21 setembro 2009

"Ih, o trem tá feio lá na Venezuela", gritou Beatriz Alessi, com seu bom mineirês, de Araguari. Era a experiente editora de internacional do jornal tarde da noite, desde os tempos de Lilian Witte Fibe. Com passagens pela BBC, de Londres, e pela TV Bandeirantes. Era 11 de Abril de 2002, portanto já sob a apresentação de Ana Paula Padrão. "As agências estão dizendo que Hugo Chaves abandonou o poder e que uma junta militar assumirá provisoriamente. Eles devem fazer um pronunciamento oficial a qualquer momento. Fontes do governo informam que Chaves já teria inclusive deixado o país", relatou. "Alguma coisa está errada", exclamei. "Hugo Chaves não deixaria o poder assim. Algo aconteceu e ele foi deposto. Foi um golpe militar", concluí. "Agência nenhuma diz isso", repondeu Beatriz. E fomos nós investigar. Enquanto ela corria as últimas notícias dos telejornais americanos, as 'breaking news headlines', procuravamos fontes alternativas. De fato, àquela altura ninguém dizia - ainda - que houvera um golpe. Concluí que ninguém diria mesmo. Afinal, a quem interessava a notícia de golpe? A imprensa venezuelana estava às turras com Chaves. Os americanos queriam vê-lo pelas costas. Não dava para confirmar a informação por fontes oficiais. Tínhamos que bancá-la. E de comum acordo bancamos. Naquela noite, logo na chamada da programação, o telejornal afirmava: "Golpe na Venezuela. Uma junta militar assume o poder". Só no dia seguinte é que o enviado especial Tonico Ferreira desembarcaria em Caracas. Demos a notícia em primeiríssima mão. Dois anos depois, a editora Ivone Happ e eu fomos convidados pela direção de jornalismo para falar aos estagiários sobre edição. Pedi ao arquivo que separasse o material daqueles dias e apresentei aos colegas iniciantes, como exemplo da dificuldade que temos em confirmar informações, principalmente as internacionais. Somos abastecidos por agências de notícias(Reuters, Associeted Press, BBC, Vislatin, CNN...), que por razões políticas e econômicas têm interesses em determinadas versões. Isso torna nosso trabalho muito difícil, mas é possível acertar, com uma boa dose de experiência e contextualização. Minha surpresa foi receber das mãos de um estagiário de outro grupo, dois anos depois, uma cópia do documentário: A Revolução não será televisionada. Por coincidência, no dia do golpe, havia uma televisão irlandesa no Palácio Miraflores (foto). Eles documentaram tudo! Vejam o que disse um importante editor da BBC a respeito do documentário: "Veja esse filme e você comprenderá, pela primeira vez na sua vida, o que se entende por "viés da mídia". E, depois, se tiver curiosidade, assista-o!

9 doladodecá:

alexandre disse...

O chico mineiro é macho mesmo. assumiu a bancada do JN enquanto o bonner foi pros states tentar papar um premio (de deu mal). E ontem por exemplo tratou do golpe de honduras , das boas notícias da economia e da pesquisa ibope que mostra o Lula lá em cima. tudo com absoluta correção.
comparado com o bom dia brasil de hoje, parecem planetas diferentes.Mas o bonner deve voltar hoje e junto com ele a pasmaceira Kameliana.

DoLaDoDeLá disse...

Alexandre, permita discordar. Na bancada, um apresentador interino só lê o que os editores escrevem.

Do.Exilio disse...

Nesse dia fiquei acordado a noite toda, buscando informações sobre o golpe.

Já que tantos estão na record, passei a dar uma olhada no jornal da noite da emissora.

Não escapa nenhuma midia !

Só o dignissímo presidente do Brasil, Lula, chama os golpista de golpista, a imprensa toda sem excessão chama-os de governo de facto, como chamavam os golpista naquele 11 de abaril de 2002

Do.Exilio disse...

Pequena correção:
A imprensa toda sem excessão, chama os golpista de hondurnas de governo de facto, como chamavam os golpistas venezuelanos naquele 11 de abril de 2002.

alexandre disse...

M.A., se você discorda é bem provável que tenha razão mas devo acrescentar que o chico fez uns dois tres JNs e que essa coisa de ter ou não manipulação tem muito a ver com pequenos detalhes, além do texto escrito.
agora,só fui ver o furaço da Aninha paulinha Padrãozinho no jornal da manhã. já aderi ao jornal da record mas me interessei pelo JN de ontem justamente porque tinha lido o seu post sobre o chico e a pauta política do dia tava pegando fogo.

alexandre disse...

por falar em âncora, gostaria de registrar que eu achei bem ruim a Luciana Liviero ter passado a fazer só o jornal regional. como moro em belzonte, nunca mais a vi.aposto que a audiência caiu. além do mais mudou o horário e tiraram o percival. só de ver o percival já ficava de bom humor. não sei por que a mudança mas tu trabalhas no jornal da noite e talvez nem conheça o pessoal da manhã direito. Bom,valeu.desculpe fugir do tópico mas é que eu não aguento mais o bomdia brasil. se a record batesse no mesmo horário,me libertaria desse terrível automatismo matinal.
se puder,veja o que a miriam e o alexandre garcia disseram sobre honduras.

DoLaDoDeLá disse...

Alexandre, sobre os comentaristas citados, é desperdício de tempo.

Alexandra disse...

Eu acho que há algo além da falta de jornais nas outras emissoras para impedir que o telespectador se liberte do tal automatismo. Também não é mais, como já foi, por conta da qualidade superior ou da presença maciça dos profissionais de primeiro escalão. Parece que os telespectadores ainda precisam de certa estabilidade na programação. Da previsibilidade que a Globo sempre ofereceu. Eu acho que é disso que eles não conseguem se separar. Mesmo muitos daqueles que têm consciência das questões ideológicas que estão por traz. São críticos, mas continuam se informando preferencialmente por ela.

DoLaDoDeLá disse...

A questão da grade é importante sim. Desde os tempos do poderoso Boni.

 
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