28 fevereiro 2010

Um homem preso em seu labirinto

Faz algum tempo que deixei de ser editor de política. Ainda que o fosse, não considero ter as credenciais dos grandes "formadores de opinião" para fazer a análise que pretendo, nem tenho também a arrogância dos "pequenos", para difundir uma verdade absoluta. Mas, com base nas informações que possuo da política estadual paulista e na experiência que acumulei ao longo dos tantos anos em que estudei o assunto com aplicação, vou tentar traçar um cenário, a partir da última pesquisa de opinião pública divulgada neste fim de semana. A considerar o retrato de hoje, José Serra está preso em seu labirinto. Sabe que perdeu o "timing". Seu PSDB só está com ele na Capital. Desde 2006, quando tentou levar seu adversário Geraldo Alckmin às cordas, perdeu apoio importante no interior. Apoio que não recuperou na condição de governador. Tanto é assim, que os palanques para a campanha do ex-governador Alckmin já estão prontos. Ao evitar a disputa com Aécio Neves pela indicação, também se afastou do segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais. Hoje tem apenas o apoio de caciques, numa coligação nacional com o DEM que ameaça a fazer água (o trocadilho fica por conta do leitor), depois do afastamento dos influentes grupos do, por enquanto, ex-governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda e o do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O pré-candidato à presidência só tem de certo, hoje, os palanques do grupo Abril, Folha e Globo e, talvez, o do Rio, a depender de uma aliança com o Partido Verde, na pessoa de Fernando Gabeira. Digo na pessoa, porque sei que no Rio o PV não é orgânico, portanto, não tem base, nem militância. Nos outros estados, o peso eleitoral e financeiro é tão pequeno para o PSDB que - nessas condições - tornam-se irrelevantes. Serra morre aos poucos. Se sair candidato à presidência, sabe que perde e, com ele, seu partido naufraga junto. Também sabe que se sair candidato à reeleição, mesmo com a máquina nas mãos, terá duas disputas duríssimas. Primeiro, com o grupo Alckimista e, depois, com os homens que serão subjugados dentro do partido. Ele terá o ciclo da lua de março para decidir seu destino político: poderá entrar para a história como Teseu, ou morrer como o Minotauro. Aposto na segunda.

Quem é o correspondente?

A série O Correspondente foi, de longe, a mais difícil de escrever. Primeiro, porque venho de um ano de trabalho muito desgastante e, depois, porque temos passado por muitas mudanças em casa. A nova rotina do lar, a adaptação na escola do pequeno, as decisões profissionais, etc... Outro fator complicador foi o cruzamento de informações de tantas pessoas para montar o mosaico. Foram cinco diferentes mulheres e três diferentes homens na construção da trama, o que torna maior o desafio de fazer um relato verossímil, mesmo que ficcional. Ao longo do tempo, as pessoas foram sugerindo nomes, arriscando palpites. Tudo isso deixa o folhetim mais divertido. É legal saber que a turma se envolve, fica pensando no suspense e até pesquisa na internet para advinhar quem pode ser. Mas, mais uma vez, insisto: os nomes não importam. O que importa é a natureza humana e a lógica perversa das grandes corporações. É como todos nós nos iludimos com essa crença de que somos alguma coisa, quando na verdade, somos apenas fantoches servindo a interesses obscuros e muitas vezes mesquinhos, quando não desonestos e vis. Tenho idéia de escrever a outra série que prometi: O Bacanal. Vou ter que ter bastante cuidado com este relato, porque a chance das pessoas se verem na trama é bem grande. Por isso, não sei se conseguirei engatar assim tão fácil uma série na outra, como tem sido até agora. Vou precisar de muita fantasia para poder dissimular e despistar meus sagazes leitores. Meu velho pai, quando soube do título ficou preocupado: "Vem coisa feia por aí". Falei para ele que sim e que é prudente (viu seu Prudente!) tirar as crianças da frente do computador (viu dona Cristiana Castro!). Mais uma vez, obrigado pela frequência, pelas correções e palpites.

27 fevereiro 2010

O Correspondente 10

- Você vai ser transferida.
- Como assim?
- Precisamos de você no maior escritório do país. Você vai comandar uma série de mudanças que vamos por em prática lá. Mas isso, só quando se sentir pronta para voltar ao trabalho.
- Estou pronta. Assim que o médico me der alta posso assumir as tarefas.
- Tem certeza?
- Claro!
- A pedido do patrão, um psiquiatra vai acompanhar seu tratamento a partir de agora. Ninguém quer correr o risco de perder você. É uma das nossas principais executivas e existe um interesse total no seu reestabelecimento.
- Ok. Acho também que um psiquiatra vai ser bastante útil sim, principalmente nos primeiros meses de transição. Nunca vivi fora do Rio e acho que a adaptação não vai ser fácil.
- Estamos prontos para ajudar no que for preciso.
- Obrigada.
- Todos nós é que temos uma profunda gratidão por você.
Depois que se despediram ela começou a planejar a vingança. Comecaria por colocar a menina de dia e o rapaz de noite. Uma espécie de feitiço do tempo. Depois, quando não aguentassem mais, viria a inversão: ela à noite, ele de dia. Estava disposta a "tirar o coro" deles.
Ela só não sabia que o diretor tinha sido mais rápido do que ela. Naquele mesmo dia, voou para a outra cidade, chamou o rapaz e disse:
- Você tem feito excelente trabalho e decidimos te dar uma nova oportunidade.
- É mesmo? Que bom?
- Você será nosso novo correspondente no Oriente Médio.
- Mas assim, de sopetão?
- Precisamos que assuma o posto na próxima semana. Você sabe, a fila de jornalistas que querem ir é enorme, portanto, é pegar ou largar.
- Acho que não haveria problemas, mas é que eu e a...
- Mais para frente, conforme ajeitar as coisas por lá pode levá-la.
- Ah, quer dizer que teremos duas vagas, então?
- Não, infelizmente é uma vaga só. Ela terá que pedir demissão, caso queira ir com você.
- Tenho outra escolha?
- Quer a minha opinião?
- Claro!
- É sua oportunidade, rapaz! Se você desperdiçá-la não sei se terá outra.
- Ok, eu topo.
(não continua)

