30 setembro 2009

Por sugestão do meu amigo Tito, do expatriated, atalho ao lado, acabo de aderir à mais nova ferramenta de buscas do google: http://www.eco4planet.com/pt/. Economizamos energia e plantamos árvores, enquanto pesquisamos. Recomendo.

29 setembro 2009

A monarquia pseudo-parlamentarista do Jardim Botânico tem, abaixo da rainha, mas não tão abaixo assim, o guardião da doutrina da fé. É ele quem dá as coordenadas políticas e controla o conteúdo. Ele elabora e sustenta as teses, formula e impõe os dogmas com mãos de ferro. Quer que os subalternos acreditem que ele está muito acima das questões mundanas, mais preocupado com as excentricidades daquilo que escreve, do que com o dia-a-dia da redação. Mas sempre que o assunto interessa à casa é obrigatório que o texto passe por suas mãos, para 'revisão'. Quando volta modificado, quase sempre, não cabe recurso. Volta como se fosse a palavra 'sacro-santa'. Mas a manipulação de conteúdo não é explícita. Quase sempre se dá ao contrário, com a notícia incompleta, ou adotando-se um viés. Por exemplo: Policiais Militares enfrentam Policiais Civis em frente o Palácio do Governo? O fato não é decorrência da falta de diálogo, preparo e capacidade gerencial do poder executivo e sim, uma 'radicalização ou exaltação dos manifestantes'. Mas há casos específicos. Um deles é quando o repórter volta dizendo que a fonte não é confiável, que não dá para sustentar a informação da pauta e que, portanto, a matéria não vale. Neste caso a ordem é: faça apenas um registro. A partir do registro, os fechadores do telejornal acrescentam a ênfase que querem no texto, para o apresentador ler, preservando assim o repórter (!). Mas todo aquele que ousa desafiar as ordens fica marcado e volta a ser submetido a novos 'testes de confiança'. Os iniciantes, ou por ambição, ou por falta de pudor, ou por incompetência mesmo, acabam sendo premiados com 'licenças para fazer bicos', ou com uma oportunidade num escritório internacional, afinal de contas, qual é o repórter que não quer ser correspondente internacional? (continua)

A monarquia pseudo-parlamentarista do Jardim Botânico funciona assim: Existe uma figura soberana, espécie de rainha da Inglaterra, que tem assento no conselho das organizações e conhece a fundo a dinâmica de produção de um telejornal (afinal, é um funcionário de carreira). Seu papel é gerir o negócio do ponto-de-vista operacional. É ela quem, uma vez por mês, toma café da manhã com um grupo de funcionários escolhidos cuidadosamente pelos chefes. Ouve as queixas, faz anotações, promessas, passa a mão na cabeça, tira fotografia e sente o pulso do 'chão de fábrica'. Mas suas verdadeiras fontes não são os operários, são os repórteres e apresentadores. Muitos sabem que, ao contrário do que a plebe imagina, eles não têm grandes salários. A emissora funciona apenas como uma vitrine. A complementação da renda vem dos bicos (consultoria de imagem, treinamento de executivos para falar na televisão e participação - como convidados - em eventos, congressos, feiras e lançamentos). Não são todos os que fazem, mas para fazê-lo é necessário ordens expressas da rainha que, desta forma, controla o ganho da turma do andar de cima. Essa mão altiva e generosa faz com que os funcionários de todos os andares acreditem que, para chegar lá, basta ter mérito, vontade, perseverança e fé. (continua)

O silêncio dos Estados Unidos na questão de Honduras chama a atenção. A ex-colônia espanhola sempre foi alinhada aos Estados Unidos. Principal parceiro comercial daquele país, os EUA compram sete, de cada dez dólares exportados por Honduras. Eles, por sua vez, gastam metade de tudo o que importam com os EUA. Trezentos mil hondurenhos vivem na 'América' , grande parte fazendo o trabalho braçal, em troca de salários mínimos. O país caribenho, de maioria mestiça, é um dos mais pobres do mundo e também depende da ajuda da União Européia, do Japão e de Taiwan. Dois, em cada três hondurenhos, trabalham na agricultura de café e banana e na pesca da lagosta. A América Central sempre foi território estratégico para os americanos. Por causa do canal do Panamá, do golfo do México e da proximidade com a ilha de Cuba. Mas a relação com os vizinhos El Salvador e Nicaragua sempre foi tensa, por questões políticas, territoriais e armamentistas. Num momento em que o continente dá uma guinada à esquerda, não parece muito confortável para o Tio San 'libertar' essa gente.

28 setembro 2009

O que esperar de um texto que começa assim?"O governo do Irã deu nesta segunda-feira (28) mais uma mostra de que não está interessado em melhorar suas relações com as principais potências ocidentais e voltou a testar mísseis da série Shahab-3, que têm capacidade para atingir todo o Oriente Médio, o sul da Rússia e partes da Europa." Acreditem, é desta forma que começa a matéria num dos meios de comunicação brasileiros de relativa influência. Ao fazer a afirmação acima, o que podemos esperar do restante? Claro que uma matéria tendenciosa e cheia de distorções. Ter acesso à tecnologia nuclear, no Oriente Médio, é uma questão de sobrevivência política, econômica e religiosa. O Irã é um país islâmico que se transformou no inimigo da vez, para o Ocidente. Faz parte do "eixo do mal", como defendeu a doutrina neoconservadora de Bush nos últimos anos. Não estou dizendo com isso que sou a favor de bombas e corrida armamentista, ao contrário. Sou um pacifista. Defendo acordos de não-proliferação de armamentos. Mas sou radicalmente contrário à construção de consensos pela força. É o que fazem os países hegemônicos do Ocidente, com a ajuda incondicional da nossa imprensa, leviana e despreparada. Quando é que o mundo vai entender que o mal e o bem não estão em lados opostos???

26 setembro 2009

"Você pode dar um pulinho aqui na sala de reuniões", dizia a mensagem piscando na tela. Era o novo editor-chefe do jornal tarde da noite, em que eu trabalhava. Ele tinha vindo do Rio, imposto pelo diretor da central de jornalismo da emissora, que queria voltar a ter o controle sobre o conteúdo, com a saída de Lilian Witte Fibe da bancada. O editor-chefe era um desafeto do diretor de São Paulo, diretor que, quando foi editor-chefe do principal telejornal da casa, no Rio, anos antes, tinha encostado o sujeito por incompetência. Cheguei à sala e lá estava o cara. Delicada e cordialmente me informou que, daquele dia em diante eu não poderia mais usar sandálias, nem camisetas porque, segundo ele, não combinavam com os trajes de um editor de política. Ponderei (muito educadamente) que não podíamos julgar a competência de um profissional pela roupa que usava e que, como trabalhava internamente, isso era irrelevante. Ainda disse que, se fosse escalado para algum compromisso que exigisse um traje apropriado, teria como fazê-lo, sem resistência. Mas o sujeito foi irredutível. Assim, aposentei as camisetas e minhas sandálias Hush Puppies, que conheci nos Estados Unidos, anatômicas e muitíssimo confortáveis. Comprei três camisas Hering de manga curta de algodão, três camisas de gola polo e transformei as seis em uma espécie de uniforme que usei anos e anos, numa espécie de protesto silencioso. Ele não ficou muito tempo conosco. Talvez um ano, ou pouco mais. Passava boa parte do horário do jornal ao telefone, com os filhos, no Rio. Estava sempre entediado, achava que aquela função era burocrática, pouco nobre para um sujeito tão capaz e inteligente como ele. "A soberba é uma serpente...". Acabou 'caindo para cima' e virou diretor de jornalismo em Brasília. Na função se encontrou. Passou a ser um chefe boêmio e fanfarrão, daqueles que saiam para beber com os colegas, depois do expediente e conquistou a simpatia de muitos na capital federal. Também fez outras extravagâncias, que como são de foro íntimo, não cabem neste texto e contexto. Mas não gostava muito do trabalho, não. Assim, caiu para cima de novo. Virou diretor de jornalismo em São Paulo. Era o início do inferno astral da emissora em geral e dele, em particular. Um ano antes dele me demitir sem justa causa, mas por uma causa mais do que justa (como gosta de ressaltar minha mulher), houve uma reunião em São Paulo com a elite dos executivos da emissora. Quando cheguei ao Shopping Center da Notícia, que foi como os colegas apelidaram o prédio novo, dei de cara com a turma. Uns de brinco, outros cabeludos, outro de sandálias, além dele. Olhei para a 'trupe' e não me contive. "Gostei do visual do pessoal aí." Ele não acusou o golpe, mas entendeu a ironia.

