No início do século XXI, a emissora, que já foi líder absoluta de audiência, deixou sua sede na praça Marechal Deodoro para ocupar um elegante prédio na zona sul, onde as águas são espraiadas, a ponte estaiada e o terreno, bem o terreno, deixa pra lá... Nessa época, eu era editor-coordenador daquele que já foi o principal telejornal matutino do país. Hoje, é segundo ou terceiro colocado, a depender da programação. O prédio, que foi apelidado pelos colegas de "Shopping Center da Notícia", tinha dois blocos interligados por um átrio de vidro. Era de lá que via, sempre que a poluição dava trégua, o nascer do sol, enquanto fumava o terceiro ou quarto cigarro do dia, depois de ter pulado da cama às três e meia da manhã. Nessa altura, todo mundo deve estar perguntando, e daí? Todo este 'nariz de cera', que é como nós jornalistas chamamos a pequena introdução acima, é para retomar um ponto que ficou em outra postagem anterior, o da demissão da colega, que se recusou a fazer uma entrada da missa do Padre Marcelo, com o Rodrigo Vianna (e não porque fosse o Rodrigo, ao contrário, sempre muito bem-vindo e querido em todos os telejornais, até pouco tempo atrás). Ela foi afastada do cargo, porque não entendeu que aquela entrada ao vivo era mais do que mero interesse jornalístico, era estratégico para a empresa. Bem, essa discussão não vem ao caso agora. Meu ponto é o que aconteceu depois da saída dela. Quem foi convidada a ocupar o lugar da colega, foi uma jornalista que elevou aquele telejornal à condição de ópera-rock. Estou falando de Liliane Yusim. Não sei porque, mas toda vez que me lembro da Lili, me vem à cabeça os versos de Fool's Overture, de Supertramp: "Live it up, rip it up, why so lazy? Give it out, dish it out, let's go crazy, Yeah!" (Viva intensamente, blasfeme, por que tanta preguiça? Distribua isto a todos, sirva isto, vamos enlouquecer, sim!). Aqui é preciso fazer uma pausa para contextualizar. No início dos anos oitenta (do século passado!) Um grupo de comunicação ousado, ao contrário dos de hoje, lançou uma FM nada convencional, a Fluminense FM. Ao lado do jornalista Luiz Antônio Mello, Lili arrebentou. Faziam o "Rock Alive". O programa, e a rádio como um todo, revolucionaram a frequência modulada no país. O que imaginar de uma emissora apelidada de "maldita"? Eles 'rasgaram o hit-parade'! Modificaram os padrões com a locução descontraída, a linguagem jovem, filosofia e mentalidade alternativas. Mas a maldita não tocava só rock. Tocava reggae, blues, pasmem, Clementina de Jesus, Moreira da Silva, MPB e todas as experiências 'malucas' daquele tempo: Lobão, Paralamas, Blitz... E ainda os demos: Capital Inicial, Plebe Rude, Picassos Falsos, Finis Africae (ninguém vai se lembrar desses últimos, a não ser o Samuca e o Piru, do expatrieted, cujo o atalho está aí, ao lado da página). Ok, para ficar só nos 'convencionais', em oitenta e quatro, a programação tinha New Order, Joy Division, Echo & The Bunnymen, Dead Kennedys, The Smiths, The Cure, U2 e todos os outros roqueiros veteranos, da europa e dos EUA. Além da Lili, havia outras vozes que se tornaram familiares. A da Mylena Ceribelli, que hoje apresenta o Esporte Fantástico, na Record, da Selma Boiron, da Monika Venerabile, que depois fez carreira em São Paulo... Reencontrei a Lili anos depois, naquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país. Todo mundo deve perguntar, como sabe disso tudo? Uma parte é fruto de pesquisa, outra, de ouvido. Em oitenta e quatro tive o endereço mais nobre do Rio, só para passar fins de semana: Vieira Souto com Farme de Amoedo, décimo-sexto andar. Na cara do gol, digo, da imensidão do mar azul . Mas essa é outra história... (Na foto, a Lili é a terceira, da esquerda para a direita).

























