31 outubro 2009

Uma internauta chamada Natália me perguntou por que fui demitido. Acho que a resposta não é simples. Foi um processo. Cheguei de volta a São Paulo em 1998, depois de passar por outras duas emissoras da mesma rede, no interior. Até 2001 tínhamos liberdade e autonomia para trabalhar. É claro que o padrão e os formatos muitas vezes impediam certas extravagências, mas não havia a rígida doutrina que foi sendo imposta, depois de um tempo. Vale ressaltar também que, até 2001, as organizações eram aliadas do grupo que estava no poder, o que facilitava um bocado o nosso trabalho. A desvalorização do real pôs a Corte de joelhos. Parte do patrimônio das organizações teve que ser vendido para os parceiros, a enorme dívida teve que ser renegociada com os credores. Era uma situação pré-falimentar. Nesta ocasião foi como se o jornalismo tivesse recebido um 'Salve Geral'. Podíamos tudo. Até criticar o governo. Mas naquela altura não adiantava muito, porque era como chutar cachorro morto. Quando em 2001, um novo vassalo (o Guardião da Doutrina da Fé) assumiu o comando do conteúdo editorial do jornalismo, aí as coisas começaram a se complicar. Um novo modelo de gestão - com cortes de custos e centralização de decisões - começou a ser imposto e, claro, houve resistências. Quem se acostuma com liberdade tem dificuldade de ficar sem ela. Profissionalmente, sempre tentei ser ético e leal, mas nunca me omiti, principalmente diante do arbítrio e da manipulação. Quer o chefe gostasse, quer não, eu dizia o que pensava. Afinal, estava vendendo a minha força de trabalho, não os meus princípios. Mas o fato é que chefe não gosta de críticas. Salvo honrosas exceções, chefe gosta de aplauso e reverência. Desta forma, nossa convivência foi ficando cada vez mais difícil. Por outro lado, achava que tinha responsabilidades demais, para um salário de menos e fui à luta. Foram dezenas de tratativas e pedidos de aumento. Só que chefe também não gosta de funcionário que pede aumento. Galguei todos os postos importantes na hierarquia, mas meu salário foi ficando para trás. No auge da crise de convivência, tentaram me sufocar cortando a hora extra a que os editores do principal telejornal da emissora tinham, como uma espécie de bônus dos áureos tempos. Mas, ainda assim, não conseguiram. Em sinal de protesto, passei a exibir longos cabelos, ao lado de um silêncio obsequioso (sem assentimento interior). Estiquei a corda até o limite máximo, mas não tive forças e sucumbi - aqui vale uma ressalva, eu era o lado mais fraco... Ainda assim, acho que ninguém é protagonista da nossa história. Nós mesmos a escrevemos. E não me arrependo de cada linha das que escrevi, nos doze anos em que trabalhei lá. Espero ter respondido à pegunta, Natália.

30 outubro 2009

"Dá tempo de tirar meu nome deste abaixo-assinado", perguntei ao chefe de redação. - Claro, ninguém é obrigado a assiná-lo. Alguém mais lá quer tirar também? Perguntou-me, apontando para a redação. - Espera aí, respondi. E voltei à redação. - Ele está perguntando se alguém mais quer tirar o nome..., disse às minhas colegas editoras de texto (éramos seis, ao todo, no principal telejornal da emissora, mas uma delas não estava entre nós). As colegas também pediram que seus nomes fossem suprimidos. De fato, nossas assinaturas não fariam muita falta. Ele passou o dia circulando pela redação 'incentivando' os colegas a fazê-lo. Colegas nas redações do Balneário, do Planalto Central e de Belo Horizonte, também foram a campo. O plano, desmascarado depois, era salvar o Guardião, que foi lançado ao mar, depois de tantas trapalhadas na cobertura eleitoral. A estratégia funcionava assim: ele encostava ao lado da mesa do colega, soltava a folha de papel e dizia: - Vê se você concorda com isso e assina. O desconforto era geral. O clima era péssimo. Quando voltei da sala dele, certo de que nossos nomes haviam sido suprimidos, formamos uma roda quase no meio da redação. Rodrigo Vianna argumentava que quem tinha que defender a cobertura - que no texto do abaixo-assinado levianamente misturava a queda do avião e as eleições - era a emissora, não os funcionários. Rodrigo comparou: - É o mesmo que uma montadora fazer um carro com defeito e pedir para os metalúrgicos fazerem um abaixo-assinado para defender a indústria. Havia, entre nós, outras duas editoras dos dois telejornais matinais (o local e o etílico). Também havia dois produtores, que acompanhavam tudo fingindo-se estar ao telefone, marcando alguma entrevista. E tínhamos entre nós mais dois repórteres, além do Rodrigo. Estou poupando os nomes porque alguns permaneceram lá e não seria justo expô-los a constrangimento. Bom, no meio do debate sobre queda de avião, cobertura das eleições e a postura das organizações, o chefe de redação, desconfortável com aquela situação, deixou sua sala e dirigindo-se a nós, disse: - E tem mais, quem não tiver satisfeito que vá para Record. Naquele momento, 2006, a emissora concorrente já era uma ameaça. Não demorou muito para que eles dessem início à Inquisição. (volto ao tema)

29 outubro 2009

"Vai ser um almoço de confraternização", informou o diretor de jornalismo (aquele que foi afastado...). Foi em março de 2007. O Guardião queria estreitar os laços com os editores responsáveis pelo material produzido na 'praça' São Paulo, a maior e mais importante do país. E desanuviar o clima, tenso depois da derrota do candidato da corporação nas eleições de 2006. O restaurante escolhido foi o Kinu, no Hotel Grand Hyatt. O almoço custa, hoje, R$ 68 por cabeça, fora a bebida. No cardápio, uma cuidadosa seleção da culinária japonesa de vanguarda, assinada à epoca pelo premiado chef Yasuo Asai. Para saborear sushis e sashimis, uma sala privativa havia sido especialmente reservada. Além dos dois gestores, a coordenadora de edição e seis editores do principal telejornal da emissora, entre eles, eu. A conversa foi num clima ameno e descontraído, em que o Guardião começou descrevendo o Paraíso, sob a ótica da religião islâmica, doutrina que pratica. Ele estava escrevendo um livro sobre o tema e resolveu nos explicar como funcionava o juízo final: - No islamismo, o inferno é a terra prometida, um lugar de fogo e tormento, de onde ninguém escapará, nem os justos, nem os injustos. Para alcançar o Paraíso é preciso vencer os sete portões e em cada um deles é necessário conhecer as respostas sagradas." O islamismo foi só um 'nariz de cera' (uma introdução, como dizemos em jornalismo). Na conversa, ele tentou nos convencer de que não havia ressentimentos. E que as questões relativas ao passado estavam superadas. Insistiu em afirmar que tinha delegação plena de poderes da Corte e que estava disposto a usar deste poder com sabedoria e generosidade, como um grande irmão. Segundo ele, a empresa não tinha qualquer interesse político na cobertura jornalística e não faria gestões nesse sentido. Ao final, fez questão de se despedir de um por um e deixar seu correio eletrônico à disposição para eventuais consultas, ou mesmo críticas. Na saída, não resisti, e disse: - Se prepare, pois sua caixa de correio vai ficar lotada. Acho que alí se fechou o primeiro - e único - portão do inferno para mim. Uma semana depois estava demitido, sem justa causa (mas por uma causa mais do que justa, como fez questão de ressaltar minha mulher, grávida de sete meses. Covardia, não acham?).

28 outubro 2009

Vocês pediram, então aí vai mais uma da série faz de conta. Era uma reportagem de fôlego. O ponto de partida: uma pesquisa, obtida com exclusividade, em 2004. Estabelecia uma relação direta entre abuso de álcool, sobretudo de cerveja, e índices de violência, criminalidade e saúde pública. Produtores foram a campo e coletaram flagrantes de ameaças, brigas e confusões, principalmente em bares que funcionam à noite nas regiões mais violentas de São Paulo, à época: Jardim Ângela, Capão Redondo, Parque Santo Antônio e alguns bairros da Zona Leste. Depois de editada, era o tipo de matéria que serviria para abrir o telejornal antes da novela, com o apresentador dizendo, de voz cheia: - Exclusivo! Nossos repórteres mostram como o abuso de álcool se transformou na maior doença do país. Mas o vídeo tape foi vetado para a exibição, foi para o freezer, no jargão. No diálogo que um dos produtores travou com o Guardião da Doutrina da Fé, ouviu o seguinte argumento: - Não podemos exibir uma reportagem assim, sabendo que a indústria de bebidas é a maior anunciante da casa e dona de cotas de patrocínio dos principais eventos esportivos que transmitimos. É um tiro no pé! E vai que algum deputado 'maluco' resolva propor uma lei que proíba a propaganda de bebida na TV? Já não basta o que eles fizeram com a indústria de cigarros... Um exemplo cristalino de como um interesse público pode dar lugar a interese comerciais de certas organizações, e pior, de como a imprensa pode deixar de atender às exigências de uma sociedade que clama por paz. Agora, mesmo que fosse ficção, que falta faz um deputado 'maluco', desses que legislam de olho nos interesses da nação, e não nos de um grupo econômico qualquer? O álcool é hoje a principal causa de violência doméstica (disse, ouviu rainha? violência do-més-ti-ca), pedofilia e outros crimes violentos, como assassinatos. Mas acho que nossa sociedade ainda não está preparada para 'Apreciar com Moderação' a concessão de serviço público. Que pena...

27 outubro 2009

Nós, gestores do blog DoLaDoDeLá, vimos por meio desta, na figura de Marco Aurélio Mello, 43 anos, brasileiro, jornalista, casado, com residência fixa em Vinhedo, no estado de São Paulo, outorgar direito amplo e irrestrito de resposta a todo brasileiro ou estrangeiro, residente no país, que tenha se sentido alcançado por calúnia, injúria, ou difamação pelas postagens publicadas pelo autor, ainda que por reiteradas vezes houvesse este, por bem, ressaltado o caráter ficcional da obra. Mas, caso o texto guarde alguma correspondência com fatos verdadeiros, e passíveis portanto de comprovação por confrontação, está consagrada a concessão do mesmo direito. Basta apenas que o requerente envie a solicitação por e-mail, em que conste: nome completo, idade, profissão, estado civil, local de residência, telefone para contato e fotografia digital, em arquivo anexo (livre de vírus ou spyware). Não se exige limites de caracteres. Os gestores se reservam no direito de não publicar ofensas, nem ao autor, nem a pessoas com as quais mantém relacionamento, pessoal ou profissional. O prazo para a publicação será de até 72 duas horas a partir do recebimento da solicitação. Sem mais, subscrevemo-nos, Atenciosamente, DoLaDoDeLá.

