02 abril 2010

O Tripé

Quem frequenta o blog há mais tempo deve ter notado que, afora as reflexões sobre jornalismo e meios de comunicação, tenho uma inclinação por três assuntos que, na minha opinião, constituem o tripé que sustenta a compreensão da dinâmica de uma sociedade: a fé, o dinheiro e o poder. Não por acaso falo com alguma frequência sobre a decadência da Igreja Católica, os rumos da economia e algumas impressões sobre a política. Se o que move o ser humano é o medo e a eterna luta pela sobrevivência, o que nos faz acreditar em nós mesmos e no futuro? A fé. Mas qual é o ideal de felicidade da vida moderna? A ascendência sobre os outros, seja pelo que ostentamos, seja pelo poder que temos concentrado em nossas mãos. Quando estabelecemos este tripé, que nem é assim tão original, já que a disciplina de história ensinada nas escolas do Ocidente segue rigorosamente esta lógica, podemos entender melhor determinados papéis, sobretudo num país emergente, de democracia recente e cheio de injustiças de toda sorte. Enquanto a Igreja Católica sufocou a "vocação pelos pobres" silenciando a Teologia da Libertação, no fim dos anos 70 e durante os 80, uma "Ditabranda", como prefere chamar a Folha de S. Paulo, silenciou as vozes dissonantes desde o golpe militar e o "liberalismo do mercado" mais recentemente libertou a classe média emergente para o consumo de massas. Olhando assim, o que significou a ascenção de um nordestino, migrante, ex-metalúrgico, sindicalista e católico libertário ao poder? Significou "metaforicamente" o fim da Doutrina da Fé professada pela Igreja conservadora, o fim da hegemonia política imposta pela elite intelectual e pelas oligarquias rural, empresarial e midiática e o desmonte do modelo econônico baseado na transferência de patrimônio público para agentes privados, numa escala tão grande que transformou o Brasil num dos países mais desiguais do mundo! Por isso, digo: o que está em curso em 2010 é sim uma guerra, das Igrejas Católica e Evangélicas, por um lado; de dois modelos políticos que se opõem, sendo que o melhor deles é aquele que privilegia um pacto federativo amplo, descentralizado, em que o poder emana dos que estão mais próximos de seus representados (legitimidade); e por fim, de uma lógica capitalista que privilegia o combate à pobreza e à desigualdade pelo Estado versus a centralização e concentração econômicas de antes. Essa guerra vai ser travada num debate público explícito, portanto bom para a democracia. Mas, nos bastidores, pelas mãos da mídia - quase oligopolista - nascerá o discurso golpista, cunhado à sombra da manipulação de imagens e informações, como nunca antes na história desse país. Caberá aos que tem algum discernimento ajudar a iluminar o caminho dos cegos, para que não levemos nosso país mais uma vez ao precipício de um novo totalitarismo. O risco não é pequeno.

21 doladodecá:

Anônimo disse...

Marco Aurélio, brilhante como sempre!
A midia tem lado político sim. Em recente declaração uma "chefe" da Folha deixou isso bem claro!: http://tinyurl.com/yh6zdoo (via @viomundo)

Tito disse...

É Marcão! É fundamental o entendimento de que a próxima eleição é o divisor de águas, já que será a primeira pós Lula e a grande chance dos podres poderes tentarem retomar as rédeas da Nação.
Cabe aos jornalistas independentes e as mídias sociais informarem e debaterem muito a situação.
A propósito, o título do post tem algo pessoal?
bjos

Luís C. P. Prudente disse...

No ano de 1989 eu participei da campanha da Frente Brasil Popular e que tinha como candidato a presidente o então considerado "Sapo Barbudo Ateu e Comunista" Luiz Inácio. Quando passávamos diante das igrejas evangélicas (como exemplo a Igreja Universal do Reino de Deus) percebíamos o temor e o medo dos evangélicos diante da vitória do Ateu e Comunista Luiz Inácio. A maioria dos evangélicos estavam então no caminho dos cegos, do obscurantismo e do fanatismo religioso que levou à eleição do cristão Fernando Collor.

