toda revolução. Não será diferente nessa. Como diz o Azenha, bom cabrito não berra. E como dizia o Chico Pinheiro às cinco horas da manhã na Praça Marechal, nos anos noventa : - Remem marujos! Remem!

Vale a pena ler o comentário do Alex.

15 março 2010

Veja só

- Hoje é só o sorvete? perguntou a caixa muito educada.
- É sim. Por que tanta revista aqui numa terça-feira à noite? perguntei.
- É encalhe, respondeu.
- Mas tudo isso?
- É, tem sobrado muita. Quando é capa assim, então, falando de política é pior. Quando o assunto é saúde, beleza, até que sobra menos.
- E a editora não reclama de levar tudo isso de volta?
- Hoje em dia não. Logo que eu entrei aqui, o distribuidor pegava no pé do patrão, se sobrava muita. Vivia ameaçando de diminuir a cota e tal. Mas de uns tempos para cá, não. Teve época em que, dependendo da capa, não dava nem para o domingo. Agora, o distribuidor até pede para deixar umas a mais.
- Como assim?
- É que eles incentivam os pontos bons.
- Ah. E esse é um ponto bom?
- É o melhor da cidade.
- É mesmo?
- É o que o distribuidor disse.
- E quanto é a cota de vocês?
- Oitenta.
- Oitenta?
- É.
- Bom, pelo visto aqui vai sobrar mais da metade...
- Até sábado vende mais algumas.
- Ah. Você sabe quantos moradores tem aqui na nossa cidade?
- Cinquenta e poucos mil.
- E não acha oitenta revistas pouco?
- Acho. Isso sem contar os que pegam só para fazer tipo.
- Como assim?
- Tem uns que querem mostrar que têm informação, que são inteligentes, descolados, sabe? Esses levam, mas nem lêem.
- É mesmo? Como sabe disso?
- Já trabalhei em casa de família em condomínio. Fica lá e ninguém dá a mínima. Também, o dinheiro está sobrando, né, nem liga...
- Ah.
Nota do autor: Sou do tempo em que Revista Veja faltava (olha só como a foto é pequenininha, pobrezinha). A gráfica não dava conta de rodar tanta... Certas edições passavam de mão em mão. Textos eram intercambiados. Durante a década de oitenta, por exemplo, era leitura obrigatória. Não dava para começar a semana, numa capital ou grande cidade, sem ter lido, ao menos, a entrevista das páginas amarelas. Hoje, nem o leitor padrão se interessa mais. Perdeu relevância. A tiragem só não cai mais porque o governo do estado andou assinando uns exemplares para distribuir na rede pública de educação, e dar uma forcinha. Mas é um hábito em desuso. Também, viram como hoje ela é mal feita, indigesta? Não é por acaso que, agora, deram para gritar, na esperança que alguém os ouça. Podia jurar que a Luiza Erundina foi eleita com aquela capa do operário morto. Como podia jurar que um dia eles lançaram ao poder um certo Caçador de Marajás. Triste fim para quem já foi o espelho da pequena classe média brasileira... Quero só ver quantos estarão no funeral. Se bobear, nem os assinantes.

A Dona da Pensão

Quando conheci Alexandra http://xan-mello.blogspot.com/ foi como se estivéssemos nos reencontrado, depois de uma longa espera. Foi num hotel, em Minas Gerais, no Carnaval de 1984. Daquele momento em diante, passamos a ter a certeza 'inconscientemente' de que um dia estaríamos juntos. Já se vão 26 anos, 15 de casados. Dois filhos, muitas voltas por esse país afora e, hoje, em Vinhedo, como vocês bem sabem. Por tudo isso, fico bem à vontade para dividir com todos os internautas o orgulho que senti na última sexta-feira, quando ela me chamou no MSN e provocou: - Advinha quanto tirei no meu TCC? Respondi de pronto: - Dez! Tínhamos feito uma aposta. Depois que li o trabalho que fez sobre Winnicott, para o curso de especialização da Unicamp, sentenciei: - É dez! Não deu outra. Por uma razão muito simples: além de muito bem escrito, a idéia era originalíssima. Como alguém poderia - estudando desenvolvimento infantil - estabelecer uma relação entre as obras de Jean Piaget e Winnicott para buscar, na síntese de cada uma delas, a convergência para um conceito amplo: o de Democracia? Pois ela conseguiu. Comparando a obra de ambos, encontrou caminhos que se cruzavam e decidiu arriscar. Acho que a professora entendeu, e mais, gostou. Agora, nossa aposta é a seguinte: eu tenho certeza de que o comentário que virá com a nota vai destacar a 'originalidade'. Ela, por sua vez, age com desconfiança. Dar-se-á por satisfeita se ao menos houver comentário. Vamos esperar...

