Quem frequenta o blog há mais tempo deve ter notado que, afora as reflexões sobre jornalismo e meios de comunicação, tenho uma inclinação por três assuntos que, na minha opinião, constituem o tripé que sustenta a compreensão da dinâmica de uma sociedade: a fé, o dinheiro e o poder. Não por acaso falo com alguma frequência sobre a decadência da Igreja Católica, os rumos da economia e algumas impressões sobre a política. Se o que move o ser humano é o medo e a eterna luta pela sobrevivência, o que nos faz acreditar em nós mesmos e no futuro? A fé. Mas qual é o ideal de felicidade da vida moderna? A ascendência sobre os outros, seja pelo que ostentamos, seja pelo poder que temos concentrado em nossas mãos. Quando estabelecemos este tripé, que nem é assim tão original, já que a disciplina de história ensinada nas escolas do Ocidente segue rigorosamente esta lógica, podemos entender melhor determinados papéis, sobretudo num país emergente, de democracia recente e cheio de injustiças de toda sorte. Enquanto a Igreja Católica sufocou a "vocação pelos pobres" silenciando a Teologia da Libertação, no fim dos anos 70 e durante os 80, uma "Ditabranda", como prefere chamar a Folha de S. Paulo, silenciou as vozes dissonantes desde o golpe militar e o "liberalismo do mercado" mais recentemente libertou a classe média emergente para o consumo de massas. Olhando assim, o que significou a ascenção de um nordestino, migrante, ex-metalúrgico, sindicalista e católico libertário ao poder? Significou "metaforicamente" o fim da Doutrina da Fé professada pela Igreja conservadora, o fim da hegemonia política imposta pela elite intelectual e pelas oligarquias rural, empresarial e midiática e o desmonte do modelo econônico baseado na transferência de patrimônio público para agentes privados, numa escala tão grande que transformou o Brasil num dos países mais desiguais do mundo! Por isso, digo: o que está em curso em 2010 é sim uma guerra, das Igrejas Católica e Evangélicas, por um lado; de dois modelos políticos que se opõem, sendo que o melhor deles é aquele que privilegia um pacto federativo amplo, descentralizado, em que o poder emana dos que estão mais próximos de seus representados (legitimidade); e por fim, de uma lógica capitalista que privilegia o combate à pobreza e à desigualdade pelo Estado versus a centralização e concentração econômicas de antes. Essa guerra vai ser travada num debate público explícito, portanto bom para a democracia. Mas, nos bastidores, pelas mãos da mídia - quase oligopolista - nascerá o discurso golpista, cunhado à sombra da manipulação de imagens e informações, como nunca antes na história desse país. Caberá aos que tem algum discernimento ajudar a iluminar o caminho dos cegos, para que não levemos nosso país mais uma vez ao precipício de um novo totalitarismo. O risco não é pequeno.
Há 39 minutos

21 doladodecá:
Marco Aurélio, brilhante como sempre!
A midia tem lado político sim. Em recente declaração uma "chefe" da Folha deixou isso bem claro!: http://tinyurl.com/yh6zdoo (via @viomundo)
É Marcão! É fundamental o entendimento de que a próxima eleição é o divisor de águas, já que será a primeira pós Lula e a grande chance dos podres poderes tentarem retomar as rédeas da Nação.
Cabe aos jornalistas independentes e as mídias sociais informarem e debaterem muito a situação.
A propósito, o título do post tem algo pessoal?
bjos
No ano de 1989 eu participei da campanha da Frente Brasil Popular e que tinha como candidato a presidente o então considerado "Sapo Barbudo Ateu e Comunista" Luiz Inácio. Quando passávamos diante das igrejas evangélicas (como exemplo a Igreja Universal do Reino de Deus) percebíamos o temor e o medo dos evangélicos diante da vitória do Ateu e Comunista Luiz Inácio. A maioria dos evangélicos estavam então no caminho dos cegos, do obscurantismo e do fanatismo religioso que levou à eleição do cristão Fernando Collor.
