
O diretor do núcleo estava tão satisfeito com a audiência que programou um festão, na mansão, na Gávea. Boca livre geral. No meio da noitada acabou o pó. A Su chegou no figurante e disse:
- O homem quer ir com você buscar.
– É loucura Su, lá é bocada.
– O cara quer ir conhecer o patrão. Leva ele lá.
– O figurante, a contra gosto decidiu ir.
Quando estavam no morro, patrão e diretor, um de frente para o outro, começou o foguetório. O Bope tava lá. O diretor suava frio e o figurante não sabia o que fazer. Pensou, eu tô morto, não tem para onde correr. Foi sair da favela e o comando parou. Levaram os dois para a delegacia e o diretor se safou. O figurante ficou em cana uma semana, até noiva dos outros presos virou. Quando saiu, inconformado, estava disposto a mudar. Foi quando Su chamou o amigo de canto, para conversar.
– Cara, você tá no negócio faz tempo, se furar, o dono da boca manda te matar.
– Quero que se dane Su, para mim já deu, tô fora, não tenho mais que aguentar.
Foi quando um dia, na praia, dois capangas chegaram junto dele e disseram:
- O patrão mandou te buscar.
O homem estremeceu, mas subiu o morro para conversar.
– Meu camarada, o negócio é o seguinte: tem um jornalista lá que quer fazer um livro e vou abrir pro cara entrar. Então é assim meu irmão: a partir de hoje, és embaixador. Vai colar nele e entregar tudo o que o sujeito precisar. Nomes, números, testemunhas, tudo. Sacou?
– Sim senhor. (É figurante, sua chapa esquentou).
O tal repórter era bom sujeito. Discreto, experiente e bastante acolhedor. Acabaram criando um vínculo. Foi quando o cara falou:
- Eu trabalho para o mesmo patrão que você, só que do outro lado do negócio, sacou? Ele não entendeu o que o ‘brother’ queria dizer. Até descobrir que o livro, não era livro, era roteiro para a TV. Quem tocava o projeto era o diretor, o tal cheirador. Viu que estava mais enrascado do que imaginava. Foi quando decidiu que o jeito mesmo era fugir. Nosso figurante caminhava pela orla. O vento que vinha do sul era gelado, de estremecer. Foi quando esbarrou num sujeito que julgou de outras vidas conhecer. Ambos trocaram olhar de cumplicidade e seguiram. Quando parou para tomar uma amarelinha, no bar do Ceará, viu que o sujeito também estava lá. Decidiu puxar conversa, para ver no que podia dar. O homem era caminhoneiro de passagem pelo Rio, ia levar um container para o Uruguai. Ofereceu uma carona e nosso figurante se mandou. Virou chapa do sujeito e nos dois anos seguintes rodou com ele toda a América do Sul. Quando chegou na costa do Pacífico resolveu que tinha que ficar. Ligou para a mãe para avisar. Foi quando soube que a mulher estava morta, porque disse pro dono da boca que o paradeiro do filho não ia entregar. Num balneário, na orla, arrumou emprego de garçon. Não precisava ter experiência, só falar português. Os turistas logo começaram a chegar. Mas veio também a oferta de pó e ele começou tudo de novo. O patrão era um americano, contrabandista de objetos de arte, que vez ou outra fazia uma conexão. (continua)