26 outubro 2009

A hegemonia das organizações, até recentemente, era construída assim: O comitê formulava a tese e os diretores espalhavam as 'verdades'. O que saía nos jornais virava notícia imediatamente no país inteiro (uma onda). A rede de emissoras de rádio, colunistas e jornais associados tratavam de replicar o conteúdo. A esse 'fenomeno' Franklin Martins deu o nome de 'efeito pedra no lago'. Mas de 2004 em diante alguma coisa começou a dar errado nessa estrutura de 'difusão da verdade'. Conforme a economia era irrigada - agora sem políticas clientelistas - as pessoas passaram a adquirir certa autonomia. Pouca, é verdade, mas alguma. A informática e a internet contribuiram muito para criar 'os fiscais' dos 'fiscais convencionais', que é como a mídia tradicional se arvora em chamar-se. Em 2006 o plano foi posto à prova. Eles estavam convictos de que conseguiriam impor seu candidato. Para isso, o projeto político começou um ano antes. Os parlamentares da oposição 'faziam o governo sangrar'. Os colunistas foram orientados a encontrar um 'viés' negativo no noticiário. Por exemplo: Se o país estava vendendo muito computador, era um risco, porque o endividamento da população poderia levar a um enorme calote, o que servia, em contrapartida, para justificar o 'spreed' bancário, que aumenta significativamente os ganhos dos bancos que assim, podem patrocinar os eventos televisivos. Mas o mundo mudou e o plano não deu certo. Para quem sempre teve tudo o quis, perder é difícil. Só que perder faz parte da vida. Simples assim!

Da série ficção. O dia em que Jesus e Judas selaram um pacto. Só que como todo bom Judas, este desistiu no meio do caminho. Foi numa reunião com a Corte do Cosme Velho, no Jardim Botânico, que o homem que ocupa o mais importante cargo da República selou sua sorte para disputar as eleições de 2002 e finalmente chegar ao poder (ou vocês acham que ele conseguiria sozinho, sem o consentimento deles?). - O dique estava se rompendo, informara o chefe do instituto, um membro da inteligência afeito a estudar e, eventualmente, manipular a metodologia de pesquisas de opinião. O candidato havia disparado nas intenções de voto. Caso não houvesse fato novo, todas as projeções indicavam a vitória líquida e certa do candidato 'das esquerdas'. O empresariado paulista estava em polvorosa. Ameaçava carrear todo dinheiro para o exterior. Muitos pensavam até em deixar o país, desiludidos. O plano foi o seguinte: do Palácio da Alvorada, o príncipe (refém das organizaões, por razões já conhecidas de todos) faria o aceno, falando da importância da alternância de poder numa democracia (e teve gente que pensou que foi um gesto de altivez política, à época...). Assim o candidato foi atraído. Na conversa, feita com discrição e sigilo, ficou combinado que a emissora não se oporia à chegada dele ao poder, mas queria algumas garantias: o partido teria que isolar os radicais e marchar em ordem unida, cumprindo a Constituição e as leis, o que significava controlar também os movimentos sociais, sobretudo o MST. E haveria de ter também um compromisso, por escrito, para evitar o que temiam vir a ser 'o caos econômico'. A partir desse momento, aquele que viria a ser o ministro-chefe do gabinete civil, mais o que viria a ser o da fazenda entraram em cena. O primeiro, para calar as vozes dissonantes dentro do partido. E o segundo, para fazer a interlocução com as elites e formular a Carta ao Povo Brasileiro. Estava de plantão, num Sábado, em São Paulo, quando a executiva nacional do partido divulgou o documento. Tive que editar um vídeo tape destacando os principais trechos. A chefe de redação, excitada e apreensiva conversava pelo rádio com o Guardião da Doutrina da Fé, enquanto assistiam ao vivo a leitura do documento. Quando me procurou mais tarde, na ilha de edição, para dizer os trechos que eu deveria selecionar para ir ao ar naquela noite, mostrei o material pré-selecionado e ela exclamou: - Mas como você sabe o que ele quer? - Foram as minhas fontes, respondi sorrindo. Se perguntarem se isso aconteceu mesmo, eu nego.

24 outubro 2009

"Nós erramos em São Paulo", admitiu o todo-poderoso chefe daquele que é considerado - e pior - alardeado pelas organizações, como o mais importante instituto de pesquisas do país. Era 2004, campanha para a prefeitura de São Paulo. Por 'desvio metodológico' ou 'desvio na tabulação dos dados' (explicações dadas à época) foi 'impossível' prever a arrancada de Marta Suplicy de cinco pontos percentuais - fora portanto da margem de erro da pesquisa. Essas mudanças de comportamento influenciam muito a parte dos indecisos que vota para ganhar, como já expliquei em 20/08/2009 (arquivo do blog). A prefeita disputava a reeleição e se transformou em inimiga da elite, que a apelidou de 'Martaxa' (vocês já viram rico gostar de imposto? Nem eu.). Marta também deu as costas aos motoristas brancos e endinheirados das regiões centrais da cidade (um erro) e decidiu investir em infra-estrutura e ensino de qualidade para pretos e pobres da periferia (um acerto). Perdeu a eleição para Serra, com um empurrãozinho das organizações. Mas não é esse o ponto. O ponto é que, escalado para fazer a reportagem que mostrava o erro em São Paulo, estava um repórter acima de qualquer suspeita: Carlos Dorneles. Num telefonema a partir da redação, o chefe do instituto admitiu o erro. Quando Dorneles voltou da entrevista estava incomodado. O entrevistado havia mudado sua versão. Independentemente disso, sentamos e o repórter escreveu a história como deveria ser contada. Que o instituto errou em São Paulo, mas que na entrevista o chefe relativizava o erro. O texto foi submetido ao Rio, onde o Guardião da Doutrina da Fé faria uma 'revisão'. Quando voltou, o texto tinha sido reescrito. Mostrava todos os acertos do instituto em várias capitais do país e lá no meio, escondida, uma frase dizendo que, em São Paulo, a pesquisa não foi feliz. Quando lemos a versão recebida de volta, olhamos um para o outro e exclamamos: - Esta não é a matéria. Estava distorcida e protegia o instituto. Perguntei a ele: - O que vamos fazer? Dorneles respondeu: - Eu não vou gravar. Eu não sou pago para proteger o instituto. Disse a ele que precisava submeter aquela decisão ao diretor de jornalismo - o tal que foi editor de texto do principal telejornal da emissora e foi afastado por incompetência, anos antes. O sujeito coçou a cabeça, leu, releu, consultou o Guardião e nos chamou. Aí exclamou: - Mas o que é que você acha que tem que mudar? Dorneles respondeu: - Eu não acho que tem que mudar nada. Essa não é a matéria que eu fiz e não vou gravar esse off. O 'diretor-editor afastado' voltou a coçar a cabeça (quanta coçeira...) e disse para mim: - Transforma em nota coberta. (Nota coberta é um texto mais curto, lido pelo apresentador e ilustrado pelo editor). Talvez tenha começado aí o martírio do nosso repórter. Ao lado dele ainda viveríamos outras histórias cabeludas, que vamos relembrar aos poucos. Se pudesse dar um conselho, diria para os postulantes à próxima eleição deixarem um instituto independente, de preferência estrangeiro, na manga. E fazer pressão para o voto vir impresso da urna. Caso contrário, não sei não...

Pessoal, recebi um telefonema do meu advogado hoje. Ele é um renomado especialista em direito constitucional. Perguntei se o tom o blog tava legal. Ele achou que está ótimo, mas se os comentaristas forem muito explícitos, teremos que adotar a filtragem de comentários. Ele explicou que já há precedentes na justiça para casos assim e alguns juizes entendem que a responsabilidade pelos comentários, principalmente dos que não se identifícam, é do gerente do blog. Portanto, comportem-se, porque o que está por vir é ainda melhor. Vamos a mais um capítulo da série faz de conta. Digamos que eu soubesse que aquela colega, que é mãe de um menino cujo pai já foi um dois mais importantes homens da República, fosse amicíssima daquele que apelidei de rainha da inglaterra - que toma café e passa a mão na cabeça dos funcionários, digo súditos. Digamos que fosse uma amizade muito antiga, daquelas que vem desde o início de carreira, passando pelas desilusões da vida pessoal e tudo. Sendo assim, digamos que ela conhecesse, como poucos, muito poucos, talvez só ela, o esgoto que corre nos subterrâneos do Jardim Botânico. Bingo! Aqui tenho que fazer uma pausa. Como acho que a vida pessoal de cada um é privada (sem alusão ao vaso sanitário) e que todos têm direito à ela (salvo em caso de crime hediondo, como pedofilia, abuso e violência doméstica, ou no exercício público de poder) acho que não seria justo, sabendo o que sei, mesmo que fosse de mentirinha, expor os colegas e esse grau de constrangimento. Mas o silêncio custa caro. Haja vista o preço que as organizações cobram por aí, não só pelos anúncios e cotas de patrocínio de cervejarias, bancos e montadoras de veículos, como cargos do primeiro escalão do governo, negociatas, socorro financeiro etc... Insisto, o maior problema dessas organizações é se livrar dos esqueletos, que ficam assombrando uns aos outros, anos e anos depois. A propósito, meu silêncio não custa nada, viu? Não sou o tipo de gente com as quais esses caras estão acostumados a se relacionar. Por isso, não precisam se preocupar comigo. Acho que eles já têm problemas demais pela frente.

