01/12/2009

Somos todos Manos

Causou espanto a reação de muitos, diante da divulgação de mais um vídeo que mostra assessor distribuindo dinheiro, em espécie, para políticos e, até, jornalista. As pessoas reagem surpresas por uma conduta que é regra, não exceção. É assim desde que o mundo é mundo. Apropriar-se do bem público a bem de um interesse privado é modus operandi da política. Como um candidato faz campanha? Ou com recursos próprios (o que é raro), ou com recursos privados. E quem são os doadores? Em geral, prestadores de serviço às prefeituras e governos, pela ordem: empreiteiras e construtoras, empresas de transporte público, limpeza e coleta de lixo, fornecedores de merenda escolar, uniformes e material didático e, até, fabricantes de medicamentos. A lógica é cobrar um pouco mais caro da administração pública e dividir o lucro com o político. Simples assim. Há concorrência? Frauda-se. Se não há como fraudá-la, basta associar-se aos concorrentes. O que é mais admirável, é que isso não funciona apenas na administração pública. Experimente transformar-se em fornecedor ou prestador de serviços para edifícios, por exemplo. Em geral, o síndico vai querer comissão e quando não, o esquema é com o zelador do prédio. A comissão, ou 'por fora', virou uma prática tão comum no nosso dia-a-dia, que nem lembramos o quão enraizada está. Quer comprar um medicamento de tarja preta sem receita? Fácil, só procurar a farmácia mais perto. Se lá o farmacêutico não vender, vai saber indicar quem vende. Quer drogas? Pode pedir por telefone e receber em casa. Quer peças falsificadas para o carro, com selo de procedência e embalagens originais? Quer combustível adulterado? Quer bebida alcólica sem pagar ICMS? Quer carga roubada? Contrabando? Prostituição de luxo? Quer fazer seu time ser campeão do brasileirão? Também tem jeito. Precisamos deixar nossa hipocrisia de lado e assumir definitivamente todas as verdadeiras faces da nossa sociedade. E exigir lisura nas nossas relações. Fingir que nada disso existe e se escandalizar com as notícias depois, não é a melhor maneira. Desta vez foi o DEM. Semana passada foram o PPS e o PSDB... Já teve o PTB, o PMDB, o PT... Somos todos 'manos', sacou?

14 doladodecá :

Anônimo disse...

Querido Marco. Antigamente esse tipo de procedimento era exceção, hoje como voce bem demonstra é regra. A Caixinha de Ademar de Barros cobrava apenas dez por cento. E foi um escândalo. Sera que não falta um pouco de religião para todos nós. Será que não necessitamos treinar "fazer ao próximo tudo que gostariamos de receber e muito mais a Pátria que dizemos amar tanto?

Cristiana Castro disse...

Pois é MAM, a m.... é essa mesmo. O pessoal adora ficar escandalizado como se tudo fosse uma grande novidade. No caso do Arruda, o que pegou foi a presepada que fizeram em cima do caixa 2 do PT, inventaram o apelido de mensalão, quase derrubaram um governo e agora é essa saia justa que estamos vendo. Ou o José Diceu é o chefe de todos os partidos, ou seja, a quadrilha, ou não teve p.... de mensalão nenhum e caixa 2 é caixa 2, senão não tem campanha. E aí é que vai ficando ruim a coisa, se até o mundo mineral ( MC ) sempre soube que as campanhas são finaciadas dessa maneira, pq diabos o STF aceitou a denúncia de mensalão ( propina paga a parlamentares da base aliada para aprovar projetos )? Sabe o que desanima? É saber que todo mundo foi a festa e só vc ficou de fora. Não encontro uma alma para me oferecer dinheiro para fazer um cambalacho. Acho que é pq mulher não usa cueca, não teríamos como arquivar cinco pacos de notas numa calcinha nem que fosse fosse GG ou XL.

Anônimo disse...

Alem de religião, falta idealismo e civismo.

Anônimo disse...

Querido jornalista. Como em todas as camadas da sociedade, há muita gente honesta entre os politicos tambem. Todavia é dificil descobrir, porque "o bem não faz noticia".

Anônimo disse...

Querido jornalista. No inicio do século passado, na pequena cidade de Sacramento, Minas Gerais, quando ainda a DEMOCRACIA era um sonho,existiu um político(vereador apenas) que deixou exemplos marcantes, para não falar de notáveis vultos da história brasileira. A obra que êle realizou é digna de ser divulgada, até para mostrar como o político, homem de bem, deve proceder, independentemente das falhas humanas de seus contemporâneos. Para ter maiores informações procure no GOOGLE. Ele se chamava Euripedes Barsanulpho. É empolgante ver o êxito de seu trabalho. Parabens.

Pedro Migão disse...

Marco, matou a pau !

Eu venho batendo nesta tecla já há bastante tempo no Ouro de Tolo: os políticos são reflexo do povo.

Eles não são algo apartado do restante da população.

