31 agosto 2009

No início do século XXI, a emissora, que já foi líder absoluta de audiência, deixou sua sede na praça Marechal Deodoro para ocupar um elegante prédio na zona sul, onde as águas são espraiadas, a ponte estaiada e o terreno, bem o terreno, deixa pra lá... Nessa época, eu era editor-coordenador daquele que já foi o principal telejornal matutino do país. Hoje, é segundo ou terceiro colocado, a depender da programação. O prédio, que foi apelidado pelos colegas de "Shopping Center da Notícia", tinha dois blocos interligados por um átrio de vidro. Era de lá que via, sempre que a poluição dava trégua, o nascer do sol, enquanto fumava o terceiro ou quarto cigarro do dia, depois de ter pulado da cama às três e meia da manhã. Nessa altura, todo mundo deve estar perguntando, e daí? Todo este 'nariz de cera', que é como nós jornalistas chamamos a pequena introdução acima, é para retomar um ponto que ficou em outra postagem anterior, o da demissão da colega, que se recusou a fazer uma entrada da missa do Padre Marcelo, com o Rodrigo Vianna (e não porque fosse o Rodrigo, ao contrário, sempre muito bem-vindo e querido em todos os telejornais, até pouco tempo atrás). Ela foi afastada do cargo, porque não entendeu que aquela entrada ao vivo era mais do que mero interesse jornalístico, era estratégico para a empresa. Bem, essa discussão não vem ao caso agora. Meu ponto é o que aconteceu depois da saída dela. Quem foi convidada a ocupar o lugar da colega, foi uma jornalista que elevou aquele telejornal à condição de ópera-rock. Estou falando de Liliane Yusim. Não sei porque, mas toda vez que me lembro da Lili, me vem à cabeça os versos de Fool's Overture, de Supertramp: "Live it up, rip it up, why so lazy? Give it out, dish it out, let's go crazy, Yeah!" (Viva intensamente, blasfeme, por que tanta preguiça? Distribua isto a todos, sirva isto, vamos enlouquecer, sim!). Aqui é preciso fazer uma pausa para contextualizar. No início dos anos oitenta (do século passado!) Um grupo de comunicação ousado, ao contrário dos de hoje, lançou uma FM nada convencional, a Fluminense FM. Ao lado do jornalista Luiz Antônio Mello, Lili arrebentou. Faziam o "Rock Alive". O programa, e a rádio como um todo, revolucionaram a frequência modulada no país. O que imaginar de uma emissora apelidada de "maldita"? Eles 'rasgaram o hit-parade'! Modificaram os padrões com a locução descontraída, a linguagem jovem, filosofia e mentalidade alternativas. Mas a maldita não tocava só rock. Tocava reggae, blues, pasmem, Clementina de Jesus, Moreira da Silva, MPB e todas as experiências 'malucas' daquele tempo: Lobão, Paralamas, Blitz... E ainda os demos: Capital Inicial, Plebe Rude, Picassos Falsos, Finis Africae (ninguém vai se lembrar desses últimos, a não ser o Samuca e o Piru, do expatrieted, cujo o atalho está aí, ao lado da página). Ok, para ficar só nos 'convencionais', em oitenta e quatro, a programação tinha New Order, Joy Division, Echo & The Bunnymen, Dead Kennedys, The Smiths, The Cure, U2 e todos os outros roqueiros veteranos, da europa e dos EUA. Além da Lili, havia outras vozes que se tornaram familiares. A da Mylena Ceribelli, que hoje apresenta o Esporte Fantástico, na Record, da Selma Boiron, da Monika Venerabile, que depois fez carreira em São Paulo... Reencontrei a Lili anos depois, naquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país. Todo mundo deve perguntar, como sabe disso tudo? Uma parte é fruto de pesquisa, outra, de ouvido. Em oitenta e quatro tive o endereço mais nobre do Rio, só para passar fins de semana: Vieira Souto com Farme de Amoedo, décimo-sexto andar. Na cara do gol, digo, da imensidão do mar azul . Mas essa é outra história... (Na foto, a Lili é a terceira, da esquerda para a direita).

30 agosto 2009

Hoje é domingo, pé de cachimbo, o cachimbo é de ouro, bate no touro... Oito e meia da manhã. Estamos a caminho da padaria. O caçula me pergunta: - Onde está a Rose? A Rose não vem hoje, porque é domingo. Rose é nossa empregada doméstica. Não gosta do nome da profissão, como quase todas. Quando perguntam a ela o que faz, responde: - Trabalho em casa de família... Mais tarde, a caminho do trabalho (sim, faço isso aos domingos, infelizmente) lembrei do touro valente, que chifra a gente... Para, em seguida, numa associação livre, que é muito diferente de 'testar hipóteses', imaginei a tourada, não como um espetáculo sanguinolento, mas como uma metáfora. Era editor daquele que já foi o maior e mais importante telejornal noturno do país, quando a oposição, representada pelo PSDB e o DEM desenvolveu uma tese um tanto excêntrica: - Vamos fazer o governo Lula sangrar, até a eleição. A emissora encampou a tese. Despachou para Brasília uma experiente jornalista que tinha a tarefa de 'colar' no netinho do Senador (aquele que foi 'ministrinho' das comunicações na ditadura e ficou dono de um império na Bahia, só aqui mesmo...). Ele, o 'netinho' estava escalado para abastecer a 'imprensinha' com 'notinhas' vazadas de investigações 'sigilosinhas', cujo objetivo era deixar a chama da crise acesa no 'noticiariozinho'. Enquanto isso, a tropa de choque fazia o corpo-a-corpo no Congresso, como se tudo não passasse de uma cobertura normal. Quanto teatro, Franklin Martins! E que ingenuidade a minha... Mas essa é pra outra hora... O que quero, é voltar à metáfora do touro. Como sabemos, numa tourada à pé, o desafiante - de capa e farpas - tenta iludir o touro, cansá-lo e ferí-lo, levando-o à morte. Mas por que essa metáfora, assim, tão trágica? É porque há os toureiros covardes e os corajosos. Uns sucumbem, outros triunfam. Bom, e aí? Aí, que muitos colegas têm me perguntado porque não escrevo sobre o lado Sodoma e Gomorra daquele que foi apelidado por eles de "Shopping Center da Notícia"? Por que não mostrar que ali, onde a água espraia, a ponte estaia e o terreno, bem o terreno deixa pra lá... (E pensar que já foi uma bela várzea do Rio Pinheiros, quando eu era apenas uma criança montada numa bicicleta Caloi), que ali também teve seus dias de Solar das Taras Proibidas? A resposta é simples. Alguns toureiros triunfam, outros sucumbem.