26 fevereiro 2010

O Correspondente 9

No outro dia...
- Está tudo pago.
- Ah que bom. Como você é generoso (a). Quero fazer algo por você, para demonstrar a minha gratidão.
- Não precisa. Só quero que fique boa e volte logo ao trabalho.
- Aquela outra coisa... você descobriu para mim?
- Sim.
- E então?
- Não quer que falemos sobre isso outra hora, afinal, você ainda está se recuperando...
- Quero que me diga tudo o que sabe e agora!
- Ok. Ele está com outra.
- Já imaginava. Sabe quem é?
- Sei. Lembra daquela garota que começou como estagiária e depois virou apresentadora na TV a cabo?
- Claro que sei. Eu que consegui a vaga para ela lá.
- Eles andam saindo juntos. Parece que até alugaram apartamento na capital.
- Ué, mas ele dizia que não tinha atração por ela, que a menina era uma criança mimada, que não tinha conteúdo...
- É, minha filha, mas acho que ele resolveu pensar com a "outra cabeça".
- Ora, vejam só... Que sujeitinho hipócrita, sem-vergonha, filho da.... (começou a se agitar)
- Fique tranquila. Não deve se exaltar.
- Não estou exaltada, estou desapontada e triste. Aquele canalha me enganou esse tempo todo...
- Chefinha, desculpe a minha sinceridade, mas quem se enganou foi você. Todo mundo lá no departamento sabia que ele era um aproveitador e oportunista.
- Sou uma idiota mesmo!
- O que eu acho que você deve fazer é deixar para lá e esquecer. (aqui uma enfermeira entrou discretamente no quarto)
- Ah, mas não vou mesmo. A primeira coisa que vou fazer quando sair daqui é pedir minha transferência. Vou acabar com a vida deles. Eles me pagam!
- Não acho que deveria pensar assim. Olhe para você, sua história. Veja tudo o que construiu.
- Dane-se! Eu já não tenho nada mais a perder. (aqui ela já estava começando a sentir o efeito do calmante que a enfermeira aplicou calmamente na sonda, enquanto as duas conversavam)
Nossa jornalista desabou em sono profundo. Só acordou oito horas depois, com a visita do diretor.
(continua)

25 fevereiro 2010

O Correspondente 8

A notícia caiu como uma bomba no colo da colega de trabalho. No primeiro momento, ficou deprimida e pensou em se matar. Depois, com a cabeça fria, começou a pensar como poderia voltar a ter contato com o rapaz. Ele havia trocado de telefone e não a informou. Ela conseguiu o número, mas percebeu que, sempre que telefonava, ele tinha uma desculpa qualquer para não atendê-la. Foi ficando amargurada e triste. Os colegas perceberam o mal estar e procuraram ajudá-la, sem sucesso. Numa noite, sozinha em casa, pôs um disco de Alaíde Costa na vitrola e ouviu várias vezes os versos da canção Vontade de Chorar. E chorou muito, copiosamente. Tinha feito uma combinação explosiva de remédios de uso controlado e álcool. Convulsionou. Com muita dificuldade se arrastou até o interfone e, ao tirá-lo do gancho, o número do apartamento fez disparar a campanhia da portaria do prédio. Em poucos minutos o zelador estava na cozinha com a equipe do resgate. Foi levada para um hospital da Zona Sul. Quando acordou do coma era assistida por um dos diretores de jornalismo da emissora. Ele trazia notícias dos patrões, preocupados com o estado de saúde da funcionária exemplar. Disse a ela que tirasse o tempo que fosse necessário para cuidar de si. Que não se preocupasse com os vencimentos e que tudo ficaria bem. Ah, que ela não se preocupasse também com repercussões, porque o fato estava sendo tratado com sigilo absoluto por toda a imprensa. De visitas só mesmo a mãe bem velhinha (mãe é mãe, não acham?) e dois colegas mais íntimos, além de Su, é claro.
- Ô minha chefinha, o que posso fazer por você?
- Su, quero que faça um contato com ele e só pergunte uma coisa.
- O quê?
- Porque ele não fala mais comigo?
- Ok, se não for eu, alguém vai descobrir isso para mim.
- Mas não queria publicidade.
- Fique tranquila que saberei conseguir essa informação com todo o sigilo que a situação requer.
- Obrigada. Te devo mais um batom.
- Bobagem, chefa.
- Tem alguma coisa que ficou pendente que quer que eu resolva para você?
- Sim. No meu apartamento, em cima da mesa de jantar, tem umas contas que preciso que você pague para mim.
- Pode deixar. Com quem pego a chave?
- O zelador tem uma cópia. Diga que está lá a meu pedido e, se ele duvidar, ligue no meu celular.
- Combinado.
(continua)

24 fevereiro 2010

O Correspondente 7

O colega não tinha aparecido para trabalhar. Telefonou dizendo que houve um contratempo qualquer. Estava tomada de desejo e paixão. Precisava vê-lo. Tomou a iniciativa de ligar. Caixa Postal. Não quis gravar recado. Na hora do almoço, pegou um taxi e foi dar na casa do rapaz. O porteiro anunciou a chegada e ele autorizou a subida. Chegando lá, ele a recebeu. Foi quando aconteceu aquele diálogo que dá início a esta narrativa. Foi alucinante. Ela entrou em transe. A mulher experimentara pela primeira vez na vida o que a ciência conhece por orgasmo múltiplo. Foram tantas vezes que perdera a conta. Durante quase três horas tinha alcançado o céu. Estava exausta e entregue. Pensou em voltar ao trabalho. Desistiu. Seguiu para casa. Quando ligou o celular, notou que muitos colegas procuraram por ela. Nenhum problema que não pudesse esperar até o dia seguinte.
- Su?
- Sim.
- Preciso de outra maquiagem daquela...
- Ah funcionou, né?
- E como.
- Ok, quando você se liberar desce lá no camarim.
- Combinado.
Ela não conseguia trabalhar, estava com dificuldade para se concentrar. Encontrou o colega duas vezes. Uma no corredor e a outra na sala ampla do departamento. Trocaram olhares de cumplicidade, mas não chegaram a se falar. Nessa altura, só eles não sabiam, mas todo o departamento já falava sobre o caso dos dois. A notícia corria como fogo na palha e o jovem jornalista foi chamado pelo diretor.
- Olá.
- Em que posso ser útil, chefe?
- Temos acompanhado a evolução do seu trabalho na reportagem e queremos premiá-lo.
- Que boa notícia! Muito obrigado.
- Nosso plano é mandá-lo para outra capital do país. Lá você começa fazendo jornalismo local e, se tudo der certo, em pouco tempo você já estará entre os grandes da rede. Como é o maior escritório do país, você vai poder conviver com editores e repórteres especiais. Que tal?
- Eu aceito.
- Então você começa na segunda-feira lá.
- Mas já?
- Imediatamente.
- Então tá.
(continua)

