- Você tem que caminhar até Caraíva. E sozinho! A frase foi dita no verão de 1994 pela Cris, uma carioca filha de comerciantes do bairro de Santa Tereza, que estava radicada em Arraial D'Ajuda havia algum tempo. A rota de Caraíva, como é conhecida internacionalmente, tem o ponto de partida em Trancoso, no litoral sul da Bahia. O percurso é de 45 km. Como vencê-la andando? Passei a me perguntar. Cris fazia o trajeto com frequência. Admirava a valentia daquela mulher bonita, solitária e enigmática que, de tempos em tempos, aparecia vendendo sua granola, pães e bolos integrais. Vivia numa casinha muito aconchegante próxima ao campo de pouso do Arraial. Ficamos tão amigos que, quando seus país vieram visitá-la, ela preparou um banquete libanês autêntico para todos nós. Comemos, um seleto grupo de convivas e eu, um kibe assado na brasa, típico da aldeia onde sua mãe cresceu. Nunca experimentara algo igual. Bom, passei quatro meses estudando e colecionando todas as informações disponíveis sobre a "rota" e lancei-me ao desafio. Na mochila levava três trocas de cuecas, bermudas e camisetas. Uma lanterna, uma garrafa de água mineral e um pacote de biscoitos de água e sal. Nenhuma droga ou álcool. Eram incompatíveis com a jornada. Passei a noite numa pousada de estilo indiano nO Quadrado e parti na manhã seguinte, por volta das 9h. O sol era de outono com uma brisa bem suave. Descalço, tinha apenas que me concentrar para andar no ponto em o mar encontra a areia, segredo para deixar a pegada mais leve e a caminhada mais confortável. Foi certamente a experiência mais profunda de toda a minha vida. Da metade do caminho em diante é como se estivesse em estado de graça, integrado à natureza que, exuberante, explodia nos meus olhos. A famosa praia do espelho, a praia do vale dos búfalos, os tantos rios que desaguam no mar. Acho que alí toquei Deus, ou fui tocado por ele. Para ser mais preciso, foi as duas coisas. Quando, às cinco da tarde, exausto, cheguei às margens do Rio Caraíva já não dava mais para atravessar pelo delta, porque a maré estava cheia. Tive que me embrenhar pelo mangue, entre dezenas de carangueijos azuis, que não estavam nem aí para mim. Foi o tempo de alugar a casinha pequeninha no Canto da Duca, quase à beira mar (foto). Depois, tomar um banho, ver a lua cheia saltar na minha cara, agradecer e rezar: obrigado Senhor!
Há 2 minutos

5 doladodecá:
Fiz esse caminho até a metade, acho que vale dos Búfalos, não fomos tão previdentes e não levamos comida ou água, só alcool e drogas, mas senti o estado de graça mencionado por vc, mesmo depois de acabada a maconha!. Foi em 1979 e tinha 21 amos, nunca me esquecerei!
Credo, Marco Aurélio!
Agora entendi porque a corte do Cosme Velho te botou para escanteio. Mudas de cuecas, carangueijo azul, biscoito água e sal? Que pobreza! Como você é cafona! Custava pegar um jabazinho como a Glória Maria ou Zeca Camargo e se mandar para a rota de Santiago da Compostela? E não quero nem falar do teu egoísmo de não ter repartido as receitas do kibe assado na brasa e do bolo de granola com a Ana Maria Braga!
Vamos conhecendo um pouco mais de ti....
Interessante. Gosto de como escreve e o que escreve.
Bjs
Si
Da granola, eu tô fora, mas, com relação ao kibe assado tb achei uma sacanagem. A culinária daquela área é imbatível. Libera a receita!
Coisa linda, cara. Recomendação anotada em "prováveis compromissos" na agenda-vida. Abraço!
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