14 março 2010

A Ditabranda

- Vambora, vambora, tá na hora vambora, vambora. Era assim que começava o dia de uma família de filho de migrante mineiro com migrante também mineira, em São Paulo. - Seis horas, trinta minutos. - Repita! - Seis horas, trinta minutos. O pai corria para o banho. Fazia a barba e tentava pentear o cabelo de lá para cá, de forma a disfarçar a calvície, como o pré-candidato ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin, o faz até hoje. A mãe acordava os quatro filhos e descia a escada do sobrado geminado no Itaim Bibi, para "passar" um café forte e com pouco açucar, tipicamente mineiro e esquentar o leite tipo B, em saco plástico, racionado pelo governo. Estou falando do início dos anos 70, em que o português da padaria mal falava "nossa língua", mas ainda assim marcava no caderninho, para acertar no fim do mês. O dinheiro era cruzeiro e não tinha inflação. Estávamos no início do que se convencionou a chamar de Milagre Brasileiro. Gasolina barata, crescimento econômico, emprego de sobra... Pelo menos na visão dos militares e de seu todo-poderoso ministro da Fazenda, Delfim Netto. Tempos de café Moka, moído na hora, numa balança que acendia a luz verde, quando o peso do pó no saco atingia os 500g. Acordar com rádio-relógio cantando era um luxo, típico de classe média em ascensão. Lá fora frio e uma permanente chuva fina de mata atlântica, bem característica da Zona Sul daquele tempo. Afinal, São Paulo era a terra da garoa! Vestíamos uniforme, entrávamos no carro, que ficava na garagem "esquentanto" por cerca de quinze minutos, isto é, quando a bateria permitia a partida, e seguíamos para a Escola Estadual de Primeiro e Segundo Graus Martim Francisco, na Vila Nova Conceição (hoje, um dos melhores bairrros da cidade). No carro, o rádio Bosch continuava dando as principais notícias do dia. Correspondentes, repórteres espalhados por todo o país e os apresentadores da Jovem Rádio Jovem Pan de São Paulo. Com transmissores no Pico do Jaraguá. Chegávamos na escola e entrávamos em forma. A bandeira era hasteada, cantávamos o hino nacional, e seguíamos disciplinadamente para as salas de aula. É só um recorte de uma realidade que já foi a nossa. Outros recortes estão a caminho...

13 março 2010

A Calibragem da Pesquisa

Dessa vez não deu. O plano era manipular a margem de erro e o eixo da curva (em torno de cinco pontos percentuais para cima e para baixo). Assim como de costume, seria possível criar uma ilusão de disputa bem distante da realidade, mas capaz de deixar os clássicos indecisos na dúvida, por mais tempo. Como os métodos estão sob suspeita, ninguém quis arriscar. Números que serão divulgados na semana que vem dão Dilma à frente de Serra. Isso não quer dizer muita coisa. Tenho dito aqui que o brasileiro só vai se preocupar com eleições depois da Copa do Mundo. Por enquanto, só mesmo os políticos, jornalistas e poucos curiosos dão bola para esse Fla-Flu. Dilma cresce muito rapidamente, o que comprova a capacidade do presidente da República de transferir votos e da importância da máquina, para fazer propaganda. Só que há um limite e, depois dele, é com ela. Dilma será a dona do palanque e uma das estrelas do horário eleitoral gratuito da TV. Quando isso acontecer é que veremos quem tem fôlego para chegar. Dilma tem alguns obstáculos a superar, a saber: a falta de carisma, de eloquência e de simplicidade retórica. Nada que um bom marqueteiro não consiga disfarçar. Também tem os barões da mídia e a elite conservadora, sobretudo a paulista, de nariz torcido e jogando contra ela. Mas até aqui dá-se jeito. A única coisa para a qual não existe mágica, são os debates. Aí é questão de performance. É este o ponto onde a dúvida de todos reside. E a dela também.

Atualização e comentário na quarta-feira, 17 de março:
Só para corroborar a minha tese de que o brasileiro não está nem aí para pesquisa, ainda, veja o resultado da espontânea, a que realmente vale. 42% dos entrevistados estão indecisos. O presidente Lula tem 20% das intenções de voto, Dilma vem em segundo, com 14%, e José Serra em terceito, com 10%. O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, ficou em quarto lugar, com 3% das intenções de voto espontâneas e Ciro Gomes e Marina Silva, com 1% cada um. Brancos e nulos somaram 7%.