23 fevereiro 2010

O Correspondente 6

Na vitrola Elis e os versos da Canção do Sal: "Trabalho o ano inteiro, para vida de gente levar." E pensar que esse disco tem a idade do escritor... Ela parecia inspirada por sua companheira das noites de luar. Sacou outro disco, considerado obra prima da Pimentinha: Falso Brilhante. Largada no sofá da sala cantou em coro a magnífica letra de Tatuagem. "Que te rabisca o corpo todo, mas não sente." Adormeceu um sonho caudaloso e quente. Despertou com o sol no rosto e o interfone.
- Bom dia! Encomenda para a senhora.
- Pode subir.
- ding-dong.
- Olá.
- Flores para a senhora.
- Obrigada.
- O cartão está anexo.
- Ok. Deixa só eu pegar uma caixinha para você. Aqui.
- Obrigado e até logo.
- Até logo.
As flores eram brancas e delicadas. Um arranjo oriental cheio de originalidade, pensou. No pequeno cartão dois versos: "Quero ficar no seu corpo, feito tatuagem, que é pra te dar coragem, pra seguir viagem, quando a noite vem." A mulher enlouqueceu. Cantarolou mais dois versos, tomou um banho demorado e foi para o trabalho. Naquele dia os colegas notaram algo de mais luminoso em seu jeito e no olhar. Ela estava no céu. Até o porteiro ela cumprimentou.
(continua)

21 fevereiro 2010

O Correspondente 5

Foi como se o jantar tivesse durado apenas um minuto. Beberam muitos saquês gelados, comeram sushis e sashimis dos mais diversos tipos, conversaram e se divertiram bastante. A despedida foi atabalhoada, na rua. Ele caminharia apenas algumas quadras, enquanto ela partiria de taxi.
- Pela orla, senhora?
- Sim.
- A noite está muito agradável, não acha?
- Sem dúvida. Acho até que o senhor poderia me deixar logo adiante, no Arpoador. Vou caminhar um pouco pelo calçadão.
- Ok.
Uma brisa fresca soprava em seu rosto, enquanto divagava. O início da profissão. O esforço de todos para fazer girar aquela engrenagem desafiadora e desconhecida. O velho jornalista que, por muitos anos, foi seu amante e confidente. No fundo, no fundo, a mulher traída sempre soubera da trapaça do esposo e por alguma razão aceitava calada aquela situação. Ousaria apostar que ela até gostava que fosse assim. Tinha tempo de sobra para seus outros interesses, como: a família, os empregados e a culinária, com a qual conquistou prestígio de banqueteira em 'petit comités'. Nos momentos a sós os traidores nunca ousaram falar sobre a outra. Um pacto silencioso e sinistro. Mas sobre a farsa em si ela não tinha dúvidas de que não passava de um arranjo imoral, mas harmonioso. Foi quando se lembrou da morte repentina do parceiro, depois de um enfarte, o que trouxe à mente, de súbido, os acordes de Años De Soledad, de Astor Piazzolla, o que a atormentou. Quanta dúvida, quanta confusão. O que fazer com aquele menino, pensou... Foi quando encontrou um casal de amigos, daqueles que ficamos anos sem ver, mas com os quais temos uma amizade profunda e sincera, como se tocássemos a eternidade.
- O quê? Você caminhando na praia?
- É Maria de Lourdes, pensa que só você tem esse direito?
E ambas caíram na gargalhada e se abraçaram como nos velhos tempos. O marido, também amigo de longa data, não parecia tão interessado no encontro (eles sempre agem assim, talvez por uma questão de gênero). Ele estava distraído com uma luva de saco plástico numa das mãos aguardando pacientemente o cãozinho, que procurava um lugar onde depositar seus dejetos. Foi um encontro rápido, desses típicos de cariocas à beira mar. Entre elogios e afagos, a promessa de se reencontrarem mais vezes, quem sabe um jantar. Na despedida, o homem deixou seu mundo, abraçou-a docemente e disse:
- Que bom te ver assim tão alegre e bonita.
- Obrigada. É muita gentileza sua, Juarez.
Bonita. O adjetivo ficou martelando em sua cabeça. Como assim, bonita? Se há uma coisa que nunca fui foi ser bonita, pensou. Ele só podia estar de sacanagem. Sorriu e seguiu caminhando. Pouco adiante parou outro táxi e seguiu para casa.
(continua)

O Correspondente 4

- Oi, Su.
- Oi chefinha, tudo bem?
- A que horas está livre?
- Hoje? Às oito.
- Tem compromisso depois?
- Não, por quê?
- Preciso de um favor.
- Até dois.
- Gostaria que fizesse uma maquiagem bem discreta, que realçasse meus traços e que, à meia luz, me rejuvenecesse uns vinte anos.
- É luz indireta ou penumbra?
- Indireta.
- Vamos lá! Conheço alguns truques novos para causar esse tipo de impacto.
- Ótimo!
- Se mal lhe pergunte, é algum evento da casa?
- Não, é só um jantar com um amigo.
- Hummmm.
- Mas não se preocupe, que esse serviço vou te pagar a parte.
- Não quero. Será um presente.
- Não Su, quero pagar.
- Tá bom, tá bom, não vamos discutir por isso. Depois você compra um batom para mim e estamos conversados (as), tá bom assim?
- Ótimo!
- O amigo é do ramo?
- Sim, é colega nosso. Mas quero manter discrição porque ele é mais jovem e não quero dar uma de loba desesperada, sabe...
- Oras, você é uma mulher elegante, charmosa, não pense assim...
- Você não está entendendo Su, o cara é quase 30 anos mais novo!
- Uauuuuuu!
- Para falar a verdade, Su, estou super enferrujada. Faz anos que não saio com um homem que não seja única e exclusivamente a trabalho.
- Entendo. Mas numa cidade descontraída como essa não deveria estar preocupada.
- Vou te confessar uma coisa. Não estou preocupada, estou insegura.
- Oras, insegurança faz parte do negócio. Sem insegurança não tem calafrio, nem tremedeira, nem taquicardia.
- Já passei dessa fase Su, o que não quero é que ele se sinta envergonhado ao meu lado.
- Envergonhado ao seu lado? Faça o favor...
- É. Como se estivesse levando a mãe para jantar.
- Foi ele quem a convidou, não foi?
- Foi.
- Então pronto! Se foi ele quem a convidou é porque gosta da sua companhia, não acha?
(continua)