21 outubro 2009

Parece que os leitores gostam mais de ficção do que de realidade.
Então, vamos voltar à série faz de conta. Digamos que eu contasse que, logo depois que foi exilada na península Ibérica, a soldo das organizações, nossa repórter, já com o rebento ao colo, atendia com alguma frequência aos telefonemas daquele que já ocupou importante posto da República e que, desiludida e desamparada, insistisse em afirmar: - Você arruinou a minha vida! Estou aqui, sozinha, sem poder viver a minha história, à sombra de um erro que você não quer admitir que cometeu. Isso não é justo! Isso não é justo! E se eu também contasse que o apartamento dela, na Capital Federal, foi usado antes dela ser despachada, portanto com sua generosa complacência, pelo mais importante vassalo da Corte do Cosme Velho, à época, para encontros amorosos com uma das mais belas Deputadas Federais, que era casada. E se lembrasse, ainda, que certa vez um jornalista, cujo pai - quando vivo - foi um dos principais 'formuladores' das teses do principal partido da oposição, convidou uma colega das organizações para jantar e a colega disse: - Posso levar uma amiga? Ele consentiu. E ela, por sua feita, resolveu levar mais um amigo, que por sua vez, era o tal em questão, que viria a assumir importante posto na República? Qual não foi o constrangimento do repórter, filho do figurão, ao dar de 'cara' com aquele que seria... Calma, tem mais! A exilada, hoje dá expediente no escritório internacional da 'firma', na Comunidade Européia. Certo dia, ela chegou para o chefe - uma espécie de embaixador da 'rainha' naquele país - só para lembrar, a rainha é aquela que toma café da manhã e passa a mão na cabeça dos súditos. Ela chegou para o chefe e pediu um dia de folga, porque teria um encontro com o pai do filho dela. O chefe não autorizou, salvo se ele fosse junto com a família dele (alegou interesse jornalístico, o cara era importante e coisa e tal). Ela argumentou que era uma reunião íntima, que não cabia visitas. Então, o chefe condicionou a folga à ida dele ao encontro e a - agora - produtora consentiu. O encontro se deu em clima amistoso, de confraternização. Mas o chefe resolveu rasgar o protocolo e, num gesto de pretensa intimidade com o convidado de honra, disparou: - O que está faltando para você assumir a paternidade desse menino? (continua)

18 outubro 2009

A rainha da inglaterra, os dois guardiões do guardião da doutrina da fé, no Rio de Janeiro, e o diretor de Belo Horizonte são velhos conhecidos. Fazem parte do que podemos chamar de: Confraria Maria Esther Bueno. Com todo o respeito à Maria Esther. É que 20 anos atrás, todos se encontravam, fora do expediente, para jogar, ou apenas assistir às partidas de tênis dos 'entendidos' no assunto. Lá, faziam uma análise conjuntural das organizações e da Corte do Cosme Velho. Contavam causos, falavam mal dos colegas e dividiam com os amigos suas aventuras com estagiárias e repórteres iniciantes. Claro que, muitas vezes, era conversa de pescador. A maioria ficava mesmo na vontade. Mas, como o que fazem com suas vidas privadas é problema deles, deixa pra lá... Diz a lenda, que num desses encontros, um ex-editor de texto - que foi afastado do principal telejornal da emissora por incompetência, anos depois - teria sugerido ao apresentador Cid Moreira que gravasse trechos da bíblia com seu vozeirão. Foi a libertação de Cid. Com a palavra sagrada, ele não precisou mais gravar aqueles textos chatos de vídeos institucionais, nem fazer um extra para complementar a renda já que, como disse antes, essa história de que as organizações pagam bem é balela. Para o ex-editor, talvez tenha sido a melhor idéia que teve na vida. Mas, como o vozeirão não era o dele, teve que se contentar em seguir longa carreira e ser premiado, por tempo de casa, conivência e cumplicidade. São as 'quedas para cima', como chamamos as promoções que o patrão é obrigado a dar, porque não tem mais como se livrar dele, nem das informações preciosas que guarda na memória (não lembra a máfia?). Portanto, agora, seu novo papel é servir de leão de chácara da Corte! Para ele é ótimo! Só abre e fecha a porta. O único problema é que fica do lado de fora, enquanto os comensais se divertem. Cada um tem o emprego que merece, não é mesmo?

- Você vai para Brasília. (De novo? Pensei, agora com ternos próprios, para os que estão acompanhando a história das sandálias e das roupas emprestadas). - José Serra deve anunciar na quarta-feira a chapa que vai disputar a eleição de 2002. A vice viria a ser a musa da Constituinte, a capixaba Rita Camata. O ex-ministro da saúde de FHC tinha passado um trator sobre a candidatura de Roseana Sarney, que decolava nas pesquisas de intenção de voto. Com o apoio da Polícia Federal republicana da época, foi possível rastrear uma doação ilegal de campanha (em espécie) de um empresário para o cofre do escritório do marido dela, Jorge Murad. Bastou apenas um mandado de busca, uma foto da grana e pronto! (Isso lembra até um enredo de 2006, não acham???) Assim, o escândalo sepultou as pretensões de José Sarney, de levar a filha preferida à presidência da República. (Talvez nesse contexto dê para entender melhor também porque Serra e a imprensa paulista, com o beneplácito da Corte do Cosme Velho tentaram rifar Sarney, antes que ele desembarcasse com o PMDB no colo de Dilma, no jantar da noite passada). Não quero dizer com isso que eu aceite Sarney e seus 'Sopranos', que é sempre bom lembrar, são sócios das organizações, no Maranhão). Ética, honestida e legalidade, não têm lado. Bom, lá estou eu circulando nas galerias lotadas de parlamentares, assessores e jornalistas, quando encontro o Kennedy Alencar - da Folha - e rapidamente trocamos um papo. O Kennedy foi meu colega na Metodista, em São Bernardo do Campo. Não nos víamos desde então. Juntos, participamos de uma mobilização, na faculdade, no fim dos anos 80, contra a aplicação incorreta do reajuste, nas mensalidades. Suspendemos o pagamento e ameaçamos com depósitos em juízo. A direção aceitou negociar com uma comissão. Não só substituímos o índice, como conseguimos também fazer o parcelamento do débito... Mas voltando à campanha, o anúncio foi num pequeno anfiteatro. Não havia outro lugar disponível naquele dia. O jeito foi se apertar. Enquanto isso, luzes se acendiam e se apagavam. Eram os repórteres de televisão fazendo entradas ao vivo e gravando passagens. Os outros falavam em pequenos gravadores e em celulares. Com um calor daqueles e quase uma hora de atraso (para desespero dos editores na redação), sai o anúncio. Minutos depois, o circo é desfeito, quase que instantaneamente. Embaixo do espelho d'água do prédio espero o motorista da emissora. Oportunidade para uma longa conversa com Fernando Rodrigues. O então repórter especial da Folha arriscou ser professor, assim que se formou. Ensinou a mim e ao Kennedy como dar os primeiros passos na profissão. Profissão que pode te levar longe, se tiver paixão. E, principalmente, estômago.

"O pessoal de Salvador tá avisando que o palanque do ACM caiu em Jequié!", (foto) gritou a competentíssima, Keyla Castro, jornalista que desempenhava a função de coordenadora de rede do telejornal tarde da noite. Era 8 de março de 2001. - Foi grave? Perguntei. - Parece que ele saiu ileso, Keyla respondeu. - Será que podemos dar? Perguntei aos chefes, em seguida. A pergunta era pertinente. Todo assunto que envolvesse algum político e empresário, ligado às organizações, era necessário consultar. Consulta feita, resposta dada. Podemos! Lá no íntimo sabia o quão importante era ter aquela imagem no ar, naquela noite. Ela tinha uma importância simbólica e histórica. Anteciparia a derrocada de um dos políticos mais influentes dos últimos 30 anos (período que inclui a ditadura militar). O senador estava enfraquecido. Sem o apoio de FHC, com quem estava rompido, resolveu comprar outra briga, com seu arquiinimigo, e então presidente do Senado, Jader Barbalho. ACM denunciara o paraense por envolvimento em fraudes e desvio de dinheiro público. Mas o que ACM não esperava, é que o Procurador da República no Distrito Federal, Luiz Francisco de Souza, vazasse a gravação da conversa aos repórteres da Revista Istoé. No diálogo, o senador baiano revelava conhecer como votavam os senadores. Era o escândalo do painel eletrônico de votação, no senado. Entre a queda do palanque e todo o desgaste que sofreu, até a renúncia, foram 83 dias de adrenalina pura na cobertura política. O 'vibrante' Jornal tarde da noite (áureos tempos...) passou a ser referência para políticos e para a classe média, formadora de opinião. Tudo o que o jornal antes da novela não dava, nós dávamos. E dávamos bem! O que muitas vezes obrigava o principal jornal da emissora a 'correr atrás', no dia seguinte. Nessa época, o guardião da doutrina da fé ainda engatinhava na emissora. Deu tempo para mostrar o apagar melancólico das luzes de um governo que teve tudo para ser grande, mas foi ficando cada vez menor... Acho que o vídeo tape da queda do palanque talvez tenha sido o mais emocionante que editei, em toda minha carreira. O texto era curto, lido pela apresentadora, Ana Paula Padrão. Repetíamos a imagem em câmera lenta e depois, o senador, num novo palanque improvisado numa marquise ao lado, dizendo: ''Eu caí e estou de pé. Os outros parecem que estão de pé, mas, na verdade, estão de cócoras, servindo aos interesses menores da nação.'' E pensar que, mesmo representando tudo o que sempre representou, ainda assim, ACM estava coberto de razão...

