A decisão tinha agradado o editor-chefe do principal telejornal da emissora, que autorizou a reportagem por São Paulo. Por alguma razão, tinhamos duas marcações (uma na periferia, outra na região central). Duas marcações é coisa rara, porque implica em tempo e custo. Normalmente, este tipo de matéria (em cima de uma nova norma) é resolvida com uma marcação apenas e uma entrevista. É o tipo de vt que começa com um texto curto, vem algumas entrevistas de consumidores, uma participação do repórter explicando como vai funcionar, de agora em diante, e uma frase que encaminha para o entrevistado, que vai necessariamente defender a tese que saiu pronta da reunião, horas antes. Mas não era uma decisão qualquer. E a repórter também não era uma qualquer, era a Neide Duarte. Foi em Outubro de dois mil e seis. A notícia: padarias e supermercados só poderiam vender pão francês a quilo. Quem não cumprisse a nova regra poderia ser multado. Logo que cheguei à redação já tínhamos a primeira fita, porque a repórter entrou cedo. Ao conversar com ela pelo telefone, Coca (apelido carinhoso que recebeu dos colegas) me contou que a matéria não era aquela que os chefes tinham decidido na reunião. Segundo uma das mais experientes repórteres em atividade no país, a notícia boa era que a decisão agradou o rico e confundiu o pobre. Como assim, perguntei? Na periferia o sujeito entra na padaria e pede: - Me dá um real de pão? Com a balança era impossível pesar um real. Historciamente o país se habituou ao pãozinho de 50gs. Como nem toda padaria fazia o pão no peso certo, as autoridades resolveram obrigá-las a pesá-los. Nada mais justo, na cabeça de qualquer um. No entanto, nada mais confuso, na cabeça de donos de padaria e de consumidores. Como na periferia um real comprava cinco pãeszinhos (R$ 0,20 a unidade), ao pesá-los nem sempre viriam os cinco, quase sempre quatro, porque o peso nunca era uniforme. Como se adaptar? O pão teria que ser menor e consequentemente pesar menos para caber no um real. Essa era a matéria, mas os chefes não iriam aceitar. Adotamos o expediente de "por o bode na sala". Fechamos a matéria como achávamos que tinha que ser e mandamos pouco antes do jornal ir ao ar. O editor-chefe ficou furioso e só exibiu a reportagem porque era o assunto do dia, não teria como derrubar. Depois, por um capricho, passou o resto da semana recontando a história a partir da zona Sul do Rio de Janeiro em que só se viam as vantagens de se comprar o pão pelo peso. Vantagens sem dúvida, indiscutíveis. Só que nem sempre a realidade segue a cabeça do chefe. Não é para isso é que existe o repórter? Ou existia, nem eu sei mais...

5 doladodecá:
Os repórteres que sobraram estão nos blogs e na imprensa alternativa.
Na grande mídia, com raras exceções, tornaram-se vendedores de produtos, seviços, opiniões e ilusões.
Não há diferença entre um repórter do SPTV 2ª edição(descarado panfleto publicitário do Serra) e um garoto propaganda da Polishop.
Por que você não divide seus textos em parágrafos?
Eles facilitam a leitura, ainda mais na tela do computador.
Marco, veja que interessante esse post colocado pelo Nassif hoje em seu blog:
A BALA DE PRATA DAS ELEIÇÕES
A bala de prata da velha mídia, para ser disparada na reta final da campanha, será o episódio de Santo André, o assassinato do prefeito Celso Daniel.
O fato de, oito anos depois, o crime não ter sido elucidado, várias questões não esclarecidas – c0mo a fuga do criminoso do presídio, sua participação no crime e seu assassinato pouco depois -, o inquérito interminável, tudo isso contribuirá para criar um clima pesado de conspiração. Pouco importa que a responsabilidade pelas investigações seja do Ministério Público estadual e da Polícia Civil, de um estado governado pela oposição.
Se se quiser prevenir explorações políticas, o melhor a fazer é apertar as investigações agora, para que o inquérito chegue ao fim e o MP faça a denúncia.
A estratégia dos inquéritos intermináveis se presta a qualquer tipo de exploração – como demonstra o interminável promotor Blat.
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/21/a-bala-de-prata-das-eleicoes/
Na padaria perto de casa compram-se pãezinhos assim mesmo, pelo preço. Com opção de dez pãezinhos mini a um real ou dez pães comum (50 gs) a dois reais. Os dez pãezinhos mini cabem direitinho no nosso desjejum, porque o cafezinho da tarde são outros pãezinhos fresquinhos e saborosamente no preço justo. Mas as organizações ainda não sabem disso – melhor assim.
Até para o pessoal que mora na zona sul do Rio como eu, não gostou na época desta pesagem do pãozinho francês e continuo não gostando, o porquê foi muito bem explicado por vc. Eu levava um real e já sabia a quantidade de pães que levaria para casa, agora...
Beto RJ
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