25 setembro 2009

Era para ser no Exquisito, um bar muito recomendado. Quase 20 anos depois tínhamos a idéia de reunir os colegas de turma da Metodista. O local não aceita reservas. Por isso, ao chegar, me deparei com um ambiente acolhedor, mas cheio e barulhento. Seria um duro golpe à minha Síndrome de Menière. Uma comissão decidiu atravessar a rua e procurar refúgio na Geni: "Acontece que a donzela - e isso era segredo dela, também tinha seus caprichos". E não é que o bar da Geni é de um dos colegas de turma, o Marcelo Bassarani? Pena que ele não estava... Fomos parar na sala Marcelo, no andar de cima. Lugar espaçoso, confortável e que permitiu que falássemos e fossemos ouvidos. Que noite! As pessoas, todas envelhecidas, é óbvio, eram as mesmas. Com o tempo só fizeram realçar qualidades e defeitos que todos temos. "És um senhor tão bonito, quanto a cara do seu filho, tempo, tempo, tempo, tempo". Tiramos fotografias, mostramos imagens de filhos e companheiros, falamos da vida profissional, conjugal, pessoal. Uma mágica volta ao passado recheada do presente. Quem sabe não conseguimos reunir mais gente em nossa casa em breve... Especial agradecimento, por ordem alfabética: Alexandre, Cejana, Claudia, Débora, Jane, Luciano, Luis Allan, Maurício, Mércia, Mônica, Renata, Rita, Silvia e Simone. O Marcelo entrou com o espaço!

24 setembro 2009

Se 25% dos ricos destinassem, juntos, menos de 5% da renda que têm, seria o bastante para tirar as famílias que vivem abaixo da linha da pobreza no Brasil. O estudo, divulgado hoje pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com base na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) é revelador da nossa desigualdade e da falta de vontade política de todos nós, para resolver - de uma vez por todas - o maior problema do país. Minha proposta é muito simples: Com base no Senso do IBGE, identificaríamos e cadastraríamos todas essas famílias, que passariam a receber a renda mínima - automaticamente - a partir de uma conta bancária vinculada ao sequestro do equivalente em depósitos, daqueles que estão incluídos na faixa rica. Sem intermediação do Estado, só do Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal e IBGE. Simples assim! Poderíamos regular, por meio de um projeto de lei, ou referendo popular, se houver necessidade de mudança na Constituição. O problema estaria resolvido já em 2010. Agora eu pergunto: 1. Você acha que se Lula apresentasse esse projeto, a oposição e a elite apoiariam? 2. Você acha que a oposição apresentaria um projeto desses? 3. Você acha que algum político teria coragem de falar em sequestro, nem que fosse de menos de 5% apenas dos mais ricos (com um detalhe, sou da turma dos ricos)? 4. Portanto, um projeto assim só seria viável por meio de organização social independente. Aí pergunto, existe esse grau de organização na nossa sociedade? 5. Será que poderíamos colher assinaturas para propor um projeto popular? Nossa Constituição permitiria? Conseguiríamos passar por todas as comissões da Câmara e do Senado, passar pelos lobbies, e ir a plenário? É fácil criticar a classe política e os endinheirados. Quantos estariam dispostos a levar essa proposta adiante? O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo! É isso que queremos para os nossos filhos?Quase 50 milhões de pessoas no Brasil vivem em famílias com renda abaixo de R$ 190 por mês! "A morte não causa mais espanto, miséria, miséria em qualquer canto..."

23 setembro 2009

Do sempre lúcido Noam Chomsky, sobre nossa América Latina: "É uma região muito rica, sempre governada por uma pequena elite europeizada, que não assume nenhuma responsabilidade com o resto de seus respectivos países. Isso pode ser visto em coisas muito simples, como o fluxo internacional de bens e capitais. Na América Latina a fuga de capitais é quase igual à dívida. O contraste com a Ásia oriental é muito impactante. Aquela região, muito mais pobre, teve um desenvolvimento econômico muito mais substantivo e os ricos estão submetidos a mecanismos de controle. Não há fuga de capitais; na Coréia do Sul, por exemplo, ele é castigado com a pena de morte. O desenvolvimento econômico lá é relativamente igualitário." Sacou?

Não existe mais corrida eleitoral com um ano de antecedência. Minha tese pode parecer um tanto exdrúxula, mas no mundo instantâneo de hoje, o ontem (tempo da pesquisa) já virou passado remoto. O presidente da República e sua pré-candidata parecem já ter percebido isso. Os principais adversários, Serra e Aécio, também. As pessoas mal sabem o que é o pré-sal, sequer qual será sua ambição política para 2010. O ano que vem começa com carnaval (lembram-se), depois vem a Copa do Mundo e só então é que a grande maioria dos brasileiros vai se decidir por alguém. Lembrando sempre que uma parte do eleitorado é fortemente influenciada pelas políticas sociais e pelo clientelismo regional (ousaria dizer que é mais da metade do eleitorado). Um terço dos votantes só decide na última hora (metade desses quer ganhar e vota com o primeiro colocado da ocasião). Ou seja, esse debate pré-eleitoral só entusiasma mesmo os cerca de 20% hipoteticamente engajados. Digo hipoteticamente, porque uma parte já faz política diariamente, mas com interesse econômico. São os barões dos bancos, das empreiteiras, da indústria e comércio e principalmente os da mídia. Nessa conta sobra uma ínfima parcela da classe média e da elite intelectual. Somos esta parte, que nos perdemos em divagações e discursos sem nexo. Antes de tentar advinhar quem tem chances na próxima eleição, que tal um amplo debate sobre se queremos ou não urnas à prova de fraudes? Imprimir um comprovante de voto porderia ser o caminho, não acham? Em relação à sucessão presidencial, como diria Franklin Martins, nos áureos tempos do jornal tarde da noite: “Ainda tem muita água para passar debaixo da ponte.”