Quando meu filho mais velho era pequeno adorava brincar de faz de conta com ele. Brincar de faz de conta ajuda muito os adultos, quando não podem falar a verdade. Os jornalistas usam este tipo de expediente quando querem contar a verdade, mas sabem que, ao contá-la, podem desencadear reações proporcionais à 'octanagem da mistura'. Por isso, apelam para pseudônimos ou recusam-se a dizer os nomes dos personagens. No mundo dos adultos, alegar e não provar, é o mesmo que não alegar. E o ônus da prova cabe a quem acusa, salvo quando o juiz acata o direito de preservar o anonimato da fonte, o que nem sempre acontece, nos crimes de imprensa, ainda mais nos dias de hoje. Portanto, vou contar uma históra que todo mundo vai achar que é de mentirinha e não vai dar a menor 'bola'. E os personagens que se identificarem com ela não precisam nem confirmá-la, nem negá-la, já que é de mentirinha. Que tal? Vamos lá? Se você acredita em escutas ambientais, em espionagem e orelhudos, prepare-se. A talentosíssima repórter, uma das mais brilhantes que conheci, está no estacionamento de um prédio em Brasília. Um edifício funcional, desses cuja a garagem fica no térreo (foto). Quem conhece a arquitetura característica da Capital Federal sabe do que estou falando. Pois bem, um homem importante desce ao andar terreo onde se dá o encontro. Ele abraça a repórter e diz: - Está tudo acabado! Depois, chora copiosamente e é consolado pela interlocutora, que custa a acreditar que aquilo está acontecendo com ela. A mulher que o consola é amiga de outra, pela qual o homem chora. Conforme combinado, antes dele assumir o mais importante posto da República, a mulher por quem chora será exilada na península Ibérica. (Só quem passou por isso sabe como é rigoroso o inverno no exílio). No caso dela, ainda pior. Seguirá levando um filho dele na barriga. (Só quem já passou por uma gravidez solitária sabe como é difícil carregar tamanho peso). Dias depois, este importante homem embarcará para Paris, a cidade luz, onde terá a difícil tarefa de revelar tudo à mulher, com quem já não tem mais aquele fervor, no relacionamento conjugal. (Onde foi que nos perdemos? indagou a si próprio durante um período, até concluir que o crepúsculo conjugal era assim mesmo). Ao receber a notícia, a mulher surtou. Passado o transbordamento, num acesso de racionalidade e pragmatismo, típicos das mulheres, disse: - Eu o perdoo. Os destinos da pátria são mais importantes do que a sua canalhice. Mas quero deixar uma coisa bem clara. De agora em diante, não vou tolerar um mísero gesto de infidelidade sua. Pobre destino... Um grande homem aprisionado por uma tentação mundana e avassaladora. No dia seguinte ao acontecido, a mulher é fotografada ao lado dele com o braço enfaixado. O que teria se seguido? Oficialmente, um acidente doméstico. Extra-oficialmente, consequência de um porre, digno de uma mulher desiludida. Uma dor tão intensa, que seguiu com eles por toda a vida. Historias assim podem nos ajudar a entender melhor a dimensão da existência humana e os interesses que suplantam os ideais de uma nação. E pelos quais muitas organizações são capazes de vender caro o seu silêncio. Este amargo veneno é o que podemos chamar de 'poder paralelo'. E não funciona no Morro dos Macacos.

17 outubro 2009

A Corte do Cosme velho tem um vassalo em Brasília que, apesar de jornalista, não precisa dar expediente formal na redação. É ele quem comanda os voos das organizações no Plano Piloto, há mais de 30 anos! Com as idas e vindas. Circula com desenvoltura pelos principais ministérios, palácios e gabinetes. Quando, de quatro em quatro anos, as eleições renovam os quadros, ele mais uma vez entra em cena. Age sempre com discrição. Por ser um veterano de guerra, conhece como ninguém o terreno: as mansões, seus anfitriões e suas festas. Também sabe distinguir quem são os tipos que giram naquela órbita e o que querem. Seu trabalho é descobrir formas de 'sensibilizar' os agentes públicos, em prol de interesses privados. Sabe, mas não conta, quem é sério e quem não é. E entre os que não são, quem está sendo explorado pela amante, quem está sendo extorquido pela ex-amante, quem perdeu a mulher, quem perdeu o controle dos gastos, enfim, quem se perdeu nas longas e retas avenidas do planalto central. Como repórter de polícia e política que foi, no início de carreira, aprendeu cedo onde as duas 'editorias' se encontram. Foi um importante 'ator' no processo de abertura, lenta e gradual, como queriam os militares. E, assim, abriu caminho para por a política na agenda dos telejornais da corporação, sempre ao gosto do que o patrão queria informar, é claro. Estabeleceu um padrão, que pode ser resumido assim: Os repórteres ficam lá fora, enquanto nós preparamos as notícias 'aqui' dentro. Durante a crise do mensalão foi possível ver bem de perto como funciona a 'máquina' que ele construiu. Fui escalado para ajudar os editores, exaustos com tão extensa, desequilibrada e desproporcional cobertura. Cheguei para ficar uma semana e fiquei duas. Me apresentava às onze da manhã e só voltava para o hotel depois de meia-noite. Meu 'estágio' lá incluiu assistir quase na íntegra o depoimento de Daniel Dantas à CPI. Misteriosamente, depois disso, a cobertura começou a fazer água. Naquela ocasião, percebi bem como as notícias nascem e ganham a ampla cobertura da imprensa. E vi quanta gente leva a sério um ofício, que nada mais é do que um grande teatro, em que o interesse público nunca está em jogo. Oportunamente voltaremos ao assunto.

Ela sempre foi considerada uma gata. Mas nos conhecemos às cinco da manhã, no início dos anos 2000. Convenhamos que é difícil sair da cama linda e maravilhosa, como a gente vê na TV. Leilane Neubarth gentilmente passou no hotel em Ipanema para nos buscar. Estávamos, a talentosa e inicianete repórter Elaine Bast, e eu, hospedados no Rio, a convite do editor-chefe do jornal cedo da manhã. Mônica Waldvogel se incorporaria ao grupo, dias depois. Éramos prestigiadíssimos, porque formávamos um grande time. Nossa participação no jornal aumentava a cada dia e enchia de orgulho os chefes, no Rio, e a direção de jornalismo, em São Paulo. Num dos dias fomos comer massas e tomar cervejas belgas num pequeno restaurante, no Jardim Botânico, o Caroline Café. No outro, um almoço em grande estilo no Garcia & Rodrigues, com direito a vinhos da adega climatizada. E tudo por conta do chefe. Acho que nosso diretor ficou até meio enciumado, porque - de passagem pelo Rio - também decidiu nos levar para jantar num japonês, pertinho do hotel, o Madame Butterly (panquequinhas de pato com shiitake e shimeji, com molho cremoso de laranja). O tratamento vip era merecido, afinal, não era fácil acordar às 3h30 da manhã para preparar a participação de São Paulo no jornal chique que, diz a lenda, era o preferido do Imperador do Cosme Velho e de seu mais valioso vassalo. Tempos depois, recebi estupefato a notícia de que Leilane e o editor-chefe tinham protagonizado um bafon daqueles, com trocas de acusações impublicáveis. Quem sabe um dia me animo a apurar e contar essa história direito, nos mínimos detalhes. Lembrei-me da Leilane porque ela vai estrear no canal fechado de notícias da emissora, a partir da próxima segunda-feira. Depois da briga ela foi para a geladeira (ficou no jornalismo local). Gosto dela. É alto astral, alegre, elegante e divertida. Desejo boa sorte à colega. Acho que a decisão da empresa é uma reação aos competidores, que têm dado bastante trabalho, tanto na TV aberta, quanto na fechada, principalmente no Rio.

16 outubro 2009

A repórter - com apenas dois meses de casa - chega ofegante. É recebida numa sala da redação do Rio, pelo guardião da doutrina da fé. Eles se fecham. Apenas outros dois chefes entram e saem durante o encontro. Enquanto conta tudo o que sabe ao diretor, chamam a atenção dela a apatia e a insensibilidade do interlocutor. Normais, não fosse o trágico relato. Primeiro, os bandidos cortaram as pernas, com uma espada de samurai. Depois, os braços. Aí colocaram a vítima mutilada - já inconsciente - de cabeça para baixo num latão. Os pneus de caminhão, embebidos em gasolina, foram empilhados. Bastava apenas o fogo e tudo lá dentro viraria cinzas, em questão de minutos. Não haveriam restos mortais. Era o que os traficantes chamavam de microondas. Este foi o teor explosivo do depoimento do primeiro homem preso, acusado de pertencer ao bando de Elias Maluco, que capturou, torturou e executou Arcanjo Lopes, o Tim, de 51 anos, em 2002. Um dos melhores produtores e repórteres que a emissora já teve. O delegado tinha feito um acordo de exclusividade com a repórter da emissora, que se faria passar por advogada de defesa. Ela não só interrogou o preso, como teve acesso à cópia do interrogatório, à foto do criminoso e ao endereço e telefone da mãe dele. O diretor apenas perguntou: - Ele disse que foi por causa da 'Feira das Drogas'? - Sim, respondeu a repórter. - Mas ele citou a reportagem? Insistiu. E ela mais uma vez respondeu: - Citou. Ele puxou o zíper da jaqueta estilo safari, respirou fundo e agradeceu. A 'Feira das Drogas' foi uma reportagem que Tim fizera um ano antes e que o tirou do anonimato. Foi vencedora do prêmio Esso especial de jornalismo, em 2001. Tim subiu ao palco para receber o prêmio e sua imagem foi exibida para todo o Brasil, no horário nobre. Naquela noite, Elias Maluco teria sentenciado: - Aquele mané vai morrer. Quando Tim saiu da redação de bermuda, sandálias e uma velha camisa amarela no dia dois de junho de 2002, seu destino já estava traçado. Levava a micro câmera escondida na pochete. Queria mostrar como os traficantes aliciavam, seduziam e, muitas vezes, estupravam menores de idade em bailes funk, na favela da Vila Cruzeiro, no Complexo do Alemão. Claro que a repórter teve que ceder todo material inédito a um repórter 'especial de rede'. O texto foi editado com todo o cuidado. A emissora não podia se comprometer. A repórter amedrontada, silenciou. Passou a ser assediada nos corredores da emissora e escoltada, nas ruas da cidade. Tempos depois, recebeu a intimação. Ficaria frente a frente com o algoz de Tim. Seria uma das testemunhas de acusação, no juri popular de Elias Maluco. Prêmio ou castigo?