20 fevereiro 2010

O Correspondente 3

Uma intimidade nasceu da pouca convivência. Ele, sempre que possível, pedia conselhos para alcançar sucesso na carreira. No fundo, queria saber como tinha que ser o repórter dos sonhos daquela mulher. Ela, por seu turno, foi se afeiçoando pelo belo e sedutor rapaz. Mulher experiente, sabia que nada faria com que ele se sentisse atraído, mas no íntimo, alimentava um desejo latente de possuir aquele corpo ainda rígido, vibrante e cheio de vigor. Por enquanto, só a fantasia bastava nas noites quentes, úmidas e solitárias do verão carioca. Até que ela começou desconfiar que havia mais do que interesse profissional nos galanteios daquele jovem rapaz. Foi traída pela falta de juízo. Estava envolta no mar agitado do desejo e começava a perder o controle e, consequentemente, o pudor. Claro que o rapaz percebia tudo, mas fazia o jogo de ingênuo. Ele era um jogador e estava levando a melhor. Mas uma estagiária, aspirante a repórter, logo apareceu no caminho. Bonita e desejável passou a frequentar demais o departamento. Os dois chegaram a sair algumas vezes, mas não havia química. Mesmo assim, a executiva não queria correr riscos e encontrou uma forma de tirar a moça de circulação. Foi convidada a apresentar um telejornal matinal no canal fechado de notícias. Por lá ficou, ou melhor, desapareceu. Um dia, nosso pretenso correspondente convidou a "tia" para jantar. O lugar tinha que ser discreto. Preferencialmente caro, para atender ao paladar exigente da mulher. Ela adorava comida japonesa. Portanto, para quê discurtir com madame? (continua)

19 fevereiro 2010

O Correspondente 2

O primeiro emprego do nosso correspondente foi como assistente de palco de um programa infantil. Tinha beleza e levava jeito para as câmeras. Mas, na adolescência, perdeu o posto na produção e arrumou um emprego na área técnica, enquanto fazia o curso de jornalismo, numa escola particular da zona Sul. Filho de corretor de imóveis e funcionária pública, nunca teve grandes dificuldades na vida. Frequentou boas escolas, conheceu os filhos da elite carioca. Era como se fosse um deles. Dominava os jargões, clichês e interesses. Mas, para o rapaz, aquela mulher se transformou num enigma. E decifrá-lo passou a ser seu grande desafio. Em raras ocasiões ela era vista sorrindo. Tinha uma capacidade de trabalho e de concentração inalcançáveis. Não perdia nada ao seu redor. Persistente, abordava repórteres e apresentadores sempre com boa educação, fala mansa e pausada. Tinha um ar professoral, que inspirava confiança. Algo havia de maternal na capacidade de criticar e acolher simultaneamente. De tempos em tempos, ambos tinham que trabalhar lado a lado. Era quando ele podia sentir de perto o frescor da colônia trazida do Paraguai, por colegas de trabalho. Um perfume discreto e aparentemente vulgar, apesar de importado da Itália, era uma espécie de marca registrada daquela mulher. Com o tempo, soube por outros que ela gostava de Elis e tinha profunda admiração por Leila Diniz. Soube também que frequentou a casa de uma expoente da Bossa Nova e, a partir de então, passou a colecionar LPs de época. Falava com desenvoltura dos ícones e dos injustiçados pela indústria cultural. Mas, curiosamente, nunca tinha opinião conclusiva sobre assuntos tão relevantes, talvez sinal de fraqueza ou, quem sabe, apenas generosidade de fã. Nunca derpediçou tempo demais com os homens, para ela tão egoístas e autoritários, mas aquele garoto despertava nela algo de primitivo e fugaz. (continua)

18 fevereiro 2010

O Correspondente

(Ela) - Tô chegando.
(Ele) - Espera mais um pouco.
(Ela) - Não dá!
(Ele) - Espera...
(Ela) - Tô chegando!
(Ele) - Então vem.
(Ela) - Ahhh.
(Ele) - Vemmm.
(Ela) - Tô chegando!
(Ele) - Eu também.
(Ela) - Vem, vem, vem...
(Ele) - Ahhh.
(Ela) - Ahhh.
Aqui estava o casal. Uma executiva beirando os 50, com quase 30 numa grande empresa de comunicação e um jovem repórter com menos tempo de idade do que ela de casa. Todo mundo pensa que isso de ser objeto só acontece com as mulheres, não é mesmo? Pois então aqui temos uma exceção. A história que se segue é de um jornalista ambicioso e uma jornalista decadente. Ela, que começou cedo na coorporação, nunca teve papel de destaque na profissão, mas galgou um a um todos os postos de comando. Seus principais atributos: fidelidade canina (todo patrão adora isso) e excesso de zêlo, mais com a forma do que com o conteúdo, infelizmente. Postura, figurino e entonação. Cada detalhe observado atentamente por essa espécie de governanta da redação. Uma mulher que dedicou tanto tempo ao trabalho que se esqueceu de existir. Renunciou família, amigos, lazer, amor. Mas a essa altura da vida, sem muito mais a ganhar, nem a perder, lançou-se nessa aventura desvairada, que custará caro, como saberemos adiante. (continua)

17 fevereiro 2010

De volta

Estou completamente fora da realidade. Não li, ouvi e nem vi notícias. Nada sobre o Carnaval. Nada sobre o universo da grande maioria dos brasileiros. Em compensação, acabo de conhecer um clube de campo encantador, com lago, cachoeira, mirante, trilha iluminada à noite. Tinha até internet sem fio, mas o combinado era me dedicar exclusivamente à família e passar longe do computador. Só não resisti quando, no churrascão de domingo, um primo apareceu com um HD externo contendo nada mais, nada menos, do que 130 gigas de música! E da melhor qualidade! Só para se ter uma idéia do que isso significa, são 100 dias de audição, ininterruptas, 24 horas! Tem clássica, mpb, samba, rock, pop, jazz... Um repertório super eclético. Mais da metade de tudo o que ele pesquisou ao longo dos últimos trinta anos. Não resisti. Liguei o laptop e copiei. Demorou duas horas. Agora, cada pasta que abro é um surpresa. Exemplo: Marisa Monte, completo. Rita Lee, idem. The Doors, tudo também. Pixinguinha, o que há de mais importante. Miles Davis... São 993 nomes. Dá para imaginar o que é isso? É mais fácil perguntar o que não tem. Bom, por pouco não deixei a festa e a família de lado só para explorar o manancial que tenho em mãos. Mas nada que os próximos 1000 dias não dêem conta. Desse jeito a gente não tá pronto para morrer nunca, hehehe! Bem-vindos de volta. Vamos ver se amanhã volto à ativa. Abraços.