21 setembro 2009

"Ih, o trem tá feio lá na Venezuela", gritou Beatriz Alessi, com seu bom mineirês, de Araguari. Era a experiente editora de internacional do jornal tarde da noite, desde os tempos de Lilian Witte Fibe. Com passagens pela BBC, de Londres, e pela TV Bandeirantes. Era 11 de Abril de 2002, portanto já sob a apresentação de Ana Paula Padrão. "As agências estão dizendo que Hugo Chaves abandonou o poder e que uma junta militar assumirá provisoriamente. Eles devem fazer um pronunciamento oficial a qualquer momento. Fontes do governo informam que Chaves já teria inclusive deixado o país", relatou. "Alguma coisa está errada", exclamei. "Hugo Chaves não deixaria o poder assim. Algo aconteceu e ele foi deposto. Foi um golpe militar", concluí. "Agência nenhuma diz isso", repondeu Beatriz. E fomos nós investigar. Enquanto ela corria as últimas notícias dos telejornais americanos, as 'breaking news headlines', procuravamos fontes alternativas. De fato, àquela altura ninguém dizia - ainda - que houvera um golpe. Concluí que ninguém diria mesmo. Afinal, a quem interessava a notícia de golpe? A imprensa venezuelana estava às turras com Chaves. Os americanos queriam vê-lo pelas costas. Não dava para confirmar a informação por fontes oficiais. Tínhamos que bancá-la. E de comum acordo bancamos. Naquela noite, logo na chamada da programação, o telejornal afirmava: "Golpe na Venezuela. Uma junta militar assume o poder". Só no dia seguinte é que o enviado especial Tonico Ferreira desembarcaria em Caracas. Demos a notícia em primeiríssima mão. Dois anos depois, a editora Ivone Happ e eu fomos convidados pela direção de jornalismo para falar aos estagiários sobre edição. Pedi ao arquivo que separasse o material daqueles dias e apresentei aos colegas iniciantes, como exemplo da dificuldade que temos em confirmar informações, principalmente as internacionais. Somos abastecidos por agências de notícias(Reuters, Associeted Press, BBC, Vislatin, CNN...), que por razões políticas e econômicas têm interesses em determinadas versões. Isso torna nosso trabalho muito difícil, mas é possível acertar, com uma boa dose de experiência e contextualização. Minha surpresa foi receber das mãos de um estagiário de outro grupo, dois anos depois, uma cópia do documentário: A Revolução não será televisionada. Por coincidência, no dia do golpe, havia uma televisão irlandesa no Palácio Miraflores (foto). Eles documentaram tudo! Vejam o que disse um importante editor da BBC a respeito do documentário: "Veja esse filme e você comprenderá, pela primeira vez na sua vida, o que se entende por "viés da mídia". E, depois, se tiver curiosidade, assista-o!

20 setembro 2009

"O baguio é loko, mano!", diz Alfinete antes do Zina 'cair pra dentro' da casa nova. Foi ao ar no Pânico na TV de ontem. A receita é consagrada. Usar o apelo da TV para atrair patrocinadores e realizar os sonhos das pessoas. É assim com os programas do Netinho, do Luciano Huck, do Gugu e já foi uma das principais atrações do Programa Silvio Santos, nos anos 70. O que ninguém sabe é que a idéia é muito antiga. Nasceu praticamente junto com a TV, na década de 50. Com 23 anos de idade, por exemplo, Ribeiro de Mello (o Excelentíssimo Senhor meu pai) e Walter Ribeiro dos Santos produziam e realizavam um dos programas mais populares da época: “O que é a Felicidade”, na TV Paulista, canal 5. A fórmula? Exatamente a que existe hoje. A pessoa escreve, conta qual é seu sonho e a produção vai atrás dos prêmios. Naquela época, TV se fazia ao vivo, no improviso. Não dava para gravar. A hoje poetisa Adélia Vitória Ferreira era a fada dos sonhos e umas das grandes bailarinas clássicas que o país já teve, Maria Pia Finocchio, a mensageira da felicidade. Aquela TV Paulista de ontem é a TV Globo de São Paulo, que todos nós conhecemos tão bem hoje. Um dos pioneiros dessa história é Ármilon Ribeiro de Mello, que preferiu seguir carreira em direito e se aposentou como advogado da União. Vendo os últimos acontecimentos, acho que ele fez a coisa mais certa.

É nos pequenos gestos que os grandes homens se revelam. Dezembro de 2006. Rodrigo Vianna recebe a notícia de que seu contrato não seria renovado, depois de quase 12 anos. Ele sai da sala do diretor de jornalismo e volta para a redação. Abre seu correio corporativo e começa a escrever uma longa correspondência aos colegas. O diretor se aproxima e diz que ele não pode fazê-lo. No mesmo instante, o jornalista Chico Pinheiro intercede e diz: - Ele vai terminar o texto dele sim! Do momento em que fez essa afirmação, até que o colega acabasse de escrever, Chico ficou ao lado dele, como um sentinela. Quando me lembro deste episódio imediatamente me vem à mente a música de Milton Nascimento e Fernando Brant: “Morte vela sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai. Revejo nessa hora tudo que ocorreu, memória não morrerá.” Naquele gesto singelo e corajoso do Chico havia um compromisso enorme com a memória, que não pode mesmo morrer. Éramos todos testemunhas de uma tentativa de fraude e não podíamos ficar calados. Na carta do Rodrigo algumas passagens merecem uma reflexão: (...)”Na última década, em debates nas universidades, ou nas mesas de bar, a cada vez que me perguntavam sobre manipulação e controle político na Globo, eu costumava dizer: 'olha, isso é coisa do passado; esse tempo ficou pra trás'. (…) “Parecia uma virada. Infelizmente, a cobertura das eleições de 2006 mostrou que eu havia me iludido. O que vivemos aqui entre setembro e outubro de 2006 não foi ficção. Aconteceu.” Portanto, para os sentinelas, que têm apreço pela história e pela democracia, vale a pena ler a carta com calma qualquer hora. É um documento revelador: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1309377-EI6584,00.html

19 setembro 2009

Ao contrário do que muita gente pensa, a frase: “Navegar é preciso; viver não é preciso”, não é de Fernando Pessoa e sim, do general e político romano Pompeu. Mas isso não importa. Foi a primeira frase que me ocorreu, ao assitir ao primeiro, dos 26 programas, da Série “Nova Africa”, que vai ao ar toda sexta-feira, na TV Brasil. Recebi a cópia da Conceição Lemes, do Vi o Mundo, via Baboon Filmes. Um trabalho que mostra bem quais os espaços que a TV Pública pode ocupar, já que as emissoras privadas têm muito receio em experimentar novos formatos em trabalhos de fôlego, contextualizados. Chamou a atenção a presença da colega Aline Midlej. Ela é um exemplo de quem sabe que, para se superar, é preciso “Viver em projeção, em viagem”, como diz Mia Couto, na entrevista que deu ao programa, se referindo a seu povo. A série faz parte de uma busca que deveria ser de todo país: A reconciliação com nossas origens africanas (ao invés de nos perdermos em discussões sobre se somos ou não racistas, ou se devemos ou não adotar políticas afirmativas). Os três primeiros programas foram realizados em Moçambique. Depois virão Africa do Sul, Botsuana, Angola e Namíbia. Tem tudo para ser a “novidade” do ano na TV Brasileira. Só tenho a desejar sucesso aos colegas, muitos deles meus conhecidos, para minha sorte.

18 setembro 2009

Fim de tarde, o telefone toca. Era Karin Faria, produtora do telejornal matinal que fazíamos. Ela disse: - Acabou de pintar um "correio" aqui dizendo que, a partir de segunda-feira, você é o novo editor de política do jornal tarde da noite. Levei um susto! Ninguém tinha me sondado, não me perguntaram nada e não era da turma... Imediatamente procurei o Armando Figueiredo. Quem conhece o Armandão sabe o que é exemplo de honestidade, dignidade, rigor e caráter. Um jornalista de verdade. Neste atalho temos um depoimento dele à TV Cultura: http://www.memoriaoral.com.br/video/?midia_id=183
Armando já era um veterano e, sabiamente, me aconselhou: "Não se preocupe. O que eles estão fazendo é colocar um desafio na sua frente. Basta fazer o seu trabalho com dedicação e tudo vai dar certo." Sabe o que é mais irônico nessa história? Eu estava indo para o lugar dele! Dá para imaginar alguém receber a notícia de que está sendo substituído e ainda dar conselhos ao colega. Este cara exite e é o Armandão! Já o conhecia dos tempos em que ele acumulava funções à noite e fui designado para dividir com ele as tarefas. Desde cedo aprendi a admirá-lo. Um contador de histórias nato. Uma era recorrente. A do sequestro de Abílio Diniz, às vésperas da eleição de 1989, quando um dos sequestradores foi obrigado pela polícia civil de São Paulo a vestir uma camiseta do PT. Armandão desconfiou. Mas essa história é para ele contar, não pra mim. Voltando ao assunto, tudo era checado, rechecado e conferido. Nada escapava aos olhos atentos do experiente editor da Lilian Witte Fibe. Eis que um dia toca o telefone na - agora - minha mesa. Era o pai do Armando, seu Armando, um jornalista "das antigas". Contei a ele que o filho estava em outro ramal. Ele me perguntou se eu era jornalista. Respondi que sim. Ele encerrou dizendo que admirava o nosso trabalho, que foi também o dele. Não falei, mas devia ter dito, que admirável era ele, pelos exemplos que deu ao filho, que os seguiu à risca e soube passar adiante.
P.S. Escolhi a foto de Camburi-Camburizinho só para homenageá-lo.