15 outubro 2009

"Você vai para Brasília", disse a editora-chefe do telejornal tarde da noite, no início dos anos 2000. "Vamos fazer um almoço lá com a equipe para planejar nossa cobertura e estreitar nosso relacionamento (eu era o editor de política). Quero que você aproveite e fique uns dias. Vá ao Congresso, circule um pouco, faça contatos. E lembre-se, o traje lá é social, viu? Embarcamos bem cedo, portanto, não vá perder a hora, tá?" Daquele momento em diante, começava minha corrida... Atrás de roupa. Para quem está acompanhando o blog, sabe que havia pouco tempo tinha aposentado as sandálias e as camisetas. Nunca fui muito afeito a trajes sociais. No início dos anos 80 fazia o estilo 'dark' e nos noventa o que jocosamente chamam de 'bicho grilo'. Mas fui à luta! O Leandro, coordenador do jornal, disse que tinha dois ternos de grife para me emprestar. Com corte moderno, coisa e tal. Consegui outro, se não me engano, com o meu cunhado, de quem aproveitei também as camisas e as gravatas. O sapato preto foi comprado num hipermercado, de véspera! E lá estava eu, na porta do Aeroporto de Congonhas cedinho. "Tá alinhado, heim? Disse a chefe, sem perceber 'o tamanho dos defuntos'. Ao chegar à sede da emissora, aquela sensação de 'peixe fora do aquário'. À exceção dos repórteres, só eu de terno. E um calor de quase 40 graus lá fora. Depois do almoço protocolar e da troca de afagos e elogios, de parte a parte, voltamos para a redação, onde passamos a tarde conversando com o então diretor de jornalismo e comentarista do jornal, Franklin Martins. Franklin não poderia ter sido um anfitrião melhor. Nosso primeiro compromisso foi no Congresso Nacional. Vivíamos o apagar das luzes do Governo FHC. O senado estava em pé de guerra; primeiro com o escândalo da violação do painel, que culminou no choro da senadora Heloísa Helena na tribuna e nas renúncias do hoje Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (PSDB), e do ex-presidente da casa, o baiano Antonio Carlos Magalhães (PFL) e, em seguida, pelas denúncias e bate-bocas que forçaram o paraense Jader Barbalho (PMDB) a também abandonar a presidência da casa. Coube ao matogrossente Ramez Tebet (PMDB) tentar por ordem naquela bagunça. Na Câmara, quem dava as cartas era o atual Governador de Minas, Aécio Neves. Ao lado de Franklin visitei gabinetes e salões do poder. Vi bem de perto como são promíscuas as relações entre parlamentares e boa parte da imprensa 'do entorno'. Conversamos com políticos e assessores. E ouvi atentamente as lições daquele homem enorme de grande (quase dois metros de altura) e ao mesmo tempo, tão gentil, discreto e influente. Uma das recomendações eu não esqueci: "Para um jornalista trabalhar bem em Brasília é preciso manter distância dos políticos. Evitar intimidade, festas e convescotes. Eles nunca serão seus amigos!"

Quando trabalhou no Jornal do Brasil (de 89 a 97 do século passado!) e ascendeu, como um foguete, graças ao talento e estilo, ele era tão somente o repórter Jorgemar Soares Felix, o Jorgemar mesmo, nascido e crescido no subúrbio, não na zona sul carioca. Mas foi chegar à emissora, o principal vassalo da Corte do Cosme Velho foi logo avisando: - Você vai ter que mudar o cabelo, use gel; botar um par de óculos, para dar mais credibilidade; e mudar de nome. - Como assim, mudar de nome? pensou Jorgemar... Mas a força do império era maior do que o nome do repórter. E, assim, Jorgemar virou Jorge. Para quem tinha - e tem até hoje - tanta familiaridade com o teatro, viver outro papel não foi difícil. Aliás, foi até fácil demais. Em apenas dois anos, Jorge virou uma grife do jornal cedo da manhã. Conquistou respeito e admiração de jornalistas importantes, como a toda-poderosa do jornal tarde da noite, Lilian Witte Fibe. Só que Jorgemar descobriu cedo demais os sortilégios do circo eletrônico e resolveu migrar. Fez carreira como executivo de TV Pública, publisher de Editora, colaborador de jornais impressos e na Internet e, hoje, é editor-executivo da revista Istoé. Aproveitou para se reciclar e virou mestre em economia política pela PUC de São Paulo. Mas o que ele gosta mesmo de fazer é escrever para o teatro. Jofe, como é conhecido pelos mais íntimos, já tem três peças escritas e publicadas: Loucas Faculdades Mentais, de 87, A boca que nos devora, de 2003, e uma mulher de vestido preto, de 2009. Jofe é um dos tantos talentos que a emissora desperdiçou ao longo dos anos e uma prova viva de que existe (e como) vida mais inteligente DoLaDoDeCá. Quando fui demitido sem justa causa, em 2006 (mas por uma causa mais do que justa, como gosta de ressaltar minha mulher), encontrei o Carlos Dorneles refugiado no mezzanino do telejornal rural, na redação de São Paulo. Na ocasião, Dodô, como os mais íntimos o chamam com carinho, disse para mim: - Talvez você não perceba isso agora, no calor dos acontecimentos, mas o que eles fizeram com você foi colar uma medalha do seu peito. Você sai maior do que entrou! Hoje, não tenho dúvida nenhuma disso! E acho que o Jofe também não. A propósito, reencontrei Carlos Dorneles pouco tempo depois e hoje continuamos a fazer o mesmo trabalho juntos, com mais liberdade, mais felicidade e o que é melhor, mais bem remunerados.

14 outubro 2009

"Os trabalhadores rurais sem-terra acabam de invadir uma propriedade no Pontal do Paranapanema", gritou um dos produtores da emissora, que ainda hoje captura a atenção de 3, dos 5 brasileiros que têm TV no país. Era abril de 2001. (O Abril Vermelho) Imediatamente, a editora-chefe encomendou uma nota para mim. Liguei para a 'praça', para apurar a notícia. Não teríamos imagens, porque o local era distante demais da emissora daquela região. Quanto aos fatos, sabíamos apenas que não houve uso da força e não havia ninguém na área, apenas um bosque e um enorme pasto, sem uso. O MST informava que tratava-se, não de invasão, mas de ocupação da área, que pertencia à União, era terra devoluta. Devoluta? Lá fui eu ao dicionário pesquisar direito o que era isso. Descobri que o termo derivava de uma lei de D. Pedro II, de 1850. Eram as terras devolvidas ao Reino de Portugal, caso não se tornassem produtivas no prazo de seis anos. Atualmente, a terra é considerada devoluta quando é possível comprovar que não é registrada, nem possuída por ninguém e está desabitada. Escrevi a nota dizendo mais ou menos isso (em trinta segundos!). No dia seguinte havia uma determinação do Rio (nunca dizem quem determinou, mas instintivamente a gente sabe...). A ordem era para que, a partir daquele dia, tratássemos as ações do MST de forma padronizada. No lugar de ocupação, teríamos que grafar invasão. Não falaríamos em 'terras devolutas, porque o povão não entenderia'. E acompanharíamos a decisão da justiça sobre a reintegração, ou não, da posse. Era um ponto de inflexão, se é que me permitem a licença poética. Aos poucos, e sem alarde, estávamos criminalizando um dos mais legítimos movimentos reivindicatórios da história do país. Aquele que, em 1996/97 marchou para Brasília e à força incluiu o tema na pauta do Governo de plantão. Hoje, quem diria, até o Kotscho faz coro contra os sem-terra. Ele se esquece dos 'provocadores', dos 'infiltrados', dos 'policiais à serviço dos grileiros', das 'demandas sociais de outros excluídos', que encontram refúgio no MST e, às vezes, excedem. Mas, mais do que isso, Kotscho se esquece do saldo de 1600 mortos em conflitos agrários. Que mundo é possível, vendo a realidade por lentes assim. Sinceramente, eu não sei...

13 outubro 2009

Alguns editores de texto, com o passar do tempo, são convidados a dar plantão no balneário do Rio de Janeiro. É uma espécie de mimo, uma deferência. Você sai no Sábado de manhã, pega a ponte aérea São Paulo-Rio e desembarca preferencialmente no aeroporto Santos Dumond. A empresa te dá uma verba de diária (suficiente para cobrir transportes e refeições, sem extravagâncias) e te hospeda a uma quadra da praia de Ipanema. No domingo, antes de voltar para casa, dá para passear no calçadão e até pegar praia, quando o dia ajuda. Muitos colegas se encantam com este 'Grand Monde'. A paisagem de cartão postal, as celebridades, o charme da zona sul carioca. E não é só. É a possibilidade de conhecer a turma da linha de frente do telejornal da hora do jantar, com quem passamos anos apenas conversando por telefone e perguntando, quem será 'o dono da voz'? E de, ainda, acumular milhas para gastar nas férias e cultivar amizades que, no futuro, podem levar ao desfrute de uma ou outra festa na casa de um famoso. Plantão no Reveillon é disputado à tapa. Carnaval, então, nem se fale. Em janeiro, o programa preferido é ver ensaios nas quadras das escolas de samba. Principalmente para os solteiros, 'a vida até parece uma festa.' Certa vez uma colega, que desempenhava a função de coordenadora, perguntou à equipe quem gostaria de dar plantão no Rio? Perguntei: - É obrigatório? Ela respondeu: - Obrigatório não é, mas é bom para você (por todas as razões sedutoras das quais falei antes). Aí eu disse: - Bom, se não é obrigatório, prefiro dar plantão em São Paulo. Uma das colegas não acreditou: - Como assim, você prefere dar plantão em São Paulo? Respondi: - Claro. Dormir em casa e acordar com a família, não tem preço. E depois tem outra, gosto do Rio para passear, não para trabalhar. Quando tenho vontade, compro a passagem e vou. Não disse a elas, mas por trás da minha recusa há uma visão muito particular sobre essas políticas de recursos humanos, que fazem com que o 'peão tenha um dia de patrão'. É sedutor viajar de avião, acordar num hotel bacana, andar de taxi e conhecer pessoas importantes e famosas, não há dúvidas. Mas é uma grande ilusão, parecida com a do circo eletrônico, que é a televisão. Você pode até conhecer o mestre de cerimônias, o trapezista, o domador de leões, até sonhar com a bailarina... mas quando o espetáculo acaba, a lona vai ao chão e somos quem sempre fomos. Por tudo isso, sempre preferi a minha parte em dinheiro. Simples assim.

12 outubro 2009

A Maria Manso fez beicinho. Reclamou que eu não falei de nenhuma qualidade do repórter. Respondi a ela que esta categoria merece um texto à parte. O repórter queridão é aquele que, aqui na cozinha, chamamos de 'repórter amigo do editor'. Você o conhece ao correr a fita (hoje fala-se mídia), quando vai editar o primeiro vt. Ele não faz firula, é franco com o entrevistado, tem foco, é objetivo, não anda em círculos. Normalmente tem bom relacionamento com a equipe na rua e com a pessoas em geral. É atencioso e educado. Não faz escândalos nem coloca as pessoas em situação de inferioridade. E têm uma qualidade que é a mais importante: humildade para perguntar o óbvio. O óbvio é aquilo que a grande maioria quer saber. Quem fez, como foi, por quê. Quando a equipe vai para a rua, normalmente sabe o que houve, aonde foi e quando aconteceu. E vai confirmar se aquilo que chegou à redação é verdadeiro. De volta à redação, é preciso contar a história da maneira mais simples e o mais objetiva possível e não ceder à tentação de aparecer mais do que o fato. A notícia gosta de bermuda, camiseta e chinelo de dedo. Seja ela do mundo real, ou do mundo das celebridades. É claro que há repórteres que têm um talento nato para contar uma história com um tempero a mais. Esses acabam - com o tempo - reconhecidos do grande público. O perigo é ceder à tentação da imagem que acham que têm e que os desvia da imagem que têm de fato. A televisão é ardilosa, infelizmente. Trabalhei com grandes repórteres e tenho a sorte de continuar trabalhando ainda hoje com alguns deles. Não fosse isso, acho que não teria suportado todas as decepções que passei ao longo de 15 anos de telejornalismo diário. Nesta turma de 'repórteres amigos dos editores' tem os divertidos, descontraídos, bem-humorados, elegantes, discretos, carinhosos e amigos. Há repórteres que quando entram, sem pedir, pela telinha de casa, trazem mais do que notícias, trazem um sentido para a vida das pessoas. Infelizmente, temos que admitir, a Maria e eu, que o jornalismo entrou em crise. Muitos talentos deixaram e continuam deixando a televisão. E a centralização na confecção do noticiário sufocou os novos talentos. Assim, o telespectador fica com a sensação de que, em todos os canais, é tudo muito parecido. Muda apresentador e cenário, mas o cardápio é igual e o desfile de repórteres todos tão arrumadinhos - iguais - também. Deus salve as exceções!

