31 dezembro 2009

Chove, mas como chove...

Agora que a chuva passou e entramos na estiagem vai parecer um assunto extemporâneo (Maio). Mas talvez seja esta a hora certa para por em prática um amplo projeto de importância econômica e social. Outro dia conversava com a minha mulher sobre estratégias de combate às enchentes em São Paulo. Ela lembrou-se de um estudo de engenheiros da Universidade de São Paulo, anos atrás, que concluia que, se cada paulistano tivesse no quintal de casa um metro quadrado de grama para drenar parte da água da chuva, o problema de impermeabilização do solo seria minimizado e boa parte das enchentes na cidade desapareciara. Pode até parecer um mito mas, a considerar que exista na capital meio milhão de casas, estamos falando de meio milhão de metros quadrados. Não é pouca coisa. Equivale à terça parte do Parque do Ibirapuera, no coração da zona sul da cidade. Tentei pesquisar na web para ver se o estudo existe, mas não o encontrei. O fato é que, em vez de construir os famosos piscinões, que demandam tempo, concreto, superfaturamento e, consequentemente, muito dinheiro público, a prefeitura poderia incentivar a população a aumentar a área de drenagem dos terrenos onde estão suas casas. Como? Um caminho poderia ser dar desconto no IPTU. Outra possibilidade? Criar um cadastro de imóveis nas Administrações Regionais. Elas fariam o serviço obedecendo critérios de risco. Afinal, para que servem mesmo os tais mapas que a Defesa Civil faz e apresenta todos os anos? Outra opção ainda? Fazer campanhas educativas e incentivar mutirões. Afora isso, a prefeitura tinha que ter um programa permanente de arborização da cidade, em convênio com organizações não-governamentais e a iniciativa privada. Idéias não faltam e boa parte delas são simples e já foram adotadas em outras metrópoles. O que falta é vontade política. Verão tem todo ano e tempestades também. As enchentes não precisam se repetir.
(Relevantes 2009)

30 dezembro 2009

A 'mariposa'

Para quem mora no interior pode até parecer natural, mas na região central de uma cidade como São Paulo é de chamar a atenção. Caminhava hoje (Maio) por um corredor da empresa quando me deparei com uma mariposa. Logo me lembrei do meu filho Pedro. Assim que nos mudamos para Vinhedo, em dezembro de 2000, com quatro aninhos, ele ficou encantado com a "biodiversidade" do jardim da casa nova. Sapos, lagartixas, borboletas, aranhas, abelhas, formigas, morcegos, um sem-número de bichos. Tinha até lagarto dos grandes que nos visitava, de vez em quando. Uma das primeiras curiosidades que Pedro teve foi saber qual era a diferença entre borboleta e mariposa. Expliquei que a primeira tinha hábitos diurnos e a segunda, noturnos. A borboleta parava com as asas fechadas e a mariposa com elas abertas. Depois descobri que a borboleta tem antenas finas e arredondadas na extremidade. As mariposas têm antenas largas. Numa breve pesquisa pela internet descobri também que há pelo menos um tipo de marioposa diurna, a mariposa-cigana, considerada uma séria praga para muitas espécies de árvores e arbutos. Há quem a relacione com a força destruidora de uma paixão, já que ela voa ao redor do fogo até morrer queimada. Também pode significar sorte, enquanto estiver na varanda de casa, onde normalmente fica. E, por fim, me lembrei dos versos do paulistano símbolo da cidade, Adoniran Barbosa: "As mariposa quando chega o frio... Fica dando vorta em vorta da lâmpida pra si isquentá... Elas roda, roda, roda, roda, roda. E dispois se senta em cima do prato da lâmpida pra descansá..."
(Relevantes 2009)

29 dezembro 2009

A honestidade

Tenho pensado muito sobre a questão da honestidade. E ousaria dizer que há gradações. Existem os muito honestos. São aqueles que não admitem sequer um pacto de silêncio em torno de questões que considera como desvios de conduta. São capazes de fazer escândalos em público para demonstrar sua intransigência. Acho que meu pai se inclui entre estes. Ele tem tanto compromisso com a honestidade que, ao menor sinal de desvio, reage como um leão feroz. Também existem os que são simplesmente honestos. Cumprem suas obrigações e toleram situações e pessoas que - por mais que possam estar erradas - ainda assim gozam do benefício da dúvida. Afinal de contas, indivíduos são capazes de cometer um ato ilícito "culposo" (por imprudência, imperícia ou negligência). Acho que me incluo nessa faixa. Ainda há os quase honestos. São aqueles que aparentemente fazem tudo direitinho, mas que na intimidade revelam alguns "truques", ou para escapar do fisco, ou para levar uma pequena vantagem pessoal, ou para tirar proveito de uma situação em que a omissão da lei ou da fiscalização, ou mesmo ainda a oportunidade, lhe convém. Acho até que já fiz parte dessa faixa e às vezes sou tentado a voltar a fazer, mas me policio. É como se fosse uma tentação. Essa classe pode ser considerada a da maioria da humanidade. Existem também aqueles que podemos chamar de pouco honestos. São os "espertos", que estão sempre cantando uma vantagem, em prejuízo de um, ou pior, de muitos. Gostam de contar "causos", frequentar locais com gente "especial", de ser vistos entre as celebridades, de gozar de privilégios em agências bancárias, em restaurantes, em locais públicos e gostam - como ninguém - de ostentar uma condição em que pareçam ser mais importantes do que outros. É o segundo grupo mais numeroso. Aqui ficam, infelizmente, a maioria dos políticos. Por uma questão de perfil. A política é um caminho para o poder, para alguns trocados e para a visibilidade e o privilégio. Ainda tem a classe dos desonestos. Esses não precisamos perder tempo com eles, não acham?
(Relevantes 2009)

28 dezembro 2009

A Renúncia que não houve


Vinhedo, 31 de julho de 2009.
Exmo.
Sr. Presidente do Senado da República Federativa do Brasil
José Sarney de Araújo Costa

Vimos por meio desta, o povo brasileiro e eu, aconselhá-lo a deixar o poder. Lemos hoje seu artigo na Folha de S. Paulo e entendemos que a disputa política é cruel. Mas entendemos também que vossa excelência, hoje no papel de vítima, já teve seu momento de algoz.
O que talvez os políticos, em geral, e vossa excelência, em particular, ainda não tenham percebido é que o país está mudando. Já não há mais espaço para a política feita à base do compadrio, do tráfico de influências, da contratação de cabos eleitorais e da compra de votos.
Os eleitores hoje têm mais acesso à informação, de fontes diversificadas, e escolheram mudar. Ainda vai levar um tempo, todos sabemos, mas exigimos de vossa excelência o exemplo.
Renuncie ao cargo, se desfaça de todo patrimônio que acumulou, apropriando-se da coisa pública como se fosse privada. Nós sabemos que a culpa não é só de vossa excelência, é uma questão cultural, sempre foi assim. Mas não queremos que seja mais. Estamos decididos.
Devolva ao estado o prédio da Fundação Sarney. Renomeie as ruas, avenidas e viadutos do seu querido Maranhão com nomes de figuras importantes, outros imortais da Academia, como vossa excelência ou, até mesmo, políticos importantes da história do nosso país.
E, de quebra, doe seu monumental acervo de arte sacra para as igrejas e os museus de Minas Gerais, que assim poderão recontar parte importante da história que está se perdendo, por falta de obras que vossa excelência guarda apenas para os apreciadores mais íntimos.
Estamos certos de que a sociedade saberá pagar um tributo à altura de sua grandeza. E, no futuro, os verdadeiros amigos (que são muito poucos) e principalmente sua família, entenderão que tudo o que vossa excelência fez foi se colocar acima dos interesses pessoais e patrimonialistas, em benefício do seu povo.
Caso vossa excelência não saiba, o Amapá, estado que lhe concedeu os votos para ocupar a cadeira no Senado, é o estado menos povoado do país. Lá ainda há recusos naturais abundantes e certamente o acolherá, como um filho, para que possa se dedicar integralmente à arte da escrita, que convenhamos, vossa excelência exerce como poucos.

Com a sinceridade de seus,
Brasileiros e Brasileiras
por Marco Aurélio Mello.