Pausa para a reflexão, por Mauro Santayana:"Para nós, jornalistas, seria melhor a democratização dos meios de comunicação, sem os monopólios e cartéis que dominam o mercado da notícia e da opinião. Temos, muitos de nós, a esperança de que a internet continue a possibilitar o amplo debate das questões do Estado e da sociedade. Hoje, qualquer cidadão pode informar e opinar, o que esvazia a influência dos grandes cartéis e monopólios internacionais, como o do senhor Murdoch e seus êmulos menores. Mas sempre restará a autoridade e a credibilidade de alguns jornalistas, que procuram dar orientação ética a seu trabalho."

17 setembro 2009

Estudar no exterior era um sonho. Mas não havia Internet e nem centrais de intercâmbio para facilitar. Para se descolar, só na marra, ou no Rotary. Minha família recebeu dois jovens intercambistas americanos nos anos oitenta (do século passado!). Com um deles, o Steve, fiz uma amizade que considero das mais fecundas de toda a vida. Mais de uma vez os pais dele me convidaram para viver um tempo lá. Estava decidido. Fui à sede do Instituto Alumni, no Morumbi, e passei o dia pesquisando na biblioteca. Com a ajuda do próprio Instituto consegui mapear todos os centros relevantes de formação a jornalistas naquele país. Foram dezenas de cartas com pedidos de informação. Um deles chamou a atenção: O World Press Institute, em St. Paul, Minnesota. Era quatro horas de viagem de carro, do local onde a família do Steve me hospedaria (West Salem, Wisconsin). Comecei um curso intensivo de inglês (com aulas particulares aqui no Brasil), preenchi muitos formulários - com tradução juramentada - e lá fui eu estudar na América. Precisava fazer um exame de proeficiência na lingua inglesa, o temido TOEFL, antes de me habilitar. Estudava inglês 8h por dia, de segunda a sexta-feira. Enquanto isso, vencia etapas no processo de seleção. Um dia recebi uma correspondência que pedia que eu fosse apresentado, por carta, por alguém que já havia sido bolsista da instituição. Só conhecia o renomado Lucas Mendes. Não tive dúvidas, escrevi uma carta para ele. De longe o melhor correspondente da televisão brasileira de todos os tempos, Mendes foi muito solícito, gentil, até. Eu só não sabia que um critério seria decisivo para selar minha sorte. Os bolsistas tinham que ser do terceiro mundo, mas sem meios próprios de chegar aquele país. E, assim, meu sonho do World Press Institute naufragou. Mas havia conhecido Dr. Phill, 'o cara' do jornalismo da La Crosse University. A convite dele fiz o curso Comunicação de Massa e Sociedade Moderna, um estudo comparado dos meios de comunicação nos Estados Unidos. Meu trabalho de conclusão de curso foi a reportagem auto-biográfica do jovem que desafiou a polícia de La Crosse com gás lacrimogênio e como os jornais noticiaram o fato no dia seguinte. Mas essa é pra outra hora...

16 setembro 2009

- Você também está parando de fumar? Me perguntou Marco Antonio Uchoa, em 2001, no espaço que era reservado para o café e o cigarro, na emissora. Dali em diante nasceu nossa amizade, que durou até novembro de 2005, quando Uchoa foi vencido por um osteossarcoma - um tumor extremamente agressivo. Uchoa foi o primeiro repórter a mergulhar no mundo do crack, quando a droga ainda era desconhecida do grande público. Fez reportagens memoráveis e se consagrou com o livro "Crack, O Caminho das Pedras", de 1997, até hoje uma referência no gênero. Com a reportagem de fôlego ganhou o prêmio Jabuti. Em 2003, tive o prazer e o privilégio de editar uma série de reportagens que ele fez em Angola, ao lado do cinegrafista Américo Figueiroa. O país africano estava em festa. Era o primeiro ano de paz, depois de quarenta de guerra. Mostramos como os jovens reagiam aos novos tempos, conhecemos comunidades distantes do deserto, a vida das mulheres... e seus penteados e adornos, cheios de significado. Também mostramos como as famílias estavam se reencontrando, com ajuda da TV e o avanço implacável da Aids. Aproveitamos para mostrar também como os brasileiros estavam ajudando na reconstrução daquele país. Uchoa se identificava com a vida difícil das pessoas pobres. Afinal, ele a conheceu na pele. Cearense, cresceu em S. Miguel Paulista, extremo leste de São Paulo. Foi flanelinha e frequentou instituições para menores. Era Uchoa quem distribuía e recolhia as sacolinhas das crianças que, assim como ele um dia, não poderiam ter um Feliz Natal. Quando Uchoa venceu a primeira batalha contra a doença, após uma cirurgia extensa e quimioterapia, nos reunimos na casa dele, para comemorar com um churrasco. O DJ era o ex-diretor do Sindicato dos Radialistas, Eduardinho, com quem havia trabalhado anos antes. No mezanino (foto), Uchoa e eu ainda fizemos alguns planos. Queríamos intensificar nossa parceria, propondo novas séries de reportagens. Mas, infelizmente, o tempo não deixou. Que saudade, amigo!

Outro que passou uns tempos na geladeira da emissora de televisão (aquela) foi Carlos Nascimento. O diretor da central de jornalismo, como bom vassalo, do balneário que já foi corte, achava-o meio caipira. E ele é mesmo! E qual o problema? O país inteiro é meio caipira, oras! Nascimento nasceu em Dois "córgo", interior de São Paulo, onde começou a carreira na Rádio Cultura local. Aprendeu a fazer jornalismo à moda antiga, ralando na rua. Começou na TV em 1977 e, na primeira passagem por aquela emissora ficou onze anos. Em 1985 o país parou para ver o martírio de Tancredo Neves, o primeiro presidente da transição democrática (lenta e gradual, como queriam os patrões). Se transformou num dos gigantes das transmissões ao vivo. Três anos depois virou apresentador do Jornal da TV Cultura e no ano seguinte estava na TV Record. O jornalismo de sua equipe premiada passou a incomodar, principalmente o jornalismo local da emissora de onde tinha saído. Em 1990, ele voltou e ficou lá mais catorze anos. Conheci Nascimento por acaso. Trabalha à noite editando as reportagens que iam ao ar na manhã seguinte. A colega da madrugada entrou em férias e fui convidado para 'tapar o buraco'. E não saí mais. Ele foi com a minha 'cara' e pediu ao diretor de São Paulo que me efetivasse na função de coordenador. Pela primeira vez um apresentador lia meus textos na íntegra, sem cortes ou alterações. Para quem tinha sido salvo por um 'serial killer' era orgulho e tanto. Passei a propor comentários e 'cacos' e fui muito bem recebido também. Tivemos um ótimo relacionamento, até que ele saiu da geladeira para assumir o Jornal da hora do almoço. Por força do destino, quem estava na bancada na manhã de 11 de setembro de 2001 para noticiar o mais importante fato ao vivo jamais visto pela humanidade, o atentado às torres gêmeas do World Trade Center? Carlos Nascimento. O que me faz crer que geladeira não serve para quem tem o pé quente.