Os evangélicos mudaram e continuaram a crescer, perceberam que eles também tinham a necessidade de alcançar as melhorias sociais para os seus seguidores, que isto só viria se eles apoiassem o "ex-ateu e ex-comunista" Luiz Inácio. Estas mudanças sociais vieram para o bem de todos, católicos e evangélicos.

Neste momento podemos continuar avançando nas conquistas sociais e políticas. Ou retrocedemos e seguimos o caminho dos cegos, do obscurantismo e do totalitarismo (com o apoio total e incondicional do PIG)que é o voto no José Serra, voto no atraso, voto na barbárie.

Tenho a certeza que não viverei mas aqueles momentos angustiantes de 1989, quando pessoas pobres, miseráveis e de religiões evangélicas viam no Sapo Barbudo o seu inimigo e viam num caçador de marajás (o candidato das elites) a sua salvação.

DoLaDoDeLá disse...

Kibe, digo, Tito, nada de pessoal no tripé, amigo.

revdigao disse...

Só uma coisa: é errado classificar algo tão diverso como um grupo homogêneo, como os "evangélicos". Somos muito diferentes entre nós. Sou pastor presbiteriano, filiado ao PT, e conheço outros colegas de vários pensamentos políticos. Aliás, na eleição de 89 foi criado o Comitê Evangélico Pró-Lula, embrião do Movimento Evangélico Progressista (MEP). Recomendo buscar na internet textos de d. Robinson Cavalcanti (bispo anglicano) e Paul Freston (sociólogo igualmente evangélico), para entenderem um pouco mais como é a mente política dos "evangélicos". E, sinceramente, nos tomar como pessoas iguais ao Pedir Mai$Cedo chega a ser ofensa!

Antonio carlos Gomes disse...

Estou viciado no seu blog,principalmente naquelas historinhas em capitulos.Tenho 56 anos e sou um humilde fundador do PT.Digo isto para falar para voce que sou tambem fruto da comunidade eclesial de base,foi em uma delas que fundamos o PT,mais precisamente no salão paroquial.Pois bem pasei por Dom Paulo Evaristo e aprendi muito do Amor de Deus e tambem que existe um elo entre pobreza e justiça ou injustiça.Então eu continuo catolico apostolico romano e comunista ao mesmo tempo,e para mim não existe crise isto é passageiro.È verdade que a igreja tem que cuidar das coisas de DEUS mas injustiça DEUS é contra claro!
Então eu continuo frequentando a igreja sja conservadora ou progressista pois oque importa lá para mim é que eu acrdito em DEUS e sei que lá posso encontra-lo e acrdito tambem que ao me abastecer de fé eu vou a luta todos os dias participando de minha comunidade e da minha cidade ,sou conselheiro de saúde e quando encontro canais denuncio as mazelas do PSDB em minha cidade e vou indo.Desculpa eu vou parar pois se não tenho muito o que conversar,obrigado pela atenção e oque voce souber e puder contar sobre a sacanagem que estes "JORNAIS E JORNALISTA E A IMPRENSA PIG "faça pois isto nos alimenta e ajuda na luta que travamos e travaremos até que chegue a hora de ir embora para um outro plano espiritual.Felicidades a voce e sua familia .PS:TENHO MUITAS HISTORIAS DESTA SINGELA MILITANCIA.

sergio disse...

Olá Marco Aurélio

Dessa vez não dá para concordar com você.

O mundo vai um pouco além do seu tripé: "fé, o dinheiro e o poder." Esse é uma abordagem funcionalista.

um ponto de vista mais adequado para descrever as relações existentes na sociedade é o materialismo dialético desenvolvido pelos marxistas. Mais recentemente, entre os ambientalistas tem sido desenvolvido uma análise sistêmica para descrever todo o processo de desenvolvimento da vida na Terra. Eu tenho certeza que as variáveis são infinitas.
Porêm, imaginar que o tripé determina a História é simplificar ao extremo. É entregar ao divino escolhas materiais, dinheiro e poder, na breve História do mais recente primata no destino do planeta.
Você subestimou sua capacidade de reflexão.
Saudação, Sérgio.