29 agosto 2009

O factóide que catapultou Lina Vieira, desmascarada pelo ex-secretário da Receita Federal, Everaldo Maciel, no programa "Entre Aspas" me trouxe à memória o contato com uma das grandes jornalistas que conheci na televisão: Mônica Waldvogel. Mas antes de falar da Mônica, deixa-me fazer uma pausa para colar aqui o abre do perfil que a colega Taís Oyama fez para a Revista Veja, em agosto de 2002, do ex-porteiro de hospital, em Pernambuco. Escreve Taís: "Everardo Maciel, o mais voraz dos secretários que a Receita já teve, incrementa a caça à sonegação, revoluciona o sistema de entrega de declarações e comemora o que, para o resto dos brasileiros, é fonte de amargura: a estratosférica subida da arrecadação". Portanto, não podemos dizer que, com essas credenciais, ele seja um governista, disposto a proteger Dilma Rousseff e o governo Lula, certo? Mas, voltando à Mônica... Se há alguém naquela emissora capaz de fazer oposição à cartilha imposta por Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardemberg e congêneres, é a Mônica. Quando a conheci tinha sido posta 'na geladeira', que é como apelidamos as decisões - quase sempre arbitrárias - para esconder um profissional. Foi depois de uma passagem relâmpago pelo Jornal Hoje, onde foi massacrada pela comentarista de economia e oráculo dos irmãos Marinho, aqueles que são famosos por não ter nome próprio e ninguém saber ao certo quem é quem. A geladeira no caso era o jornal matutino local de São Paulo, que trazia no pacote uma modesta participação, naquele que já foi o mais importante telejornal de rede do período da manhã. O que sempre me chamou a atenção, na Mônica, foi a capacidade de auto-crítica, coisa rara entre repórteres e apresentadores, por razões óbvias: os afagos da opinião pública. Mônica não. Tinha de sobra as duas melhores belezas que uma mulher pode ter: inteligência e sensibilidade. Formada pela Escola de Comunicação e Artes da USP, a ECA, foi levada pelo destino precocemente à maternidade (uma dádiva de Deus) e, mais tarde, ao jornalismo econômico (um carma dos piores). Ao lado de outros brilhantes repórteres, ganhou fama na extinta TV Manchete fazendo o que é mais gostoso na profissão: dar furos. Encontrei-a numa fase em que sua auto-estima estava um pouco abalada e acho que com meu entusiasmo ajudei-a (de alguma forma) a se reinventar. Nosso 'casamento' durou pouco mais de um ano, período em que fizemos participações 'de fôlego' no telejornal chique, que dizem, era o preferido do diretor da central de jornalismo. O erro dela, mais uma vez, foi ter aparecido demais. Mônica era muito boa para servir de 'foie gras' naquele 'banquete'. Com uma humildade também rara entre os colegas, voltou a estudar. Tinha descoberto um curso com Jorge Mautner, que a fez renascer. Hoje, voltou a fazer o que mais gosta, dar furos. E transformou as tantas Saias Justas pelas quais passou, num dos programas mais admirados da televisão brasileira. À Mônica, meu tributo e minha gratidão. Aconselho a quem quiser opinar, ver a entrevista antes. Segue o atalho:
http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1111651-7823-CRISE+ATINGE+DE+VEZ+A+RECEITA+FEDERAL,00.html

A redação da nova sede do jornalismo era pequena para tanta gente. O controle na entrada e saída era rigorosíssimo. Ainda assim, diretores de outros departamentos, assessores e políticos se espremiam nos fundos do cenário. Não era um dia qualquer. Era 28 de novembro de 2002. O editor-chefe e apresentador daquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país estava em São Paulo e tinha a incumbência de entrevistar o presidente da República, que finalmente representava a vontade popular. Ao dar a primeira entrevista justamente para o telejornal que foi o avalista de uma fraude que levou-o à derrota em 1989, Lula sabia que seria, além de um gesto de grandeza política, uma vingança. O que ele não esperava é que, ao pisar na redação, fosse ovacionado por todos os jornalistas. Foi um aplauso interminável. Muitos colegas tiveram que ser consolados. Outros, como eu, engolimos as lágrimas, num caldo salgado e delicadamente doce. Era um momento sublime, como se uma sequência de imagens de aquivo passasse em alta velocidade em nossas cabeças. As greves do ABC, os comícios de Vila Euclides, o movimento das Diretas-já, a resistência e o confronto. Havia entre todos uma cumplicidade, de uma geração que depositara no metalúrgico um sonho, expresso cinco meses antes na Carta ao Povo Brasileiro: “O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis.” Coincidentemente, havia sido eu o editor responsável a dar forma à correspondência, no telejornal da hora do jantar, num plantão de sábado. Conhecia cada linha daquele compromisso público que estava sendo assumido e sabia que não seria fácil. Quando, dias depois, encontrei Franklin Martins, o comentarista de política do telejornal em que trabalhava - que já foi o principal telejornal noturno de política e economia do país - contei o fato a ele, que disse: - Isso é preocupante. Jornalista nunca deve aplaudir político. Tentei contextualizar, mas não o convenci. Não sei se ele estava certo ou não, mas o acontecimento despertou na direção a preocupação de que poderia haver ali um movimento adesista, que pudesse atrapalhar os planos, já em curso na emissora, de centralizar as decisões editoriais. Mas essa uma história cabeluda demais para contar por enquanto...