Os evangélicos mudaram e continuaram a crescer, perceberam que eles também tinham a necessidade de alcançar as melhorias sociais para os seus seguidores, que isto só viria se eles apoiassem o "ex-ateu e ex-comunista" Luiz Inácio. Estas mudanças sociais vieram para o bem de todos, católicos e evangélicos.
Neste momento podemos continuar avançando nas conquistas sociais e políticas. Ou retrocedemos e seguimos o caminho dos cegos, do obscurantismo e do totalitarismo (com o apoio total e incondicional do PIG)que é o voto no José Serra, voto no atraso, voto na barbárie.
Tenho a certeza que não viverei mas aqueles momentos angustiantes de 1989, quando pessoas pobres, miseráveis e de religiões evangélicas viam no Sapo Barbudo o seu inimigo e viam num caçador de marajás (o candidato das elites) a sua salvação.
Kibe, digo, Tito, nada de pessoal no tripé, amigo.
Só uma coisa: é errado classificar algo tão diverso como um grupo homogêneo, como os "evangélicos". Somos muito diferentes entre nós. Sou pastor presbiteriano, filiado ao PT, e conheço outros colegas de vários pensamentos políticos. Aliás, na eleição de 89 foi criado o Comitê Evangélico Pró-Lula, embrião do Movimento Evangélico Progressista (MEP). Recomendo buscar na internet textos de d. Robinson Cavalcanti (bispo anglicano) e Paul Freston (sociólogo igualmente evangélico), para entenderem um pouco mais como é a mente política dos "evangélicos". E, sinceramente, nos tomar como pessoas iguais ao Pedir Mai$Cedo chega a ser ofensa!
Estou viciado no seu blog,principalmente naquelas historinhas em capitulos.Tenho 56 anos e sou um humilde fundador do PT.Digo isto para falar para voce que sou tambem fruto da comunidade eclesial de base,foi em uma delas que fundamos o PT,mais precisamente no salão paroquial.Pois bem pasei por Dom Paulo Evaristo e aprendi muito do Amor de Deus e tambem que existe um elo entre pobreza e justiça ou injustiça.Então eu continuo catolico apostolico romano e comunista ao mesmo tempo,e para mim não existe crise isto é passageiro.È verdade que a igreja tem que cuidar das coisas de DEUS mas injustiça DEUS é contra claro!
Então eu continuo frequentando a igreja sja conservadora ou progressista pois oque importa lá para mim é que eu acrdito em DEUS e sei que lá posso encontra-lo e acrdito tambem que ao me abastecer de fé eu vou a luta todos os dias participando de minha comunidade e da minha cidade ,sou conselheiro de saúde e quando encontro canais denuncio as mazelas do PSDB em minha cidade e vou indo.Desculpa eu vou parar pois se não tenho muito o que conversar,obrigado pela atenção e oque voce souber e puder contar sobre a sacanagem que estes "JORNAIS E JORNALISTA E A IMPRENSA PIG "faça pois isto nos alimenta e ajuda na luta que travamos e travaremos até que chegue a hora de ir embora para um outro plano espiritual.Felicidades a voce e sua familia .PS:TENHO MUITAS HISTORIAS DESTA SINGELA MILITANCIA.
Olá Marco Aurélio
Dessa vez não dá para concordar com você.
O mundo vai um pouco além do seu tripé: "fé, o dinheiro e o poder." Esse é uma abordagem funcionalista.
um ponto de vista mais adequado para descrever as relações existentes na sociedade é o materialismo dialético desenvolvido pelos marxistas. Mais recentemente, entre os ambientalistas tem sido desenvolvido uma análise sistêmica para descrever todo o processo de desenvolvimento da vida na Terra. Eu tenho certeza que as variáveis são infinitas.
Porêm, imaginar que o tripé determina a História é simplificar ao extremo. É entregar ao divino escolhas materiais, dinheiro e poder, na breve História do mais recente primata no destino do planeta.