12 março 2010

A arte de Tergiversar

Da série ficção, a preferida dos internautas. Digamos que no início dos anos 2000 eu tivesse sido procurado por um renomado advogado criminalista de São Paulo. Digamos que ele me considerasse um interlocutor confiável a ponto de me contar alguma coisa e tentar obter de mim, em troca, alguma informação. Digamos que este renomado advogado criminalista estivesse defendendo um político polêmico que, ainda que assim o fosse, tivesse na letra morta da lei o direito de ampla defesa. Digamos também que, na conversa, ele tenha relatado que o promotor tinha feito um acordo espúrio com a Corte do Cosme Velho, para solapar a carreira política da tal personalidade polêmica. Para sustentar as suspeitas, tivesse me revelado que tal promotor teria se enriquecido ilicitamente e que era alvo de uma discreta investigação por um dos órgãos do Governo à época. Digamos, ainda, que a emissora tivesse tido acesso a material gravado por um de seus produtores especiais que comprovava a prática de crime pelo promotor, mas que teria feito acordo com ele para não divulgar a gravação em horário nobre, como fora o primeiro impulso. Para encurtar a história, digamos que tenham me perguntado se eu conhecia a existência da gravação. Teria respondido que sim. Digamos que ele tivesse me perguntado se eu conhecia o teor. Teria dito que não. E digamos, por último, que ele tenha me perguntado se eu seria capaz de localizar tal material e tomar conhecimento da denúncia. Teria dito que não, porque a fita jazia sobre a mesa de um importante jornalista da emissora e não podia ser subtraída de lá, sem que ninguém percebesse. Digamos que o promotor esteja na ativa até hoje, refém das organizações, em troca de proteção e factóides eventuais, distribuídos, primeiro, a uma revista semanal de esgoto e repercutido em rede nacional no principal telejornal da emissora. Digamos que algum internauta viesse a me perguntar se isso acontece até hoje. Aí tenho que tergiversar: Nego, com veemência!

11 março 2010

A Dona Marzinha

Só ela mesma para saber quantas vezes foi chamada de Marcinha. Se o apelido não ajudava, o nome muito menos. Tinha a combinação de Delfina (avó paterna) e Maria (avó materna). Deu em Delfimar. Imagina só no interior de Minas Gerais, triângulo mineiro, para falar esse "l". Era Delfilmar, Delfismar, Delfinar... Para tentar resolver o problema inventaram o diminutivo: Delfimarzinha. Mas era comprido demais. Simplificaram e ficaram só com a segunda metade! Bom, com menos de 30 anos a mineirinha da foto ao lado já tinha quatro filhos, em escadinha. O sonho de vir morar na cidade grande veio aos dezenove anos, com o matrimônio. Aqui, desbravou a capital. Da República à Sé, passando pela Patriarca, não havia loja que a baixinha não conhecesse. Início dos anos 70, época de Natal, por exemplo, lá estava dona Marzinha. Sapatos era na região da Sé. Roupas na São Bento e 15 de novembro. Departamentos, no Mappim. Diversos, na 7 de Abril e 24 de maio. E os complementos, nas Lojas Americanas, que sempre ficava para o fim do passeio, para nossa infelicidade. Era lá que estavam o cachorro quente e o suco de laranja de máquina. Ah, e o sorvete italiano, feito na hora, como os do Mc Donald's de hoje em dia, só que de cores berrantes. Sacolas numa mão e a filharada na outra, dona Marzinha ordenava: - Meninos, segurem firme para ninguém se perder no meio da multidão. E todo mundo obedecia direitinho. Ah, e claro, sempre tinha um parente distante junto na aventura. Os vendedores gritavam: - Calça Lee, calça Levi's. - Calças, calcinhas e calcetas. Bolsas, bolsinhas e... sapatos de todos os tipos e modelos. - Mulher bonita não paga, mas também não leva. E por aí vai... Em pleno Milagre Brasileiro, Marzinha fazia, como poucas, o milagre da multiplicação do orçamento. E dava para comprar presentes para todo mundo. E olha que, a aquela altura, só de sobrinhos, já éramos mais de duas dezenas. Às vezes a mineira esperta caía do cavalo. Com o fotógrafo explorador, que fazia albuns das crianças, com vendedores de enciclopédias e com as ciganas. Teve uma que levou quase todo ouro dela embora, em troca de sedas e outras bugigangas. O marido dava broncas e a dona Marzinha, como a grande maioria das mulheres, chorava... A normalista virou pedagoga e se especializou em crianças excepcionais. Mas se aposentou mesmo ensinando operários em cursos de prevenção de acidentes. De volta ao interior, continua com a casa cheia de gente e com a mesma autoridade... e generosidade de sempre. E não recusa, por nada desse mundo, um convite para passear no shopping, nem que seja só para olhar vitrines. Dona Marzinha é minha dona Lindu. E essas são algumas das minhas reminiscências ao lado dela.