28 agosto 2009

Boa noite lindão, bonitão. Era assim que minha mãe se despedia dos apresentadores Cid Moreira e Celso Freitas, nos anos oitenta, naquele que já foi o melhor e mais importante telejornal do país. De lá pra cá, quanta coisa mudou... Em 1989, ano em que a emissora pôs toda a credibilidade a perder, Celso Freitas já tinha deixado a bancada do jornal. Neste caso, o destino contribuiu para imacular sua biografia. Com a volta de Sérgio Chapelin à emissora, Celsão, como é carinhosamente chamado pelos colegas, passou a apresentar o programa jornalístico das noites de sexta-feira e o de domingo. Depois, foi empurrado para a TV a cabo e lá se reinventou, graças a um programa que caiu no gosto popular, porque tinha como princípio, pasmem, dar boas notícias. Reportagens que revelavam paisagens, aventura, costumes e a cultura popular. Foi pelo Via Brasil e depois no Hipermidia, na GNT, que Celso abriu caminho para dar 'uma banana' ao patrão e reassumir seu lugar entre os grandes, no telejornalismo brasileiro. Estava terminada a era de dois homens na apresentação do jornal da hora do jantar. A bancada passou a comportar um casal, a exemplo do que experimentavam outras emissoras, em especial a extinta TV Manchete. O início dos anos 90 foi uma fase de muita expermentação em todas as emissoras. A maior emissora do país recolhia os cacos para reconquistar a confiança e credibilidade do público. Apesar de jamais admitir, houve uma fase em que o telejornalismo da emissora dependia viceralmente da programação, essencialmente das novelas da sete e das oito, que seguravam as pontas. Muitos televisores ficavam ligados, mas as pessoas estavam apenas esperando a novela seguinte começar. É o que no jargão chamamos de audiência inercial. Foi nessa inércia que nasceu um telejornal 'vibrante' que alcançou índices espetáculares de audiência: O Aqui, Agora, no SBT. Muitos vão se lembrar do comentarista Maguila, do meteorologista Feliz, ou do locutor Luiz Lopes Corrêa, dando as manchetes internacionais e, ainda, dos repórteres Jacinto Figueira Jr, o homem do sapato branco, Wagner Montes e o impagável Gil Gomes. O jornalismo ganhava um ingrediente novo, humor. E um ingrediente trágico, as reportagens sanguinolentas. Foi preciso reinventar o boa noite. Isso demorou, mas aconteceu... Envolveu uma reengenharia e muita disputa nos bastidores naquela que está deixando de ser a maior emissora do país. O que os telespectadores só têm a comemorar. A guerra pelo poder é assunto para outra hora...

27 agosto 2009

O ônibus estava lotado. Partira de S. Bernardo do Campo com destino a Brasília. A bordo, metalúrgicos 'históricos' do ABC. Com eles, um dos mais versáteis e bem humorados repórteres em atividade no país: Alberto Gaspar. Gaspar, nascido às margens do Ipiranga, como eu, é o maior crítico gastronômico de boteco que conheço. Do tira-gosto à cerveja mais gelada em São Paulo, não há um endereço que ele não conheça. E, ao contrário dos críticos 'metrosexuais' de hoje, ele é gente simples. Gosta de comer, beber e ponto. Sem frescura. Bom, era o dia que considero o mais importante da história recente do nosso país. Primeiro de janeiro de 2003. Mal tinha visto a queima de fogos na noite anterior. A comida não descia. O coração batia na boca. Estava ansiosíssimo. Fora escalado para ser um dos poucos editores, em todo o país, que cobririam a posse do primeiro presidente da República eleito, graças à maciça vontade popular. A emissora teria a oportunidade de se reconciliar com o público, depois do fiasco de 1989, quando levou ao poder Fernando Collor de Mello, graças a um debate modificado por ordem expressa da direção da casa, para atender a interesses particurares. Meu voo partiria de Viracopos, em Campinas, no dia primeiro, às 7h15 da manhã. Ao chegar à redação de Brasília encontrei o editor de imagens, que ao lado de tantos outros, foi meu parceiro em grandes momentos, o gigante. Ele, Dadá, e Carlos Dorneles (que dispensa apresentações) tinham passado o reveillon no hotel, ao lado de outros colegas, que só conseguiram voo na noite de 31. Tomaram um porre, é claro! No meio da madruga, Dadá correu para janela do quarto, que dava para o vão interno das torres, e começou a gritar: - Acorda Chaves! Acorda Chaves! Viva la Revolucion! Viva la Revolucion! Chaves e seus 'bolivarianos' também estavam hospedado ali. Voltando à redação, lá estava o diretor da central de jornalismo, o editor-chefe daquele que já foi o maior e melhor telejornal do país e todos aqueles reporteres figurões que a gente ve espalhados ao longo do dia, ou por aí. Dessa vez estavam todos juntos. Todos fariam o mesmo telejornal. E eu - que havia sido salvo por um maníaco, quem diria, lá no meio deles... Recebi o que considero um prêmio, editar o vt do Gaspar. Ele tinha passado a noite no ônibus com os 'metaleiros', tinha ótimos depoimentos e uma história bem engraçada para contar. Editamos rápido. Muito antes do deadline nossa reportagem estava pronta. Mas ficou maior do que o combinado, 1:30. Tínhamos 1:47. O coordenador da operação me disse: - Converse com o sujeito aLI (o diretor da central), se ele autorizar, vai assim. Mas o homem, que chegara havia pouco, vindo do jornalismo impresso, e que, até aquele momento, não entendia muita coisa de televisão, foi irredutível. 1:30. Entregamos com 1:32, com a certeza de que ele não brigaria por 2 segundos. De fato não brigou. Foi o telejornal mais bonito que assisti. Um desfile dos melhores repórteres, fazendo o que de melhor sabiam fazer: reportar, sem censura. Cada reportagem declamada, cada texto um grito de desabafo dos porta-vozes da vontade popular. Mas, como nada é perfeito, o Rolls-Royce conversível quebrou. Mas não era problema. Não faltou povo - nem metaleiro - na esplanada para empurrar.