15 setembro 2009


Trinta de outubro de 2006. O candidato Geraldo Alckmin agradece a todos os que o ajudaram na campanha e deseja sucesso ao presidente eleito, para o segundo mandato. Como se comprovou, ao final da apuração, Lula teve seis, de cada dez votos válidos dos brasileiros. Terminava ali uma cobertura que exigiu de nós mais do que habituais empenho e dedicação. Exigiu estômago, para suportar tantos desmandos e tamanha manipulação. Claro que, sempre, de uma forma sutil, sofisticada. Por princípio, podíamos cobrir tudo. E assim o fizemos. Às vezes o esforço individual era maior do que os recursos que estavam disponíveis, mas era parte do jogo. O gargalo estava na exibição. Conseguir levar ao ar as reportagens, depois de prontas, eram outros quinhetos. Estava no ar um modelo consagrado de fazer telejornal: a partir do arquivo. Se por acaso alguém reclamasse da parcialidade da cobertura, era só fazer um levantamento das exibidas e não-exibidas e apresentar o resultado num pacote só. Assim, ficava impossível contestar, a não ser que alguém tivesse gravado todos os telejornais da emissora para fazer uma contabilidade paralela, o que era impensável. Nem mesmo o TSE possui esse controle. A fórmula de trabalhar com o arquivo já era consagrada. Foi usada quando a emissora quis recontar sua história em livro. A partir de um vt não-exibido, por exemplo, foi possível sustentar que houve cobertura do Comício pelas Diretas-já no Vale do Anhangabaú, em 25 de janeiro de 1984. Como soubemos depois, o vt - apesar de arquivado - não fora exibido naquela ocasião. O que foi ao ar foram imagens narradas do estúdio, falando genericamente sobre manifestações no dia do aniversário da cidade. Em 2006 a mesma fórmula incontesti se repetiu. Algumas reportagens foram engavetadas sob o argumento de que se tratava de denúncia requentada, ou sem relevância editorial. Pobre dos que ainda acham que a melhor maneira de se informar é essa. De volta ao dia 30 de outubro de 2006, estavamos no switcher - editores, chefes, auxiliares, etc... E esperávamos pela primeira entrevista coletiva do presidente, agora reeleito. O repórter escalado era o experiente Tonico Ferreira. Feitas as apresentações, Lula dá voz ao repórter que faria a primeira pergunta. Pelo peso da emissora, esperávamos que ele chamaria o nosso repórter. Mas surpreendentemente, Lula chamou pelo nome e concedeu a primeira pergunta ao repórter Celso Teixeira, da TV Record. Ali percebi que algo enorme começava a se mover.

14 setembro 2009

"É um eufemismo", disse ela. E ambos começamos a rir. Estávamos no carro fazendo aquelas coisas que muitas famílias fazem numa segunda-feira de manhã. Passar no supermercado, caixa eletrônico, farmácia, resolver coisas da casa, etc... O pequeno estava no banco de trás e fazia de tudo para chamar a nossa atenção. Tentamos, em vão, fazê-lo esperar o papai e a mamãe conversar. A propósito, existe uma cena ótima do desenho do Tarzan, da Disney. O elefantinho está no lago com os pais e grita: - Piranha, piranha! E a mamãe, meio desinteressada resmunga: - Bebê, deixa a mamãe conversar! O eufemismo foi o seguinte. Ela, como todas as mulheres, por uma questão de gênero, sem críticas, não parava de falar. Se eu dissesse a ela que o bebê estava fazendo tudo aquilo porque ela não parava de falar, certamente estaria frito. Ela iria reclamar e 'amarrar a cara' para mim. Foi aí que tive a brilhante idéia de soltar a pérola: "Acho que você está preenchendo sozinha todos os silêncios e ele pode não estar gostando disso." Foi aí que ela percebeu a 'sutileza' e rindo perguntou: - É um eufemismo? Acho que foi sim um eufemismo. Com quinze anos de casamento posso afirmar: As 'meninas' precisam falar bastante, até sozinhas, às vezes. E não adianta fingir que está ouvindo, não. Elas percebem e fica pior ainda. O melhor a fazer é ouvir com vontade. Argumentar, perguntar, aprofuntar, inferir (boa essa, não), interpelar... Como diria nosso bebê: - Ai, ai, viu!

13 setembro 2009

A voz era irregular. A pontuação peculiar. Estava totalmente fora do que se convencionou a chamar de padrão de qualidade da emissora. Inteligente e bem informada, Lilian Witte Fibe era o terror dos entrevistados. Fossem políticos, economistas, empresários, ela ia ao ponto, sempre com a pergunta certa, mas com elegância, sem ser indelicada. No seu tempo, o telejornalismo fazia mais do que informar e analisar os fatos do dia. No período em que foi editora-chefe da noite, não raro dava furos. Era comum que os editores dos principais jornais impressos do país esperassem entrar a chamada do jornal, no intervalo da novela, antes de rodar o segundo clichê. (Para os que não são do ramo, os jornais impressos costumavam rodar a primeira edição para os assinantes e leitores de outros estados e, para São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília deixavam para rodar por último, era o segundo clichê. Depois que os jornais foram divididos em cadernos a vida deles ficou mais fácil. Era só segurar os cadernos Brasil e Economia para rodar por último.) Nossa convivência durou pouco, de 1998 a 2000, periodo em que trabalhava à noite e, depois, de madrugada. Ela sempre foi muito gentil e atenciosa comigo. Da minha parte, sempre fiz o máximo que pude para atender seus pedidos. Numa ocasião, no fechamento do jornal, ouviu-se uma discussão por telefone. Era o diretor da Central de Jornalismo fazendo algum pedido que ela se recusou terminantemente a cumprir. Ninguém nunca soube ao certo o que era. Dizem os mais próximos, que este diretor, pouco antes de morrer, teria admitido que seu maior erro foi transformar apresentadores em editores-chefes. Argumentava que era muito poder para uma pessoa só. Concordo em parte com ele. Mas foi graças à decisão, que pela primeira vez na história do telejornalismo brasileiro, os jornalistas experimentaram fazer o jornal como achavam que tinha que ser, sem tantas interferências. Mas o sonho durou pouco porque o tal diretor cometeu um erro ainda maior, mas que infelizmente não viveu para ver.

12 setembro 2009


Aprecie com moderação.Existe frase mais hipócrita do que essa? Você acaba de exibir um comercial no horário nobre em que associa o consumo de álcool a todos os prazeres da vida, com claro apelo ao público adolescente e encerra com um narrador em off: Aprecie com moderação. Um jovem quando aprecia, devora. É da natureza daquele que está descobrindo as novidades do mundo adulto. Portanto, como moderar? A questão sobre o consumo de álcool no Brasil é séria demais e negligenciada. Um estudo recente da Unifesp demonstrou que grande parte dos gastos do SUS estão relacionados às consequências, diretas ou indiretas, do abuso dessa droga lícita. Mas parece que a sociedade ainda não está disposta a discutir o assunto com a devida profundidade. Quando trabalhava em outro telejornal recebemos a informação de que uma grande cervejaria estava sonegando ICMS, como forma de ter um preço mais competitivo ao consumidor e, assim, enfrentar o oligopólio que dominava o setor. Havia câmeras escondidas, documentos, investigações do Ministério Público, flagrantes dos caminhões, tudo. O material foi editado e estava pronto para ir ao ar, mas não foi exibido. Sabem por quê? Por causa de interesses comerciais. As cervejarias gastam uma fortuna com publicidade. E quase sempre são detentoras de cotas de patrocínio de grandes eventos, transmitidos pela televisão. Como praticar jornalismo com independência editorial, se os veículos são financiados assim? Esta é uma boa pergunta para os estudantes (que provavelmente estarão no bar próximo à faculdade) e para o grande público (preferencialmente, no momento em que o país para para assistir aos jogos da seleção).