Pedro Migão disse...

p.s. - muito boa a matéria ontem sobre sexualidade na adolescência

Cia Imaginária de Teatro disse...

É a hipocrisia. Só é errado com os outros, mas qual o problema em unzinho para a cervejinha? E um cafezinho? E o brinde para o comprador da empresa? E a viagem com tudo pago para Dubai?

Alexandre disse...

Caro Marco,

Desde que descobri seu blog, fico cada vez mais impressionado com os bastidores da TV, dos quais desconfiava mas não com os detalhes que você tem, mesmo que obviamente ficcionais!
Fico mais impressionado ainda com a clareza e maturidade com que trata os temas que comenta. Como disse o Pedro Migão acima, ninguém se dá conta que grande parte da população tem uma conduta em muito parecida com a que condena nas matérias de TV. Esse tipo de conduta nas relações entre propriedades pública e privada é um fator cultural, está enraizado, esta presente no dia a dia e inclusive nos inúmeros exemplos que você citou. Mas é impressionante é que a ética e lisura que se exige de políticos é pensada como separada da ética e lisura que devemos ter no dia a dia. E ao avaliar governos coloca-se uma suposta falta de ética generalizada e partidária acima dos resultados econômicos, sociais e de postura de governo. Tendo corrupção entre todos os partidos, e em todo lugar onde há essa possibilidade (na função pública), o que resta é pensar quando o que é feito legalmente por certos governos já é, por si, uma sacanagem (falta de distribuição de renda, privatização desenfreada, sucateamento da universidade pública, entre tantas coisas já vistas quando o país era governado por um "intelectual", pior como presidente do que como sociólogo e vice-versa, como diz o Azenha)

Mudando de assunto, li hoje que há uma minissérie do Claudio Paiva sobre o mensalão, "'Mas há dois anos esse seriado foi engavetado. Enquanto o PT estiver no governo, não vamos poder falar sobre esse assunto', reclama Paiva." (Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/s/02122009/25/entretenimento-andrea-beltrao-deixar-grande-familia.html ). Sobre isso, sabe algo? Sobre haver até na produção de teledramaturgia esse direcionamento tão direto?
E no esporte, conhece as peripécias do Marcelo Campos Pinto na pressão pra sempre ganhar direitos de transmissão? Até quando a Record oferece mais?

Claro que citei nomes, e por isso esse post não deve ir ao ar, mas se puder responder agradeço.

Parabéns pela postura.
Abraço
Alexandre Colli
colli@terra.com.br

Azarias disse...

Quando a Ditacuja terminou, deveriam amassar, pisotear, arremessar os seus ovos, os ovos da serpente. Mas, como o objetivo principal era manter o utilitarismo, os ovos foram mantidos e aí está. Uma sociedade degenerativa, onde se fantasia de autoridade para aniquilar favelados, sem-terras, desempregados e aposentados desdentados.

Anônimo disse...

Acredito que a grande maioria dos brasileiros é composta por homens de bem. Muitas vezes nossos jovens são vítimas dos formadores de opinião, principalmente das grandes corporações. Por exemplo, quando a propaganda de cigarros era ilimitada, existia uma, em horário nobre, nefasta para a formação de nossos jovens, porque estimulava a pessoa a "levar vantagem em tudo". Ora, é sabido que quem leva vantagem em tudo, sempre acarreta desvantagem para o outro ou outros. E há quem julga que o deputado autor da lei que sanou este mal, é louco. Sem me escandalizar, pergunto - sera que só temos duputados "normais" atualmente?

Almir disse...

Caro Marco,
O que mais choca é que há uma proposta de reforma política no Congresso, para ser discutida e votada. Ela propõe, entre outras coisas, a proibição de doação de particulares às campanhas eleitorais, introduzindo o financiamento público, como na maioria dos países com democracia bem consolidada. Além disso propõe a discussão do voto em lista que, se por um lado favorece a cacicada, por outro reduz enormemente a quantidade de candidatos na disputa em todos os níveis, reduzindo então os custos de campanha, diminuindo a corrupção. Entre outras propostas. O PT, O PCdoB apóia a discussão. Por incrível que pareça, o DEM apóia. Mas partidos como PSDB estão boicotando. O PMDB, como sempre dividido. Espero que esse escândalo envolvendo o DEM tenha o poder de constranger a classe política a discutir essa reforma essencial para diminuir a corrupção no país.

Anônimo disse...

Marco, cuidado com as generalidades como se o país fosse um puteiro. Vale lembrar que a ação que pegou Arruda foi autorizada pela Justiça e feita pela inteligência da PF. Esse tipo de argumento defendido por ti, tão implantado na cabeça da nossa classe média, é que faz chamar os golpistas de plantão. Ele iguala os sentimentos, sacou?

Zé da Silva Brasileiro disse...

"A lógica é cobrar um pouco mais caro da administração pública e dividir com o político". Se fosse assim estava muito bom meu caro Marco. O problema é que eles cobram muito mais caro da administração pública...

 
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