Flavio Lima disse...

Po, vivi essa historia de sufocar a opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, silenciar a Teologia da Libertação.
Foi analogo a destruição dos sete povos das missões jesuiticas do sul da America (guardadas as proporções do massacre).
Entregaram a Igreja na America Latina pela sobrevivencia na Europa.

Vinicius disse...

"...pacto federativo amplo, descentralizado, em que o poder emana dos que estão mais próximos de seus representados (legitimidade);" Vc tucanou as mafias (sindicais, empresariais e oligarquicas) que apoiam o atual governo! Legitimidade existiria se o poder emanasse do povo, e nao dessas maquinas economico-politicas que dizem representa-lo. Quanto a decentralizacao economica e as politicas sociais, elas foram sob o que vc rotula de "liberalismo de mercado." O risco de totalitarismo, por fim, advem daqueles que, como os petistas, dizem representar a sociedade sem de fato faze-lo.

Luís C. P. Prudente disse...

A referência que eu tinha de evangélicos era a grosso modo as seguintes igrejas:Igreja Universal do Reino de Deus, Assembleia de Deus, Deus é Amor. E em todas estas via-se o medo dos seus fiéis quando se falava de Lula. Lula era como se fosse o demônio em pessoa. Se já existia o Movimento Evangélico Progressista, este não era a referência evangélica naquele distante 1989. Só ouvi pessoalmente um comentário sobre um movimento evangélico progressista bem mais tarde, por volta de 2003 ou 2004.

Tocando em Frente disse...

Muito bem elaborado, completo e perfeito retrato do cenário que se aproxima. Marco, permita-me uma discordância, iluminar caminhos de cegos de nada adianta, pois eles não enxergam, para estes (que são inúmeros - quase na totalidade os "formadores de opinião") precisamos dar-lhes outros meios de entendimento do mundo, como pegar pela mãos.

giovani montagner disse...

é o meu medo também. o constante crescimento do tom reacionário justifica o temor.
auto intitulam-se democratas, mas não conseguem conviver com a escolha da maioria da população. pela escolha da maioria da população, preciso conviver com o governoi mais corrupto da história do rio grande do sul, aceita-lo, jamais.

revdigao disse...

Na verdade, a vertente progressista dos evangélicos já existia até 1964, segundo o livro "Cristo e a transformação social no Brasil", de Carlos Queiróz (deve estar esgotado, eu acho). Mas, com o golpe, tudo o que cheirava a "esquerda" foi sufocado no Brasil, não apenas no meio evangélico. Mas, para se saber um pouco mais do lado esquerdista dos evangélicos, é só lembrar do papel do rev. Jaime Wright, presbiteriano, no movimento Tortura Nunca Mais.

Anônimo disse...

Marco Aurélio Mello, é a minha primeira visita ao teu blog, gostei muito de teu ponto de vista...
Na minha opinião esse tripé realmente existe, e nosso atual governo tem utilizado tanto o dinheiro, quanto o poder de maneira incrível... em 50 anos vamos estudar o que está acontecendo agora sob outros aspectos.... disso eu tenho certeza absoluta!
Gostaria de ouvir sua opinião sobre os efeitos dos programas sociais sob o conceito de escassez!!

Por favor, invista um tempo olhando os dois documentários abaixo, principalmente o primeiro.

http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024#

http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024#docid=-2996112039116116532

DoLaDoDeLá disse...

Acho que o Sérgio e o Vinícius não entenderam o texto, infelizmente. Anônimo, vi o Zeitgeist (os dois) e gostei muito. Obrigado pela sugestão.

francisco.latorre disse...

2010.

a batalha do brasil.

venceremos!

...

o governo do lulinha estraçalhou com o conceito da escassez.

fez e faz história. no brasil e no mundo.

venceremos!

e a oposicinha golpista vai virar pó.

lata de lixo da história pra eles.

...

DOPozza disse...

Marco, o anônimo agora tem nome (Danniel Pozza), tive contato com o ZeitGeist a muito pouco tempo, e não consigo pensar em outra coisa... quanto mais analiso e reflito mais "lógico" me parece.