12 fevereiro 2010

A mulher dO Figurante

A história da mulher era impressionante. A família enriqueceu no varejo. Desde pequena sempre teve uma doença grave: obesidade. Foi uma das primeiras brasileiras a fazer a tal cirurgia de redução de estômago. O caso dela virou um sucesso. Decidida a entrar em forma, passou a se dedicar freneticamente à conquista de um corpo perfeito, sem artifícios. Antes dos quarenta anos estava impecável. Mas tinha uma dor insuportável: olhar-se no espelho. Nariz, olhos, queixo, tudo era muito feio. Essa história termina com o figurante indo morar com ela por um tempo. Ele não gosta muito de falar sobre o passado. Aliás, não gosta mesmo é de conversar. Não frequenta festas e pouco sai de casa. Montou uma pequena oficina e passa boa parte do tempo desmontando aparelhos de ar condicionado. Nunca sabe direito qual é o defeito, mas vai trocando as peças e considera aquilo um hobby, com o qual se diverte muito. De uns tempos para cá descobriu que a mulher sai durante a tarde para se encontrar com outro homem. Investigou, descobriu que ele é quase vinte anos mais velho. Tem olhos claros, diz que foi caixeiro viajante, mas agora está meio parado. E que, a exemplo do ex-figurante de novelas, ama de paixão o Botafogo e não larga por nada deste mundo a escola do coração: A Vila Isabel (a foto acima é da Fábrica de tecidos Confiança. Lembra Noel: "Quando o apito, da fábrica de tecidos..."). E o escritor pergunta: Quem será esse homem?
(não continua)
P.S. Lamento, mas o blog só volta a ser atualizado na quarta-feira de cinzas. Estarei nas montanhas com a minha Rainha do Carnaval e os componentes da escola de samba aqui de casa: o mestre de bateria Gabriel e o Mestre-sala Pedro. Sem celular e sem internet. Obrigado a todos pela frequência e paciência. Estou preparando duas novas séries: O Correspondente e O Bacanal. Aguardem!

11 fevereiro 2010

O Figurante 5

O agora ex-figurante caminhava em direção à piscina de um hotel à beira mar. Na bandeja um pisco souer. De costas, na espreguiçadeira, um belo corpo de mulher.
– Aqui sua bebida, senhora.
Quando a mulher se voltou para ele, foi um arrebatamento. Ele até perdeu o fôlego. Era a mulher mais feia que vira em toda sua vida. A primeira imagem que lhe ocorreu foi a da bruxa da Branca de Neve. Ficou desconcertado... Perdeu a voz. E ela disse:
- Obrigada. Você sabe aonde posso encontrar pó?
– Sei, respondeu com a voz trêmula. Posso arrumar, se quiser.
– A que horas você sai?
– Às sete.
- Quero que você leve no meu quarto para mim.
– Sem problemas, respondeu.
– Deixou o expediente, tomou um banho, apanhou a encomenda na mochila e subiu. Tocou a campainha e quem atendeu foi a bruxa, de robe. Ela pôs a cabeça para fora, olhou para os dois lados do corredor e disse:
- Entra.
Nosso figurante sacou de cara as intenções da mulher. Ela queria que ele a servisse. E assim foi feito. Na segunda carreira, nua, chamou o figurante para deitar. Foi uma noite frenética e extasiante. Outra com furor uterino, logo pensou.
Mas quem será essa mulher, pergunta o escritor?
(continua)

10 fevereiro 2010

O Figurante 4

O diretor do núcleo estava tão satisfeito com a audiência que programou um festão, na mansão, na Gávea. Boca livre geral. No meio da noitada acabou o pó. A Su chegou no figurante e disse:
- O homem quer ir com você buscar.
– É loucura Su, lá é bocada.
– O cara quer ir conhecer o patrão. Leva ele lá.
– O figurante, a contra gosto decidiu ir.
Quando estavam no morro, patrão e diretor, um de frente para o outro, começou o foguetório. O Bope tava lá. O diretor suava frio e o figurante não sabia o que fazer. Pensou, eu tô morto, não tem para onde correr. Foi sair da favela e o comando parou. Levaram os dois para a delegacia e o diretor se safou. O figurante ficou em cana uma semana, até noiva dos outros presos virou. Quando saiu, inconformado, estava disposto a mudar. Foi quando Su chamou o amigo de canto, para conversar.
– Cara, você tá no negócio faz tempo, se furar, o dono da boca manda te matar.
– Quero que se dane Su, para mim já deu, tô fora, não tenho mais que aguentar.
Foi quando um dia, na praia, dois capangas chegaram junto dele e disseram:
- O patrão mandou te buscar.
O homem estremeceu, mas subiu o morro para conversar.
– Meu camarada, o negócio é o seguinte: tem um jornalista lá que quer fazer um livro e vou abrir pro cara entrar. Então é assim meu irmão: a partir de hoje, és embaixador. Vai colar nele e entregar tudo o que o sujeito precisar. Nomes, números, testemunhas, tudo. Sacou?
– Sim senhor. (É figurante, sua chapa esquentou).
O tal repórter era bom sujeito. Discreto, experiente e bastante acolhedor. Acabaram criando um vínculo. Foi quando o cara falou:
- Eu trabalho para o mesmo patrão que você, só que do outro lado do negócio, sacou? Ele não entendeu o que o ‘brother’ queria dizer. Até descobrir que o livro, não era livro, era roteiro para a TV. Quem tocava o projeto era o diretor, o tal cheirador. Viu que estava mais enrascado do que imaginava. Foi quando decidiu que o jeito mesmo era fugir. Nosso figurante caminhava pela orla. O vento que vinha do sul era gelado, de estremecer. Foi quando esbarrou num sujeito que julgou de outras vidas conhecer. Ambos trocaram olhar de cumplicidade e seguiram. Quando parou para tomar uma amarelinha, no bar do Ceará, viu que o sujeito também estava lá. Decidiu puxar conversa, para ver no que podia dar. O homem era caminhoneiro de passagem pelo Rio, ia levar um container para o Uruguai. Ofereceu uma carona e nosso figurante se mandou. Virou chapa do sujeito e nos dois anos seguintes rodou com ele toda a América do Sul. Quando chegou na costa do Pacífico resolveu que tinha que ficar. Ligou para a mãe para avisar. Foi quando soube que a mulher estava morta, porque disse pro dono da boca que o paradeiro do filho não ia entregar. Num balneário, na orla, arrumou emprego de garçon. Não precisava ter experiência, só falar português. Os turistas logo começaram a chegar. Mas veio também a oferta de pó e ele começou tudo de novo. O patrão era um americano, contrabandista de objetos de arte, que vez ou outra fazia uma conexão. (continua)