26 agosto 2009

"Acho melhor você procurar outro lugar para trabalhar. Sei que acaba de chegar a São Paulo, tem um filho pequeno (1,5 ano) e não quero te demitir assim, de surpresa. Por isso, estou te dando o aviso e vou te dar um prazo". Já se vão mais de dez anos que ouvi esse conselho, de uma das minhas editoras-executivas, numa ilha de edição (como o nome diz, é um local isolado, sem cúmplices ou testemunhas). Fazia três meses que voltava a São Paulo, depois de um exílio de mais de quatro anos. Tinha trinta e poucos anos e estava com todo gás para rodar quilômetros e quilômetros na profissão. Fui 'encontrado' graças a um golpe de sorte do destino. Trabalhava como editor-executivo, apesar de não ganhar para isso, em um programa semanal de pesca e turismo ecológico, em Campinas, interior de São Paulo. Por intermédio do irmão dele e de uma prima (meus padrinhos no telejornalismo diário), o diretor de jornalismo me telefonou. Sabe aquela coisa do tipo: você entra na redação e o colega te puxa de canto e diz: - O fulano de tal disse que é pra você ligar para ele. Sua primeira reação é dizer: - Tá bom, conta outra... Fala sério? Você liga e o sujeito diz para você: -É o seguinte, tem um projeto aqui de um novo formato de jornalismo e estamos procurando editores. Vem conversar comigo. Pedi segredo ao colega (que correu para contar ao chefe, mas tudo bem, já o perdoei) e fui voando para São Paulo. Tomei um chá de cadeira de quase uma hora com o 'currico' na mão. Com razão. Além de super ocupado, o cara era assediadíssimo pela mulherada da redação. Era jovem como eu, talentoso como só vi um na vida, ia ficar rico logo, tinha poder e influência.... Bom, ele nem quis saber o que eu já tinha feito da vida. Disse que tinha boas referências, conhecia o programa que eu fazia 'que modéstia à parte estava bombando' e me ofereceu uma vaga, num novo projeto que, não sabíamos, viria a ser revolucionário. Aqui cabe uma pausa para contextualizar. A emissora foi fiadora da campanha eleitoral de Fernando Collor de Mello, que deu no que deu. O jornalismo estava super desmoralizado. Desde o Impeachment, equipes do jornalismo eram hostilizadas nas ruas. Sempre que podia, o povo gritava que não era bobo. Raramente mandavam repórteres à periferia. Qual era o plano daquele jovem visionário? Guardadas as devidas proporções, fazer no jornalismo eletrônico o que Samuel Wainer havia feito no jornalismo impresso, com o seu Última Hora, na década de 50. O fato é que o telejornal foi ao ar na hora do almoço, virou líder absoluto de audiência e levou o jornalismo da emissora a índices de reconhecimento e aprovação só experimentados nos tempos das vacas gordas (entenda-se Ditadura Militar). E qual era a fórmula? Jornalismo comunitário, humor e entretenimento. E, claro, notícia. O carros-chefes, para nossa sorte, foi um prefeito atrapalhado, o Celso Pitta, e um motoboy serial killer, o Francisco de Assis Pereira, o temido "maníaco do Parque". Ele foi caçado pela imprensa e eu, ao lado de Sylvestre Serrano, hoje na Record, tínhamos a incumbência de fechar um vt por dia, obrigatoriamente, durante os 23 dias em que passou foragido, desde que fora identificado pela polícia. Para abreviar a história, seis anos depois, uma pesquisa do Ibope para o Ministério Público mostrou que o caso policial é o mais lembrado pelos brasileiros, com um índice de setenta e seis por cento. No dia da prisão, para minha felicidade, estava de licença médica, porque um dia antes cai na redação, com a primeira, de tantas crises de stress que a carreira me brindou. Ainda assim fui trabalhar, e quando cheguei levei uma bronca da chefe (aquela lá do início do texto) que me mandou de volta para casa. Naquele dia, ela perdeu o controle do jornal no ar, estourou mais de cinco minutos, derrubando toda a programação, e o que é pior pecado, ocupou espaço comercial da emissora. Cabeças rolaram. E eu, que quase fora demitido meses antes, quem diria, fui salvo por um maníaco.

25 agosto 2009

Início dos anos dois mil. Redação novinha, recém inaugurada pelo presidente da República. Aliás, foi a primeira vez que vi um congestionamento de helicópteros. Chique, não acham? Um maior do que o outro. O do governador era enorme e o dos patrões novinho em folha. Ainda tinha o do jornalismo, com câmeras operadas por controle remoto. Mas chique mesmo é o que vou contar agora. Trabalhava como editor-coordenador em São Paulo daquele que já foi o mais importante telejornal matutito do país. Pulava da cama às três e meia da manhã para assumir meu posto uma hora mais tarde no "Shopping Center da Notícia", que foi como os colegas apelidaram o prédio novo. Havia um clima de entusiasmo no ar. Fazíamos parte de uma equipe vitoriosa, qua acabara de faturar os mais importantes prêmios da televisão brasileira. Os índices de audiência do jornalismo não poderiam ser melhores. Pela primeira vez não dependiamos do entretenimento para alavancar nossos índices. Que fase! Mas não era sobre isso que queria falar. Queria contar um pouco sobre o telejornal em que trabalhava. Era o preferido do diretor da central de jornalismo. Diz a lenda que ele não saia de casa sem assistí-lo e era comum ele telefonar para o switcher fazendo críticas e elogios à editora-executiva, que virou vaga, depois que se recusou a dar uma entrada ao vivo do Rodrigo Vianna na missa do Padre Marcelo. Era um jornal charmoso, com apresentador poliglota, apresentadora sex simbol, quadros especiais, cinegrafistas caprichosos, acabamento de primeira. Reportagens sobre artes, culinária, música clássica! As manchetes dos principais jornais do mundo, alguns impronunciáveis, como os alemães. O editor-chefe e apresentador era um sujeito que podemos dizer cheio de idiossincrasias. Expert em vinhos, tirava férias só para ir à Europa ouvir concertos. Quase um aristocrata. Detestava acordar cedo como outros mortais, mas não tinha escolha. Dividia o tempo entre o telejornal e à confraria e os negócios etílicos. A economia cambaleava, mas todos acreditavam que não haveria desvalorização do Real, principalemente ele, amparado pela comentarista de economia, que tinha trânsito privilegiado no Planalto. Mas a desvalorização chegou, logo depois da banda exagenal endógena (endo, o quê?). Isso mesmo! Da noite para o dia, o mundo de sonhos do apresentador ruiu e a empresa, que devia em dólares, quase foi à ruína. Virou refém dos credores e dizem até que o reluzente helcóptero teve que ser vendido, pobrezinhos... Como chegar à ilha de Angra? De iate? Que coisa de pobre! Mas voltando ao apresentador. Ele começou a reunião daquele dia arrasado. Dizia que seus planos tinham ido por água abaixo e que não sabia mais o que fazer. Eu não perdi a piada. Apertei o botão da teleconferência e disse: - É simples, de agora em diante patê só da Sadia e vinho Forestier. - Nunca! Respondeu ele do outro lado, levando os colegas às gargalhadas. Acho que apesar da minha ironia, ele gostava de mim. Afinal, eu tinha assistido Meu tio, uma comédia de Jacques Tati, um dos cineastas preferidos dele. Bons tempos aqueles. Era mais ingênuo e achava que manipulação era teoria conspiratória...