Hoje em dia é difícil arquitetar uma discução sobre temas assim, até pq quase ningúem mais discute com profundidade e propriedade temas como política, religião e economia... Pelo que pude ler tem uma galera legal que acessa teu blog, gostaria de "ouvir" uma posição tua sobre algumas dessas coisas, bem como de todos os leitores :)
Grande abraço meu amigo e continue em frente... ;)

DOPozza disse...

francisco.latorre na minha visão tu tá enganado.
O que o atual governo fez, apostando nos programas sociais de baixo impacto está fortalecendo o conceito da escassez. Infelizmente, e é por isso que eu digo, em 50 anos vamos estudar a nossa época com pesar.

Por favor, olha os documentários que eu indiquei, e quem sabe possamos discutir mais.

É uma nova aplicação pra histórinha de dar o peixe ou ensinar a pescar. Tornar o povo dependente é uma forma de subjulgar a opinião pública utilizada a muito mais do que 2000 anos.

Panem et circenses... e nem vamos falar da copa/olimpíadas... heheheh

francisco.latorre disse...

opa...

eu assisti sim o zeitgeist.

e divulgo selvagemente rede afora.

o um é bala.

o dois... addendum... nem tanto.

tem um cara lá... escapa o nome... que viaja na tecnocracia.

ficou claro que conseguiram despolitizar totalmente o povo amerikano.

bom o diagnóstico... sofríveis os prognósticos.

abraço.

...

Christian disse...

Caro Prudente,

Curiosamente, as três referências de evangélicos que você citou são de orientação pentecostal e com organização episcopal, semelhante ao da igreja católica, em que há, em geral, uma figura que personifica o "lider" (exceção aos assembleianos, que têm uma organização mista entre o episcopal e o congregacional). Há, por exemplo, no Brasil, duas denominações com grande tradição e um histórico mais que centenário de presença no país, cuja organização é bem mais próxima do que o Marco coloca no post, e a meu ver, bem mais democrática: os batistas e os presbiterianos, em que cada igreja, no caso dos batistas, é encarada como uma comunidade local e autônoma, e a unidade se dá pela cooperação entre as igrejas, independentes individualmente (e com prestação de contas em assembléias locais); no caso dos presbiterianos, a organização é baseada em concílios locais, regionais e uma assembléia geral - numa visão bem simplificada (corrijam-me se estiver errado); em ambas não existe uma figura que, individualmente, fale por todos (creio que seja a essas formas que MAM se refere quando fala em legitimidade), e nelas, embora sempre houvesse quem manifestasse esse medo de Lula a que se refere, até pela própria forma de organização sempre houve espaço para um contingente significativo de pessoas que não tinham essa visão: Lula = o próprio demo; Infelizmente, a impressão geral que ficou do que se chama de evangélicos hoje é fortemente ligada à IURD e aos neopentecostais como a Deus é Amor, prevalecendo sempre a visão de seus líderes, respectivamente, nos exemplos citados, Edir Macedo (Aliás, foi o próprio Macedo que, salvo engano, chegou a comparar, no passado, Lula ao anticristo.) e David Miranda. Digo infelizmente porque essa visão simplista leva a grande maioria a acreditar que há no chamado meio evangélico uma espécie de pensamento único, o que não corresponde à realidade.

Acompanho com frequencia o blog,ora concordo, ora discordo dos posts,mas não deixo de ver, embora seja esta a primeira vez que participo comentando.

Luís C. P. Prudente disse...

O comentário de Christian me fez relembrar o quanto os católicos (eu sou um desses católicos, mas não sou tão praticante assim) costumam colocar no mesmo balaio de gatos todas as demais igrejas e taxá-las indevidamente de evangélicos. Os meios de comunicação também ajudam a fortalecer essa ideia.

O rev.Digão também me lembrou do MEP (movimento evangélico progressista), que não é muito falado. Eu só tinha ouvido falar desse MEP quando questionei um evangélico que disse que estava na campanha do Lula em 1994 e falei da impressão que eu fiquei dos evangélicos por causa de 1989.

 
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