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Economista vê economia 'mais pujante' com novo PIB
Quinta, 22 de março de 2007, 15h50
Raphael Prado
Redação Terra
Calcular o Produto Interno Bruto (PIB), a soma das riquezas produzidas por um país, não é tarefa rápida. Recalcular o valor de mais de 10 anos, acrescentando setores da economia que antes ficavam de fora - não por erro de cálculo, mas por uma metodologia diferente -, também demorou.
E analisar esses novos dados, interpretar se são bons ou ruins para a economia do Brasil, vai levar, igualmente, um bom tempo. O economista Marcio Pochmann, da Unicamp, ainda está tentando compreender o que se pode deduzir desses números.
Segundo ele, não dá para dizer, por exemplo, que o crescimento do setor de serviços e a redução do peso da indústria tenha sido ruim para o país:
- É evidente que os serviços de produção e distribuição estão vinculados à produção. Se esses setores aumentam, é sinal de uma economia mais forte - afirma.
O grande foco que muda o debate sobre as questões econômicas do país, para o professor da Unicamp, é que agora não é mais tão justa a análise de que o Brasil cresce pouco.
- A emergência do debate que estava colocado muda. "É uma economia que cresce pouco." Já não é verdade, não está crescendo tão pouco assim.
Leia os principais trechos da entrevista:
Qual a análise inicial que o senhor já pôde fazer do novo PIB?Marcio Pochmann - O movimento que o IBGE fez, no meu modo de ver, no que diz respeito à compreensão técnica do PIB, é positivo. Incorpora certos setores que até então vinham sendo tratados de maneira não tão ampla como a nova metodologia permite. Eu acho que é um avanço nesse sentido. Por exemplo, em 2005, pelos dados, o Brasil incorporou o PIB equivalente ao de Portugal, aumentou praticamente em torno de US$ 100 bilhões na nova série em relação à antiga. Então é claro que esta nova modalidade, ao identificar isso, significou a ampliação na estrutura produtiva do País. Se você olhar para 2005, perde importância a financeirização da economia e, ao mesmo tempo, mostra uma economia com menor investimento do que aquela medida anteriormente. É um pouco estranho, digamos, perceber que a economia de 2005, em relação a 2002, teria uma tendência de menor presença das empresas financeiras na composição do PIB.
Estranho por quê?Estranho porque, na verdade, o Brasil tem convivido com as taxas de juros mais expressivas do mundo... você tem, hoje, na decisão das empresas, a chamada preferência pela liquidez, e os dados do IBGE mostrariam o sentido inverso. Então, é estranho isso.
Mas a nova metodologia, em termos técnicos, é válida?Ela é positiva porque incorpora setores que anteriormente não tinham peso destacado. Basicamente, o setor de serviços, telecomunicações, a parte mais moderna da economia. Que, por outro lado, é de difícil medição. Uma coisa é a formação da metodologia, os dados que expressam. Outra coisa é a interpretação disso.
E como se pode interpretar?Mostra uma economia mais pujante.
O aumento da participação do setor de serviços é bom para o país?Me parece que é inexorável, a nova fase da economia é uma fase pós-industrial, uma ênfase do setor terciário. Mas o setor terciário é muito heterogêneo, ele tem desde o vigor da nova economia, da indústria de tecnologia de informação, até a reprodução do velho - da ilegalidade, da prostituição, essas coisas todas. Então, você só está incorporando o que é o positivo, o moderno. Não está incorporando, e nem é o caso de incorporar, o velho. E a minha dúvida é se, de fato, a estrutura produtiva tem avançado nesse movimento. Quando nós vamos olhar, basicamente, o sentido dessa mudança, dá uma indicação de que a economia brasileira em 2005 seria muito mais produtiva do que em 2002. Teria diminuído a coisa financeira e, ao mesmo tempo, o Brasil teria tido uma mudança na sua distribuição funcional da renda. A metodologia antiga mostrava uma participação enorme da renda do trabalho, e agora está mostrando que é mais alta. Em 2000, o rendimento do trabalho já estava em 37,9% da renda nacional. Pela metodologia nova vai para 40,5%. Em 2003, a participação do trabalho na renda nacional na velha era 35,6%. Na nova, 39,5%. Então é uma coisa para interpretar melhor.
E em relação à carga tributária, que em percentual, diminuiu?Por força desse novo PIB a carga tributária cai. O sentido é diferente da expectativa do debate. A expectativa é a de que as pessoas estão pagando mais imposto e que o tributo cresce mais do que a variação do PIB. Agora é o contrário, as pessoas estão pagando relativamente menos. Em 2002, a série antiga mostrava a carga tributária de 34,9%. Pela série nova, está em 32,3%. Não estou duvidando dos números, só estou tentando interpretar o que os números indicam. E há evidências muito distintas daquelas que foram constituídas pela opinião pública.
E sobre o que vai decorrer da interpretação desses números? O senhor acha que deve ocorrer alguma mudança na política econômica do governo por conta dessa divulgação?A emergência do debate que estava colocado muda. "É uma economia que cresce pouco." Já não é verdade, não está crescendo tão pouco assim.
Mas ainda é pouco, se compararmos com outros países latino-americanos...Mas já não é o menor do mundo. Além disso, não é uma economia que está engessada porque o Estado está crescendo, a carga tributária está aumentando, não é isso. Não é verdade que haja o aumento da financeirização que está contaminando a economia produtiva.
Mas houve crescimento do setor de serviços...A literatura que trata da questão do setor terciário diferencia o serviço em quatro níveis: os serviços de produção, de distribuição, pessoais e sociais. Evidente que os serviços de produção e distribuição estão vinculados à produção. Se esses setores aumentam, é sinal de uma economia mais forte.
Terra Magazine