(Relevantes 2009)

27 dezembro 2009

Jornalismo Investigativo Terceirizado

Um novo formato de reportagem acaba de nascer. Fruto da crise econômica mundial, que atingiu em cheio a maneira de pensar e fazer imprensa, principalmente nos Estados Unidos. É a reportagem investigativa terceirizada. Funciona assim: o sujeito chega, oferece a investigação e você compra, ou não. A agência de notícias Associated Press, que distribui conteúdo para o mundo todo, informou que vai levar aos seus mil e quinhentos clientes, a partir de agora (junho/2009), reportagens investigativas feitas por quatro grupos que já produzem este tipo de material sem fins lucrativos. Espera assim preencher uma lacuna criada nas redações, que desistiram que manter um profissional geralmente caro, porque passa um tempo muito grande se dedicando a um único tema. Estes novos parceiros terceirizados são mantidos por fundações, normalmente financiadas por homens ricos e entendiados com tanto dinheiro (o famoso terceiro setor). Aqui, o que está em jogo, na minha opinião, é a independência. Digamos que uma fundação de amparo a ex-dependentes químicos "patrocine" uma reportagem investigativa sobre narcotráfico. É bem razoável, podemos supor. Minha dúvida é se a reportagem investigativa privilegiará algumas informações que ajudem a contextualizar a questão do narcotráfico, como por exemplo, a pobreza dos paises produtores e a riqueza dos países consumidores. Sem contar os interesses de quem, por um lado, financia e, por outro, combate. É uma discussão e tanto... Se considerarmos que hoje já não é assim, pode até ser que pior não fique. Até melhore. Jornalismo Investigativo sempre me causou desconforto. Acho que é uma maneira de fazer justiça precipitadamente e, quase sempre, para atender a interesses que a fonte raramente confessa, por ser parte envolvida. É o que apelidei de Jornalismo Justiceiro, quando estava nas organizações.
(Relevantes 2009)

26 dezembro 2009

A Ditabranda

Na foto, Torquato, Nana Caymmi e Gilberto Gil

A minha modesta contribuição ao debate sobre a "ditabranda"da Folha de São Paulo vem de reminiscências. No início dos anos setenta, meu pai ficou deprimido. A sócia dele no escritório de advocacia desapareceu da noite para o dia. Era muito novo, uma criança, mas aquela conversa cifrada entre meu pai e minha mãe na cozinha despertou a minha curiosidade. Havia a suspeita de que a sócia fosse uma "subversiva", que tinha deixado o país e, consequentemente, o escritório. Preciso até perguntar para o velho, mas a impressão que tenho é que ele ficou preocupado com o nosso futuro. Eles tinham acabado de realizar o sonho da casa própria no auge do milagre brasileiro. Só que a prestação custava exatamente o que meu pai tinha de salário fixo, como orientador educacional do Sesi. Minha mãe não trabalhava, porque tinha a dura tarefa de criar quatro filhos. Todas as demais despesas da família vinham do escritório de advocacia, mas a sócia havia desaparecido. Ninguém foi preso, torturado, mas sofremos com os reflexos indiretos da ditadura. Alguém tem dúvidas se deixou marcas na nossa família? A irmã mais velha do meu pai, por exemplo, era professora de história numa pequena cidade do interior. Uma pessoa com todas as credenciais e livros na estante para desaparecer a qualquer momento. E, assim, passamos aqueles anos de chumbo, com o medo estampado no olhar das pessoas. Um regime de exceção é mais do que contar o número de prisos e mortos, é um estado de espírito, uma sombra, um fantasma... Acho que é isso que a turma da Folha de São Paulo não sentiu. Afinal, como a história demonstra, no papel de colaboradora não tinha porque sentir mesmo, não é? (Relevantes 2009)

23 dezembro 2009

Streap tease

Era um encontro literário em Key West, na Flórida, no início dos anos noventa
( http://www.kwls.org/lit/ ). A encandora ilha, morada de Tennessee Williams e refúgio de Ernest Hemingway, apareceu por acaso na minha vida. Estava em Madison, Wisconsin, do outro lado do país, quando fui convidado por Jeff (nome fictício). A namorada dele, que antes tinha sido minha, desistiu de ir, na última hora, depois de uma briga daquelas entre os dois. Viajaríamos de carro, revezando o volante, durante 24 horas seguidas, para poder chegar a tempo. Jeff tinha um Mazda MX3 vermelho. Recebeu de presente, quando entrou na Universidade. O pai era um bem sucedido advogado criminalista na Flórida. Seus maiores clientes? Traficantes de cocaína. A droga vinha de barco da América do sul, via canal do Panamá, até chegar ao golfo do México. Foi o que ele me contou. Não sei se era verdade, nem tinha como saber... Fiquei passeando, enquanto o colega, que sempre sonhou ser escritor, assistia ao seminário. Na volta, paramos em Miami, onde ficamos dois dias, com direito a jantar de aniversário da avó. Acho que todo mundo ficou pensando que éramos um casal gay... Foi em Miami que descobri que o fetiche dele era levar bastante dinheiro em casas de streap tease de beira de estrada - lá havia muitas - e pagar para ver mulheres negras e latinas rebolando na "cara" dele. Conforme iam se despindo, o jovem ia colocando dólares na liga ou na calcinha das meninas e fazendo considerações sobre as imperfeições dos corpos quase nus. Quanto mais defeitos encontrava, mais excitado ficava e mais dinheiro distribuía. Com 20 e poucos anos achava aquilo tudo divertido mas, ao mesmo tempo, bizarro. Ele parecia um personagem saído de um filme de David Lynch. Por que estou contando tudo isso? Porque pensei em fazer uma analogia entre o blog e o streap tease. Já estou na estrada virtual desde 2006. De lá para cá, a frequência de postagens cresceu e meu entusiasmo e número de visitantes também. Mas, quanto mais fui me mostrando, mais minhas imperfeições foram aparecendo. No balanço geral, acho que agradei, mais do que frustrei. Com a chegada das festas de fim de ano, sinto que é hora de fazer uma pausa. Devo estar de volta no dia 04 de janeiro. Nesse perídodo, virá uma série de posts relevantes de 2009. Até lá, aproveitem para fazer comentários, críticas e provocações. Foi um prazer e uma enorme surpresa descobrir que há tanta gente interessada nas minhas histórias. Obrigado a todos e boas festas!

O dia em que a boneca voou de helicóptero

A família estava a caminho da ilha, em Angra, para as festas de fim de ano, como era rotina, todos os anos. De helicóptero é uma viagem rápida, que não chega a uma hora, incluindo embarque e desembarque. Ao chegarem ao destino, a menina olha para o pai e diz:
- Papai, minha boneca ficou no Rio. E o pai responde:
- Não tem problema filha. A gente vai a uma loja, aqui na cidade, e compra outra igualzinha para você.
- Não quero.
- Como assim?
- Não quero uma igualzinha, quero a minha!
- Mas filhinha...
- Eu não quero igualzinha, quero a minha boneca! E abriu o berreiro.
Aqui vale uma ressalva. Na idade em que a menina estava, as coisas eram bastante concretas. Portanto, nada substituiria a sua bonequinha, nem se fosse outra, idêntica.
O pai, primeiro, pensou na hora de vôo, R$ 700,00, e, depois, no custo de fazer um motorista sair da mansão na zona sul para levar o brinquedo até o heliponto. Aí refletiu sobre o Natal. Veio à mente a figura do bom velhinho (hohoho), o congraçamento, a alegria, a festa e a confraternização... E sentenciou:
- Ok, vamos mandar o helicóptero de volta para buscar sua bonequinha. Passou a mão no celular, ligou para o Rio e começou a planejar a operação. Nisso, a filha puxou-o pela calça e disse:
- Papai, eu quero ir junto no helicóptero!
Ah... E depois somos nós, da classe média, que mimamos demais as crianças, hohoho.

É disso que o povo gosta

Da série ficção, a preferida dos internautas.
- Alô, ministra?
- Sim.
- Que bom que a senhora me atendeu. Sei que sua agenda é apertadíssima. Só insisti porque acho que o tenho para contar pode ser interessante.
- Diga!
- A senhora viu a capa da Folha de S. Paulo de ontem?
- Claro.
- Ao contrário do que muita gente interpretou no governo, a composição ficou ótima. O choro, o cabelo à Elis Regina, o título de seis colunas, com o anúncio do novo salário mínimo. Ficou tudo ótimo!
- Você achou mesmo?
- Claro!
- Mas aquela cara de choro...
- Quando trabalhava nas organizações, tinha uma colega que dizia que chorar é coisa de "mulherzinha". E é isso mesmo que o povo quer ver. Uma mulher que sofre e chora, como tantas brasileiras.
- Não tinha pensado nisso...
- E se me permite, ministra, gostaria de dizer que, se quiser manter o cabelo bem curtinho como está até o fim do ano que vem, vai facilitar muito sua vida. É mais prático durante a campanha. Além do que, suaviza o conjunto. O antigo topete deixava seu semblante muito rigoroso e antipático. Acho até que o seu cabeleireiro podia usar uma tintura um tom mais clara e fazer o mesmo com a sobrancelha.
- Poxa, você entende mesmo do negócio, heim? Hehehe...
- Fui criado entre quatro mulheres, ministra... A senhora tem tempo de ouvir apenas mais uma consideração?
- Claro, fale.
- Acho que a Folha começou uma guinada de volta ao centro do espectro político. E a capa de ontem é um sinal.
- Você acha mesmo?
- Acho. Eles estão apavorados com a quantidade de assinantes que perderam, de um ano para cá. O fato é que o leitor jovem que a Folha conquistou, no início dos anos 80, é o assinante de hoje. Boa parte desse público, mesmo ressentido e amargurado com os rumos da política brasileira, ainda vota com o seu partido. É um contingente que eles não podem desprezar. E tem mais, assim como seu cabelo cresce, sua candidatura também. Portanto, é a hora deles "botarem um pé em cada canoa".
- Obrigado pelas suas considerações.
- Só uma pergunta, a senhora permite que eu publique esse nosso dialogo no blog?
- Sim, desde que você faça aquilo que sempre faz.
- O quê, ministra?
- Se perguntarem se conversamos, negue.
- Ok, farei isso. Obrigado.
(Sei que o Rodrigo Vianna, o Luiz Carlos Azenha, o Eduardo Guimarães, o Cloaca e, principalmente, o Prudente vão ficar chateados comigo, mas tenho que admitir: passo os olhos na Folha todos os dias. Primeiro, por dever de ofício. Segundo, porque minha mulher, a Alexandra (do cochi-xan-do, cujo atalho está aí do lado) é assinante há muitos e muitos anos... Ainda vou convencê-la a cancelar a assinatura, prometo!)