Você subestimou sua capacidade de reflexão.
Saudação, Sérgio.
Po, vivi essa historia de sufocar a opção preferencial pelos pobres e pelos jovens, silenciar a Teologia da Libertação.
Foi analogo a destruição dos sete povos das missões jesuiticas do sul da America (guardadas as proporções do massacre).
Entregaram a Igreja na America Latina pela sobrevivencia na Europa.
"...pacto federativo amplo, descentralizado, em que o poder emana dos que estão mais próximos de seus representados (legitimidade);" Vc tucanou as mafias (sindicais, empresariais e oligarquicas) que apoiam o atual governo! Legitimidade existiria se o poder emanasse do povo, e nao dessas maquinas economico-politicas que dizem representa-lo. Quanto a decentralizacao economica e as politicas sociais, elas foram sob o que vc rotula de "liberalismo de mercado." O risco de totalitarismo, por fim, advem daqueles que, como os petistas, dizem representar a sociedade sem de fato faze-lo.
A referência que eu tinha de evangélicos era a grosso modo as seguintes igrejas:Igreja Universal do Reino de Deus, Assembleia de Deus, Deus é Amor. E em todas estas via-se o medo dos seus fiéis quando se falava de Lula. Lula era como se fosse o demônio em pessoa. Se já existia o Movimento Evangélico Progressista, este não era a referência evangélica naquele distante 1989. Só ouvi pessoalmente um comentário sobre um movimento evangélico progressista bem mais tarde, por volta de 2003 ou 2004.
Muito bem elaborado, completo e perfeito retrato do cenário que se aproxima. Marco, permita-me uma discordância, iluminar caminhos de cegos de nada adianta, pois eles não enxergam, para estes (que são inúmeros - quase na totalidade os "formadores de opinião") precisamos dar-lhes outros meios de entendimento do mundo, como pegar pela mãos.
é o meu medo também. o constante crescimento do tom reacionário justifica o temor.
auto intitulam-se democratas, mas não conseguem conviver com a escolha da maioria da população. pela escolha da maioria da população, preciso conviver com o governoi mais corrupto da história do rio grande do sul, aceita-lo, jamais.
Na verdade, a vertente progressista dos evangélicos já existia até 1964, segundo o livro "Cristo e a transformação social no Brasil", de Carlos Queiróz (deve estar esgotado, eu acho). Mas, com o golpe, tudo o que cheirava a "esquerda" foi sufocado no Brasil, não apenas no meio evangélico. Mas, para se saber um pouco mais do lado esquerdista dos evangélicos, é só lembrar do papel do rev. Jaime Wright, presbiteriano, no movimento Tortura Nunca Mais.
Marco Aurélio Mello, é a minha primeira visita ao teu blog, gostei muito de teu ponto de vista...
Na minha opinião esse tripé realmente existe, e nosso atual governo tem utilizado tanto o dinheiro, quanto o poder de maneira incrível... em 50 anos vamos estudar o que está acontecendo agora sob outros aspectos.... disso eu tenho certeza absoluta!
Gostaria de ouvir sua opinião sobre os efeitos dos programas sociais sob o conceito de escassez!!
Por favor, invista um tempo olhando os dois documentários abaixo, principalmente o primeiro.
http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024#
http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024#docid=-2996112039116116532
Acho que o Sérgio e o Vinícius não entenderam o texto, infelizmente. Anônimo, vi o Zeitgeist (os dois) e gostei muito. Obrigado pela sugestão.
2010.
a batalha do brasil.
venceremos!
...
o governo do lulinha estraçalhou com o conceito da escassez.
fez e faz história. no brasil e no mundo.
venceremos!
e a oposicinha golpista vai virar pó.
lata de lixo da história pra eles.
...
Marco, o anônimo agora tem nome (Danniel Pozza), tive contato com o ZeitGeist a muito pouco tempo, e não consigo pensar em outra coisa... quanto mais analiso e reflito mais "lógico" me parece.