Todo mundo pensa que é fácil ser editor do telejornal que foi hegemônico nos últimos 40 anos. Principalmente os colegas de função. Eles acham que somos privilegiados, porque editamos apenas uma reportagem por dia, sempre com as grandes estrelas. Costumava responder assim: - Você só vê as pingas que tomo, mas não os tombos que levo. Fiquei na linha de frente do principal telejornal da emissora por quatro anos. Trabalhei com quase todos os repórteres consagrados de São Paulo e posso afirmar: Não é fácil! A cobrança é enorme, para um salário que não corresponde ao tamanho da responsabilidade. Como disse antes, a história de que a emissora paga bem é um mito. Os salários são muito parecidos com os das outras e, em vários casos, até menores. Eles abusam do efeito-vitrine (para repórteres e apresentadores) e do efeito-crachá (para os peões, no chão de fábrica). Lembram-se do personagem Bozó, do Chico Anysio? Pois é... Entre as estrelas, há de tudo. Infelizmente, nem todos são bem resolvidos, brilhantes e admiráveis como parecem ser na telinha. Alguns tipos chegam a ser assustadores profissionalmente: O que aumenta, o que inventa, o que planta, o que combina a resposta com o entrevistado e, até, o que mente (mentirinha, mas mente). Há também o repórter que não gosta mais de trabalhar, porque acha que sua ficha corrida justifica o salário, apenas para ele ficar em casa. Contraditóriamente, ele também sabe que, se ficar muito tempo sem aparecer, começa a sofrer de síndrome de abstinência. Assim, em pouco tempo está de volta. Com um mau humor daqueles... Há um outro tipo comum, o que gosta que os outros trabalhem para ele. Curiosamente, estes costumam ser mais explícitos, portanto mais honestos. Ao contrário, há o que prefere trabalhar sozinho, muitas vezes não por ser antipático, apenas porque é mais fácil - para ele. Agora, tem um tipo que, para atingir em cheio a ansiedade dos outros, é cruel. Enrola a tarde inteira e deixa para resolver tudo na última hora. Acha que 'salva o texto na entonação'. Mas há um tipo insuportável. Aquele que se acha mais generalista do que os outros generalistas (afinal é o que todos somos). Ele volta da rua doutor "honoris causa" na pauta que está cobrindo. Além deste, há também o tipo que adora esbanjar conhecimento, age como se fosse um intelectual, mas é incapaz de escrever um texto de um minuto, com alguma coerência. Vez ou outra aparece também o tipo que chega da rua morrendo de vontade de ir embora. E, às vezes, é chamado de volta. E o que é pior, volta. Há um que é recorrente, o que sempre acha a pauta um lixo, o produtor um despreparado e o editor um chato. Do ponto-de-vista dele, não deixa de ser verdade. Afinal, apenas refletimos a imagem que ele projeta nos outros. Há também os tipos clássicos: o puxa-saco, o em licença-médica, o derrubador de pauta... Derrubar pauta é uma fria, porque ela sempre se volta contra você, costumava dizer um dos colegas. E volta pior, garanto! Apesar de tudo isso, são gente, como a gente, e conviver - com qualquer um - é mesmo difícil. O que realiza a gente - diante de todos os defeitos e qualidades, que todos temos - é encontrar um caminho para realizar o trabalho coletivo. E a satisfação de, com o tempo, ter cultivado o respeito e admiração dos colegas. Isso é gratificante.

11 outubro 2009

Quase todo mundo que vê uma reportagem de televisão, ainda hoje, acha que um repórter bem informado foi a campo e trouxe aquela história pronta. Não é assim que funciona. Uma equipe de televisão tem repórter, cinegrafista e auxiliar, quando tem este último. Tem um carro que os transporta mais o equipamento (câmera, bateiras, kit de iluminação e microfones). É uma operação que demanda tempo e dinheiro, portanto, planejamento. À exceção do factual (um incêndio, por exemplo), tudo sai da redação planejado previamente (pauta). Em uma reunião cedo o chefe de redação e o editor-chefe, o editor-executivo, o chefe de reportagem e os produtores definem o jornal. Uma equipe vai fazer uma matéria de economia, outra de trânsito, assim por diante. É nessa hora que e possível manipular a informação. Como? Dá para definir que tipo de matéria será (a favor ou contra), que tipo de entrevistado terá (amigo ou inimigo), qual será a tese e se terá ou não contraditório. Quando os editores chegam, no começo da tarde, uma outra reunião acontece. Nela é que são disitribuídos os temas e, se há abertura, discutido o encaminhamento. O que tem acontecido, para dar mais dinamismo à produção, é já trazer o 'prato proto', o que reduz muito a participação intelectual do editor e sua capacidade de interferir no conteúdo. Ainda assim, é possível argumentar a respeito da 'tese' pré-concebida e discutir um novo encaminhamento com o repórter na rua, caso a reportagem ainda esteja em produção. Portanto, em televisão a produção da notícia está diluída e depende do trabalho de muitas mãos. Por isso, perseguir os ideais da profissão, como: equilíbrio, isenção e imparcialidade... torna-se uma tarefa quase impossível. Disse quase. Estar sempre bem informado, ter boa capacidade de análise e diálogo, ter experiência e ser rápido, são qualidades que ajudam muito o trabalho do editor. Discutir o futuro do telejornalismo, em crise há alguns anos, passa necessariamente por experiementar novos modelos de produção de noticiário, o que esbarra, quase sempre, numa disputa mesquinha por poder. Sem nos esquecer que, no topo da pirâmide está o patrão, fazendo valer seus interesses particulares. Não é um desafio fácil!

09 outubro 2009

Fiquei devendo o novo organograma das organizações. Vamos lá. Para quem está acompanhado, comecei desnudando a rainha da inglaterra e levantei também a batina do guardião da doutrina da fé. Abaixo deles, duas novas figuras ganharam evidência nos últimos tempos. São dois guardiões do guardião. Um é ex-diretor de jornalismo em São Paulo e o outro no Rio de Janeiro. Ambos são adeptos, há muitos anos, da prática do: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo." São o que podemos chamar de fiéis cães de guarda. A partir de agora, vão servir de escudo e tentar oferecer blindagem ao homem que tem por papel defender os interesses do patrão no negócio. Ambos são funcionários de carreira, o que significa que já foram submetidos aos mais diversos testes de fidelidade. Tendo estes dois homens na linha de tiro, o guardião e a Corte do Cosme Velho esperam não sofrer tanto as consequências, caso o projeto político fracasse, como em 2006. Depois do escândalo da tentativa de manipulação da cobertura eletoral, o operador do esquema foi lançado ao mar. Para resgatá-lo, o então diretor de jornalismo de São Paulo (um dos novos guardiões) e o editor-chefe do principal telejornal da casa tiveram uma idéia 'brilhante'. Lançaram um abaixo-assinado em que os jornalistas defendiam a cobertura. Foram muitas adesões, algumas entusiasmadas. Dizem que o beneficiário até chorou... O fato é que, como disse um colega naquela ocasião, "colocaram os guizos nos gatos." Assim, mapearam a redação e, aos poucos, começaram a faxina. Mas não é este o meu ponto agora. Meu ponto é que haverá dois novos operadores em cena que farão a interface entre a vontade do patrão e os diretores das quatro redações mais importantes do país: São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Os diretores em cada local foram escolhidos especialmente para o novo desafio. São todos velhos conhecidos e bons camaradas. Com o jornalismo de 'nicho', também ficou mais fácil controlar o conteúdo. E o editor-chefe do telejornal mais importante do país é prata da casa. Portanto, depois de tantos exercícios de ordem unida não há riscos de falta de coesão, obediência e espírito de corpo; síntese da disciplina militar. Só que eles mesmos armaram o inimigo que agora conhece, como poucos, a estratégia de ação. Vai ser uma delícia de assistir DoLaDoDeCá.

08 outubro 2009

A segunda etapa da operação desmonte consistiu em promover um 'choque de gestão' na praça São Paulo. Praça? Para o Rio de Janeiro, São Paulo é uma praça, pode? Pois então, a idéia foi aprofundar o fosso entre o jornalismo local e o jornalismo de rede, reduzindo a participação de São Paulo nos telejornais mais importantes. Criou-se uma espécie de telejornalismo de nicho (isso mesmo, nicho, com 'n', de navio). Aquele telejornal que vai ao ar cedo, pela manhã, passou a falar para a 'elite branca' das zonas sul, do balneário e da metrópole. O da hora do almoço, passou a falar para a dona de casa desatenta, enquanto arruma a cozinha, e para a vovó, que tricota e cochila (não necesariamente nessa ordem) na cadeira de balanço da sala, enquanto espera para ver se 'vale a pena ver de novo'. O jornal tarde da noite passou a se corresponder com o empresário e empreendedor notívago e com os predadores em potencial. Sobrou, portanto, o jornal que vem antes da novela, para atender aos interesses cada vez mais explícitos da Corte do Cosme Velho, representada pela astúcia do guardião da doutrina da fé (por enquanto). O choque de gestão significou também cortes nos custos. E os gestores passaram a ser premiados ao cumprirem com afinco suas metas de ganhos de produtividade (produtividade dos colegas, é claro). Funciona assim: A cada semestre, se o gestor daquela central de custos consegue ficar 'abaixo do orçado em despezas', o contra-cheque dele vem mais polpudo. Criou-se com isso a figura do 'jornalista que virou suco'. O próprio colega é quem espreme... Triste, não? O modelo foi se sofisticando ao longo dos anos, com a perda sucessiva do padrão de qualidade. Alguns figurões foram premiados por bons serviços e preservados. Muitos correram para os programas semanais, especiais, etc... E a maioria dos peões, como não tinha para onde correr, teve que aceitar o 'silêncio obsequioso' imposto pela nova doutrina. A idéia foi ficar menor e mais coeso. É uma escolha. Que vai ser posta à prova, mais uma vez, quando 2010 chegar. Os operadores do esquema rezam, todos virados para Meca, porque se não der certo... (Na foto temos Ratzinger no muro das lamentações, em Jerusalem)