09 fevereiro 2010

O Figurante 3

Não que ele não gostasse de sexo toda noite. Qual homem quer vida melhor? O fato é que ele estava sendo assediado pela atriz horrorosa do programa de humor. Ficou tão enlouquecido por ela que, um dia, para casa não voltou. Passou a fazer isso corriqueiramente, até descobrir que, na sua ausência, a moça do interior “costurava para fora”, com o zelador. Mas não foi o bastante e, logo, o porteiro foi chamado a ajudar. Foi aí que o figurante ficou macho e chamou a baixinha para conversar. A moça não se fez de rogada e informou que, caso insistisse em exclusividade, procuraria a polícia e entregaria ele, a mãe e o pó. Foi quando o sujeito sossegou. Mas daquele momento em diante, a vida passou a ter uma pedra no caminho, que não dava para desviar. De uns tempos para cá a baixinha arrumou um vira-latas que todo dia levava para passear. Gostava de short de lycra bem justo e escondia a feiúra atrás dos cabelos soltos e de um par de óculos grandes. Virou a sensação do bairro. Faxineiros, porteiros, zeladores e até os aposentados esperavam a feia passar. Como precisava de sexo todo dia, a oferta começou a sobrar. Não demorou muito e pôs o figurante para pastar em outra freguesia. Ele não se conformou, jogou tudo o que era dela pela janela, trocou a fechadura e proibiu o porteiro de deixar ela entrar. Mas a moça tinha seus planos. Logo se amigou com o zelador do prédio vizinho. O que é mais esquisito nisso tudo é que o figurante nunca mais esqueceu aquela mulher. Acho que ele se apaixonou de verdade. Mas, sem escolha, seguia a vida em frente quando um dia Su lhe chamou. Disse que tinha um papel para ele na novela das seis. O diretor era cliente do pó, mas segredo absoluto teria nosso figurante que guardar. No primeiro dia de gravação, bem cedo, reparou no entra e sai dos camarins. Noooossa, pensou, haja cocaína para toda essa gente. Seu papel era ser motorista da madame e não abriria a boca. Entraria e sairia de cena sem texto nenhum. Achou bom. Decorar texto naquela altura do campeonato, nem pensar. (continua)

08 fevereiro 2010

O Figurante 2

Su logo se encantou pelo rapaz. Não que tivesse desejo por ele, era uma ligação mais paternal (ou maternal, sei lá). Não demorou muito, o jovem estava na televisão. Figurava em gravações de programas de auditório, aos sábados e aos domingos. O cachê não era lá essas coisas, mas com a renda da mãe na praia e dos papelotes, dava para o sustento. Logo que conseguiu, alugou um quarto e sala na praia do Flamengo. Era pequeno, úmido e com vista para uma pirambeira, mas dava pro gasto. Desde o início, percebeu que se limitasse a ambição e só vendesse pequenas quantidades de pó, poderia ir levando a vida, sem muito se arriscar. A mãe, ao contrário do que pensava, sabia de tudo e, logo, passou a ajudar. Pegava a droga no morro e levava para o filho, dentro de uma marmitex, para disfarçar. O rapaz tinha um fetiche, difícil demais para entender e explicar. Tinha tara por mulheres feias de doer. Quanto mais feias, melhor. Mas tinham que ter corpos bem esculpidos. E por natureza, nada de artifícios. Por alguma razão, estava certo de que, quanto mais feias fossem, mais prazer eram capazes de dar. Chegou um dia em que a mãe, a contra gosto, veio lhe perguntar:
- Filho, tenho uma parente lá no interior que quer vir para cá.
– A mãe dela está muito triste, porque a menina é fogueteira e começou a aprontar. É muito jovem, mas sabe cuidar da casa, da roupa e cozinhar.
– E o que temos que fazer?
– Ela só quer um lugar para a menina morar.
– Mas como irá se manter?
– Sei lá. A gente arruma um serviço em casa de família, para ela se virar...
– Fala para sua prima então mandar a moça para cá.
A garota chegou. Era do tipo mignon, com tudo no lugar. Mas era feia, feia mesmo, de arrebentar. Nosso figurante entrou em êxtase e um dia, embriagado da amarelinha do Ceará, passou a conversa na menina, que gostou tanto, que todo dia esperava ele chegar. O fato é que o tempo foi passando e a garota lavando, passando, cozinhando, arrumando tudo e... Isso não era normal, pensou o rapaz, que logo foi procurar um especialista, aconselhado por Su. O médico foi direto:
- Essa moça tem furor uterino.
– O que é isso, doutor?
– Ela não consegue ficar sem sexo todos os dias. Amigo, você vai ter que se virar.
– Não tem conserto?
– Por enquanto a medicina não sabe o que fazer.
Por sorte do rapaz, o mal da moça não permitia embarrigar. Só não pergunte por que, já que nem o cirurgião sabia explicar. Foi então que começou a via sacra do figurante, dublê de ator. (continua)

07 fevereiro 2010

O Figurante

A casa tinha três cômodos. Foi construída pelo pai, numa área de mata atlântica invadida. Ele era um caixeiro viajante da famosa fábrica de salgadinhos (Pira, o quê?). Um dia o sujeito desapareceu. Na firma ninguém sabia o paradeiro do jovem vendedor. A mulher, desconfiada, achava que ele pudesse ter se enroscado na rede de outra mulher. Os amigos tinham certeza de que tinha sido coisa dos agentes do regime militar. Afinal, ele era engajado, disposto a qualquer tipo de subversão pela liberdade do país. O fato é que nunca mais foi visto. A mulher, baiana trazida cedo para o Rio, logo encontrou uma maneira de sustentar o menino, vendendo biscoitos (Universo, hehehe) de polvilho na praia, na zona Sul. O garoto, quando não estava na escola, ia com ela. Bonito e comunicativo, logo começou a ajudar a mãe nos negócios. Conforme foi crescendo, mais o rapaz impressionava pelo porte físico e o traço bastante peculiar. Era negro, mas tinha os olhos verdes como os do pai. Também levava consigo duas marcas do homem que mal conheceu: a paixão pelo Botafogo e a escola do coração, a Vila Isabel. Adorava cantarolar: “A Vila desce colorida, para mostrar o Carnaval. Quatro séculos de moda e costumes. Do moderno, a o tradicional.” Garoto esperto, logo se entrosou com a rapaziada da areia e da favela. Passou então a fazer “avião”. Descolava a droga no morro e entregava no asfalto. Curiosamente, nunca se interessou em experimentar. Era negócio pequeno, nem dava muito dinheiro e era feito escondido da mãe. Foi assim, vendendo biscoitos e entregando drogas – só para os conhecidos - que um dia, em Copacabana, conheceu Su, o maquiador. (continua)

05 fevereiro 2010

Marina, assim não dá!