24 agosto 2009

Sou da geração Colorado RQ, o televisor do Pelé. Por isso, é com alegria que informo: algumas emissoras de televisão estão conseguindo adicionar à programação um ingrediente que até bem pouco tempo atrás pertencia apenas a uma no país: glamour. E como se faz para ter glamour? Em primeiríssimo lugar, qualidade. Seja rico ou seja pobre, o telespectador quer ver qualidade no ar. Nas imagens, no texto, na edição, na sonorização, no ritmo... Ninguém gosta de porcaria, a não ser que seja bizarro, ou cult, como Chaves, por exemplo. Em segundo lugar, a programação tem que ter a capacidade de marcar o telespectador, de replicar a informação por outros veículos de informção, principalmente jornais populares e revistas de fofoca. Gerar o que os especialistas chamam de "recall do produto". Mas isso não é tudo. É necessário a base, que só existe com planejamento e previsibilidade. Ninguém gosta de ligar a TV, na hora em que está acostumado a ver determinado programa, e encontrar outra coisa em seu lugar. José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que já foi o executivo de televisão mais importante do país, costumava dizer que o segredo do sucesso de um canal é a grade. Os programas não podem entrar e sair do ar de uma hora para outra, como se não houvesse compromisso com quem está assistindo. Além de falta de respeito, este gesto arranha a credibilidade e atrasa a fidelização do público. Fidelização leva a outro fenômeno conhecido por espera. A TV fica o dia todo no mesmo canal, independentemente do que estiver passando. Ainda bem que o país está mudando. E rapidamente.

23 agosto 2009

Havia um tempo em que "preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha", lembra Caetano Veloso. Na letra de Tradição, o cantor fala da infância, quando "quem governava a Bahia era Antonio Balbino (1955-59)". A música me veio à mente ao me lembrar de um fato que ilustra bem a pretensão e arrogância de 'intelectuais' que insistem em achar que nós não somos racistas. Trabalhava como editor de economia naquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país. De uma hora para outra, partiu uma ordem que nos obrigava a procurar 'fontes negras'. Ordens assim deixam a chefia excitadíssima. A redação entra em frisson. É obrig - abreviação de obrigatório. Para outros, é rec - abreviação de 'recomendado'. Bom, foi um Deus nos acuda. Os produtores se descabelavam atrás de pessoas que pudessem representar a 'novíssima política de cotas' adotada pelo telejornal. Como abastecíamos diariamente a rede com matérias de economia, o nó foi maior ainda. A única fonte negra nas agendas nem era economista, era o consagrado geógrafo Milton Santos, que não era assim tão bem-vindo, afinal de contas, sua visão de mundo era bem diferente do que consagramos como 'senso comum': "A velha tendência intelectual é considerar o mundo a partir da Europa, e agora dos Estados Unidos. Assim, se exclui a perspectiva da maior parte da humanidade. A cultura oficial brasileira nutriu-se com frequência de uma visão vesga do mundo." Havia um produtor negro entre nós que não dizia, mas se sentia ultrajado. Mas, voltando ao assunto, tínhamos porque tínhamos que encontrar negros para entrevistar. Eis que surge uma consultoria, dessas que opinam sobre todos os assuntos, de telecomunicações à taxa de juros - e nos apresenta um economista negro. Ufa! Lá fomos nós para a entrevista. Quando a repórter chegou ao local, lá estava nosso economista negro. O homem tremia mais do que vara verde e não conseguia terminar uma frase, sequer. Digamos que a repórter também não era das mais calmas. Resultado, sobrou para o editor cortar um pedaço em que ele dissesse, sem gaguejar, o de sempre: Que tá tudo bem, mas tem que fazer as reformas. Pouco depois, o noticiário ganhou um apresentador negro, mas que só aparece no fim de semana, para dar 'uma cor diferente' ao jornal de branco, que ainda hoje mostra do "alto a fila de soldados, quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos, só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos). E aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos, quase pretos, de tão pobres, são tratados...", para ficar em Caetano, desta vez amparado por Gil. Quando é que esses 'intelectuais' vão entender que o Brasil não é o Jardim Botânico? Ainda bem que o brasileiro está começando a perceber isso!

Em tempo: Justiça seja feita. Letra e música de Tradição são de Gilberto Gil, e não de Caetano Veloso, como grafei acima. Obrigado, Flora!

22 agosto 2009

Quando a vaidade fala mais alto, o entrevistado se cala. É bastante comum a gente ver uma notícia nos jornais e, depois, o entrevistado dizer que não foi exatamente aquilo o que disse. Quase sempre, ele não quis dizer aquilo mesmo. Isso acontece com a grande maioria dos entrevistados, mas poucos reclamam, para não perder a 'vitrine'. Mas afinal, como e por que isso acontece? É simples, o repórter aproveita apenas a parte da entrevista que mais lhe interessa sem se preocupar com o contexto. Sempre para pontuar o texto, que não raro, ou tem uma tese já consagrada na reunião de pauta, ou o repórter se convenceu da 'verdade' que construiu na rua. E, aí, os entrevistados só vão servir de escada para o texto do jornalista. Num telejornal, que mobiliza recursos diversos, como: equipamento, deslocamento, prazo e muita gente envolvida, a tese já sai mais 'redonda' da redação, do que em outros veículos. O que isso quer dizer? Que por uma questão econômica, o repórter na grande maioria das vezes vai apenas captar a resposta que ele quer ouvir. Mas há situações ainda mais escandalosas. Conheci repórteres consagrados do grande público que combinavam com o entrevistado o que ele deveria dizer. Dá para acreditar? É a mais absoluta 'verdade'. Já corri centenas de fitas em que o repórter para a gravação no meio e diz para o entrevistado: - É o seguinte, faça assim! Diga dessa forma, que é mais fácil de editar. E quando o repórter é inescrupuloso, então? Dá para imaginar as frases que vem 'editadas'? Para ser bem sincero, não são poucos os colegas que praticam esse tipo de jornalismo. Por esta razão, aconselho, é bom botar as barbas de molho ao assistir um telejornal. Durante alguns anos fui editor de economia daquele que já foi considerado o melhor e mais importante telejornal do país. Sabe como as reportagens eram feitas? A pauta oferecia um assunto que estava nos jornais ou na internet, às vezes pintava um estudo, um levantamento, uma pesquisa (com exclusividade!!) ou ainda uma pauta 'plantada'. Uma vez aprovada a sugestão, o editor-chefe dizia como tinha que ser o "encaminhamento". Ou seja, que tese deveríamos desenvolver em um minuto e meio, no máximo um minuto e quarenta. Aí, o entrevistado, quase sempre um economista, analista de mercado, consultor ou professor (sempre amigo da casa) dizia em frases bem curtas: - Isso é bom no curto prazo, mas se não fizermos as reformas que o país precisa, não vai adiantar. Respostas assim foram mais de uma centena. Acreditem! E tenho testemunhas! Qualquer hora explico como um economista, analista de mercado, consultor ou professor 'aprende a falar para a tv'... Jornal é como salsicha, se a gente sabe como faz, nunca mais consome.