10 março 2010

O seu Antonio

Seu Antonio veio do sertão de Pernambuco, no fim dos anos sessenta. Quando o conheci, em 1979, tinha apenas 13 anos. Ela era o zelador do prédio novinho em folha construído na Vila Olímpia. Naquela época, a Vila Olímpia era um bairro esquecido da zona Sul de São Paulo. Para lá se refugiaram, no início dos anos sessenta, hippies, imigrantes espanhóis, libaneses e migrantes em geral. Muitos viviam em extensas favelas às margens do córrego Uberabinha, uma língua negra que descia dos bairros ricos da região do Parque Ibirapuera e desaguava no Rio Pinheiros. Perto da foz do Uberabinha, a maior e mais temida de todas: a favela da Funchal. Seu Antonio fugiu da fome, como tantos naquele tempo. Mas tinha orgulho de dizer que as terras do pai eram férteis e não tinha problemas com a seca (veja a foto da região). A decisão de deixar o local - e voltar um dia - era por absoluta "falta de tudo". Em "Sumpaulo" construiu a vida. Casado, duas filhas, uma temporona, sempre discriminadas. Não brincavam com as outras crianças do prédio e ficavam confinadas num pequeno apartamento no térreo, com dois quartos, sala, cozinha, banheiro e lavandeiria, minúsculos. Ele passou a vida sonhando em voltar para casa. Nos anos oitenta, comprou um fusca vermelho, 76 se não me engano, e levou a família para visitar a família no "Norte". Sentia-se feliz e realizado. Mas sabia que algo não ia bem. Não tinha liberdade. Era obrigado a atender ocorrências de moradores 24 horas por dia, de segunda a sábado. Folga só no domingo e olhe lá. Conforme a vida dos moradores foi melhorando, a vida de seu Antonio e da sua família não avançava. Até que um dia ele me contou quanto ganhava. O salário era insultante. Ousaria dizer que, em dinheiro de hoje, era algo como mil reais. E, com quase trinta anos de serviço, estava indicado para receber o prêmio de Zelador do Ano, do sindicato. Fiquei indignado e fui conversar com meus pais: - Como pode esse sujeito ganhar o que ganha, perguntei. - Porque não procura o síndico, sugeriram. E lá fui eu. O cara era daqueles síndicos históricos, que ninguém tinha coragem de tirar de lá. O sujeito olhou para mim e disse candidamente: - Pagamos o salário "de mercado". Desde então fico com isso martelando em milha cabeça. Hoje, tantos anos depois, tenho a resposta. O mercado somos nós! Se começarmos a remunerar melhor as pessoas que nos servem, aos poucos vamos "inflacionando" o mercado de trabalho e obrigando os outros a pagarem bem também. Acho que a lógica é essa! Mas a classe média está mais preocupada em dar tudo aos filhos, às vezes, até mais do que deveríamos. Por exemplo, se as quarenta e quatro famílias do prédio tirassem dez reais do orçamento, nada, seu Antonio teria um aumento de salário equivalente a quatrocentos reais! Para ele teria feito uma diferença enorme. Aí eu pergunto: quantos seus Antonios o Brasil tem?

09 março 2010

Exemplos por Argumentos

Quem sabe exemplos são mais claros do que argumentos... Nossa nova emrpregada doméstica (isso mesmo, temos uma, somos da elite, só que mestiça) Néia veio parar no interior de São Paulo, como a maioria das empregadas domésticas de todo país: a procura de uma vida melhor. Com vinte anos deixou o interior da Bahia, região da Chapada Diamantina, lugar lindo, segundo ela. Seus ancestrais fugiram da escravidão e se embrenharam pela mata fechada e, no caso da chapada, escarpada. Encontraram local seguro onde se fixaram desde então. A comunidade quilombola foi reconhecida e teve suas terras finalmente regularizadas em 2006. Lá vivem cento e cinquenta famílias. São negros autênticos, se é que podemos dizer assim. Vivem da agricultura de subsistência, baseada na mandioca, e do extrativismo e artesanato. Não têm água tratada, nem esgotamento sanitário. Luz elétrica já chegou. Telefone tem um aparelho, mas quando chove, não funciona. Para chegar à cidade mais próxima é preciso caminhar cerca de uma hora até alcançar o asfalto. De lá esperar o ônibus, sem hora certa para passar, daqueles pinga-pingas, que param sempre que alguém acena. Néia, por um milagre, tem segundo grau completo. Sabem como? Quando eram crianças acordavam de madrugada e seguiam ainda escuro, até a estrada, para pegar o ônibus escolar. Quando atingiram certa idade, doze, treze anos, as meninas foram trabalhar e morar em casas de família na cidade. Passavam o dia inteiro como empregadas domésticas e estudavam à noite. Néia não teve coragem de contar quanto ganhava de salário. Limitou-se a dizer: - Era muito pouco. O companheiro, pai da filha, menina que tem pouco mais de um ano, também veio do mesmo local. Ele está sempre a procura de trabalho na construção civil, onde aparece oportunidade. Mora na obra e só folga aos domingos. Ela acha engraçado estranharmos que os maridos não vivam com as mulheres. No interior do país, muitas mães criam seus filhos sozinhas, enquanto os companheiros tentam oportunidade melhor em outros locais, principalmente no corte de cana. É o emprego que têm. Em Vinhedo vão gastar quase tudo o que ganham com aluguel, tarifas públicas e alimentação. Mas vão ter o básico: creche, escola, assistência médica e odontológica gratuitas, equipamentos públicos de lazer, telefones celulares, eletrodomésticos e, quem sabe, até um carrinho no futuro, se der para poupar algum dinheiro. Tiveram sorte de ser acolhidos numa das cidades brasileiras com o maior índice de desenvolvimento humano do país. Estão construindo suas vidas bem longe de casa, das suas tradições, do seu povo, na base da pirâmide social. Agora, eu pergunto: - Quantas Néias existem no Brasil?