Assim que ex-ministra e ex-senadora Marina Silva lançou sua candidatura à presidência no fim do ano passado, pelo Partido Verde, tive um encontro informal com um dos coordenadores da campanha dela. Ele estava contente com as capas das revistas semanais, que estampavam a candidata como a "novidade" das eleições de 2010. Eu admiro a Marina, mulher de fibra e conteúdo. Eu a conheci rapidamente, numa das idas a Brasília, no início dos anos 2000, por intermédio do então comentarista de política do jornal tarde da noite, em que trabalhávamos, Franklin Martins. Acho que Marina é dona de texto e retórica brilhantes e suas inquietações em relação ao meio ambiente são muito parecidas com as minhas. Afinal, quem com bom juízo não crê que a sustentabilidade é a melhor forma de crescer sem agredir e, ao mesmo tempo, distribuir melhor a riqueza. Mas tenho minhas críticas a seu pragmatismo político e já as formalizei quando, em 2008, por exemplo, ela declarou apoio a Fernando Gabeira, à prefeitura do Rio de Janeiro. Naquele momento, a candidatura Gabeira servia claramente aos interesses mesquinhos de organizações que estão na base da nossa pobreza e desigualdade. São responsáveis por deixar nosso país nas trevas nos ultimos 30 e tantos anos. Por isso, achei sua atitude inadimissível e, até, oportunista. Por isso, diante do coordenador e entusiasta da candidatura de Marina, disse: - Assim ela não decola. Primeiro, porque o PV está aliado ao que há de pior na política brasileira hoje e, segundo, porque o discurso dela é de classe média, descolado da realidade de um Brasil que ainda precisa de comida, saneamento básico, educação, saúde, transporte e trabalho dignos. Não que o modelo que ela defenda não contemple tudo isso, mas a lógica do discurso é elitista. O amigo me respondeu que o PV estava decidido a seguir sem o PSDB, a começar por São Paulo e estava concentrado em fazer um discurso mais popular, não populista. Na ocasião desejei sucesso à caminhada. Porém, recebo frustrado a notícia de que o deputado Fernando Gabeira será o candidato ao governo do Rio, numa chapa composta pelo PV, PSDB (com o vice), DEM e PPS. Isso sem contar os rumores de uma aproximação entre ela e o PSDB paulista. Portanto, só cabe dizer: - Marina, assim não dá!

A viagem de horror

Daquela série que se perguntar, eu nego. A repórter chega à redação excitada. Acaba de voltar do exterior. Tinha sido sua primeira vez. Filha de funcionário público e professora, também de escola pública, nunca tinha tido oportunidade igual antes. Puxou de canto o colega e perguntou:
- Você quer ir para lá de graça?
- Como assim? Respondeu o então editor de economia daquele que já foi o mais importante telejornal formador de opinião do país, mas que hoje, não passa de um libelo de extrema direita travestido de democrata mas que, ainda assim, captura três quartos da audiência do país, inclusive daqueles que adoraram criticá-lo, usando um argumento acanhado, mas que tem apelo: é preciso assistir para poder criticar.
Bom, paramos no ponto em que o editor pergunta como assim. Ela, ingênua até, responde:
- O negócio é o seguinte: a Câmera de Comércio daquele país, com o apoio do Departamento de Estado, patrocinam a viagem.
- Integralmente? Perguntei.
- Sim, integralmente. Funciona por indicação e quem me indicou foi a comentarista de economia, aquela (bastante conhecida do grande público).
- Hum.
- A assessora me disse que eu posso indicar alguém e pensei logo em você.
- Mas qual é o programa?
- Você combina um roteiro e eles te levam para conhecer todos os lugares que pedir?
- Poxa...
- Só tem um inconveniente.
- Ah é, qual?
- Você tem que participar de uma agenda de compromissos que eles estabelecem, entre um passeio e outro, e há um acompanhante que não larga do seu pé.
- Hum, entendi. Muito obrigado pela deferência, mas prefiro comprar a passagem e ir por minha conta.
- Noooooossa, não te interessou?
- Não, não tenho paciência para esse tipo de coisa, desconversei.
Pouco tempo depois, outra colega contou para um grupo seleto como tinha sido sua viagem para "passear". Tinha até conhecido o escritório internacional da emissora. E quem a recebeu foi o próprio diretor de lá. Não julgo, nem recrimino, mas eu não vou. Devo ser mesmo um idiota, não é mesmo? Uma coisinha boba dessas, né? Boba mas, que na minha modesta opinião, tem nome: Jabá!

03 fevereiro 2010

Trimmmm

- Alô.
- Ministro? (o protocolo recomenta chamar o político pelo último ou mais importante cargo que ocupou)
- Sim.
- Tudo bem?
- Tudo, e com você?
- Também.
- Estou ligando porque está um diz-que-me-disse a respeito da sua candidatura à presidência.
- Não tem diz-que-me-disse nenhum. Sou candidato à presidência da República pelo PSB, simples assim.
- Mas parece que o Governo quer uma aliança para lançá-lo candidato ao Governo de São Paulo...
- Não tem nada disso. Quando o PSB decidiu lançar candidato próprio entendia que havia espaço para uma terceira via e é esse espaço que queremos ocupar.
- Quer dizer então que o governo de São Paulo está descartado?
- Acho que vocês têm que ficar de olho no jogo que está sendo feito pelo PSDB, por um lado, e pelo PT, por outro. Esta disputa se dá em São Paulo, por um presidente paulista, um governador paulista, empresários, banqueiros e imprensa paulistas. Mas São Paulo não é o único estado da federação e os paulistas não vão pautar sozinhos a agenda da sucessão. Se há espaço para mais candidatos, e isso está claro, esses candidatos serão lançados naturalmente. Crescerão ou não, a depender dos interesses do eleitorado.
- Mas o senhor admite que, sendo o seu partido aliado do Governo, não seria um gesto de traição lançar candidato próprio, correndo o risco de dividir o eleitorado?
- Esse risco é um risco da democracia, meu caro. Ninguém pode impedir que um partido da base do governo lance candidato próprio. Até o PMDB, que é o maior partido aliado, pode fazê-lo, se assim o quiser. Veja o exemplo do Requião, que quer levar sua pré-candidatura à convenção.
- Quer dizer que o senhor continua no páreo?
- Sem dúvida.
- Ok, é cedo para especular, mas digamos que o senhor não consiga os votos necessários para passar ao segundo turno...
- Não trabalhamos com essa hipótese no momento, mas se isso acontecer, o capital político do partido para uma eventual aliança programática será proporcional à quantidade de votos que obtivermos nas urnas.
- O senhor aceitaria ser vice da Dilma?
- Nosso partido terá candidato próprio. Obrigado e um abraço.
- Posso divulgar essa nossa conversa?
- Pode, mas se perguntarem se aconteceu de fato, negue. Afinal de contas, virou um bordão do blog, não é mesmo?

O Lamento do Governador na TV Cultura


http://www.youtube.com/watch?v=no5Y5J7VQk8

Chove, mas como chove
Chuva, chuvisco, chuvarada
Por que é que chove tanto assim?