21 dezembro 2009

Caixinha de Natal

O cara já foi importante no governo, mas caiu em desgraça, depois de um dos tantos escândalos que vemos por aí. Desgraça... mas nem tanto. No poder, enricou. Depois que deixou o cargo, virou "consultor". Já viajou para vários países e conhece, como poucos, a burocracia das estatais e dos fundos de pensão. Dizem até que é lobista de importantes grupos econômicos estrangeiros. Eu não sei de nada. Só falo sobre o que vejo. E não é que, basta estar atento, para a notícia vir até você? Hoje, enquanto abastecia o carro, o motorista dele parou num carro oficial. Já estranhei. Carro oficial, como? Se ele não está mais no poder? Pensei comigo: -Deve ser de alguém que veio visitá-lo e o motorista gentilmente se prontificou a abastecer. Ainda assim, por que o motorista "oficial" não estava junto? E depois tem outra, estamos bem longe de Brasília. O sujeito já desceu com aquela pose. Parecia até o patrão. Mas o sapato tipo 'vulcabras' entregava. Cumprimentou os frentistas com um aceno e foi direto ao encarregado do posto. Sacou duzentas pratas, em dinheiro, estalando de novas, e disse: - O chefe mandou eu dar para a caixinha de Natal dos funcionarios. Só para contar mais vantagem, o sujeito ainda exibiu um envelope pardo e disse que a ordem do patrão era presentear "os prestadores de serviço da cidade". Depois, o próprio encarregado, orgulhoso do cliente contou: - Vai para a quitanda, farmácia, todo mundo que abastece a mansão, distante dali alguns quilômetros. Se a regra é essa e todo mundo aceita tão bem, porque insistir tanto em ser honesto e educar os filhos com rigor? Vou fazer igual a Cristiana, vou reunir os meninos na sala e dizer: - A partir de hoje, não pago escola para mais ninguém! Se vira macacada! Como costuma exclamar o meu bebê: - Ai, ai, viu!

Salve Paulo

O livro já estava na quinta edição, quando ganhei um exemplar, 21 anos atrás. Li num fôlego só. Apesar de reimpresso, ainda trazia algumas incorreções, mas nunca me importei muito com isso, afinal, o que vale mais é a simplicidade da narrativa e a maneira envolvente como o autor nos põem de frente a um espelho, em que nos encontramos refletidos, em nossa permanente busca pelo autoconhecimento. A crítica descia o pau. Chamavam-no de tudo, de impostor a iletrado. Mas o fenômeno de vendas do diário só aumentava. O segundo título foi explosivo. Hoje, já são mais de 19 diferentes historias, todas simples e arrebatadoras. O segredo do mago? Ele é popular. Sucesso absoluto por onde passa, uma espécie de Luiz Ignácio Lula da Silva, Paulo Coelho já vendeu, até hoje, mais de 100 milhões de exemplares. O Alquimista é um dos mais importantes fenômenos literários do século XX. Ocupou o topo da lista de mais vendidos em 74 países, com 35 milhões de unidades, traduzidas em 67 idiomas, para 150 paises. Ao todo, o autor tem 29 prêmios e condecorações. Muitos dos que o criticavam, hoje se calaram. Um silêncio hipócrita, despeitado e arrependido, que custa caro a quem o pratica. E o que é pior, todos sabem quem são, porque ao criticar, o papel guardou seus nomes, um a um. Apesar de estar hospedado no portal da Corte do Cosme Velho, que também teve que engolí-lo, Paulo Coelho apoia ativamente a distribuição on-line gratuita de sua obra, o que já lhe rendeu o titulo de “autor mais googlesco”, segundo o jornalista americano Jeff Jarvis, do Guardian, UK. Os internautas devem estar perguntando: - Por que Paulo Coelho? Ele é um exemplo de vontade e determinação para superar obstáculos. De patinho feio tornou-se nosso mais renomado autor, livre para fazer o que bem entende. A isso damos o nome da autonomia. São pessoas assim que reverencio. Estão muito além do mundo dos pequenos príncipes maquiavélicos das letras. Salve Paulo!

20 dezembro 2009

Olhar ao redor

Muita gente me pergunta como consigo trabalhar em São Paulo e morar em Vinhedo. A reposta é bastante abrangente. Mas um dos aspectos mais fascinantes são meus vizinhos. Não os convencionais, alguns bastante queridos, mas principalmente os ilustres desconhecidos. São mais fáceis de notar logo cedo e no fim da tarde. Agora no verão, por exemplo, as maritacas gritam para lá e para cá. Durante todo o ano ouve-se pombas, de três tipos diferentes: a pequenininha, chamada fogo apagou. A de tamanho médio, que é a ‘juriti’ e a grandona, aquela que está sempre nas praças, no mundo inteiro, mas que muita gente hostiliza, temendo adoentar. Os pardais são clássicos, esses nem precisa falar. Tico-tico é aquele que saltita e tem uma crista na cabeça. Se o penacho for grande e vermelho, é de outro tipo, super difícil de achar: o tico-tico rei. As andorinhas estão de volta. Vieram de longe, fugindo do frio do hemisfério Norte. De vez em quando, a gente vê também outra ave que gosta de voar longas distâncias: a tesourinha. Com ela é preciso cuidado, porque perto do ninho ela não deixa a gente se aproximar. No começo do ano tinha uma aninhada no limoeiro, bem na entrada do condomínio. Furiosa, partia em vôo rasante, sempre que alguém pensava em se aventurar. Outro que é fácil por aqui é o joão de barro, que grita o dia inteiro. Faz casinha na goiabeira, no flamboyant, no poste de luz, em todo lugar... Um cada vez mais difícil de ouvir é o sabiá. Mas quem já andou no bosque, do lado do campinho, sabe que por lá tem um enorme, de peito alaranjado. Anu branco anda em bando e os nativos chamam, erroneamente, de carcará. Curruíras são aqueles bem pequenininhos, redondinhos, com bico fininho, que pulam para lá e para cá. É um dos cantos mais bonitos deste lugar. Também tem beija-flor e onde tem beija-flor tem sebinho, ou cambacica, um de peito amarelinho e bico torto que, assim como o colibri, adora beijar. De vez em quando há um alvoroço daqueles. É porque tem gavião a pairar. É quando quero-queros e bem-te-vis põem-se a berrar. E tem outro, que basta cortar a grama, em pouco tempo vem logo espiar: é o pica-pau. Aqui somos privilegiados, temos dos dois tipos: o amarelo e o vermelho. Só que este último é bem mais raro chegar. Outros que adoram ‘pastar’ são os tisius, chupins e pássaros pretos. Todo mundo faz uma confusão danada com esses três, todos lindos, de plumagem preta e brilhante. É fácil: um é pequeno, outro médio e o último, o maior. O que ora é verde, ora azul e adora frutas é o sanhaço. Terreno vazio é "prato cheio" para a coruja buraqueira, espécie que, se a gente não tomar cuidado, pode em breve se acabar. Um que canta bonito, mas que também está cada vez mais difícil de encontrar é o canário da terra. Mas quando aparece, ressabiado e arisco, é um prêmio, uma alegria de se admirar. Antes que a noite chega passam voando garças, marrecos e paturis. Há outros bichos, sobre os quais, se gostaram, qualquer hora dessas posso falar. Quem leva a vida num lugar assim, pergunto, como pode reclamar?

