Todo mundo pensa que é fácil ser editor do telejornal que foi hegemônico nos últimos 40 anos. Principalmente os colegas de função. Eles acham que somos privilegiados, porque editamos apenas uma reportagem por dia, sempre com as grandes estrelas. Costumava responder assim: - Você só vê as pingas que tomo, mas não os tombos que levo. Fiquei na linha de frente do principal telejornal da emissora por quatro anos. Trabalhei com quase todos os repórteres consagrados de São Paulo e posso afirmar: Não é fácil! A cobrança é enorme, para um salário que não corresponde ao tamanho da responsabilidade. Como disse antes, a história de que a emissora paga bem é um mito. Os salários são muito parecidos com os das outras e, em vários casos, até menores. Eles abusam do efeito-vitrine (para repórteres e apresentadores) e do efeito-crachá (para os peões, no chão de fábrica). Lembram-se do personagem Bozó, do Chico Anysio? Pois é... Entre as estrelas, há de tudo. Infelizmente, nem todos são bem resolvidos, brilhantes e admiráveis como parecem ser na telinha. Alguns tipos chegam a ser assustadores profissionalmente: O que aumenta, o que inventa, o que planta, o que combina a resposta com o entrevistado e, até, o que mente (mentirinha, mas mente). Há também o repórter que não gosta mais de trabalhar, porque acha que sua ficha corrida justifica o salário, apenas para ele ficar em casa. Contraditóriamente, ele também sabe que, se ficar muito tempo sem aparecer, começa a sofrer de síndrome de abstinência. Assim, em pouco tempo está de volta. Com um mau humor daqueles... Há um outro tipo comum, o que gosta que os outros trabalhem para ele. Curiosamente, estes costumam ser mais explícitos, portanto mais honestos. Ao contrário, há o que prefere trabalhar sozinho, muitas vezes não por ser antipático, apenas porque é mais fácil - para ele. Agora, tem um tipo que, para atingir em cheio a ansiedade dos outros, é cruel. Enrola a tarde inteira e deixa para resolver tudo na última hora. Acha que 'salva o texto na entonação'. Mas há um tipo insuportável. Aquele que se acha mais generalista do que os outros generalistas (afinal é o que todos somos). Ele volta da rua doutor "honoris causa" na pauta que está cobrindo. Além deste, há também o tipo que adora esbanjar conhecimento, age como se fosse um intelectual, mas é incapaz de escrever um texto de um minuto, com alguma coerência. Vez ou outra aparece também o tipo que chega da rua morrendo de vontade de ir embora. E, às vezes, é chamado de volta. E o que é pior, volta. Há um que é recorrente, o que sempre acha a pauta um lixo, o produtor um despreparado e o editor um chato. Do ponto-de-vista dele, não deixa de ser verdade. Afinal, apenas refletimos a imagem que ele projeta nos outros. Há também os tipos clássicos: o puxa-saco, o em licença-médica, o derrubador de pauta... Derrubar pauta é uma fria, porque ela sempre se volta contra você, costumava dizer um dos colegas. E volta pior, garanto! Apesar de tudo isso, são gente, como a gente, e conviver - com qualquer um - é mesmo difícil. O que realiza a gente - diante de todos os defeitos e qualidades, que todos temos - é encontrar um caminho para realizar o trabalho coletivo. E a satisfação de, com o tempo, ter cultivado o respeito e admiração dos colegas. Isso é gratificante.