08 março 2010

Uma questão de cor

Hoje em dia a gente vê um negro na televisão e pensa: - Poxa, não é que eles têm espaço? Vemos um negro na novela e concluímos: - Não é que eles também podem viver um papel de protagonista? Ainda assim, apesar de maioria absoluta em nossa sociedade, são exceção! Já contei aqui como foi implantada a vergonhosa política de cotas no Jardim Botânico, pela direção da empresa de comunicação em que trabalhava. Idéia de um diretor, às vésperas de lançar seu livro contra as políticas afirmativas para negros. Ele cismou de ter negro no mais importante telejornal do país, da noite para o dia, para comprovar sua tese de que não somos racistas. Aliás, dizem que o patrão dele era mestiço, como o Aécio, só que não admitia de jeito nenhum. Bom, mas não é esse o ponto. O ponto é que na semana passada o STF fez audiência pública para julgar ação do DEM contra cotas na Universidade Federal de Brasília. Nesse contexto a revista Carta Capital entrevistou um dos maiores especialistas em direito constitucional brasileiro, o professor Fábio Konder Comparato que, mais uma vez foi categórico. Ouçamos o mestre: ..."Os últimos dados do Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas (Ipea) mostram que, em 2006, 55,2% da nossa população masculina se reconheceu como negra. E 49,7% das mulheres brasileiras também se reconheciam como negras. Levando em conta o percentual considerável daqueles que não reconhecem a sua origem africana (embora a tenham, grifo meu), os negros constituem a maioria incontestável da população no Brasil. Deveríamos ficar de braços cruzados em relação à marginalização desse povo?" Está aí uma reflexão que podíamos fazer todos: pretos, mestiços, pardos, brancos, amarelos, azuis e tantos outros miscigenados brasileiros. A entrevista com o mestre está na revista desta semana.

Uma fronteira "verde"

Fico muito feliz que o espaço do blog possa ser usado pelos frequentadores para discutir determinados temas com argumentos e profundidade. A isso damos o nome de debate. Espaço para expor idéias e fazer análises, mesmo que divergentes ou conflitantes, aumenta o esclarecimento dos que procuram alternativas ao padrão estabelecido pela mídia convencional. Claro que, por não estarmos muito acostumados a debater, e isso é uma herança sociocultural, às vezes excedemos no tom da crítica ou na ênfase do texto. Cabe ao moderador, no caso o gestor do blog, impedir que a disputa entre no campo da agressão barrata e troca de insultos gratuitos. Espero que tenha atendido às expectativas, tendo liberado os comentários que considerei mais relevantes, mesmo que pudessem ter, em alguns casos, excessos de lado a lado. Mas, infelizmente, terei que mudar de assunto, pela própria dinâmica do meu trabalho. Ainda assim, o debate continua com a liberação de comentários o mais rápido que conseguir. Obrigado a todos, mais uma vez, pela frequência, confiança e, por que não, pelas críticas. Tento não ser preconceituoso e a todo instante revejo meus conceitos. Portanto, as novas idéias são sempre bem-vindas aqui.

07 março 2010

Direita Existe?

Um anônimo deixou um comentário com um desafio: defina o que é direita no Brasil? Há quem diga que esses conceitos são anacrônicos, ultrapassados. Não acho. À direita do espectro político estão aqueles que defendem o interesse privado, em detrimento ao interesse público. Na economia, a iniciativa privada, a livre concorrência e as mãos invisíveis do mercado, em detrimento do Estado como agente regulador e indutor do crescimento econômico. E, para a sociedade, acreditam que há uma casta de privilegiados e "escolhidos por Deus", contra uma massa de desafortunados, que estão "pagando pelos erros de seus antepassados". Pode parecer simplificação, mas aqui temos uma síntese das desigualdades e, consequentemente, da miséria humana. Portanto, podemos concluir que, quem não está à direita, está à esquerda, certo? Não, errado. Tem o centro. E é exatamente nele que o atual Governo se insere. Vivemos num regime presidencialista de coalizão, num pacto pela governabilidade, construído depois do escândalo do mensalão. Para isso, estabeleceu-se uma ampla aliança com parte da elite nordestina (até então à direita do espéctro politico) para se alcançar algum sucesso, ao atender demandas sociais reprimidas. Foi preciso sim vender a alma ao diabo. Contudo, o foco nos programas sociais e na melhoria de acesso a serviços públicos e ao consumo de massa se mantém, só não vê quem não quer. Na oposição, hoje, está se aglutinando parte da elite, de norte a sul, com as classes médias urbanas influenciáveis pela propaganda da mídia tradicional: questionam a eficiência do Estado e das políticas públicas, consideram os programas sociais esmola e querem parceria ampla com a iniciativa privada, tornando o agente público um regulador, ou mero espectador, em muitos casos. Esse projeto político não me interessa. E é a esse projeto que, ingenuamente, Marina esta se pondo a serviço.

Por que Marina é a redenção da direita?

