Da série ficção. É de manhã. Início dos anos dois mil. O colega senta-se na mesa ao lado da minha, pega o telefone e disca para a assessoria de imprensa de uma grande montadora de veículos. Procura o assessor e explica que está querendo comprar um carro daquela marca e pergunta o que o sujeito pode fazer por ele. Não ouço o que diz quem está do outro lado da linha, mas depreendo que a proposta é a seguinte: com o dinheiro na mão o repórter deve procurar a concessionária mais próxima e fazer a encomenda (o modelo que ele quer é especial e não existe pronta-entrega). O desconto combinado será de 30%. Não parece nada ilegal. Tudo é feito às claras, por telefone. Fazer negócios, pedir descontos, o mundo é assim, não é mesmo? Além do que, outras montadoras também oferecem desconto para jornalistas. Pode não ser ilegal, mas é imoral. Por quê? Porque, na melhor das hipóteses, o jornalista terá uma dívida de gratidão com o assessor, que não terá dúvida em acioná-lo se, por acaso, seu patrão tiver algum interesse a zelar no noticiário da hora do jantar. Aqui cabe uma pausa para contextualização. As montadoras de veículos, ao lado dos bancos e da indústria de bebidas, são os maiores patrocinadores de uma emissora de televisão. Tudo bem, esse tipo de privilégio faz parte do mundo atual, todo mundo faz, o assunto divide opiniões... ok. O que dizer então da montadora -- não necessariamente a mesma -- fazer um lançamento mundial da marca destinado ao público 'A' e 'escalar' um repórter badalado, que tem livre trânsito com fotógrafos das revistas de celebridades, para rodar gratuitamente com um veículo desses 'zerinho', pelas noitadas da cidade. E mais, se gostar, depois do período de 'ambientação', pode ficar com o modelo, pela metade do preço. Ele empresta sua imagem ao principal telejornal da emissora, cobra por isso -- está certo que bem pouco, é verdade -- e tira uma vantagem por fora. O que está em jogo, mais uma vez, é uma profissão cuja finalidade é servir ao interesse público, por meio de uma concessão. Que responsabilidade o sujeito tem, ou deveria ter? Se queremos discutir um país melhor, uma sociedade mais justa, devemos ou não nos debruçar sobre estes tipos de 'desvio'? Mas se, ainda assim, alguém perguntar se isso acontece mesmo nos dias de hoje, com repórteres e apresentadores, eu nego.
Há 23 minutos

9 doladodecá:
E depois fala de corrupção falta de moral e faz biquinho ?????
É brincadeira!
EDSON MEDEIROS
Poxa, mas um "mero" repórter, conseguiu o desconto????
Como faço pra trabalhar "do lado de lá" hein? rsrs
Pelo jeito, os "guardiões da doutrina da fé" ganham o carro de graça, se eles quiserem né?
Admiro sua coragem por publicar estes textos...até agora você não foi ameaçado por ninguem?
Você pensa em contar alguma história de ficção sobre o Mensalão?
Eu to tomando nojo disso tudo.
Consegue ser pior que o carnaval, que é outro meio com histórias do arco da velha.
salve, marco aurélio,
emocionante, meu camarada!
parabéns
Pois é, televisão, carnaval e futebol... e patrocinadores oficiais... A gente é culpado, tem que passar raiva mesmo que é pra aprender.
Nunca me esqueço de uma ocasião no fim dos anos 90, tempos em que eu trabalhava para um pequeno jornal com foco na comunidade nipo-brasileira e, depois de receber material de divulgação de uma montadora, resolvi checar o preço do tal carro divulgado em um release. Eis que, do outro lado da linha, vem a pergunta: "Você quer saber o preço para jornalistas?"
Fiquei com o pé atrás diante da pergunta e, ingênuo, questionei o que significava aquilo. Sem rodeios a voz com quem eu conversava deu o papo: havia sim, para minha surpresa, uma tabela de preços específica para jornalistas.
Não sei quando foi instituída, qual era a, digamos, "taxa de desconto", porém não foi possível ficar indiferente diante da descoberta. Me veio à lembrança que jornalistas formados devem frequentar aulas de Ética quando ainda estão estudando... Mas o que eles fazem depois de deixar os bancos da faculdade acho que vai da consciência de cada um, não é mesmo?
Lamentávelmente, nessa categoria (jornalistas) o problema é o mesmo do que em qualquer outra profissão no Brasil.
Como, ou quando será que vamos conseguir separar pelo menos alguns, para nos in formar com decência, verdade, honestidade, clareza, qualidade...?
"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."
(Joseph Pulitzer)
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