11 setembro 2009

É por essas e outras (veja nota abaixo) que digo que a emissora está em crise. Num momento em que o conteúdo e a informação estão sendo libertados das amarras da mídia convencional, decisões assim vão na contra-mão do que o mundo assiste, via internet. É uma espécie de ditabranda, para os que entenderam o recado. Lembra a fábula do barco fazendo água e o comandante, alheio, insite em gritar: - Remem, remem, remem. O marujo que sucumbir vira comida de tubarão e, em pouco tempo, não há mais marujos, em menos tempo ainda, lá se vai a embarcação, com capitão e tudo, para o fundo do mar. - Remem, remem, remem!
De Lauro Jardim, no Radar On-line da Veja:
"A Globo soltou agora há pouco um comunicado interno para restringir o uso das mídias sociais (blog, twitter, facebook, orkut etc.) por seus contratados. Estão proibidos, por exemplo, 'a divulgação ou comentários sobre temas direta ou indiretamente relacionados às atividades ligadas à Globo; ao mercado de mídia ou qualquer outra informação e conteúdo obtidos em razão do relacionamento com a Globo'. A emissora endureceu também noutro ponto: só com autorização da Globo seus contratados poderão ter blog, twitter etc. vinculados a outros veículos de comunicação. Segundo a Globo, o objetivo é proteger seus "conteúdos da exploração indevida por terceiros, assim como preservar seus princípios e valores". Beleza, mas na prática, boa parte da graça dos twitters atuais dos artistas da Globo vai se perder. E muito blogs que estão hospedados em outros portais podem acabar - ou trocar de pouso."

10 setembro 2009

Quando falo em crise no telejornalismo daquela que já foi a rede de televisão mais influente do país, muita gente pensa: Ah, ele diz isso porque é um despeitado, está com dor-de-cotovelo porque foi demitido, quer aparecer. E por aí vai... É natural que as pessoas pensem assim. Muitos profissionais que continuam lá precisam dessas explicações. Primeiro, porque é de interesse da empresa desqualificar o autor das críticas e, segundo, porque ninguém gosta de ver suas feridas sangrando, em público. Mas há um grupo lá dentro, que curiosamente não é pequeno, que gosta sim - e muito - de ver as mazelas da emissora expostas. Por uma razão muito simples. Eles não têm poder, nem projeção e às vezes, nem coragem, de desafiar um monopólio de comunicação. E não concordam com a gestão do departamento, que está comprometendo a credibilidade e qualidade do trabalho de todos, conquistados com muito suor, por interesses pessoais e comerciais. É difícil enfrentá-los. Eles empregam - no conjunto das Organizações - quase setenta por cento de toda a mão-de-obra especializada em televisão. São poderosos, influentes e capazes de acabar com a reputação de uma pessoa com gestos simples, como já o fizeram em várias circunstâncias. Quando falo em 'Shopping Center de Notícias', 'aquela que já foi...', ou o 'telejornal que já foi...' tenho argumentos consistentes para sustentar minhas teses. Existe uma crise de finalidade no jornalismo da emissora. A direção está usando o jornalismo e os jornalistas. Isso é um fato! Ficou claríssimo quando da tentativa de fraude nas eleições de 2006 e o abaixo-assinado que se seguiu, imposto aos jornalistas. Naquele texto havia um sofisma e por isso me recusei a assiná-lo. Eles partiam de uma premissa verdadeira que era: A queda do avião só não foi ao ar porque não havia confirmação da base aérea de Cachimbo. Eu sou testemunha de que, enquanto o jornal estava no ar, de fato, não tínhamos esta certeza, que só foi confirmada minutos depois que o telejornal terminou. Tanto, que um plantão foi ao ar em seguida dando a informação, tão logo havia a confirmação. O abaixo-assinado partia dessa premissa para concluir que não houve manipulação na cobertura do processo eleitoral. Oras, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Por esta razão, e por apenas esta, não assinei. Paguei o preço por isso. Assumi os riscos. Sofri calado as consequências. Mas não guardo mágoas, nem ressentimentos. Tudo o que fiz foi por convicção e com autonomia moral. Esperei muitos anos para contar tudo isso porque, primeiro, não queria ser usado pelos inimigos da emissora que, a propósito, estão só aumentando. Segundo, queria digerir primeiro os acontecimentos, me libertar das emoções para fazer relatos que não fossem magoados, raivosos. As frases de efeito funcionam como um 'chapéu' no jornal impresso. Ou como uma 'vinheta' na televisão. Elas têm apenas a finalidade de 'chamar o assunto'. Mas estou repensado este conceito. Não sei se as pessoas, principalmente aquelas que lá ficaram, com o coração partido, merecem esta provocação. Aos poucos vou aprofundar meus argumentos e pretendo fazer uma 'genealogia' da crise, que já vem de algum tempo e remonta uma disputa por poder que talvez fuja até do conhecimento dos patrões.

09 setembro 2009

- Você tem DDA e precisa se tratar. Meu filho também tem. É um diagnóstico super recente e o médico está usando uma droga nova, que está funcionando muito bem com ele. Foi assim que a editora-chefe me 'diagnosticou', numa mesa, com todos os outros editores do telejornal em que trabalhava (aquele que já foi o mais importante em política e economia do horário noturno). Fiquei pasmo. Primeiro, porque no início dos anos 2000, este era ainda um diagnóstico bastante novo. E, depois, porque não se expõe um colega assim, em público, mesmo que ele tivesse o tal transtorno. Ela dizia aquilo, porque estava cansada de me chamar a atenção para detalhes do trabalho que um editor não pode deixar passar, como por exemplo, não lançar o tempo do vt na página, colocar deixa que o reporter indicou errada... (Aqui cabe uma pausa para explicar para os leigos o que é deixa. Deixa é a última frase de uma reportagem editada. É a informação que serve para o diretor de TV cortar para os apresentadores, no estúdio). O que ela não percebia, nem seu antecessor, é que ambos estavam fazendo comigo o que não se faz com ninguém. Tratamento desumano. Não raro, tinha oito retrancas diferentes no espelho do jornal, o que equivale a dizer que eu era o responsável por oito assuntos diferentes por noite! (Quase a metade do telejornal). Era muito arriscado. E toda vez que eu reclamava, recebia como resposta: - Peça ajuda. Era uma cilada. É como se te dissessem: - Quando a casa estiver caindo, avise a todos que você é incompetente, e que não vai dar conta do seu trabalho. Bom, voltando ao DDA, cheguei em casa arrasado, de madrugada, porque o telejornal terminava bem tarde. Minha auto-estima foi ao chão. No dia seguinte, contei para a minha mulher o que tinha acontecido e ela ficou incomodada. E disse: - Como alguém que não tem formação (minha mulher é psicóloga) pode fazer um diagnóstico desses, se para os especialistas já é super difícil. E depois tem outra, este tipo de diagnóstico é tão sigiloso, que normalmente os profissionais usam o código, tanto no receituário, quanto em atestados médicos. E tem mais, um superior hierárquico jamais pode fazer uma coisa dessas. Isso é assédio moral! Você deve ligar para ela. Respondi que a única pessoa com quem poderia falar naquele momento era o diretor de jornalismo. (Curiosamente, o diretor era o cara que havia sido meu chefe antes dela e que me submeteu a situações tão graves quanto...). Liguei para o cara, contei o acontecido e perguntei o que deveria fazer. Ele me disse: - Procure-a assim que chegar, converse com ela e esclareça tudo. Assim o fiz. Ela se desculpou e em vários momentos lembrou-se dessa passagem, para ilustrar excessos cometidos por chefes. O que revela, na minha opinião, dois valores importantes: auto-crítica e humildade. De qualquer forma, o mal já estava feito. Mas não guardo mágoas. Pouco tempo depois, o telejornal se desfez e até hoje vaga ao luar, nas noites da emissora. A editora-chefe acabou pedindo para deixar o cargo, porque não aguentou a pressão. Metade da equipe também saiu. Foi para outra emissora tentar fazer um telejornal em horário nobre. E eu? Eu tinha sido 'promovido' para outro telejornal. A 'promoção' e o que aconteceu depois a gente deixa para contar outra hora.