Adoro a Marina Silva. Já disse isso em outros "posts". Acho que ela é uma guerreira. Brilhante e muito bem articulada. Também entendo que política é a arte de conciliar interesses. Acho que alianças e acordos são importantes. Quando se filiou ao PV e lançou sua pré-candidatura, escrevi a respeito. Ela foi capa de todas as revistas semanais do país porque ela é "chic". Ela é o que de mais moderno o país tem hoje, em termos de ideário. Ela é contra a emissão desenfreada de gases de efeito estufa, ela é contra a escalada do aquecimento global e suas consequências, contra a corrida armamentista, a favor da preservação e recuperação ambiental. É a favor de políticas de destinação de resíduos (sólidos, líquidos, recicláveis e orgânicos) e defende com veemência o conceito de crescimento sustentável. Esta visão de mundo é tudo o que os paises europeus, sobretudo os escandinavos, postulam. Em tese é tudo lindo. Se vier acompanhado de uma trajetória de luta social e princípios éticos, então, como é o caso dela, é maravilhoso. Só que reafirmo: Este discurso está descolado da realidade. Primeiro, porque está distante de um país que, ainda hoje, pasmem, não conseguiu sequer universalizar serviços considerados essenciais, acesso à água e esgoto, luz elétrica, telefone... Isso sem contar os outros serviços públicos que foram precarizados primeiro, para depois serem privatizados: transporte, saúde, educação... (todos direitos humanos fundamentais). Lembrando ainda que três, em cada dez brasileiros, vivem abaixo da linha da pobreza. Precisamos sim acelerar o crescimento com indução do estado, maior fiscalização e controle. E não nos fecharmos num ideal que, hoje, só atende à elite. Elite essa representada por aqueles que já têm tudo, como as classes médias urbanas e os barões da mídia. Por isso, insisto, a aproximação da candidata com a elite é um fenômeno natural, mas que não guarda correspondência com a realidade do país. E se considerarmos, por outro lado, as regras políticas vigentes, um partido como o PV só alcançaria o poder se vendesse a alma ao diabo. E é exatamente isso o que está acontecendo. Desculpem-me os verdes, admiro e respeito muito a luta de vocês. Mas nesse momento, vocês estão sim a serviço da direita, como braço auxiliar.

06 março 2010

Depois não digam que não avisei

Num encontro fora da agenda entre a pré-canditada do Partido Verde, Marina Silva, e o vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, ontem, ficou "praticamente acertado" que a visibilidade da acreana vai aumentar aos poucos, no Jornal Nacional. O almoço, em segredo no Jardim Botânico, teve duplo interesse: viabilizar o PV, que vai de Gabeira naquele estado, com vice do PSDB, como já antecipei aqui no blog e, quem sabe, construir uma aliança que coloque Marina e Serra no mesmo palanque, caso Aécio Neves "não seja convencido" de que, apesar de mestiço, pode sim compor uma chapa puro-sangue no PSDB. O maior entrave, por enquanto, é religioso. Enquanto Marina é evangélica, a Corte do Cosme Velho é católica, da linha "Ratzingeriana", quer dizer: perseguir e calar. A favor de Marina, o fato dela encampar as vertentes "ética" e "ecológica", num discurso que as classes médias metropolitanas adoram e que a família Marinho tanto defende, para os outros.

05 março 2010

Mais um, mais um...

O homem da foto ao lado teria razões de sobra para temer Lula, o PT e sua candidata à presidência. Sequestrado em 89 por seis homens, cinco chilenos e um brasileiro, teve o caso associado – levianamente – a grupos políticos radicais de esquerda, ligados ao Partido dos Trabalhadores. A manipulação foi tão grosseira que, durante a prisão, os policiais paulistas chegaram a vestir os seqüestradores com camisetas do PT. O Brasil foi salvo por um experiente editor de texto que ainda hoje dá expediente na maior emissora do país. Está meio encostado atualmente, como a direção costuma fazer com seus profissionais mais talentosos e autônomos. Ele se chama Armando Figueiredo. Foi ele quem recusou a imagem dos seqüestradores fantasiados e “mentiu” para os chefes, dizendo que não tínhamos a imagem. O plano, naquela noite, era fazer estardalhaço no Jornal Nacional. Ontem, ao dar posse ao novo presidente do grupo Pão de Açucar, o empresário Abílio Diniz (um dos homens mais ricos e bem sucedidos do país) disse aos seus que vota em Dilma. E sabem por quê? “Ela tem todas as condições de dar continuidade ao legado deixado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva." E sabem que legado é esse (na voz do empresário)? “É o legado do crescimento, da geração de emprego e da distribuição de renda.” Vocês acham que parou por aí? Não, tem mais: “tenho uma profunda admiração por este homem”, completou. Lembra muito a coragem de outro rico empresário, avalista dos melhores momentos que nosso país já viveu, o brasileiro José Alencar.

04 março 2010

Para bom entendendor...