21 agosto 2009

A palavra está em desuso, diria até em extinção. Trata-se do bom e velho caráter, que até pouco tempo atrás correspondia a um fio de bigode.
Hoje, como bem sabemos, um bigode, por maior que seja, não vale para nada.
Os colegas de televisão têm uma brincadeira recorrente. Você quer conhecer o caráter de um repórter, espere ele ficar famoso? É a vitrine que exibe o bom e o mau de todos nós.
Na psicologia, caráter é o termo que reúne as 'características' únicas da personalidade de um indivíduo. Os hábitos, os costumes, as peculiaridades. É um conjunto de valores atribuídos a um ser e que moldam sua conduta, índole, temperamento... Portanto, há uma dinâmica de formação, que depende das influências do ambiente em que ele cresceu, da família que o criou, da educação que teve e do meio com o qual se relacionou.
Na filosofia, caráter é vitude. A maior que um ser humano pode ter. Abraham Lincoln imortalizou o cárater na célebre afirmação: "Quer conhecer o caráter de um homem, dê poder a ele." O caráter sempre foi alvo de reflexões, como a de Goethe: "É no silêncio que se educa o talento, e na torrente do mundo o caráter." Nos dias de hoje, em que certo e errado se misturam. Em que valores Republicanos são postos à prova e o exemplo é a covardia, vale lembrar Tancredo Neves: "O processo ditatorial, o processo autoritário, traz consigo o germe da corrupção. O que existe de ruim no processo autoritário é que ele começa desfigurando as instituições e acaba desfigurando o caráter do cidadão." Só para seguir o mesmo raciocínio, lembraria de Martin Luther King: "Eu tenho um sonho de que um dia meus quatro filhos vivam em uma nação onde não sejam julgados pela cor de sua pele, mas pelo seu caráter."
Para quem pensa que caráter e reputação são a mesma coisa, não são! Caráter precisa ser construído peça por peça, com escolhas cuidadosas, corajosas e determinadas. O caráter também tem virtudes. A maior delas é a simplicidade. E apesar dele se manifestar nos grandes momentos, é nos pequenos que ele se mostra e se afirma. Seus maiores inimigos são a cobiça, a vaidade, o orgulho e a arrogância. E seu maior aliado, a auto-crítica.
Quem tem caráter, tem amigos.
E para sempre!

20 agosto 2009

A propósito da denúncia de manipulação de pesquisas eleitorais, queria aproveitar o ensejo para contar um fato que considero relevante. Em dois mil e dois, por exemplo, eu era editor de política daquele que um dia já foi o mais importante telejornal da noite, em política e economia. Tínhamos ordens de dar todas as pesquisas, desde que seguissem o que se convencionou a chamar de "série histórica", ou seja, guardar a correspondência entre os intervalos de datas, número de entrevistados, regiões do país e margem de erro. Por esta razão, sempre tínhamos uma nota, que vinha depois, dizendo o seguinte: A pesquisa foi feita entre os dias tal e tal, com mil e poucos entrevistados, nas cinco maiores regiões metropolitanas do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Depois dessa eleição, os institutos passaram a incorporar a margem de erro ao gráfico, como se fosse uma sombra, para mostrar que a variação da reta poderia não estar exatamente no centro. Acontece que, quanto mais perto vai-se chegando do dia do pleito, o intervalo das pesquisas vai diminuindo. A expectaviva sempre foi enorme em torno da divulgação dessas sondagens. Éramos assediados por colegas, que queriam conhecer os números antes. Os comentaristas do jornal sempre ligavam para nós, para fazer a mesma pergunta. O segredo era tão bem guardado, que as páginas dos jornais eram protegidas por senha e, por volta das cinco da tarde, o diretor de jornalismo recebia um e-mail com a pesquisa anexada e encaminhava aos editores-chefes e editores-executivos dos telejornais da noite, que rebatiam para seus editores de política. Numa ocasião, me lembro bem, um dos institutos lançou uma nova pesquisa em data muito próxima à anterior, o que me chamou a atenção. Os números revelavam uma queda do primeiro colocado e o crescimento, na mesma proporção do segundo. Num cenário em que as duas retas se distanciavam, como numa chave: '<' (que apelidávamos de jacaré com a boca aberta), a nova pesquisa vinha a indicar "que o jacaré podia estar fechando a boca", ou seja, a diferença entre os dois adversários começava a diminuir. Pode ter sido um engano do instituto de Pesquisa (engano?), pode ter sido uma manobra da direção da casa em 'conluio' com o segundo colocado... Isso nós nunca saberemos e jamais comprovaremos também. Mas por que ousariam manipular os números naquele momento? Porque os institutos de pesquisa sabem que, quando há muitos indecisos, e era esse o caso, é possível transformá-los em massa de manobra. Como? Criando o chamado 'efeito rebanho'. Se a informação de que o segundo colocado começou a reagir ganha força, cria-se um fenômeno, que pode sim culminar, até, numa virada. Há vários exemplos desses na história recente das eleições no Brasil. Candidatos que aparentemente estavam mortos e que, subitamente, começam a subir, subir e ganham a eleição. O fato é que desconfiei, comparei a série histórica, o número de entrevistados e liguei imediatamente para o editor de política do telejornal que nos antecedia. Naquela altura, as páginas do telejornal dele já estavam prontas para ir ao ar. Ele me agradeceu e alertou a direção do Jornal, que abortou a divulgação da pesquisa. Se aquela pesquisa fosse ao ar e ninguém desconfiasse de nada, poderia ter sido mais um exemplo de manipulação. Caso alguém percebesse, o argumento certamente seria dizer que se tratava de um engano. E se a opinião pública e os candidatos não aceitassem a desculpa e esticassem a corda, provavelmente meu colega, o editor de política, seria ofertado às feras na arena. Coisas do mundo real... Em dois mil e seis desempenhei o mesmo papel naquele que já foi considerado o mais importante telejornal do país. O que aconteceu foi um escândalo! Mas, para muitos ainda hoje, o telejornal em questão é a principal fonte de informação. Mas, amanhã, a história saberá guardá-lo no seu devido lugar.