08 setembro 2009

Duas ou três vezes por semana costumo levar meu caçula, de dois anos e pouco, para alimentar os patos, numa represa em Vinhedo. No caminho, sempre cantamos, O Pato, de Vinícius de Morais: "O Pato pateta/Pintou o caneco..." Mas, deixando o pato de lado, a história que tenho para contar é do Pateta, o amigo do Mickey Mouse. Aquele cachorro da raça Bloodhound, bem trapalhão, que nos quadrinhos ganhou até uma versão de super-herói, depois de comer amendoins saídos do chapéu. Quando morava no sul da Bahia, em 1994, recém casado, tinha um chaveiro de borracha do Pateta. Não me lembro como foi que ele foi parar conosco. Era nele que ficava a única chave do chalé em que morávamos, à beira mar. Um dia de folga, sol quente, mar calmo, atravessamos o terreno de casa para ir à praia. Caminhamos um pouco para a direita, em direção à barraca do Michael, um americano que, desconfio, contrabandeava obras de arte. No meio do caminho, decidimos parar para um mergulho. Assim que me levantei da água, levei a mão ao bolso e o Pateta tinha naufragado. Arrastei o pé pela areia... e nada. Olhei ao redor... e nada. Sem o Pateta, teríamos que procurar um chaveiro domingo, na Bahia. Vocês não sabem o que é isso! Outra opção seria arrombar a porta. Mas, se o fizéssemos, só empurraríamos o problema para depois. Foi quando tive a feliz idéia de me sentar em frente ao local onde mergulhei e esperar a maré baixar. Minha mulher ironizou: - Você aque a chave vai estar lá? - Acho, respondi. Não me lembro o que ela fez, depois, mas acho que passei boa parte do tempo esperando sozinho. Meu trunfo era o seguinte: Conhecia como poucos a maré daquele lugar. Desde que me mudara, em 1993, passei a observar com curiosidade os ciclos de maré naquela região. Sabia que a amplitude naquela época do ano era muito grande, coisa de 10 metros, entre a cheia e a vazante. Naquele pedaço então, quando a maré secava, formavam-se várias piscinas naturais, porque um enorme arrecife uns vinte metros adiante, no mar, funcionava como dique natural. Isso também impedia que a arrebentação fosse na parte em que a 'o mar passa saborosamente a língua na areia'. Com isso, não havia o efeito de arraste, comum depois que a onda quebra. Portanto, a tendência era que os objetos ficassem por ali mesmo. Como era um chaveiro do tamanho de um celular, não perdi as esperanças. E lentamente a maré foi baixando... Levou coisa de uma, duas horas, mais ou menos. E não é que no ponto em que mergulhei lá estava o pateta com a mão para cima, enterrado na areia? É o tipo de história que, quando a gente conta, ninguém acredita. Ainda bem que tenho testemunha e chaveiro em casa, ambos, há 15 anos!

07 setembro 2009

Ok, o cara é do time rival, mas merece as aspas pelo que escreveu na revista Carta Capital. Aí vai: "De raspão, passo por Marina Silva. Ela sempre foi duramente atacada pela mídia enquanto estava no governo Lula. Sempre considerada um entrave ao desenvolvimento, ao progresso quando defendia e conseguia levar adiante suas políticas de desenvolvimento sustentável. De repente, os colunistas mais conservadores, as revistas mais reacionárias, passam a endeusá-la pelo simples fato de que ela saiu do PT. É a mídia e sua intervenção política. Marina, no entanto, para deixar claro, não tem nada com isso. Creio em suas intenções de intervenção política séria, fora do PT. Neste, teve uma excelente escola, que ela não nega".
Luiz Gonzaga Belluzzo
P.S. Um anônimo me informa que o texto atribuído ao Belluzzo é do jornalista Emiliano José. Vou pesquisar. Enquanto isso, ficamos com as duas, para não parecer que não admito erros.
P.S.2 Tenho que admitir. Errei. O fragmento acima é do jornalista, escritor e deputado federal pelo PT da Bahia, Emiliano José. Ainda assim, considero o fragmento importante por revelar como a mídia é oportunista e, às vezes, a novíssima oposição, na voz de Marina, ingênua. Ou não...

05 setembro 2009

Editar séries de reportagens, como tenho feito com bastante frequência nos últimos anos, é uma espécie de céu e purgatório. Céu porque, em tese, você tem um time especial de: produtores, cinegrafistas, assistentes e repórteres. Tem um tema que dá espaço para contextualização (se bem que TV aberta não gosta muito disso, porque sempre nivela o público por baixo) e tem também mais tempo para editar. Tudo isso em tese. Purgatório porque as pessoas acham que você é privilegiado e, talvez por isso, muita gente na cadeia de produção faça corpo mole, deixe o trabalho para a última hora e, quando não, te maltrata e te insulta. Depois de 20 anos de carreira, é difícil não perder a paciência com os colegas. Sem contar que, numa série, você passa pelo menos três semanas mergulhado em um tema só. A gente brinca que o "sujeito dorme com as matérias". Mas, ainda assim, continua sendo a melhor 'droga' de todas as que a televisão pode oferecer para um jornalista. O resultado fica diferente no ar e a reação do telespectador também é outra. Tudo isso é só para dizer que, a partir de agora, não sei se continuarei a manter a mesma regularidade no 'blog'. Tenho uma série 'no prelo' (antiga essa, não?). É uma pena, porque 'blogar' passou a ser um refresco, um hobby. E dos melhores que existem! Eu recomendo...

04 setembro 2009

Você vai para o Rio! Foi assim que recebi a designação, dois dias depois de 2 de Abril de 2005. João Paulo II estava morto. O mais "pop" de todos os sumos pontífices da Igreja Católica tinha partido. Vale ressaltar aqui que a popularidade não seria tão grande, não fosse a exposição generosa que teve (das Organizações e organizações e, claro, do Vaticano. Mas essa é pauta para o Wálter Maerovitch, não para mim). Voltando ao assunto, o apresentador (daquele que já foi o maior...) tinha embarcado para Roma. O diretor de jornalismo foi junto. Repórteres de primeiro escalão também se juntaram ao grupo. Começava ali uma enorme e estafante cobertura jornalística. A transmissão seria feita de um 'praticável', ao vivo, do Vaticano. Durante uma semana, me incorporei aos editores na linha de frente do telejornal. Entrava às onze da manhã, almoçava voando, por ali mesmo, e continuávamos o trabalho, em mutirão. Quando o jornal terminava, estávamos todos exaustos. No Vaticano, a fila para o 'último adeus' era enorme e tínhamos que ter alguém lá. Idéia que não teria a menor graça, não fosse o repórter Caco Barcelos. Ele 'era o cara'. Àquela altura da carreira, Caco não aguentava mais fazer dia-a-dia, ainda mais com tantos 'interesses cruzados' em jogo. Mas, naquela situação, não tinha escolha, as preferências pessoais cederam, diante da grandeza do fato. Dali, até o fim da cobertura, tínhamos o diferencial, o fio condutor para uma boa história. De dentro dos acontecimentos, com começo, meio e fim. O papa que veio depois de Wojtyla foi o alemão, Joseph Ratzinger, que de vez em quando empresta o nome para apelidar o tal diretor de jornalismo. O porquê do apelido a gente explica outra hora. O resultado daquela cobertura, num país ainda tão católico, trouxe tanto prestíigio para o departamento, que no fim daquele ano, recebemos - todos - um prêmio interno, que a empresa instituira. Era um certificado e um vale-compras. Peguei o meu e fui comprar um mini sistem. Cheguei em casa e, na hora de fazer o teste, não tive dúvidas: No último volume, Igreja, dos Titãs: "Eu não gosto de padre, eu não gosto de madre, eu não gosto de frei..."