18 dezembro 2009

O Jardim dos Infiéis

Da série ficção, a preferida dos internautas. Era uma reportagem que mostrava a morte de uma mulher por uso de um medicamento considerado, no mínimo, polêmico. A venda estava proibida nos Estados Unidos, por exemplo, mas aqui o ministério da Saúde - do governo anterior - fazia vistas grossas, quanto à gravidade do caso. Estava na ilha de edição assistindo ao material gravado, desde cedo, por uma repórter bastante experiente, que voltou da rua convicta de que a causa fora o tal remédio. Havia depoimentos, laudo do IML, entrevista com a médica socorrista, com a farmácia que vendeu e com a distribuidora, sobre a validade do lote. Era um sábado e o que aconteceu me fez crer que "esses caras são mesmo poderosos". Não tinha terminado de assistir ao material, quando o telefone tocou dentro da ilha (o que por si só já é curioso). Ao atender à ligação externa a interlocutora me chamou pelo primeiro nome (o que é estarrecedor). E me perguntou se era eu o editor da tal matéria. Disse que sim e ela se apresentou como assessora de imprensa da indústria farmacêutica que fabricava o medicamento (num sábado, uma assessora de imprensa?). Disse a ela que o procedimento padrão era eu avaliar a importância jornalística do fato e dizer para os chefes, no Rio, se valia ou não matéria e que, caso isso se confirmasse, recorreríamos à Associação Brasileira do setor, que costumava nos informar se o assunto merecia uma nota de esclarecimento pelo laboratório, ou uma entrevista gravada. Ela me perguntou quem era a pessoa responsável pelo departamento de jornalismo durante o plantão. Informei a ela o nome e passei o ramal. Menos de uma hora depois a chefe de redação entra na ilha e diz: - A matéria caiu. Sinal de que algo mais forte se movimentava, entre o interesse público e o privado, naquele tipo de notícia. Não precisamos nem ir muito longe. O principal telejornal da emissora detesta falar de remédio, a não ser que seja uma "droga revolucionária". A indústria química e farmacêutica, depois da petrolífera, de automóveis e de bebidas, está entre as mais influentes no mundo. Gastam milhões e milhões com publicidade, amostras grátis e jabás para médicos e cientistas. Quem assistiu aO Jardineiro Fiel sabe bem do que estamos falando. Mas se alguém me perguntar se esse tipo de pressão pela não exibição de uma reportagem de interesse público acontece na maior, mais importante e, por enquanto, mais influente emissora de televisão do país, eu nego.

17 dezembro 2009

A repórter iniciante

A repórter em início de carreira chegava à redação pontualmente às cinco da tarde. O horário era bem ingrato, até à meia-noite. Quase todos os dias, a tarefa era fazer uma reportagem sobre alguma ocorrência policial e deixar texto pronto e gravado na fita, para o editor que chegava de manhã avaliar. A lógica era perversa. Ela chegava na delegacia, ouvia a mãe (para as mães os filhos sempre são inocentes) e entrava para fazer imagens do "meliante" e entrevista com o delegado. A excelência era um sujeito vaidoso, que adorava falar para a televisão (claro, a relevância se transforma em promoções dentro da polícia). Depois, a repórter seguia para o local do crime, gravava uma passagem (participação do repórter) e ouvia alguns moradores (caso quisessem falar sobre o assunto). Numa das vezes fui junto, porque precisava gravar uma entrevista, para a reportagem que estava editando, e só tinha como fazê-la se usasse o tempo de sobra daquela equipe. Assim que a luz se apagou, o delegado sorriu satisfeito. Percebemos, tanto eu, quanto ela, que a história era fantasiosa. Ele queria apenas aparecer e estava nos usando para isso. Disse qual era a minha avaliação e ela me contou que era obrigada pelo chefe de reportagem a fazer, independentemente da história existir ou não. Cabia ao editor da manhã avaliar. Ela se sentia duplamente frustrada. Primeiro, porque sabia que a história era ruim, mas tinha que fazê-la. Segundo, porque o editor, no dia seguinte, quase sempre derrubava a matéria e certamente pensava: será que a incompetente da repórter não percebeu que a história não valia? Naquela noite rompi com o protocolo. Cheguei à redação e escrevi uma correspondência ao chefe de reportagem e ao editor-chefe da manhã, com cópia para a direção, fazendo um relato do que aconteceu e dizendo que, por tudo, ela não escreveria texto naquela noite e não o gravaria. Foi uma ciumeira danada. O chefe de reportagem e o editor-chefe do telejornal do dia seguinte se sentiram ultrajados. O delegado ligou dizendo que tinha aberto espaço na agenda para receber a equipe e, depois disso, decidiu nos dar uma "gelada". E uma parte da redação ficou "meio bicuda" comigo, porque achou que eu estava querendo aparecer, perante a direção. Pedi desculpas. Minha intenção não era magoar os colegas, mas apontar um problema na rotina de produção do nosso noticiário. Isso já faz mais de 15 anos. Naquele momento, eu começei a perceber que, nem sempre o jornalismo estava a serviço do interesse público mas, muitas vezes, da estrutura burocrática da redação. Claro que a repórter, cujo o nome sequer consigo lembrar, infelizmente, foi demitida meses depois. Mas minha maior surpresa estava por vir. Anos depois, o tal delegado, que tinha virado seccional, foi afastado do cargo, acusado de encabeçar uma quadrilha de roubo de cargas, na Rodovia Anhanguera, no interior. Não tive dúvidas, anexei a notícia a uma mensagem eletrônica e enviei aos mesmos colegas daquela época, quase oito anos depois, com cópia à direção. A mãe do "doutor", pobrezinha, certamente morreu achando que o filho era inocente. E as nossas certamente pensaram ou pensarão o mesmo de nós.

16 dezembro 2009

Pausa para Reflexão

De vez em quando recebo algumas "provocações" de internautas que gostariam que eu fizesse críticas ao meu atual empregador, a TV Record. Vou explicar porque não o faço, mas antes preciso contextualizar, uma vez que sei que, muitos atuais visitantes perderam esse esclarecimento, feito lá atrás, numa outra postagem. Trabalhei 12 anos nas organizações (de 1995 a 2007). Portanto, quase todas as histórias que sei se passaram naquele local de trabalho, com aqueles personagens e não no atual, onde estou há pouco mais de dois anos, aliás, ao lado de muitos oriundos de lá também. Até recentemente, a Corte do Cosme Velho era a única detentora de uma concessão pública (uma não, várias, mais do que a legislação permite, infelizmente, diga-se de passagem...) era a única que produzia conteúdo jornalístico juntando aspectos que considero importantes para "fidelização" do público: padrão, formato e hora certa de exibição. A descontinuidade e interrupção de projetos em andamento sempre foram "marca registrada" da concorrência e é aí que reside grande parte do fracasso dela e do sucesso daquela. Não é apenas questão de qualidade, como apregoa a líder. Não por acaso que, aos poucos, bem mais devagar do que nossa sociedade precisaria, eu acho, aquela emissora está deixando de ser hegemônica e monopolista. A concorrência descobriu que a razão do sucesso é hábito. Hábito de ligar a televisão e encontrar a programação esperada com "as caras" familiares. Esta é a receita. O resto é retórica, simples assim! Se participa ou não da Confecom, se faz ou não lobby, à direita ou à esquerda, faz parte do jogo político, do qual sou um agente também, mas bastante consciente das limitações que possuo, principalmente do ponto de vista econômico. Quando fui dispensado, guardei quarentena, honroso silêncio por dois anos. Não entrei com reclamação trabalhista, nem com outros tipos de ação, apesar de saber que havia amparo legal para tanto. Quem leu O Processo, de Franz Kafka, entende bem minhas razões. Hoje, me considero um consultor informal. Não ganho nada pelas informações que veiculo aqui, a não ser audiência. Muitas histórias precisam ser destacadas do contexto, infelizmente, para que eu não seja alvo de censura, por parte daqueles que sempre que se sentem ameaçados, recorrem à liberdade de expressão, mas sabem bem como silenciar seus opositores. Acho que vale ressaltar que, se continuasse trabalhando naquela corporação, jamais poderia ter um blog como este, com a liberdade que tenho. Outros exemplos não faltam: Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, Paulo Henrique Amorim, nenhum destes poderiam também. Mas sei que o exercício da liberdade numa democracia também exige responsabilidade. Por isso, não faria críticas públicas ao meu atual empregador, mesmo porque, tenho portas abertas e instâncias adequadas para fazê-las lá dentro, se assim o quisesse. Mas podem estar certos de que sei de que lado estou e me faço representar, sempre que possível, mas nas instâncias adequadas, como fiz quando estava na outra empresa. Portanto, recebo uma "provocação" como mais uma oportunidade de refletir sobre o meu trabalho e o meu papel. Obrigado aos visitantes "provocadores". Também preciso de vocês!