O que faz a subprefeita de São Paulo semi-nua na capa daquele que já foi o mais importante jornal impresso do país, no dia em que José Serra anuncia sua candidatura à presidência? A resposta é a seguinte: Soninha foi pedalando (ela é ciclista, nas horas vagas) até a praça Roosevelt e, na volta, resolveu rasgar a fantasia. O recado ao Governador veio na forma de verso: "Sou fera ferida no corpo, na alma e no coração."

03 março 2010

Até a vitória uai

- Alô.
- Governador, prazer falar com o senhor.
- O prazer é meu, Marco.
- Sei que está muito ocupado com o assédio do PSDB nacional por isso vou ser breve. O senhor vai ou não vai aceitar ser vice na chapa puro-sangue do PSDB?
- Hahaha. Já disse isso e vou repetir: como posso fazer parte de uma chapa puro-sangue se sou mestiço?
- Mas o seu partido está em vias de naufragar.
- Essa é apenas uma impressão falsa. Na minha avaliação, ao contrário, o partido está em vias de se refundar. A política brasileira não pode ser pautada pelos paulistas e seus intereses, exclusivamente. Isso é contra o pacto federativo e contra os desígnios de uma nação que se pretende justa e igualitária. Tive uma conversa franca com o futuro governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, quando lançamos a candidatura dele à presidência, aqui no estado, em 2006. Ele ficou admirado com a presença e a lealdade dos mineiros. É assim que nós fazemos política, com franqueza e lealdade, sem conchavos. Naquela ocasião, seguiamos de ônibus pelas ruas de Belo Horizonte e ele, bastante amargurado, se queixava que estava sendo boicotado pelo próprio partido. Oras, como isso é possível? Isso não é política, isso é trapaça, conchavo, compadrio...
- Quer dizer então que ser vice de Serra está descartado?
- Veja bem, sou mais útil ao meu estado, Minas, ao meu país e ao meu partido se me lançar candidato ao senado. Tenho certeza que, como candidato ao senado, tenho condições de percorrer Minas e criar uma verdadeira onda de alianças em torno da candidatura nacional do partido. A verdadeira política se faz, primeiro, localmente.
- Mas o senhor não acha que a derrota do PSDB...
- Como derrota? Estamos em março! As eleições são só em outubro, o primeiro turno, e em novembro, o segundo. Ninguém ganha eleição de véspera. O calendário eleitoral só vai ser definido de fato depois da Copa do Mundo. Até lá os brasileiros estarão apenas observando.Vamos fazer uma campanha séria, inflamar nossa militância para alcançar a vitória. Esse é o nosso projeto aqui em Minas.
- Muito obrigado, Governador. Posso divulgar nossa conversa no blog?
- Faça como tem feito toda vez que conversa com um político, se perguntarem, negue. Um abraço e até a vitória!
- Obrigado Governador.

02 março 2010

Millenium é a nova Marcha com Deus

Servi a Arnaldo Jabor durante três anos, enquanto fui editor de política do Jornal da Globo, com Ana Paula Padrão. Ajudava a pautá-lo, quando não tinha assunto, fazia o meio de campo para que ele e o Franklin Martins não comentassem o mesmo assunto e ajudava-o a lidar com a informática, ferramenta que, para ele, era um problema sem solução. Sempre admirei o neto de libaneses, não apenas pelos filmes sensíveis que dirigiu, mas pela sagacidade e acidez crítica. Foi uma das poucas vozes que ousaram desafiar o consensual príncipe FHC, tanto no apogeu, quanto na derrocada. Dizia que se considerava amigo o bastante para dizer aquilo que só os amigos podem. Sempre foi um intelectual ligado ao PSDB e nunca escondeu isso de ninguém. Também nunca negou publicamente o vínculo afetivo com José Serra, com quem sempre teve laços de intimidade. Mas, como todo homem, Jabor também tem seus desvarios. Costumava dizer que estava arruinado, quando pediu uma vaga de "qualquer coisa" na Folha de S. Paulo, no fim dos anos oitenta. "Todo mundo pensa que cinema dá dinheiro. Pra mim só deu prestígio. Não comia ninguém e quase morri de fome". Também costumava dizer que tinha sido de esquerda, como quem repele o rótulo, por achar que ser de esquerda é uma coisa assim, meio adolescente... Com a fama de diretor de cinema consagrado, prestígio de colunista de jornal, de escritor e, depois, de comentarista de TV, costumava dizer que queria ter minha juventude e disposição para se entregar exclusivamene aos prazeres da carne. Estava fascinado com as possibilidades que o dinheiro e a fama podiam lhe ofertar. Mas, infelizmente, nos banquetes e nas palestras para os quais passou a ser convidado não cabiam o povo. Aos poucos foi se esquecendo das necessidades da velha "massa de manobras", ou do "exército de formiguinhas corruptas e amorais", como passou a chamar os desafortunados, para comungar no paraíso das exceções, dos privilégios, dos brilhantes e dos abençoados. Não é por acaso que hoje se alinha aos seus, na defesa da tradição, da família da elite branca e da propriedade privada. Como renegá-los? Da última vez que o encontrei estava inquieto: imagina ele, um homem "simples", acostumado a longas caminhadas no calçadão, com seu inseparável amigo da sétima arte, Cacá Diegues, ter que andar de carro blindado? É Jabor, é o preço que custa a sociedade em que você e a turma do Millenium acreditam. Para saber com que roupa eles vão: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16414

Sobre a Política Carioca

por Pedro Migão*

A política carioca vem sofrendo um efeito muito curioso nas últimas eleições: uma guinada à direita absolutamente consistente e radical. Basta lembrar que os três senadores atuais do estado defendem posturas de direita e extrema-direita, tendo sido eleitos, à exceção do suplente Paulo Duque, com expressiva votação.