03 setembro 2009

Meu filho mais velho me perguntou o quê, afinal de contas, era pré-sal. Respondi que era uma camada do oceano muito profunda e que a Petrobras era a única empresa com tecnologia para explorar sozinha o petróleo lá. Em seguida ele afirmou: - Pai, sabia que a Petrobras é uma das maiores empresas do mundo? Respondi: - Do mundo não, das Américas. - Ah, é, das Américas, lembou ele, que emendou: - E qual é a maior? Das Américas ou do mundo, perguntei? Das Américas, ele reforçou. - Não sei, respondi. E ele foi ao google. - Pai, me disse, é outra de petróleo. E do mundo também. É uma tal de Royal Dutch Shell. E depois disparou. Pai, sabia que entre as dez maiores do mundo, sete são de petróleo? Aí eu disse a ele: - Entendeu porque tá todo mundo querendo o pré-sal? A oposição quer que os estrangeiros sejam nossos sócios. Em jogo está muito dinheiro. E nesse mundo, quem tem dinheiro, tem poder. - Entendi, ele respondeu, saindo da cozinha. Pedro tem apenas 13 anos, mas já percebeu a importância da contextualização. Tem adulto que não aprendeu isso até hoje. A propósito da curiosidade dele, que deve ser a mesma de muitas crianças da mesma idade, e até dos adultos, a primeira é a Shell (holandesa); a segunda, a Exxon Mobil (americana); a quarta, a BP (inglesa); a quinta, a Chevron (também americana); a sexta, a Total (francesa); a sétima, a ConocoPhillips (também americana) e finalmente a a nona, a Sinopec (chinesa). Só a rede Wal Mart (cadeia de lojas americana), o ING (banco holandes) e a Toyota (montadora japonesa) fazem parte da lista dos dez mais. Dá para imaginar o lobby que esses caras estão fazendo para tentar entrar aqui??? O mundo vive uma corrida por novas fontes de energia, renováveis ou não. E com o avanço do Islamismo, o Oriente Médio está deixando de ser um parceiro servil e confiável. Simples assim! Mas a política é mesquinha demais para pensar um projeto de longo prazo para o país. Vão ficar só nas 'picuinhas'. Enquanto isso... nos bastidores nossos hermanos gringos vão se articulando.
Em tempo: Olhem só o argumento da britânica The Economist para sustentar que a criação da PetroSal pode não ser um bom negócio para um Estado 'inchado': "Qualquer um que esteja acompanhando os recentes escândalos de corrupção no Congresso brasileiro sabe que os legisladores do país são capazes deste tipo de desastre".

02 setembro 2009

Nos anos 70, a TV era obrigada a mostrar essa imagem, aí ao lado. Era a decisão do Departamento de Censura determinando o horário de exibição e a faixa etária de público. Era uma decisão de fora para dentro. Hoje, na semana em que se comemora os 40 anos daquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país, há relatos de que a censura voltou. Só que de dentro para fora. Há até certa melancolia, no Jardim Botânico e, principalmente, no prédio novo em São Paulo, aquele que os colegas apelidaram de "Shopping Center da Notícia". Muitos estão paranóicos. A propósito de paranóia, lembrei-me de uma frase que o Azenha soltou recentemente e que achei sensacional: - Tá certo que o paranóico é paranóico, mas que ele está sendo seguido, isso ele está! Há algum tempo, amparada por decisões judiciais (a chamada jurisprudência), a empresa soltou um comunicado informando que o conteúdo do e-mail coorporativo era de propriedade da emissora e que, portanto, poderia ser monitorado. Muitos interpretaram como um recado para que, daquele momento em diante, fossem evitados contatos com colegas que tinham deixado o local, ou que fossem comentadas decisões internas, mesmo em caráter particular, ou privativo. Mais recentemente recebi informações, de mais de uma pessoa, várias, de que a tecnologia, incorporada à estrutura de telecomunicações, permitiria monitorar ligações telefônicas a partir de aparelhos celulares dentro dos prédios. E que os telefones de mesa estariam 'grampeados'. Acho até um exagero, mas o estado de espírito da redação (o que antigamente chamavamos 'chão de fábrica') é significativo da crise que a emissora atravessa. Os mais recentes números da audiência dos telejornais, principalmente os matutinos, por enquanto, demonstram isso. Algumas mudanças importantes estão sendo feitas no departamento de jornalismo aos poucos, sem alarde. Foi preciso reforçar o comando no Rio de Janeiro, por exemplo, onde a concorrência tem feito estrago mais significativo. Em São Paulo, há uma reformulação em curso desde 2006, depois da superexposição causada pelo escândalo das eleições presidenciais. O que a turma do andar de cima ainda não entendeu é que essa sangria não será estancada calando os colegas. Eles não têm culpa pelos erros de seus gestores, ao contrário, formam uma equipe campeã, que está sendo sacrificada nessa disputa, que ainda exige dos discordantes um silêncio obsequioso. É um erro estratégico! É impossível centralizar as decisões e ainda exigir ordem unida da equipe. Isso, só no regime militar, e ainda assim, a custa de muita arbitrariedade, injustiça e volência. Aquilo que recentemente a Folha de S. Paulo tentou rebatizar de "Ditabranda". Alguém tem que fazer essa gente parar!

01 setembro 2009

Quando o conheci, em 1994, no Arraial de Nossa Senhora D'Ajuda, na Bahia, só sabia - por outros - que era um sujeito meio desmiolado, refugiado, como eu, naquela região parasidíaca e, até então, remota do planeta. Conversamos pessoalmente duas ou três vezes, período em que fui colaborador de A Folha de Tancoso. Fiquei encantado com seu ar visionário, suas teses libertárias e seu jeito anárquico. Acho que Jorge Mourão me ajudou a entender melhor o que é 'transcendência', no sentido Kantiano da palavra, se é que me entendem. Hoje, sua Folha de Trancoso tem até versão digital, na internet. No ano em que nasci, 1966, Morão já tinha seu "Teatro de Câmara", popular e vanguardista, interditado naquele mesmo ano pelas forças de repressão (que a Folha de S. Paulo prefere chamar de Ditabranda). No início dos anos setenta, Mourão 'desapareceu', mas não como Belchior, de mentirinha. Durante aquela década, se dedicou a gravar mais de trinta filmes em super 8 (super, o quê? Isso mesmo!). Ao lado de Torquato Neto, Joel Macedo e Antônio Henrique Nietzche, foi um dos fundadores da Revista Presença, no início dos anos 70, numa súbita 'reaparecida' no Rio. A revista é considerada um dos mais importantes veículos da imprensa underground carioca. É autor dos livros: Maconha em debate, de 1985, Brazilian Connection, de 1990, e Tragédia na seita do Daime, de 1995. Reencontrar Mourão faz parte do processo de recontar minha história, para pacificar o passado, reunindo todo o armamento que se fará necessário para as lutas do fututo. Saúde e longevidade, Mourão!

 
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