15 dezembro 2009

A lousa eletrônica


Era uma reunião de pais, alunos, professores e direção da escola. Entre "as novidades" uma lousa eletrônica, com comandos por touch screen. Os alunos se encantaram, enquanto pais, professores e direção da escola discutiam aspectos mais conceituais, do tipo: facilita ou não a aprendizagem? A lousa eletrônica e todas as ferramentas que a tecnologia nos apresenta, lança um desafio: como incorporar tecnologia de forma a facilitar o nosso cotidiano e, ao mesmo tempo, permitir que sejamos pessoas melhores, num mundo melhor? Mais subliminarmente está um outro desafio: até que ponto podemos controlar o desenvolvimento dos nossos filhos, a partir de experiências sobre as quais não podemos, não queremos, ou pior, sequer sabemos como controlar? Pelo menos uma questão me causa inquietação, desde que participei desse processo, na condição de aluno. Segurar uma criança sentada numa carteira quatro horas, vendo o mundo rabiscado à giz num quadro negro, definitivamente, não é a melhor maneira de motivar ninguém a aprender. A atividade física e a descoberta, através da experiência, são as melhores e mais fáceis maneiras de conhecer o mundo. Por que negar isso? Estamos certos, eu e a minha sócia, Alexandra - http://xan-mello.blogspot.com/ (ela mantém o blog co-xi-xan-do, cujo atalho está aí ao lado), que só vamos mudar tudo isso quando as prioridades forem outras. Estamos falando necessariamente de combater a fome e a desigualdade e universalizar o acesso à saúde e educação. Mas, infelizmente, para os que como nós, estão no topo da pirâmide social, a questão passou a ser se devemos ou não ter uma lousa eletrônica para ensinar nossos filhos. Hey, teacher, leave those kids alone!

14 dezembro 2009

O muro da Confecom

Estávamos gravando um dos "offs" de uma série de reportagens que fizemos sobre jovens. O repórter, um dos mais importantes em atividade na TV brasileira, esperava, enquanto outro colega gravava um texto na mesma cabine. Apenas por curiosidade, o texto que estava sendo gravado falava de Jesus e de suas peregrinações. De bate-pronto o operador virou-se para nosso renomado colega e perguntou: - O que você acha dessa história do estado de Israel? Nosso repórter pensou um instante e disse: - Olha, eu não sou judeu, nem palestino. Portanto, nunca vivi o que eles viveram e talvez nem seja a pessoa mais indicada para falar sobre o assunto, mas vou dar a minha impressão, pelo que tenho visto ao longo dos anos. Vamos supor que a Argentina invadisse territórios no Brasil, expulsasse brasileiros de suas terras, tomasse seus bens, obrigasse nosso povo a viver segregado, como refugiados, às vezes sem terra, sem água potável, sem energia e sem liberdade? Como nós brasileiros reagirámos? E o próprio repórter respondeu: - Imagino que alguns fossem resmungar, enquanto tomavam uma cerveja no bar da esquina, outros resolvessem xingar, outros apedrejassem - como já o fazem por lá - e alguns, mais radicais, resolvessem lutar pela liberdade de seu povo, amarrando uma bomba ao corpo. Claro que, conforme o tempo vai passando, o ódio e o rancor aumentam e o radicalismo, de lado a lado, também. Não sei se respondi à sua pergunta... O operador de áudio pensou e disse: - Concordo com você, mas não é bem isso o que vemos na TV. E nosso repórter, com elegãncia, respondeu: - Não vemos porque quem dá a notícia está do outro lado do muro. Quem sabe esse diálogo, que não guarda correspondência literal, mas preserva essência e significado, não sirva de reflexão, em tempos de Confecom?

13 dezembro 2009

A trupe da ex-repórter se foi

Recebo atualmente cerca de setecentas visitas por dia, em média. Alguns frequentadores eu conheço. Na verdade, bem poucos. Outros, vieram por caminhos diversos, muitos por indicação, e ficaram, suponho que pela acolhida que aqui tiveram. Apenas uma ínfima parte se manifesta nos comentários. E são raríssimos os comentaristas assíduos, dá para contar numa das mãos. Recebo com serenidade críticas e sugestões. Não tenho compromisso em contentar a todos. Nem poderia. O mundo é diverso demais e não sou do tipo adepto a "clubes e confrarias", apesar de buscar o consenso. Portanto, tento ser o que sou e agradar a quem consigo. A série da ex-repórter foi uma ficção, baseada em fatos reais. A personagem principal não reúne todas as características descritas, mas existe na "vida real". O barco do amor navega há anos, singrando rios ao Norte do Brasil, basta procurá-lo. O tipo de aliciamento também é clássico em televisão, Se dá, em geral, por maqueadores, figurinistas e pessoas do "backstage" (aqui não há preconceito e sim, constatação). O mercado de publicidade, com modelos fotográficos que, depois de "saturados", se transformam em "michê" está - e sempre esteve - a pleno vapor. Só não vê quem não quer. Uma busca rápida na internet, por exemplo, permite abrir ao internauta "um mundo de possibilidades". Resumo da ópera: tudo aconteceu, não necessariamente da forma e na ordem como foi narrado na ficção. Mas, só assim, foi possível mostrar a realidade, preservando as fontes e os envolvidos, já que os nomes não importam. Mais uma vez, reitero, o que importa é a lógica, o sentido trágico, cômico, mágico e na maioria das vezes, hilário da vida... São as sutilezas, as coincidências e os recortes que dão forma ao quadro frágil da existência humana. Espero que tenha, na pior das hipóteses, adoçado a vida dos leitores, nem que tenha sido por pelo menos 3 minutos por dia(tempo estimado de leitura dos meus posts). Obrigado. Agora é hora de virar a página.

A ex-repórter 10

A Su vai achar que é mentira, pensou... Não vou precisar transar com o cara, meu Deus!
- Aqui está.
- O que é?
- O único remédio que funciona. O resto é tudo enganação, vai por mim.
- Hum, que água quente!
- Deve ter gelada no frigo, quer que eu pegue?
- Já foi, não precisa.... Hum, estou sem sono.
- Eu também.
- O que vamos fazer?
- Quer esperar o sol nascer lá fora?
- Se minha dor de cabeça passar, eu vou.
- Então fica quietinha aí que vou dar uma volta e mais tarde te chamo.
O efeito do comprimido foi arrebatador. Ela desmaiou e quando despertou, com o sol a pino lá fora, estava ao lado do jovem e galanteador rapaz, que parecia hibernar serenamente. Passou a mão nas sandálias de salto e anotou o seu verdadeiro nome e o número do telefone celular, num bloco sobre o criado mudo. Sem recados, sem beijinhos, sem frescura. Um nome e um número, apenas. Na mesa do café encontrou Su.
- E aí?
- Não posso falar agora, Su.
- Como assim, o que houve?
- Você não vai acreditar. Te conto na viagem, pode ser?
- Pode.
Aos poucos as outras meninas foram se acomodando ao redor. Antes do almoço as lanchas começaram a partir discretamente. A ordem do "mordomo" era para segregá-los. Não haveria encontro com os convidados no dia seguinte. E assim foi feito. No vôo de volta, ela contou tudo a Su que suspirou e disse:
- Você tem muita sorte, mulher!
A primeira coisa que fez ao chegar foi procurar um caixa eletrônico para depositar o cachê. Depois, comprou flores e uma caixa de bombons, para entregar na casa de Su. O celular estava sem bateria, mas mesmo que tivesse carga, não havia qualquer ilusão. Agora era correr atrás de trabalho digno e tentar equilibrar o jogo no campo das finanças. No dia seguinte, ligou na agência de promoções e descobriu que estava escalada para uma feira no Parque Anhembi. Parecia que as coisas voltavam a engrenar. Nas semanas seguintes, é claro lembrava dele às vezes, mas como uma benção. E um sentimento de profunda gratidão.
Até que um dia... o telefone celular tocou. (não continua)

12 dezembro 2009

A ex-repórter 9

- Eu não sou uma garota de programa!
- Como assim?
- Eu só vim parar aqui por desespero. Eu sou modelo desde os 14 anos e fui repórter de televisão, assim que me formei. Estou desempregada, cheia de dívidas e... (chora)
- Repórter de televisão? De qual emissora?
- Aquela emissora suja, que prometi nunca mais falar o nome, nem assistir, por desgosto. (A garota também cancelou a assinatura dA Folha de São Paulo, hehehe, como antecipou o Prudente, no primeiro post)
- Pois quer saber de uma que você não vai acreditar?
- Diga.
- Meu pai é dono de uma emissora de televisão!
- Não brinca? (suspiros...)
- Entendeu agora porque tem um monte de vagabunda no meu pé?
- Então não é só a grana...
- Claro que não, é a vitrine. Por isso estou de saco cheio. Prefiro pagar para ter sexo, entendeu? Pode parecer legal para quem vê de fora, mas vida de herdeiro é um porre! Até os 12 anos eu nunca botei o pé no chão.
- Nem na areia da praia?
- Nem na areia da praia.
- Quando eu tinha 14 anos meu avô me levou a uma casa de massagem para me iniciar sexualmente. Foi um trauma. A mulher parecia minha mãe, me dando ordens. Na minha família todo mundo só pensa em dinheiro e fica brigando o tempo inteiro. Não sabem conversar civilizadamente...
- E por isso você decidiu "curtir" a vida?
- Sou um playboy. Eu posso tudo. Nunca tive limites e nunca tive atenção, nem carinho dos meus pais. Aliás, tenho mais apego pela minha babá do que pela minha mãe.
- Ok, mas como estou aqui e aceitei as condições, tenho que fazer o serviço, não é isso?
- Não. Você não precisa transar comigo, se não quiser.
- Juuuuuuuuura? Nunca ouvi um homem dizer isso para mim na hora "h".
- Ninguém precisa saber o que houve aqui dentro. Mas... com uma condição.
- Qual?
- Você vai me dar o número do seu telefone para a gente sair qualquer hora para conversar.
- Não posso.
- Como não pode?
- É que a pessoa que me contratou fez eu prometer que guardaria discrição e sigilo absolutos, o que incluía não dar o número do meu telefone.
- Mas não é uma situação comum. Você está onde não gostaria de estar, certo? Eu estou com quem não me conhecia, não sabia quem eu era, mas está a meu serviço, certo? Acho que podemos ter outro tipo de relacionacionamento... Gostei de você, da sua sinceridade, sei lá...
- Como, depois de tudo isso, você quer que eu seja sua amiga? Não seja ridículo. Eu quase me entreguei para você por dinheiro e agora você quer ser meu amigo? Por favor...
- Eu não sei se quero ser seu amigo. Quero ter esta possibilidade, entende?
- Você acha que eu tenho perfil para ser sua amiga, fala sério?
- Por que não?
- Porque você vem de outro mundo, oras.
- Mas sou de carne e osso, igualzinho a você.
- Posso pensar?
- Pode.
- Estou com muita dor de cabeça.
- Vou pegar um comprimido para você.
(continua...)