19 agosto 2009

Os fins não justificam os meios, ao contrário do que Nicolau Maquiavel tentou nos convencer. Quando trabalhei no Sindicato dos Radialistas de São Paulo, no início dos anos 90, ficava incomodado com o dinheiro que vinha do "Fundo de Greve". Era uma espécie de caixa dois dos sindicatos - que em colegiado - deliberavam sobre o uso ou não dos recursos, conforme a necessidade. Quando fui trabalhar numa produtora de TV recebia a cada 15 dias, parte no oficial, parte no paralelo, em dólares. Quando quisemos saber a causa, nos disseram: - É que parte do dinheiro vem do "Fundo de Greve", contabilidade paralela dos sindicatos. Estou usando exemplos "da esquerda" só para não parecer perseguição aos "trambiqueiros de causas menos nobres". Talvez os sindicatos tivessem encontrado nesse caminho uma forma eficaz de fazer política, inclusive partidária. Mas está errado! Contabilidade paralela não deve existir. É crime! A prática levou a Marcos Valério, que levou ao PSDB, que levou ao mensalão. Porque se um lado faz, vai ser obrigado a suportar que o outro faça também. A crise no Senado, por exemplo, o argumento é arrebatador: - Todos fazem. Oras, se todos fazem, está certo? Não, está errado. Não podemos justificar o erro de um, pelo erro de todos! E não podemos tolerar desvios que, quase sempre, levam ao enriquecimento ilícito e à corrupção.

18 agosto 2009

Pausa para reflexão:






Era uma vez um comandante que sabia escolher cada um dos soldados de seu exército. Conhecia o terreno e os adversários. Só que ele também sabia que, no front, seus cães de guerra não teriam rendição. Sabe o que aconteceu? Seu exército ganhou muitas batalhas, mas perdeu a guerra, porque suas baixas foram causadas majoritariamente por exaustão.

17 agosto 2009

Numa guerra, a primeira vítima é a verdade. A frase, atribuida a um senador americano, no início do século passado, acabou se transformando em livro. Ela é essencial para que possamos entender a dinâmica de produção de um noticiário. Sempre que há uma denúncia, há por parte do denunciante um interesse, explícito ou não. A busca da verdade não é apenas um desafio jornalístico. É muito mais do que isso, é filosófico. Na metafísica o que interessa, na busca da verdade filosófica, é a natureza da verdade. Na lógica, a preservação da verdade e na epstemologia, o conhecimento da verdade. A epistemologia tem sua origem em Platão. Ele divide a crença ou opinião em um campo e o conhecimento, em outro oposto. Portanto, crer é sempre um ponto de vista subjetivo. Já o conhecimento necessita da comprovação da verdade. Como a busca da verdade é o maior desafio da humanidade, todo jornalista acha que experimenta ou toca Deus, toda vez que alcança aquilo que considera a verdade, a partir das técnicas que aplica. Jamais alcançaremos a verdade absoluta. A princípio, ela não existe. Portanto, precisamos nos ater ao contexto. Empregar rigor ao exame dos detalhes de uma história, confrontar versões, confrontar conhecimento anterior, persisitir. Ainda que a verdade factual seja apenas um modo de entender a realidade naquele momento. Uma reflexão que nossas crianças tinham que ter desde muito cedo...

13 agosto 2009

Numa cobertura jornalística é importante prestar atenção na escalação dos repórteres. Desconfie quando numa reportagem-denúncia de mais de dez minutos no principal jornal da maior emissora de televisão do país, o jornalista escolhido for um do 'terceiro time'. Este fato pode demonstrar que:
1. Os grandes repórteres, vulgo figurões, não aceitaram ser bonecos de ventríloco, de um texto escrito pela direção e enfiado goela abaixo do locutor. Ninguém empresta a credibilidade conquistada ao longo de anos e anos de trabalho a um chefe inescrupuloso;
2. Os covardes costumam se esconder atrás dos fracos e, neste caso, certamente pressionaram o jovem iniciante, inexperiente e muitas vezes ambicioso, a fazer 'o que o mestre mandou'. Infelizmente vai entrar para a história sendo lembrado dos erros que cometeu, não das decisões sensatas e corajosas que tomou;
3. Desconfie da ênfase que o texto jornalístico dá a detalhes que não são os mais importantes da história, como forma de criar uma 'cortina de fumaça', desviando a atenção do público a respeito do principal. Desconfie sempre de algo que foi superdimensionado, pois quase sempre há um interesse escuso por trás.

12 agosto 2009

Monopólio é um jogo de tabuleiro cuja a finalidade é fazer com que o jogador detenha preferencialmente todo poder econômico. Por que o monopólio não é bom? Porque submete a vontade de muitos à vontade daquele que detém o controle. Na comunicação é pior ainda, porque permite manipular, usar apenas a parte da informação que interessa e descartar o restante. Até recentemente, sete, em cada dez brasileiros, só possuiam uma maneira de se informar. Ainda hoje, três, de cada quatro televisores ligados entre 19:30 e 22:00 em todo o país, estão sintonizados num único canal. Mas isso está mudando. Está certo que bem devagar, às vezes mais devagar do que gostaríamos. Mas precisamos ter paciência. É um processo. Foi assim nos últimos 40 anos, não é de uma hora para outra que o jogo muda.

Está em curso uma enorme disputa pelo poder nos meios de comunicação no Brasil.
Em jogo, o fim de uma era, um dos mais importantes fatos históricos dos últimos 40 anos. Para a opinião pública, em geral, e os estudantes de jornalismo, em particular.

11 agosto 2009

Como recordar é viver e o Azenha voltou ao assunto no viomundo http://viomundo.com tenho que admitir, é tudo verdade. A manipulação do noticiário é muito comum, em todos os veículos e passa pela edição. É a edição que dá ou não relevância a determinado fato e, em última instância, é ela também, na figura do editor-chefe, que não exibe a reportagem. Muitas vezes a ordem é: - Produza! Uma vez produzida, é simples, só não exibir. Se alguém reclamar, há um conjunto de respostas prontas, tipo: O vt não ficou bom, não tinha novidade, é denúncia requentada, não ouvimos a outra parte, não estou convencido de que o assunto é relevante e a mais "cara de pau" de todas: O jornal estourou. Na cobertura das Diretas Já, no Anhangabaú, por exemplo. O repórter foi, fechou o vt, o vt foi gerado (via satélite) para o Rio de Janeiro e, lá, virou uma nota coberta (é como chamamos o vt curto, editado na voz do apresentador, com uma notícia de menor relevância). E o pior, a nota coberta não fazia menção à "festa pela democracia" e sim uma comemoração do aniversário da cidade. Quando a história foi escrita, anos depois, o autor procurou o vt no arquivo, e encontrou, só que esqueceu de mencionar que ele nunca foi ao ar. Isso é só um exemplo do poder de quem escreve a história oficial. Ainda bem que isso está mudando....