Hoje em dia é difícil arquitetar uma discução sobre temas assim, até pq quase ningúem mais discute com profundidade e propriedade temas como política, religião e economia... Pelo que pude ler tem uma galera legal que acessa teu blog, gostaria de "ouvir" uma posição tua sobre algumas dessas coisas, bem como de todos os leitores :)
Grande abraço meu amigo e continue em frente... ;)
francisco.latorre na minha visão tu tá enganado.
O que o atual governo fez, apostando nos programas sociais de baixo impacto está fortalecendo o conceito da escassez. Infelizmente, e é por isso que eu digo, em 50 anos vamos estudar a nossa época com pesar.
Por favor, olha os documentários que eu indiquei, e quem sabe possamos discutir mais.
É uma nova aplicação pra histórinha de dar o peixe ou ensinar a pescar. Tornar o povo dependente é uma forma de subjulgar a opinião pública utilizada a muito mais do que 2000 anos.
Panem et circenses... e nem vamos falar da copa/olimpíadas... heheheh
opa...
eu assisti sim o zeitgeist.
e divulgo selvagemente rede afora.
o um é bala.
o dois... addendum... nem tanto.
tem um cara lá... escapa o nome... que viaja na tecnocracia.
ficou claro que conseguiram despolitizar totalmente o povo amerikano.
bom o diagnóstico... sofríveis os prognósticos.
abraço.
...
Caro Prudente,
Curiosamente, as três referências de evangélicos que você citou são de orientação pentecostal e com organização episcopal, semelhante ao da igreja católica, em que há, em geral, uma figura que personifica o "lider" (exceção aos assembleianos, que têm uma organização mista entre o episcopal e o congregacional). Há, por exemplo, no Brasil, duas denominações com grande tradição e um histórico mais que centenário de presença no país, cuja organização é bem mais próxima do que o Marco coloca no post, e a meu ver, bem mais democrática: os batistas e os presbiterianos, em que cada igreja, no caso dos batistas, é encarada como uma comunidade local e autônoma, e a unidade se dá pela cooperação entre as igrejas, independentes individualmente (e com prestação de contas em assembléias locais); no caso dos presbiterianos, a organização é baseada em concílios locais, regionais e uma assembléia geral - numa visão bem simplificada (corrijam-me se estiver errado); em ambas não existe uma figura que, individualmente, fale por todos (creio que seja a essas formas que MAM se refere quando fala em legitimidade), e nelas, embora sempre houvesse quem manifestasse esse medo de Lula a que se refere, até pela própria forma de organização sempre houve espaço para um contingente significativo de pessoas que não tinham essa visão: Lula = o próprio demo; Infelizmente, a impressão geral que ficou do que se chama de evangélicos hoje é fortemente ligada à IURD e aos neopentecostais como a Deus é Amor, prevalecendo sempre a visão de seus líderes, respectivamente, nos exemplos citados, Edir Macedo (Aliás, foi o próprio Macedo que, salvo engano, chegou a comparar, no passado, Lula ao anticristo.) e David Miranda. Digo infelizmente porque essa visão simplista leva a grande maioria a acreditar que há no chamado meio evangélico uma espécie de pensamento único, o que não corresponde à realidade.
Acompanho com frequencia o blog,ora concordo, ora discordo dos posts,mas não deixo de ver, embora seja esta a primeira vez que participo comentando.
O comentário de Christian me fez relembrar o quanto os católicos (eu sou um desses católicos, mas não sou tão praticante assim) costumam colocar no mesmo balaio de gatos todas as demais igrejas e taxá-las indevidamente de evangélicos. Os meios de comunicação também ajudam a fortalecer essa ideia.
O rev.Digão também me lembrou do MEP (movimento evangélico progressista), que não é muito falado. Eu só tinha ouvido falar desse MEP quando questionei um evangélico que disse que estava na campanha do Lula em 1994 e falei da impressão que eu fiquei dos evangélicos por causa de 1989.
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