Até o início do século XXI, trabalhar num escritório internacional era uma celebração. Dinheiro não faltava. O impossível não existia. Bastavam passagens aéreas, reservas, um fato relevante ou uma boa idéia (normalmente pinçada de reportagens dos jornais impressos - o que induz a achar que bastava ler e compreender o que se lia) e pronto! A revista de domingo trazia reportagens enormes e os correspondentes brilhavam nos telejornais da rede. Mas como todo banquete, uma hora o fim chega... E chegou. Na forma de 'choque de gestão', que impôs limites orçamentários à farra. E, assim, neste novo e inteligente modelo de negócio, a qualidade e competência dos profissionais aos poucos também foram minguando. A primeira fase, romântica, deixou muitas histórias curiosas. Uma é lendária. A do repórter que cobriria um evento recorrente e - como era recorrente - resolveu antecipar a folga e 'recorrer' ao texto do ano anterior. Claro que não deu certo e ele foi desmascarado. Ainda assim, até recentemente o sujeito ocupava cargos importantes por aí. É a maldição daqueles que sabem demais. Depois fica difícil se livrar da incompetência deles. É o tal do abraço de afogado, 'manja'? Há outra boa, a do repórter que copiou o texto de outro para fazer uma versão para o telejornal do dia seguinte e o colega descobriu. É cada uma... Há, é claro, os famosos bate-bocas envolvendo figurões, em disputas por grandes coberturas, que podemos contar também, qualquer hora dessas. Mas o meu ponto é outro. Hoje, convite para trabalhar no exterior virou quase um insulto. Recentemente, um repórter daquela emissora foi convidado para ser correspondente num país da América do Sul e descobriu que, com o salário que ganharia, teria vida pior do que leva no Brasil. Pagar para morar fora também já é demais, não acham? Outro, recebeu um ultimato para 'servir' na base do Oriente Médio. Ele não teve escolha. Era ir, ou ir. Naquele tempo, já tão distante, as imagens eram feitas pelos cinegrafistas da emissora. Hoje, basta descer o elevador e gravar um 'stand up'. O restante é fornecido pelas agências de notícias, são os feeds (atualizações), com o viés ideológico do fornecedor, é claro. Por esta razão é que - muitas vezes - é tão fácil relatar um fato na Califórnia, mesmo com o repórter em Nova Iorque (do outro lado do continente, um mero detalhe...). Isso, quando se trata do mesmo país. Ultimamente é cada vez mais comum também 'amarrar' nos Estados Unidos um assunto do outro lado do mundo. Tempos difíceis para 'bravos' repórteres. E pensar que, ainda assim, há fila para ocupar um posto desses.

07 outubro 2009

A monarquia pseudo-parlamentarista do Jardim Botânico... (bonus track no Central Park). A 'operação desmonte' no telejornalismo da emissora de São Paulo começou na América. Logo depois que Evandro Carlos morreu, o guardião da doutrina da fé tomou de assalto o telejornalismo da emissora e passou a dividir o poder com a rainha da Inglaterra. A primeira providência que a dupla tomou foi decretar o exílio involuntário do talentoso e jovem diretor de jornalismo de São Paulo. Ele foi encostado no escritório das organizações, nos Estados Unidos, para uma função até então desconhecida: gestão de novos projetos. O que parecia ser o fim, foi apenas o recomeço. Recém casado com uma jovem e promissora apresentadora, ambos estavam decididos a transformar a crise em oportunidade. Descobriram como é bom viver sem pressões e cobranças e se lançaram a novos desafios pessoais e profissionais. Ela decidiu se aperfeçoar e ele resolveu mergulhar com aplicação na nova fase. Assumiu os negócios da corporação, passou a promover o licenciamento da marca no exterior, lançou um programa na TV a cabo dedicado aos 'brazucas' - que se transformou em 'hit' - e aproveitou um evento tradicional (mas modesto) da 'Big Apple' num grande espetáculo: O Brazilian Day. Assim, nasceu um novo executivo, que anos depois voltaria para Rio de Janeiro, com assento no conselho das organizações e com talvez mais poder e influência do que teve antes. Hoje, sua imagem ainda paira sobre o antigo departamento, como um espectro incômodo e ameaçador, principalmente para os que sempre o hostilizaram. Mas, antes de me aprofundar no tema, fiquei devendo um capítulo sobre o organograma das organizações... Sinal de que novos bônus estão a caminho.

Alguns colegas, sobretudo os estudantes, me perguntam se sou movido por rancor. Como diria Shakespeare, "guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra." Quando fui demitido sem justa causa (mas por uma causa mais do que justa, lembra minha mulher...) podia ter procurado a imprensa, que naquela altura estava louca por um escândalo envolvendo as organizações. Guardei dois anos de silêncio absoluto. Não falei sobre as circunstâncias, nem sobre o que teria motivado minha saída. Esperei passar o turbilhão. Poupei a mim e a minha família. Afinal de contas, minha mulher estava grávida de sete meses e já tínhamos perdido uma gravidez anterior. Agi como Armínio Franga, quando deixou o Banco Central (fiz quarentena). Desta maneira conseguimos suplantar a dor e o rancor. Armínio virou consultor e banqueiro, eu prefiro oferecer meus préstimos de graça. Outra pergunta que sempre me fazem é: Por que não cito determinados nomes? É porque os nomes não são importantes. O que importa é a lógica, a estrutura. Os nomes são facilmente substituidos, quando os patrões quiserem. A propósito, os nomes envolvidos nos mais diversos desvios do exercício da profissão serão punidos pela própria história, que fará questão de ignorá-los amanhã. Não sou eu quem tem que fazer justiça. Se o fizesse, aí sim, estaria sendo movido por rancor e vingança. Outro dia falei sobre um colega que foi diretor de jornalismo em São Paulo. Um dos visitantes aproveitou o espaço de comentários para informar o nome dele e, em seguida, ridicularizá-lo. Removi o comentário e informei que assim o fizera porque atentava contra a honra, não só dele, mas principalmente da família. Tenho filhos e sei como seria desagradável que eles vissem algo que às vezes não sabem, sendo dito contra o pai, numa página de internet. Acho que, agindo assim, tenho até mais respeito e audiência. Sempre pautei minha carreira pela ética, pela lealdade e pela correção. Nunca me omiti. Sempre disse o que achava, independentemente do chefe gostar, ou não. Autonomia moral tem um preço, que sempre estou disposto a pagar. No dia seguinte à minha demissão, postei um comentário no blog que citava Paulinho da Viola: "Foi um rio que passou em minha vida, que meu coração se deixou levar..." Passei doze anos da minha carreira nas organizações. Seria leviano se não admitisse que aprendi muito, deixei muitos colegas lá e tive tempos de muita felicidade. Tempos que tem sido lembrados neste espaço com alguma frequência. Nossa sociedade tem experimentado nos últimos anos uma revisão histórica e das instituições. O executivo, o legislativo e o judiciário estão em cheque. Não seria justo deixar a imprensa fora dessa discussão. Afinal de contas, ela é o espelho que reflete nossas mazelas. Nem sempre guardando a devida semelhança com a imagem refletida. Este é meu propósito aqui no blog.

06 outubro 2009

Meio-dia, um minuto. Boa tarde! Com imagens ao vivo do helicóptero... Assim começava em 30 de março de 1998, o SPTV, com Chico Pinheiro e Mariana Godoy. Com um formato inovador, o projeto, capitaneado pelo jovem diretor de jornalismo, levou um telejornal a experimentar índices de aceitação espetaculares. Informação, apoio à comunidade, bronca nas autoridades, prestação de serviço. Agilidade e dinamismo. Arte, cultura, lazer e entretenimento. Era tudo o que a emissora precisava para fazer as pazes com o telespectador paulistano, com quem não tinha mais identidade. A equipe de repórteres tinha nada mais, nada menos, do que: Ananda Apple (ainda na emissora), Abigail Costa (na Record), Britto Jr. (na Record), Edson Castro (na Record), Eleonora Paschoal (na Band), Emerson Ramos (na Record), Fabiana Scaranzi (na Record), Luciana Lancellotti (na Playboy), Márcio Canutto (ainda na emissora), Maria Manso (no SBT Repórter), Mariana Kotscho (no Papo de Mãe, da TV Brasil), Mona Dorf (fora da tv), Rosângela Santos (no papo de mãe, da TV Brasil), Sylvestre Serrano (na Record) e Walace Lara (ainda na emissora). O metorologista Carlos Magno dava as últimas informações num mapa-tempo interativo (o primeiro do país). Foi um sucesso! Não raro, a audiência passava de 20 pontos. Em 1999, o telejornal recebeu o prêmio de "Melhor Programa Jornalístico do Brasil", da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Em 2000, faturou o Grande Prêmio Ayrton Senna de Jornalismo, com a reportagem "Educação: de volta às aulas", sobre crianças apanhadoras de sucata. O formato foi exportado para todas as regiões do país e transformou o jovem diretor num dos mais importantes e influentes jornalistas da emissora. Isso gerou uma 'ciumeira' danada no Rio. Evandro Carlos admirava tanto o jovem talento, que não cansava de elogiá-lo. Mais de uma vez ele rasgou o protocolo, seja para fazer grandes coberturas, seja para bancar informações de suas equipes. Num de seus rompantes, foi ter com a toda-poderosa Marluce Dias da Silva, no Rio, para discutir orçamento. Era o 'cara'. Mas teve uma infelicidade dupla: Marluce teve que se afastar do comando da emissora, por causa de um câncer, e Evandro morreu. Seguiu-se uma operação desmonte, que aos poucos vamos juntando as peças.