A terra gosta da chuva
E eu gosto da chuva também
Ela lá e eu aqui
Cocoricó
Quiquiriqui

Chove, mas como chove
Chuva, chuvisco, chuvarada
Por que é que chove tanto assim?
Lararáaa

Quando chove
A terra fica molinha
A planta fica verdinha
E eu ali atolado
Com o pé na lama e nariz tapado
Minha vó me chama:
"menino vem cá vem tomar chá
Vem comer bolo de cenoura
Com cobertura de chocolate quente"
Bom muito bom muito mais do que bom
É excelente

Oh que tarde tão bela
Banana quente no forno com açúcar e canela

Chove, chove ,chove deixa chover
Enquanto tiver bolo de cenoura
A gente nem vai perceber

Chove, chove, chove deixa chover
Comendo banana quente
A gente nem vai perceber

02 fevereiro 2010

A lata, Yemanjá e o apresentador

Os textos de ficção que faço podem ser comparados à lata do poeta, da letra da música Metáfora, de Gilberto Gil. "Na lata do poeta tudo, nada cabe." O que quero dizer com isso é: ao contrário do que muitos especulam, o apresentador não existe. Pelo menos, não da maneira como foi descrito. Apesar de muitos fatos serem reais, vários apresentadores e até apresentadoras ajudaram a compor o mosaico. Claro que há um número grande deles que consegue manter a linha e esses nos causam orgulho e admiração. O que importa não é a tragédia pessoal, dolorosa sempre, para cada um de nós humanos, falíveis e mortais. O que importa mesmo é a lógica do negócio, esta sim constiui a verdadeira tragédia. Como muita gente é seduzida pela fama, dinheiro e poder e passa a viver num mundo ilusório, onde o que vale é aquilo que o sujeito acha que é, ou tem, a partir daquilo que as pessoas gostariam que ele fosse, ou acreditam que ele é. É essa vitrine de imagens distorcidas que, aos poucos, vai tragando a alma e a identidade das pessoas. Elas se tornam mesquinhas, egoístas, vis, indiferentes e desumanas. E se apegam à glória, como último refúgio, mesmo quando suas carreiras começam a declinar. Portanto, a reflexão que proponho é mais profunda do que saber quem é o apresentador. É uma discussão sobre a sociedade de consumo e da aparência, e sobre os preços da fama e da desilusão. Poucos fazem essa reflexão, principalmente enquanto estão na crista da onda. Mas quando vem a queda, o corpo gira inerte em meio ao turbilhão de água, espuma e areia. Muitos conseguem se reerguer e atravessar o mar de volta à praia. Outros são levados por Yemanjá. Espero que tenham gostado da proposta. Sou um idealista e ingênuo. Sonho com uma sociedade mais solidária e justa. E acho que vou morrer acreditando que um outro mundo é possível sim! Daqui a pouco estará no ar a nova série de ficção, também baseada em fatos reais: O Figurante.

01 fevereiro 2010

O Apresentador 10

Ninguém nunca mais ouviu falar do apresentador. A última notícia quem teve foi Su. Alguém lhe disse que um sujeito muito parecido com ele foi visto no litoral do nordeste, recluso em uma casa de pescador, numa praia "particular" (como se a lei permitisse praia particular...). Parece que o "dono da praia" deixou ele morar lá. Virou uma espécie de zelador do lugar. Em troca, o "patrão" manda uma vez por mês uma cesta básica. E ele cuida do lugar. Visitantes não são bem-vindos. Tem a companhia de um cão vira-latas e, de vez em quando, uma índia pataxó é vista com ele por lá. Está irreconhecível. A barba é longa e branca. Os cabelos também. Usa apenas uma bermuda jeans e um chinelo de dedos. Ostenta uma enorme barriga, mas não é gordo. O casebre é simples: quarto, sala, cozinha e banheiro. Na pequena varanda uma rede e na foz do rio um barco à remo. Dizem que dia 02 de fevereiro (hoje) ele é o primeiro a abraçar Yemanjá. Pelo sim, ou pelo não, Su nunca foi checar. Tem medo do que pode encontrar. A mãe dele morreu anos atrás. O pai (legítimo) também, mas sem jamais saber da existência do herdeiro. A corporação onde trabalhou segue fazendo tudo como antes, só que com outros personagens no lugar. O zelador, o porteiro e o garçon falam dO Apresentador de vez em quando mas, aos poucos, a história deixa de interessar. Su respondeu a processo, gastou parte do dinheiro do apresentador - a que tinha direito - para se defender. Também vendeu o carro de luxo e comprou uma casa para a mãe, no subúrbio. As mulheres que sempre ligavam sumiram. E o pó também. (não continua)

O Apresentador 9

- Olá, eu queria que o senhor me ajudasse a entrar neste apartamento, disse Su, ao zelador.
- Mas, como assim? Quem é você?
- Trabalho com ele, na TV. Faz uma semana que não dá notícias e estamos todos preocupados.
- Oras, mas ele deixou a chave com o porteiro da noite, disse que ia passar uns dias fora, a trabalho, que não demorava a voltar.
- Só que ninguém sabe o paradeiro dele. Todos temem pelo pior.
- Espera aí, deixa eu ver se a chave reserva está aqui. Não, provavelmente a camareira pegou e não trouxe de volta.
- Podemos ir lá dar uma olhada, então?
- Eu não posso autorizar, só a administração.
- O senhor fala com eles ou quer que eu fale?
- Não, eu ligo lá.
- Obrigado (a).
- Tudo bem, autorizado, vamos subir.
- Nossa, o que é isso, o elevador não tem exaustão?
- O sujeito que dava manutenção para a gente desapareceu. Estamos esperando um outro cara, que veio ontem e ficou de voltar.
- É, porque o calor aqui é insuportável.
- Ih, você não viu nada. Quando é fim de tarde fica muito pior.
- Que bom, chegamos.
Primeiro eles tocaram a campanhia, que parecia não funcionar. Depois bateram na porta. Só então decidiram entar. O zelador estremeceu. Seria a primeira vez que 'daria de cara' com um cadáver, pensou. Su também estava a espera do pior. Tudo estava escuro. Não havia cheiro forte, o que era um bom sinal. Mas, também, nenhum sinal de que alguém estivera ali. Sobre a mesa a lâmina gasta, a embalagem de pastilhas efervecentes de vitamina C, as chaves e os documentos do carro e o envelope do exame (vazio). Num bilhete manuscrito recomentações à Su, que foi tentar tocá-lo quando o zelador, prudentemente, disse:
- Acho bom não mexer em nada.
- Mas este bilhete é para mim.
- Se ele desapareceu mesmo, precisamos chamar a polícia. Por favor, não mexa em nada.
- Tá bom, tá bom.
Su sabia que o zelador tinha razão. Se tivesse havido um crime qualquer, cada sinal ali poderia dar pistas para esclarecer. Os dois desceram. A polícia chegou e Su foi levada a prestar esclarecimentos, primeiro na condição de testemunha.
(continua)

 
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