Uma internauta chamada Natália me perguntou por que fui demitido. Acho que a resposta não é simples. Foi um processo. Cheguei de volta a São Paulo em 1998, depois de passar por outras duas emissoras da mesma rede, no interior. Até 2001 tínhamos liberdade e autonomia para trabalhar. É claro que o padrão e os formatos muitas vezes impediam certas extravagências, mas não havia a rígida doutrina que foi sendo imposta, depois de um tempo. Vale ressaltar também que, até 2001, as organizações eram aliadas do grupo que estava no poder, o que facilitava um bocado o nosso trabalho. A desvalorização do real pôs a Corte de joelhos. Parte do patrimônio das organizações teve que ser vendido para os parceiros, a enorme dívida teve que ser renegociada com os credores. Era uma situação pré-falimentar. Nesta ocasião foi como se o jornalismo tivesse recebido um 'Salve Geral'. Podíamos tudo. Até criticar o governo. Mas naquela altura não adiantava muito, porque era como chutar cachorro morto. Quando em 2001, um novo vassalo (o Guardião da Doutrina da Fé) assumiu o comando do conteúdo editorial do jornalismo, aí as coisas começaram a se complicar. Um novo modelo de gestão - com cortes de custos e centralização de decisões - começou a ser imposto e, claro, houve resistências. Quem se acostuma com liberdade tem dificuldade de ficar sem ela. Profissionalmente, sempre tentei ser ético e leal, mas nunca me omiti, principalmente diante do arbítrio e da manipulação. Quer o chefe gostasse, quer não, eu dizia o que pensava. Afinal, estava vendendo a minha força de trabalho, não os meus princípios. Mas o fato é que chefe não gosta de críticas. Salvo honrosas exceções, chefe gosta de aplauso e reverência. Desta forma, nossa convivência foi ficando cada vez mais difícil. Por outro lado, achava que tinha responsabilidades demais, para um salário de menos e fui à luta. Foram dezenas de tratativas e pedidos de aumento. Só que chefe também não gosta de funcionário que pede aumento. Galguei todos os postos importantes na hierarquia, mas meu salário foi ficando para trás. No auge da crise de convivência, tentaram me sufocar cortando a hora extra a que os editores do principal telejornal da emissora tinham, como uma espécie de bônus dos áureos tempos. Mas, ainda assim, não conseguiram. Em sinal de protesto, passei a exibir longos cabelos, ao lado de um silêncio obsequioso (sem assentimento interior). Estiquei a corda até o limite máximo, mas não tive forças e sucumbi - aqui vale uma ressalva, eu era o lado mais fraco... Ainda assim, acho que ninguém é protagonista da nossa história. Nós mesmos a escrevemos. E não me arrependo de cada linha das que escrevi, nos doze anos em que trabalhei lá. Espero ter respondido à pegunta, Natália.
Há uma hora

5 doladodecá:
Obrigada pela resposta! E sobre a gestão anti-democrática da maioria dos diretores e chefes de empresas, isso é a pura verdade! Mesmo os chefes de empresas ou instituições públicas, que não podem mandar os funcionários embora,muitas vezes perseguem e criam situações constrangedoras para 'forçar' a transferência de seu desafeto...isso acontece o tempo todo, inclusive onde trabalho, uma instituição pública de ensino. Por isso, fiz questão de levar o texto do Fazendo Media sobre a perseguição aos jornalistas da Globo para discutir com os alunos, já que estávamos estudando exatamente o valor que os Iluministas davam à liberdade de expressão...O pior disso tudo é que essa mesma emissora faz reportagens execrando os presidentes(chavez) que não são considerados democráticos pq não respeitam a liberdade de expressão...
Tenho impressão que o Max Gehringer - aquele que, de 10 demitidos ou desempregados que escrevem para ele esculacha ou desanima pelo menos uns 11 - iria dizer que estava na cara que você seria demitido. Ainda mais que, se entendi direito, as eleições em 2006 serviram para escancarar quem era quem na ordem das coisas. Abraços
Prezado Marco,
Uma dúvida sobre a história da jornalista exilada na Península Ibérica. Vc disse que ela levava na barriga um filho daquele que ocuparia o mais importante cargo da República. Porém, em 1994, a criança já tinha três anos e, em 1991, quando ela nascera, o pai nem sonhava em chegar onde estaria três anos depois (veja o link http://img472.imageshack.us/img472/1849/certidaoeo2.gif). Como explicar essa aparente contradição? O meu e-mail é rodriguesvieira@gnail.com. Abs.
Mello,
as eleições de 2006 me parece que foram um marco para a Corte, correto? Uma espécie de divisor de águas?
Nunca antes na história desse país a Corte não conseguiu eleger quem ela quis.
Acho também que os ânimos doladolá -com o perdão da iranoia- se exaltaram. Perderam o controle sobre a política e resolveram chicotear alguns profissionais, talvez para liberar a raiva interior, quem sabe?
Yahel
É pessoal, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é...
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