Estou aqui para deixar meu curriculum com você, disse ao diretor de jornalismo, em maio de 2003 (o diretor era aquele que havia sido afastado...). Não sei quais critérios irá adotar para escolher o novo editor do jornal da hora do jantar mas, se o critério for baseado na carreira profissional, acho que atendo aos requisitos, justifiquei. A estratégia havia sido decidida na noite anterior, depois de uma conversa com a minha mulher. Ela achava que seria muito arriscada. Da minha parte, considerava que seria a melhor maneira de me credenciar e 'deixar o bode na sala' do chefe. Não tinha QI (quem me indicasse), ao contrário dos outros três candidatos. Contava portanto com a sorte e um pouco de ousadia. O chefe argumentou que seria difícil encontrar quem me substituísse no jornal tarde da noite. Afinal, não são todos que gostam de política e estão preparados para esta função. A decisão só sairia na semana seguinte. Aproveitei o tempo para fazer as 'costuras'. As editoras chefe e executiva do jornal tarde da noite estavam em pé de guerra. A direção teria que por fim à crise. O plano era levar a editora-chefe para um cargo provisório, no programa semanal de reportagens. Quem ocuparia o posto de editor-chefe seria o coordenador do telejornal do jantar, em São Paulo, com delegação plena de poderes, para enfrentar a editora-executiva, que seria mantida no cargo. Procurei o colega cotado e apresentei o plano: ele me indicaria para a vaga do jornal do jantar e resgataríamos nosso colega Luis Cosme, aprisionado no calabouço, do telejornal cedo da manhã, depois de se desentender com o diretor. Só um parênteses: hoje, Cosme é editor-chefe do Jornal da Record, em que trabalho. O plano deu certo. Dias depois, a editora que seria promovida à coordenação do jornal do jantar me chamou para um café. Disse que assumiria a nova função e gostaria de saber se eu aceitaria a indicação para a vaga de editor de economia, no lugar dela. Respondi que estava pronto. No dia seguinte à minha nova designação, fui para o café da manhã com o CEO, a Rainha da Inglaterra. (A rainha é quele gestor que se encontra com funcionários do chão de fábrica uma vez por mês para, em nome da empresa, conhecer melhor os 'colaboradores', sentir o pulso da redação, passar a mão nas cabeças e tirar fotografias). Cumpri rigorosamente meu script. Falei para um grupo de doze pessoas que não tinha padrinhos e que, minha nova designação, era um atestado de que as organizações tinham disposição para premiar funcionários por mérito. Mas que foi preciso 'deixar o bode na sala', isso foi!
Há 2 minutos

2 doladodecá:
Seria a rainha da Inglaterra um dos que não possuem nome próprio?
São esses pequenos momentos que nos lembram que não importa se há um propósito maior ou maquiavélico guiando quem nos contrata, seja monárquica ou teocrática. Dogbert rules.
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