11 dezembro 2009

A ex-repórter 8

Embriagados, os dois dançaram e dançaram. E, assim, foram noite adentro, encantados um com o outro. Pareciam mesmo um casal de namorados. Tudo seguia fielmente o script planejado por Su. Não chegaram a se beijar, mas desejavam. A certa altura, ele disse:
- Vamos sair um pouco para ver o céu?
- Vamos.
- A noite deve estar linda lá fora.
De fato, era um céu completo, sem interferências.
- Daqui você vai para aonde? Ele perguntou.
- Para Paris.
- Posso levar você até lá?
- Não dá. Meu passaporte, passagens, roupas, tudo ficou no Hotel, em São Paulo.
- Nós passamos por lá para pegar.
- Acho melhor não. Amanhã, quando acordar, vai ver que está misturando as coisas.
- Me beija?
- Selinho.
- Selinho não é beijo.
- Tá bom.
Foi um beijo intenso e prolongado.
- Vamos para a cabine?
- Vamos.
Mal entraram e ela caiu no choro. Era daqueles, que continham a dor profunda das escolhas e suas consequências. Tudo voltou à tona: a morte súbita do pai, a doença da mãe, o desamparo da irmã e do sobrinho, o choque do ex-namorado pedófilo, a solidão, as dívidas e sua bela imagem - desfeita em lágrimas - refletida no espelho da cabine. E para agravar ainda mais o quadro, um homem encantador, um príncipe, mas que estava pagando para desfrutá-la. O garotão, filhinho de papai, não sabia o que fazer. Tentou consolá-la, depois deixou-a em silêncio por um tempo... E perguntou:
- O que aconteceu?
- Nada. Você não iria acreditar, iria achar que é tudo cena, mentira.
- Por que você não experimenta me contar?
(continua...)

10 dezembro 2009

A ex-repórter 7

- O que você faz?
- Sou mi-li-o-ná-ri-o! Hahahaha.
- Então você gasta?
- Eu tento.
- Nunhuma atividade, tipo, um esporte, um hobby, malhar, sei lá...
- Jogo Polo.
- Humm.
- E você? Vem de onde?
- Atualmente moro na Europa.
- Ah, é? Aonde?
- Cada hora num lugar.
- Você vai ser minha namorada hoje?
- Não sei, se você me conquistar, sim.
- E o que é preciso para te conquistar?
- Acho que tudo o que uma mulher procura.
- Por exemplo?
- Ser gentil, educado, carinhoso, delicado.
- Então tá fácil.
- Você é tudo isso?
- Tudo e mais um pouquinho...
- É a primeira vez que você vem a uma festa assim?
- Não. Já fui a várias. São comuns no Caribe e no Mediterrâneo.
- E o que te atrai em festas assim?
- As mulheres, oras.
- Mas mulheres você encontra em todos os lugares o tempo todo. Não precisa ser assim.
- É, mas assim eu não tenho que me preocupar com elas no dia seguinte. Não tem nada mais chato do que essas garotas que depois não saem do seu pé.
- E são todas assim, né?
- São. No meu caso é pior ainda, porque a grande maioria quer ficar comigo só por causa da minha grana.
- É, em geral, mulher gosta mesmo é de dinheiro.
- Por que em geral? Vai me dizer que você não gosta?
- Não, eu preciso, é diferente.
- Quer dizer que se você não precisasse partiria em busca de aventura e de um amor verdadeiro?
- Provavelmente.
- Duvido.
- Você sempre teve muito dinheiro, certo?
- Hum-hum.
- Então não adianta. Você é incapaz de entender...
- Você gosta de dançar?
- Gosto.
- Então vem comigo...

09 dezembro 2009

Interrompemos a nossa programação

- Oi, pode falar?
- Posso.
- Compraram alguéns lá dentro.
- Como assim?
- Corre à boca pequena que o grupo levou muita grana.
- É mesmo?
- É. Não haveria razão para engavetar o procedimento investigatório. São muitas evidências e irregulaidades.
- Vai ver a ordem partiu de cima...
- Pode até ser, para chantageá-los no ano que vem, que é ano eleitoral.
- É a tal da carta na manga. Do timing da denúncia.
- Não acho que eles tenham esse grau de sofisticação. Acho que a coisa foi mais simples. Pagou, segurou. Simples assim.
- Mas este tipo de investigação chega ao conhecimento de um ministro, por exemplo?
- Quando se trata de coisa grande, só não fica sabendo quem não quer.
- E é possível puxar a papelada para o andar de cima?
- Não. É possível enviar uma cópia, mas o procedimento continua lá.
- Mas os papeis desapareceram ou estão no arquivo?
- Estão no arquivo, junto com outros documentos reservados.
- Muita gente tem acesso ao local?
- Não, pouquíssimas. E o chefe pode pedir vistas a qualquer momento. Por isso, é arriscado até chegar perto.
- Bom, neste caso, não há muito o que fazer, não acha?
- Só se alguém abrir o bico.
- Alguém que ficou fora do "rateio", você diz?
- Ou alguém de Brasília que tiver acesso à cópia, o que dificilmente aconteceria.
- A não ser que alguém aí queira passar isso adiante, sem aparecer.
- Só que, para isso, vai ter que sujar as mãos.
- Minha pergunta é: nesse caso, em que pese o interesse público, sujar a mão não pode ter um sentido diferente? É só uma reflexão...
- Os fins não justificam os meios, meu caro. Na minha opinião, só vale o caminho dentro da legalidade.
- Ok, mantenha o contato, então. Um abraço.
- Outro.
Se alguém perguntar se recebo telefonemas com este tipo de informação, eu nego!

08 dezembro 2009

A ex-repórter 6

São quinze convidados. E vale tudo! Quem deu as diretrizes foi o "mordomo". A ex-repórter sentiu um tremor, um frio na espinha e depois uma onda de calor. O que virá? Pensou...
- Su, vamos tomar uma vodca na cabine?
- Vamos.
- E aí, Su, como é que vai ser?
- Eles chegam em lanchas, de quatro, ou cinco. Estão sempre bem arrumados.Vêm de todas as partes do país do mesmo jeito que a gente, de jatinho. Eles conversam sobre negócios, jantam, bebem, assistem ao show que eu faço com outras duas meninas e depois o salão fica bem escuro e se transforma numa boate. Aí eles dançam, conversam e levam as garotas para as cabines. Às vezes duas juntas...
- Existe a chance de alguém sobrar?
- Quem sobra fica para a tripulação, depois.
- Mas isso faz parte do jogo?
- Querida, você tá no mangue. Você ouviu. Vale tudo.
- São sempre executivos?
- Sim. Os anfitriões são dois políticos e um empresário da região. Gente de muita grana e de muito poder.
- Famosos?
- Vai ter um ou outro que você já até viu na televisão, mas convém se fazer de morta. Aqui, sigilo vale ouro. Eles contam casos, mentiras, fazem promessas. Inventa uma história bem maluca a seu respeito, diz que veio de outro lugar, tem outro nome. Não dê pistas sobre sua vida pessoal. Ah, e não dê seu telefone para ele em hipótese alguma.
- Ok.
- E lembre-se, faz de conta que está numa balada com amigos e escolha alguém para se apaixonar. É bem mais fácil do que brigar com a realidade...
- Mas e quanto às preferências? Tem coisa que eu não gosto de fazer na cama...
- Aí é você com ele. Iluda-o, canse-o, faça-o dormir. Muitos dormem antes da hora. Outros brocham. No salão você logo percebe quem são os cavalos. É só fugir deles e agarrar o que te parecer mais gentil e delicado. (continua...)