Os últimos acontecimentos me fazem lembrar de letra do genial compositor Bezerra da Silva. Aí vai:

Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

Você me chamou para esse pagode,
e me avisou: "Aqui não tem pobre!"
Até me pediu pra pisar de mansinho, porque sou da cor,
eu sou escurinho...
Aqui realmente está toda a nata: doutores, senhores,
até magnata
Com a bebedeira e a discussão, tirei a minha
conclusão:
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Lugar meu amigo é a minha Baixada,
que ando tranqüilo e ninguém me diz nada
E lá camburão não vai com a justiça, pois não há
ladrão e é boa a polícia
Lá até parece a Suécia, bacana, se leva o bagulho e se
deixa a grana,
Não é como esse ambiente pesado, que você me trouxe
para ser roubado....
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um
Se gritar pega ladrão, não fica um meu irmão
Se gritar pega ladrão, não fica um

09 agosto 2009

Parece contraditório ilustrar o texto abaixo sobre realpolitik com Aristóteles, justo aquele que defendeu que o fim último do estaodo é a virtude. E por vitude entende-se a formação moral dos cidadãos e o conjunto de meios necessários para atingí-la. Nesse sentido, a política aristotélica é essencialmente ligada à moral. Mas não à moral individual, e sim moral social, de sentido coletivo. Em relação à maneira como o estado se apresenta, Aristóteles define três formas clássicas de governo e seus desvios. A primeira é a monarquia, o governo de um, cuja degeneração é a tirania; a segunda a aristocracia, o governo de poucos, cujo excesso a transforma em oligarquia e, por fim, a democracia, o governo de muitos, cujo o maior valor é a liberdade, mas que não raro desemboca na tão conhecida demagogia.
Curioso, o velhinho viveu há 300 anos a.C. e seus ensinamentos ainda estão na ordem do dia...

08 agosto 2009

Já que o termo realpolitik voltou à moda, para justificar decisões políticas incoerentes e injustificáveis, vamos deixar o Lula de braços dados com o Sarney, o Collor, o Renan e o Ricardo Teixeira (presidente da CBF) de lado, e desenvolver o raciocínio da oposição nessa disputa política sem fim. O Partido Verde caminha lado a lado com o PSDB em São Paulo há muitos anos. Segundo eles, é uma "aliança programática", ou seja, em torno de bandeiras comuns à fauna verde-tucana. Ok, com a decisão de Marina Silva (que apoiou, ao lado das Organizações Globo, a candidatura de Fernando Gabeira, para o governo do Rio) de se filiar ao Partido Verde para se lançar candidata à presidência, já se fala em terceira via nas próximas eleições majoritárias. Ela seria uma espécie de 'rendenção' da esquerda, amargurada, depois que o ex-metalúrgico se entregou "à governabilidade". Por que não, então, uma chapa PSDB-PV para a presidência da República em 2010? Exigiria um certo pragmatismo da nossa ex-ministra do meio ambiente, mas seria bem competitiva. Não sei se com o Serra encabeçando, ou o Aécio. Será que a esquerda conseguiria dormir com um ruído desses? Acho que vai sobrar um caminhão de votos no colo de Heloísa Helena. Isto é, se ela não preferir "humildemente" voltar ao Senado no ano que vem. Política é apaixonante por isso. Cada movimento real cria uma avalanche em nossa imaginação...

06 agosto 2009

A crise no Senado pode ter desdobramentos imprevisíveis. Digamos que Sarney resista. Os Senadores da oposição não vão aceitar calados que ele fique no poder, sem impor as reformas que passarão a ser necessárias, depois que seus apadrinhados foram alvo da série de denúncias. Ok, digamos que ele exonere todo mundo e faça uma faxina geral na casa. Alguém tem dúvida de que, cada um que sair, levará consigo um dossiê e tudo o mais que tiver ao alcance para arrastar consigo outros funcionários apadrinhados, irregulares ou inimigos? Vai virar uma guerra! O que não chega a ser de todo ruim. Crise é sinônimo de oportunidade. Neste caso, seria uma chance de refundação da instituição. Mas não sejamos ingênuos. Estamos à beira de uma eleição majoritária e duvido que os senadores queiram correr o risco de expor suas vísceras à opinião pública. Vão costurar um enorme acordo de bastidores. Vão encontrar duas ou três iscas para os leões na arena, desviar a atenção da plebe e manterão seus cavalos brancos no mesmo lugar. Ave Calígula!

05 agosto 2009

Nas voltas que a vida dá reencontrei o Chiquinho na TV Record. Quando voltei dos Estados Unidos, desempregado, fui contratado para ser secretário de imprensa e comunicação do Sindicato dos Radialistas de São Paulo. Isso no início dos anos noventa do século passado! Naquela época, o Chiquinho era um dos diretores do Sindicato. Tempos de glória do Sindicalismo Brasileiro. Os Sindicatos tinham força política, a Cut levava centenas de milhares de pessoas às ruas... No apogeu, desafiados pelo então presidente da República Fernando Collor de Mello, que clamou por uma marcha verde e amarela nas ruas, mobilizamos a marcha Fora Collor e paramos São Paulo. Depois, o país também parou e o presidente da República sofreu o impeachment, algo impensável pelos analístas . Havia um entusiasmo naquela geração que acreditava que, no grito, a gente podia mudar o país. Já são quase vinte anos! Por isso que nossa geração se assusta quando vê o presidente da República abraçar, no palanque (pasmo geral), o atual presidente do conselho de ética do Senado (o quê?). E pior, sair em defesa do presidente da casa, o imortal José Sarney (...oh não é verdade?). Sim, é tudo verdade!

04 agosto 2009

Hoje, no dia em que completo 43 anos, tenho que elogiar a perspicácia da minha mulher. Faríamos um almoço simples, para quatro adultos e duas crianças. O de sempre, sem sobressaltos. Mas ela - mesmo sem o meu consentimento - se preparou para as surpresas. Triplicou a quantidade do strogonoff, duplicou a cota de batatas fritas... e não é que o almoço teve outras particiapações especiais? Mais três adultos e um adolescente. Celebrar o aniversário ao lado de uma mulher dessas, ao lado da mãe, irmã, cunhado e primos é um presentão. Obrigado Senhor!

 
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