Tal postura, creio, deve-se principalmente a três fatores: à má avaliação dos governos de Leonel Brizola e posteriormente Garotinho, a um crescente predomínio das classes médias urbanas da Zona Sul na formação de opinião e sua amplificação pela imprensa conservadora e às políticas assistencialistas e populistas determinadas por governos recentes.

No município do Rio, tal fenômeno é mais antigo. Teve seu ponto de inflexão em 1992 com a primeira eleição de César Maia para a prefeitura, e a política de governar para a Zona Sul vem se aprofundando esde então. Basta ver que, hoje, o alcaide Eduardo Paes não toma nenhuma medida importante de governo sem consultar o impacto para bairros como Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca. Também não custa lembrar que o último segundo turno, em 2008, foi disputado por um candidato de direita (Eduardo Paes) e outro de extrema-direita.

No estado tal tendência demorou um pouco mais para se consolidar. Após o desastroso governo de Marcello Alencar - cujos filhos, à época, ganharam os curiosos apelidos de "Rato Aurélio" e "Rato Antônio", houve espaço para a eleição do grupo político de Antony Garotinho. Este, representante do que eu classificaria de uma "direita evangélica", aliou-se ao PT a fim de conquistar o Palácio Guanabara. Entretanto, tal aliança implodiria em pouquíssimo tempo. Seu "populismo de direita" gerou um governo desastroso, em especial após o governo de sua esposa Rosinha Garotinho.

Temos de ressaltar o poder paralelo exercido pelo presidente da Assembléia Legislativa Jorge Picciani, que já há algum tempo é uma espécie de "eminência parda" do estado. Deputado com várias denúncias contra si - todas devidamente engavetadas sem a investigação adequada - Picciani tem a sua opinião ouvida e inúmeras vezes acatada em todas as grandes decisões tomadas nos últimos dez anos, pelo menos.

Diante disso, como podemos ver o quadro para as próximas eleições ?

Vejo três fortes candidatos, todos representantes conservadores e alinhados com posturas políticas relacionadas à direita.

O atual governador Sérgio Cabral desponta como o mais forte candidato, em especial devido ao apoio do presidente Lula. Ele apresenta como grandes marcas de governo uma maciça injeção de recursos federais, pela primeira vez em quase três décadas (mérito maior do governo federal) e seu programa fascista de segurança pública, representada pelas UPPs - sobre as quais já escrevi antes e que não passam de um "Gueto de Varsóvia" sofisticado - e pela política do "atire primeiro, pergunte depois".

Garotinho, que pretende voltar ao governo estadual, representa a chamada "direita evangélica", segmento muito representativo no estado. O Rio de Janeiro possui um expressivo contingente seguidor das seitas pentecostais; estas significam um "voto de cabresto" líquido e certo naqueles ungidos pelos líderes destas denominações religiosas. Sérgio Cabral procura parte deste manancial, mas sem dúvida alguma tal terreno é ocupado majoritariamente pelo ex-governador.

Em uma terceira vertente temos a "direita festiva" da Zona Sul do Rio, representada pelo antes guerrilheiro e hoje aristocrata Fernando Gabeira. Majoritária no município do Rio, não encontra maior eco no restante do estado - em especial na Baixada Fluminense - apesar da ressonância de suas idéias feita pelo principal jornal do estado. Ao contrário das duas vertentes anteriores, assume-se como elitista e isso bloqueia um pouco a amplitude de sua votação.

Curiosamente os partidos que galvanizam a eleição a nível nacional possuem papel quase insignificante no Rio de Janeiro. O PSDB ainda paga pelo governo Marcello Alencar e pela progressiva expulsão de quadros feita pelo referido político, à moda de seu mentor Leonel Brizola. Já o PT paga por sucessivos erros de avaliação e por um certo sectarismo, estando relegado a um papel definitivamente secundário. Tanto que irá se coligar ao atual governador e, com sorte, terá direito apenas a uma das candidaturas ao Senado.

Em resumo, o quadro que se apresenta hoje é este. Parece cedo para determinar um favorito, mas é certo que teremos um vencedor atrelado a idéias conservadoras, elitistas e que mantenham o atual estado de coisas.

Voltarei proximamente ao tema, pois este está longe de se esgotar nestas linhas.

Pedro Migão é gestor do blog Ouro de Tolo (atalho ao lado)

 
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