07 dezembro 2009

A ex-repórter 5


Na terceira dose de vodca ela estava decidida.
- Su, dá para desistir na última hora, tipo, chegar lá e mudar de idéia?
- Não sei. Nunca vi isso acontecer.
- Vou arriscar.
- Arriscar ir e desistir?
- Não, vou arriscar ir.
- É, o pior que pode te acontecer é eles te jogarem no rio. Hahahaha.
- Eu não sei nadar. Hehehe.
- Vou ligar para o cara então dizendo que amanhã às onze estamos no Campo de Marte. Aproveito e combino tudo com as outras meninas.
Enquanto Su telefonava, a ex-repórter pensava. E se sobrar para mim o mais feio? Um sujeito grosseiro, masoquista, violento... E se for o contrário, um cavalheiro, carinhoso, delicado... Num barco, no meio do rio, fugir é impossível... Ah, quer saber, vou encher a cara, dane-se. Posso fingir que estou passando mal, ter enjôos, disinteria... Fico na cabine. É, mas aí, perco o cachê. Deixa rolar. Amanheceu. Ela acordou com o sol forte entrando pela janela da sala. Su, de banho tomado, toalha na cabeça, tinha acabado de fazer um café forte. Tudo girava.
- Quer, disse Su, oferecendo o canudo, feito com uma nota de dois reais.
- Quero.
- Vai voando para o banho que vou deixá-la linda. Você será a mulher mais deslumbrante daquele barco.
Às dez e meia estavam todos na cabeceira da pista de Marte.
O piloto era um sujeito bem alinhado. O co-piloto, jovem, do tipo galanteador, ficou excitado com as meninas, que o ignoraram. Duas horas e meia depois o jatinho taxeava numa pista de pouso de um hotel, no meio da floresta. Foi tudo muito rápido. O desembarque, a caminhada até o pequeno cais e o ingresso no vistoso barco. Um homem sobrio, com aparência de mordomo de filme americano, distribuía as chaves das cabines. Em poucos minutos, todos estavam instalados e a embarcação seguia rio acima. Aparentemente, contou com os olhos, havia cerca de vinte garotas. Todas muito bem escolhidas. Cabelos longos e escuros, com olhos levemente puxados. Cabelos cacheados e olhos amendoados, cabelos louros tingidos, como os dela, e olhos verdes. Os homens chegariam em lanchas menores, depois que escurecesse. Era o tempo de comer, descansar e se preparar para a noite. (continua...)

A ex-repórter 4

Triiiiiiiiiim. Por que Su não troca essa campainha tão barulhenta? Ela sempre pensava isso, toda vez que vinha à casa do amigo maquiador.
- Oi querida!
- Oi Su.
- Veio de mala e cuia?
- É, trouxe umas trocas.
- Então você vai, né?
- Ainda não decidi.
- Eu fiquei de ligar para o sujeito que vai levar a gente até às seis, para confirmar o número de pessoas.
- Quantas são?
- Da minha parte seis.
- Quem são as outras?
- Você não conhece. São meninas que conheço da noite.
- Garotas de programa, você quer dizer.
- Nem todas. Umas fazem feiras, como você, outras futebol, fórmula 1, tem de tudo um pouco.
- Essa história de fazer feira já me encheu o saco, sabia? Você fica em pé de salto o dia inteiro, o uniforme é sempre curto e decotado e não tem uma vez que um idiota não te entrega um cartão e diz para ligar, quando quiser jantar.
- Mas não é assim que as pessoas se conhecem?
- Ôooo Su, você acha que um tipo desses quer uma companheira para sempre? Ele quer passar a noite com você e tchau. Já cai nesse papinho.
- Eu acho amiga que você tem uma visão bem careta da vida, sabia? Quanta madame não fez tudo isso, antes. Não é pouca não. Os homens se encantam, se apaixonam e depois fazem tudo por você.
- Isso é exceção!
- Não para meninas como você, bonita, com nível superior, de família, batalhadora...
- Sabe quanto eu devo no cartão, Su?
- Quanto?
- Sete mil reais! O aluguel do flat tá atrasado, não paguei nenhuma conta esse mês e todo o dinheiro que entrou foi para pagar a escola do meu sobrinho e ajudar minha mãe e minha irmã lá em casa.
- Até quando você vai ficar carregando todo mundo nas costas?
- Oras Su, até quando der. Foi uma promessa que eu fiz para mim mesma quando meu pai morreu.
- Vamos tomar uma vodca?
- Vamos.
(continua...)

06 dezembro 2009

A ex-repórter 3

O elevador do prédio, no centro da cidade, tinha porta pantográfica. Conforme os números pintados na parede iam passando, ela refletia sobre a morte súbita do pai, a gravidez precoce da irmã caçula e a fragilidade da mãe diabética. É como se ela fosse a única responsável pela redenção de todas. É como se fosse dela a missão de prosperar pela beleza e espalhar o sucesso entre os seus. O emprego na emissora de TV, como repórter, era a garantia de cobrir as despezas e complementar a renda da mãe e da irmã no interior. Mas o diretor de jornalismo fora explícito e implacável: ou ela aceitava jantar com ele, ou seria dispensada quando terminsse o perído de experiência. Por que suas escolhas tinham que, necessariamente, envolver favores sexuais? A beleza que fora dom, de repente se tornara fardo, pesado demais para uma jovem de apenas 25 anos carregar. A decepção com Zeca fora ainda maior. Encontrar o noivo na cama dela fazendo sexo com um garoto de catorze anos! Que ponteiro do tempo teria mudado o curso das horas? O que teria feito ela de tão errado, para merecer tanto desprezo dos céus. Era uma dor imensa, um vazio insuportável. Repentinamente o elevador parou, entre um andar e outro. Pelo interfone foi informada de que o zelador estava a caminho e que não devia se desesperar. Oras, se desesperar com um elevador quebrado, ironizou... Só Zeca participou da formatura, três anos antes. Ele estava lindo com o terno alugado de véspera! Podia ter sido o homem para toda a vida. Inteligente, esperto nos negócios e filho de gente de posses. Talvez a televisão pudesse até ter virado um hobby, ao lado de um homem assim. Repirou fundo, fez um gracejo para o zelador ao descer e concluiu: Su é a única coisa certa que tenho na vida. (continua...)

05 dezembro 2009

A ex-repórter 2

O táxi não saía do lugar. Garoava. Luzes e o lusco-fusco do fim de tarde embaralhavam a visão. O limpador estava com a borracha gasta. O taxista, ansioso, não falava, mas murmurava e gesticulava sem parar. A mulher, agora aos 25 anos, desempregada, endividada e solitária pôs-se a pensar em retrospectiva. Lembrou-se de quando deixou a pequena cidade do interior com o pai, a mãe e a irmã caçula, no carro velho e barulhento. Já se passara onze anos, desde que largara a vida previsível, em busca do sonho comum a toda menina de 14 anos, o estrelato. De relance reexperimentou os aromas - fumaça, fuligem, fogo, ferrugem, fedor, típicos da ameaçadora e tão excitante cidade grande. A memória trouxe à tona as outras cinco meninas da agência de modelos, que dividiam com ela o pequeno quarto, em dois treliches. E veio a pergunta: - Por que será que toda menstruavam na mesma semana? Será que era algum remédio na alimentação? (aqui ela sorriu). Tudo aconteceu tão rápido... O contrato de exclusividade com a agência, trabalho, trabalho, trabalho... O dinheiro contado e guardado cuidadosamente pelo pai na caderneta de poupança. Era para garantir os estudos, ele dizia. Por que tudo começou a dar errado? O que mudou? Aos dezoito anos o corpo magro e longilínio deu lugar a uma silhueta mais esbelta, com curvas acentuadas. Foi quando o dono da agência passou a assediá-la. Foram tantas as negativas que ele cedeu, mas sua relevância profissional foi desaparecendo. Os contratos já não apareciam com a mesma frequência e a cláusula de exclusivade impedia que ela buscasse novos caminhos. Foi quando decidiu se dedicar mais ao estudos e ao namorado. A caminho da casa de Su, ela sabia, estava prestes a tomar a decisão mais dura e difícil de toda a vida. (continua...)