05 outubro 2009

Sabe o que tem me chamado a atenção nos últimos anos, na cobertura da grande imprensa a respeito de greves em geral, e mais recentemente a dos funcionários dos correios e bancários, em particular. Em nenhum momento, nós jornalistas, deixamos claro que eles estão exercendo um direito constitucional. Talvez muitos dos colegas que se formaram nos últimos dez anos, nem saibam disso. É o tipo de informação que - por ser permanentemente suprimida das coberturas - acaba perdendo relevância e, com o tempo, pode deixar até de ser justa. O movimento sindical brasileiro começou com a industrialização no início do século passado. Acabou se associando aos anarquistas e aos comunistas, nas décadas de 20 e 30 daquele século. Mas foi perdendo força e renasceu no fim dos anos setenta, com os metalúrgicos do ABC Paulista, tendo à frente, nada mais, nada menos, do que o atual presidente da República. O sindicato é uma instituição que tem a finalidade de organizar uma determinada classe de trabalhadores e defender seus interesses. É um agente fundamental do jogo político, em uma democracia. Por isso, tem direitos e deveres. Está certo que para o cidadão, uma greve às vezes causa transtornos, atrapalha a remessa e recebimento de correspondências, talões de cheque, saques, pagamentos (nos casos de correio e bancos), mas é a forma legal e constitucional que o trabalhador dispõe de chamar a atenção da sociedade sobre qualquer questão trabalhista, não necessariamete salarial. E é - sempre -, vale lembrar, o último recurso adotado, quando o diálogo com o empregador é interrompido, por uma das partes. Às vezes a justiça é chamada a arbitrar e a decisão costuma ser acatada. Portanto, por que estamos deixando de informar o principal? Porque as grandes corporações detestam sindicatos. Preferem fazer sozinhas suas políticas salariais e de R.H. E são as grandes empresas que financiam a mídia. Juntando as duas partes: Bingo!

04 outubro 2009

Quem o conheceu dizia que era um "bom velhinho". Prefiro dizer que o dono das organizações era um "pragmático". Sabia como levar vantagens comerciais e econômicas se aproveitando do jornalismo para emoldurar a vaidade dos outros. Há quem o chamasse de doutor. E não era pouca gente, não. Militares de alta patente, ministros de Estado e o que é mais triste, os próprios empregados. A primeira decisão que o patriarca tomou, depois de entregar "seu presidente às feras", Fernando Collor de Mello, foi se livrar do então diretor da central de jornalismo Alberico de Souza Cruz. O plano foi por no lugar dele seu mais valioso vassalo, diretor dO Globo. Evandro Carlos de Andrade trouxe com ele dois jovens jornalistas que tinham duas qualidades que o chefe considerava essenciais: saber a forma de escrever, para defender as teses do patrão; e ter fome de poder. Um dos 'rapazes' ficou deslumbrado com a televisão. Perdia tempo precioso demais aproveitando-se das benesses do novo cargo, como por exemplo, o acesso às belas repórteres iniciantes. Acabou 'caindo para cima' e assumiu um posto, cujo o papel - até hoje - é defender a empresa institucionalmente e fazer fluir com discrição - do lado de fora - informações que prejudicam seus rivais - do lado de dentro. O outro, que acabou virando o pupilo do chefe, foi premiado pelo destino. Em 2001, aos sessenta e nove anos, morria Evandro Carlos. No período em que foi o bam-bam-bam do departamento, Evandro mudou radicalmente os padrões de telejornalismo da emissora. Como? Com admirável modéstia, primeiro, ao admitir que não era do ramo e, pacientemente, aprender os 'macetes' do novo negócio. Segundo, soube dividir poder entre os seus comandados. Está certo que, nesse particular, acabou se arrependendo amargamente, no leito de morte, mas, por outro lado, dividir poder permitiu que o jornalismo da emissora fosse ao encontro dos interesses do grande público, que se tornara bem crítico, depois do impeachment. Evandro foi uma espécie de fiador do projeto de reconciliação com o público. O telespectador voltou a se ver refletido no telejornalismo da emissora, por pouco tempo, é verdade, mas aconteceu. Por ter experiência, Evandro conhecia como ninguém os sortilégios da política e soube com maestria manter o jornalismo à serviço dos interesses da emissora, sem contudo, partidarizar a redação. Apostava no pluralismo, mas passou a manipular - e bem - as ferramentas de edição. Muitos desafetos foram para a geladeira, outros tiveram nome, sobrenome e até a feição alterados por ordens do 'todo-poderoso' e uma renovação de quadros foi levada a cabo. Sabia para que lado o vento soprava e conseguia convencer a Corte do Cosme Velho a seguir seu faro. Mas como disse antes, o velhinho morreu. Não sem antes enfrentar a 'turba' de jornalistas cara a cara, quando do lançamento de um livro polêmico, que fazia acusações a ele e a família que tão bem o remunerava. Embarcou para São Paulo, reuniu num salão todos os jornalistas que conseguiu, para dar sua versão sobre os episódios narrados pelo autor. Enfrentou com altivez o contraditório e mostrou sua capacidade de diálogo e persuasão, sem no entanto lograr grande êxito, neste caso. Infelizmente, seu maior erro ele não viveu para ver... (continua)

03 outubro 2009

Quando escalaram José Roberto Burnier para ir a Honduras cobrir a crise eu logo pensei: "Vai ser mais um teste de fidelidade". Burnier foi um dos jornalistas que batalharam por uma cobertura mais isenta na campanha de 2006. E por causa disso vem amargando temporadas no 'calabouço'. Burnier insistiu para que déssemos todas as histórias que causavam constrangimento ao PSDB (O massagista do governador - que virou escritor - os vestidinhos da dona Lu, o conteúdo do dossiê dos aloprados, o caso Piracicaba, o vazamento das fotos do dinheiro, por um delegado da polícia federal... e o emblemático jantar no restaurante de luxo). Tudo começou com um encontro numa churrascaria rodízio, onde Alckmin - franco favorito à indicação - faria uma confraternização com a base do partido (prefeitos e parlamentares do interior do estado, 'os caipiras'). Lá, o príncipe, Fernando Henrique Cardoso, tramou um encontro secreto num dos restaurantes mais caros de São Paulo. O repórter da rádio Jovem Pan ficou sabendo e soprou para os colegas. Com uma câmera escondida os caciques foram flagrados num rega-bofes daqueles. No dia seguinte, Burnier faria a reportagem para o principal jornal das organizações. Só não contávamos com a sorte, que estava ao nosso lado. Quando mandamos o texto para a 'revisão' ele voltou suprimido de informações que tinham uma certa relevância: quanto gastaram (uma fortuna!) e o preço de cada garrafa do vinho que tomaram (um escândalo). A ordem incluía também não usarmos as imagens de microcâmera. Mas quem aprova texto sem ver imagens corre um grande risco. O olhar atento do editor reconheceu entre as imagens 'oficiais' da pizzaria o momento em que o príncipe dizia para o interlocutor o nome do restaurante. Tínhamos como ilustrar toda a trama e o desfecho, esvaziados pelo 'revisor'. Assim, independentemente do que dizia o texto 'revisado', nossa história de traição era contada pelas imagens e pelo áudio ambiente. E contra imagens não há argumentos, nem texto que aLIviasse a barra. Quando a reportagem foi ao ar, vibramos. Os caipiras se sentiram ultrajados. Ali Serra perdeu a indicação e passou a detonar seu próprio candidato, como a história demonstrou adiante. Aquele foi o "turning point". Estava lançada a sorte da mais sangrenta cobertura política dos últimos tempos no telejornalismo brasileiro.

02 outubro 2009

A monarquia pseudo-parlamentarista do Jardim Botânico passou os últimos três anos se preparando para a guerra. Selecionou seus vassalos, editores-chefes, executivos e coordenadores, com vistas a não fazer feio em 2010, a exemplo do fiasco de 2006, quando a emissora tentou eleger sem sucesso Geraldo presidente, mas seis, em cada dez brasileiros, preferiram ficar mesmo com o Luiz Ignácio. Entre os colunistas, todos, sem exceção, estão afinados com o PSDB: Merval Pereira, Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg e Lucia Hippolito, encabeçam a lista. Aliás, quando o partido e seu príncipe deixaram o poder, eles perderam o acesso ao sem-número de informações privilegiadas a que tinham direito e, desde então, seguem reclamando e batendo o pé... A campanha deve começar com a participação dos parceiros, todos velhos conhecidos do telespectador, a saber: Febraban, Fiesp, Federação do Comércio, Associação Comercial, Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário - que na época do Everardo Maciel era desacreditado, mas nas gestões Jorge Rachid e Lina Vieira (Lina, quem?) foi reabilitado -, Força Sindical, Ibope, Consultores Associados, Tributaristas renomados, Economistas medíocres, Historiadores impostores e aquelas figuras carimbadas do 'casting' do jornalismo (reparem na escalação dos repórteres. Aqui mora todo o segredo da cobertura). Ah, e os professores da USP ligados aos tucanos, é claro. Pode escrever, essa será a 'estrutura' de campanha da maior empresa de comunicação do país para as próximas eleições, com vistas a eleger a frente PSDB-DEM (ninguém falou para eles que as iniciais remetem ao demônio?). E já ia me esquecendo dos aliados: Editoras de revistas e jornais decadentes, com colunistas desonestos. E, por que não, os portais de notícias? Afinal, a Internet nasceu para todos, não é mesmo?

01 outubro 2009

A monarquia pseudo-parlamentarista do Jardim Botânico poderia ser considerada uma coisa normal, não fosse o caso de se tratar de uma concessão de serviço público de extrema relevância. Informação é poder e deve ser controlada por quem concede o direito, o povo. Sendo assim, é importante que a sociedade se preocupe em como controlar esse poder. É preciso de uma instância apartidária que fiscalize abusos cometidos por meios de comunicação, que extrapolam as prerrogativas de informar com objetividade, pluralismo e - na medida do possível - isenção. A sociedade não pode delegar a empresas de comunicação um poder enorme como este, sem exigir contrapartidas. É necessária uma instância moderadora, que impeça que o serviço público seja usado com objetivos comerciais e políticos. As próprias empresas poderiam dar o primeiro passo, no sentido de se auto-regular. Seria melhor para elas. Vejam o Conar, Conselho Nacional de Auto Regulamentação, que controla os abusos da publicidade. É uma instância criada para administrar conflitos e que funciona relativamente bem. Em outras concessões de serviços públicos, por exemplo, existem as agências reguladoras, que têm essa função. Impedem a concentração de mercado e, consequentemente, de poder. Que tal começarmos a discutir essas questões antes de 2010? (continua)

 
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