A ex-repórter

O convite partiu do maquiador, que ela conheceu na curta passagem pela tv, como repórter. A viagem seria feita de jatinho. Apenas ele, que atuaria no papel da drag queen Suzana - personagem alusivo à imagem da renomada atriz - e as garotas. Ao chegar no Norte do país, navegariam rio acima, onde passariam 24h "numa festa". Os convidados do barco do amor eram todos executivos na faixa etária de 35 a 50 anos. Ricos, discretos e a grande maioria "gringo". Assim, a identidade das meninas estaria preservada e o anonimato garantido. O cachê era de R$ 5.000,00, em grana viva. Ela pensou, pensou e decidiu ligar de volta:
- Su, sou eu.
- Fala minha querida...
- Estive pensando na proposta que me fez.
- E...
- Você sabe como estão as minhas finanças, né?
- Claro que sei...
- Mas eu nunca imaginei que um convite desses iria me balançar tanto.
- Já te falei, faz de conta que você está na balada com as meninas e aí encontra um sujeito "louro", lindo e rico e se entrega para ele. Simples assim. Ou vai me dizer que nunca ficou com ninguém desse jeito?
- Claro que já, mas é diferente. Eu não estava ganhando.
- Esquece a grana! É como se fosse uma festa qualquer...
- Eu sei, eu sei. Mas é difícil (aqui ela começa a chorar)
- Tenho uma idéia. Você vem para casa e dorme aqui comigo. Amanhã cedo a gente se arruma, lindas e ma-ra-vi-lho-sas, compra duas garrafas de vodca, um pouco de pó e já chega na festa a mil por hora, à noite. Que tal?
- Vou dormir aí, mas ainda não estou decidida.
- Te espero, beijo.
- Outro.
(continua...)

04 dezembro 2009

O Navio chegou!



- Oi, tinha um recado na minha caixa postal para eu te ligar. E aí, novidades?
- O navio chegou.
- É mesmo? Não brinca? E pegaram a carga?
- Não, os agentes estavam seguindo pista errada.
- Ihihihihi...
- Eles embarcaram com o mandado de busca e apreensão, identificaram o container, o guindaste descarregou, mas lá dentro tinha castanhas e avelãs importadas para o Natal.
- Nooooossa. E agora?
- Agora, sei lá. Eles passaram o dia inteiro no porto e viram que, sem pistas, é praticamente impossível encontrar. É como procurar agulha num palheiro. São vários terminais, pilhas e pilhas de containeres. No fim da tarde eles desistiram e subiram a Serra, de volta para São Paulo.
- Imagino que nessa época do ano o porto esteja lotado.
- O porto está lotado quase o ano inteiro. É um dos maiores terminais de movimentação de containeres do mundo. Você já foi lá?
- Não, mas já vi muitas imagens. Editei uma série de reportagens do Dorneles para o Jornal da Record sobre profissões e uma das personagens era uma mulher que atracava navios no porto, uma prática.
- Ah, então você sabe bem do que eu estou falando...
- Bom, então, é só esperar uns dias e correr para a 25 de março?
- Quer um conselho? Corra para a Santa Ifigênia. Lá os camelôs são menos ostensivos e você consegue comprar com mais discrição.
- É verdade...
- E se prepare porque nunca antes na história desse país você vai ver tanta borracha* e tanto rapa** na 25 de março como dessa vez. (* borracha é o cacetete da guarda civil metropolitana e ** rapa é um serviço da prefeitura que passa desmontando e confiscando tudo. São os inimigos número um dos camelôs)
- É, pelo visto, esse Natal vai ser uma loucura para os filhos do Brasil do centro da cidade.
- Um abraço.
- Outro.

(Atualizado às 13h39: Ia me esquecendo de dizer. É ficção!)

03 dezembro 2009

Como nasce uma notícia

- Oi, um colega aqui do trabalho me passou o seu celular.
- Em que posso ajudá-lo, amigo?
- Li o seu blog e tenho uma informação que pode te interessar.
- Diga.
- Eu sou funcionário público da justiça e tenho nas minhas mãos um procedimento investigatório...
- Vamos fazer o seguinte, me dá seu nome, seu celular e o número do telefone do seu trabalho. Vou só confirmar se você é você, me entende? Depois te ligo no celular, pode ser?
- Ok, anota aí!
(...)
- Pode falar agora?
- Posso.
- Você me falava de um procedimento...
- Há um grupo aqui dentro fiscalizando contratos de prestadores de serviços e estágiários nas organizações. Segundo o relatório preliminar, são várias as irregularidades.
- E você tem como mandar uma cópia desses documentos para mim?
- Impossível. É tudo confidencial. Se fizesse isso, estaria cometendo uma ilicitude e não quero...
- E por que você quer me contar isso? Qual é o seu interesse?
- Não sei. Na verdade, acho que a minha indignação é porque a gente vê essa sujeira toda e, de repente, aparece alguém e varre tudo para baixo do tapete...
- Qual é a sua função aí?
- Minha função nem é tão importante. É mais burocrática, tipo, catalogar, levar papéis para cima e para baixo, mas, como estou estudando direito, fico lendo a papelada...
- E o que foi que você achou de mais absurdo nisso que você leu?
- A maneira como a empresa está se livrando de encargos milionários, depois que passou a praticar a terceirização indiscriminadamente. Também não me conformo com como ficou mais precária a relação de forças. Outra coisa é como eles estão explorando a mão-de-obra dos estagiários. É quase trabalho escravo!
- É meu amigo... Bem-vindo ao mundo coorporativo! Acho bom segurar seu emprego público porque aqui fora a coisa tá feia.
Se alguém perguntar se recebi um telefonema assim, eu nego.

02 dezembro 2009

Ei Al Capone...

- Alô.
- Oi, pode falar?
- Peraí, deixa eu sair da redação. Tá muito barulho aqui. Fala...
- Estou sabendo que tem uma penca de ex-colegas seus sendo investigados pela Receita Federal.
- Como soube disso?
- Eu tenho minhas fontes, não é assim que vocês falam?
- Mas o que você sabe?
- Soube que há alguns anos eles formaram empresas e se transformaram em pessoas jurídicas. Muitos por má fé, outros por terem contadores incompetentes, acumularam patrimônio incompatível com as receitas apuradas ao longo dos anos.
- Noooossa, e agora?
- Parece que uma ex-colega já conseguiu acordo e está tentando vender um apartamento no Rio para saldar o débito com o fisco.
- Jura, é tanto assim?
- Acho que é, viu. Fizeram uma reunião recentemente na mansão de um deles no Morumbi para discutir o assunto. Só tinha figurão. Levaram até um advogado renomado. O plano é desenvolver a tese da defesa conjuntamente e, se possível, envolver as organizações.
- Aí seria o escândalo dos escândalos!
- Pois é, estão tratando o assunto com o maior cuidado, para evitar publicidade. Na Receita, ninguém tem acesso aos processos, a não ser o alto escalão. É sigilo absoluto.
- Mas razões não faltam para vazamentos, oras.
- É que o Governo teme que, se vazar, as organizações podem fazer uma campanha dizendo-se vítima de perseguição e censura.
- Ah, entendi. Bom, neste caso, você acha que eu devo publicar?
- Se você fizer daquele jeito, como se fosse ficção, acho que tudo bem.
É, amigos, mais um diálogo tão factível, mas tão factível que, aposto, vai ter internauta pedindo os nomes. Se alguém perguntar se recebi mesmo um telefonema desses, eu nego.

01 dezembro 2009

Somos todos Manos

Causou espanto a reação de muitos, diante da divulgação de mais um vídeo que mostra assessor distribuindo dinheiro, em espécie, para políticos e, até, jornalista. As pessoas reagem surpresas por uma conduta que é regra, não exceção. É assim desde que o mundo é mundo. Apropriar-se do bem público a bem de um interesse privado é modus operandi da política. Como um candidato faz campanha? Ou com recursos próprios (o que é raro), ou com recursos privados. E quem são os doadores? Em geral, prestadores de serviço às prefeituras e governos, pela ordem: empreiteiras e construtoras, empresas de transporte público, limpeza e coleta de lixo, fornecedores de merenda escolar, uniformes e material didático e, até, fabricantes de medicamentos. A lógica é cobrar um pouco mais caro da administração pública e dividir o lucro com o político. Simples assim. Há concorrência? Frauda-se. Se não há como fraudá-la, basta associar-se aos concorrentes. O que é mais admirável, é que isso não funciona apenas na administração pública. Experimente transformar-se em fornecedor ou prestador de serviços para edifícios, por exemplo. Em geral, o síndico vai querer comissão e quando não, o esquema é com o zelador do prédio. A comissão, ou 'por fora', virou uma prática tão comum no nosso dia-a-dia, que nem lembramos o quão enraizada está. Quer comprar um medicamento de tarja preta sem receita? Fácil, só procurar a farmácia mais perto. Se lá o farmacêutico não vender, vai saber indicar quem vende. Quer drogas? Pode pedir por telefone e receber em casa. Quer peças falsificadas para o carro, com selo de procedência e embalagens originais? Quer combustível adulterado? Quer bebida alcólica sem pagar ICMS? Quer carga roubada? Contrabando? Prostituição de luxo? Quer fazer seu time ser campeão do brasileirão? Também tem jeito. Precisamos deixar nossa hipocrisia de lado e assumir definitivamente todas as verdadeiras faces da nossa sociedade. E exigir lisura nas nossas relações. Fingir que nada disso existe e se escandalizar com as notícias depois, não é a melhor maneira. Desta vez foi o DEM. Semana passada foram o PPS e o PSDB... Já teve o PTB, o PMDB, o PT... Somos todos 'manos', sacou?

 
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